         
        
   Zlia Gattai
   
   
  A Casa do 
  Rio Vermelho
  
        6. Edio
        
        
        
        
        
        
        2000
       Obras da autora
        
         Anarquistas graas a Deus
         Cho de meninos
         Crnica de uma namorada
         Um chapu para viagem
         Jardim de inverno 
         Pipistrelo das mil cores
         O segredo da rua 18
         Senhora dona do baile
         Citt di Roma
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
http://groups.google.com/group/digitalsource



        
         CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
         Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
         _____________________________________________________________________
         Gattai, Zlia, 1916-
         G235c            A casa do Rio Vermelho /Zlia Gattai.  6. ed.
         6. ed.       - Rio de Janeiro: Record, 2000.
            
         ISBN 85-01-05539-5
            
         I. Gattai, Zlia, 1916- - Biografia. 2. Amado, 
         Jorge, 1912- .-Biografia. 3. Escritores brasileiros 
         - Casas e residncias. I. Ttulo.
                                                                              CDD - 928.699
         99-0556                                                        CDU-92(GATTAI,Z.)
         _____________________________________________________________________
         
         Copyright  1999 by Zlia Gattai Amado
         
         Ilustrao de capa: Floriano Teixeira
         
         Capa: Pedro Costa
         
         Direitos exclusivos desta edio reservados pela
          DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 -Rio de Janeiro, RJ-20921-380-Tel.: 585-2000
         
         Impresso no Brasil ISBN 85-01-05539-5
         PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
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      Abas do Livro
        
        Aps trinta anos de vida em comum, de amigao  gosto demais da palavra amigao, usada para nomear o que o cdigo de famlia denomina concubinato, tenho averso  palavra concubinato, m e feia, ; filha do preconceito e da discriminao , Zlia requer, no uso da lei, o direito de usar meu sobrenome, assinar-se Amado. Na Bahia perde a causa, o juiz encagaou-se, ignomnia; em So Paulo ela a ganha, junta Amado a seu nome de solteira.    
                          
        No tarda, Nelson Carneiro vence a guerra do divrcio, eu e Zlia nos casamos. Trs anos depois, dona Zlia sai de srio, escreve e publica um livro, Anarquistas, graas a Deus, em cujas pginas narra sua infncia de filha de imigrantes, italianos anarquistas e catlicos, no quadro de uma  So Paulo afarista onde nasciam o capitalismo com os Matarazzos e os Crespi e o movimento operrio na sede das Classes Laboriosas e de outros grmios culturais e reivindicativos. O livro fez sucesso, ainda o faz, repetem-se as edies,  traduzido, virou srie de televiso na transposio (magnfica) de Walter Avancini. Dona Zlia tomou gosto, anda pelo quinto volume de memrias sem falar nas histrias para crianas. No querendo usar muletas na caminhada literria, assinou seus livros com o nome de solteira, voltou a ser Zlia Gattai, renome nacional, por pouco tempo lhe servi de arrimo.
        
        Para mim, nem Amado nem Gattai, apenas Zlia, quando no Zezinha.
        JORGE AMADO
        em Navegao de Cabotagem, 1992
         
         
         
         
         
         
         
         
        Para Jorge, que me
        ensinou a amar a Bahia
        
      O CARA DE SAPO
       
        De repente dou-me conta de que a paixo de Jorge por sapos  antiga, vem de longe. Somente agora chego a essa concluso ao recordar a compra do automvel que nos levaria do Rio de Janeiro  Bahia.
        O anncio do jornal dizia: Particular vende carro confortvel, quase novo, preo de ocasio.
        No custava dar uma espiada. Prximo  nossa casa, em Copacabana mesmo, na garagem de um edifcio da rua Tonelero, fomos encontrar o tal carro confortvel, quase novo. Tratava-se de um Citroen ID19, preto, enorme.
           um cara de sapo!  entusiasmou-se Jorge.  Repare, os faris parecem dois olhos arregalados.
        No havia dvida, o carro tinha a aparncia de um batrquio negro, enorme, escarrapachado. Reparando bem, vi que ele no era to quase novo quanto fora anunciado. Estava  no havia dvida  lustroso, preparado para entusiasmar o fregus. O vendedor, jovem simptico, bem-falante, ao reconhecer o possvel comprador, entusiasmou-se:
          Se acomode, seu Jorge  disse indicando o assento diante do volante , veja como ele  macio; ligue o motor, acelere, e... no se assuste, ele vai subir.  carro de suspenso a leo!  explicou de boca cheia, entusiasmo de quem faz uma grande revelao.
        Perdia seu tempo, pois de suspenso e motor de automvel o comprador no entendia absolutamente nada. Exatamente como eu previra, Jorge no se impressionou com a novidade nem mesmo fingiu admirar-se, fez apenas um sinal negativo com a mo:
          Ligar o carro? Eu? Deus me livre! Nunca dirigi automvel em minha vida. Quem guia  ela.  Assim dizendo, apontou-me a porta j aberta:  Vamos, Zlia, suba.
        Eu tambm no sabia o que significava suspenso a leo, qual a sua funo, a vantagem de um automvel com tal incrementao.
        Passei minha infncia e adolescncia entre operrios na oficina mecnica de meu pai, ouvindo conversas sobre consertos de motores de automveis; decorei at nomes de peas: crter, pisto, anis de pisto, platinado, caixa de marcha, embreagem, vela, vela suja, vela limpa, carburador, virabrequim... meu pai dizia "girabrequim", creio que em italiano. Esses nomes me eram familiares, porm nunca ouvira falar em suspenso a leo, certamente coisa moderna. Perguntei:
          O que significa suspenso a leo? Solcito, o rapaz tratou de explicar:
          A senhora no sabe? Pois olhe. Est vendo o crter?
          O crter?
        O jovem resolveu ficar de ccoras e apontou com o dedo.
          Isso mesmo. Ali est o crter. Aquela caixa de ferro est cheia do LHM  o rapaz falava com um certo orgulho do tal LHM , comporta uns vinte litros desse leo finssimo que alimenta a suspenso. Isso  coisa nova. S carros desta marca tm essa vantagem. Assim mesmo, apenas os do ltimo modelo.
        Eu nunca ouvira falar no famoso leo LHM. Mas ele o mencionara com tamanho entusiasmo que eu nem me atrevi a dar parte de ignorante, confessar o meu desconhecimento. Restringi-me a perguntar:
          Vinte litros? Tudo isso? O senhor sabe, pretendemos ir  Bahia de carro, mil e tantos quilmetros de estrada. E se o tal LHM acabar no meio do caminho? Onde  que vamos consegui-lo?
        Jorge estava doido pra ver o carro em movimento e eu ali perguntando sem parar. Pacincia esgotada, ele respondeu pelo rapaz:
          Ora, minha filha, qual  o problema? Tanto posto de gasolina pela estrada... Em qualquer lugar a gente encontra leo. Suba, vamos, no perca mais tempo. Fica a perguntando bobagens...  foi dizendo e se acomodando. Resmungara em voz baixa, mas alto o suficiente para que eu o ouvisse. No gostei.
          A gente tem que saber tudo, ora!  retruquei enquanto subia.
        Virei a chave, o motor respondeu, acelerei, a carroceria comeou a elevar-se, foi subindo, subindo, ficamos l no alto.
        Jorge e eu estvamos to ou mais entusiasmados que o jovem vendedor.
          Esto vendo que beleza?  dizia ele.  Sabem qual  a vantagem desse sistema? O carro nessa altura deixa espao para que o motor no bata em pedras ao passar por estradas esburacadas, podendo at enfrentar lamaais sem correr o risco de ficar atolado.
        Jorge estava encantado, e eu vi logo que nada neste mundo o  faria desistir do negcio mas, mesmo assim, voltei  carga;
         E o LHM pode ser encontrado em qualquer posto de gasolina?
         Bem, em qualquer posto, no.  O rapaz at que era honesto.  Esse leo, pela sua finura,  comparvel ao leo de rcino, e o leo de rcino o substitu perfeitamente. A senhora pode compr-lo, em caso de emergncia, em qualquer farmcia.
          O senhor est falando srio? leo de rcino, o purgante?
          Esse mesmo.  muito fino e bom, pode ser usado sem susto.
        Olhei para Jorge que ria divertido. , no havia jeito. Ele estava apaixonado pelo Sapo, no adiantava fazer mais perguntas, samos de l de negcio fechado.
        
        
      DECISO TOMADA
        
        Decidimos nos mudar para a Bahia quando Joo Jorge completou treze anos. Nosso filho tornava-se um homenzinho, Paloma tambm crescia e o ambiente no Rio de Janeiro, sobretudo em Copacabana, nos assustava. Queramos que nossos filhos vivessem em cidade mais tranqila, livres das tentaes das drogas que andavam na berlinda, da maconha ameaando os escolares, oferecida  sada das aulas.
        Salvador era, na poca, uma cidade pacata, no chegava a quinhentos mil habitantes. L os meninos poderiam andar soltos, ns poderamos dormir tranqilos.
        Tirar as crianas do Rio de Janeiro era assunto decidido, assunto prioritrio. Existia, no entanto, ainda um motivo para essa mudana radical de vida: havia muito que Jorge sonhava voltar a viver em Salvador, comprar uma casa na Bahia.
        Atendendo ao desejo do pai, aos dezoito anos ele partira para o Rio de Janeiro com o propsito de s voltar com o canudo de bacharel em Direito embaixo do brao. O coronel Joo Amado desejava, como era comum entre os fazendeiros da poca, ter um filho advogado, um filho doutor, sobretudo o primognito. Jorge no iria desapontar o pai. Atendeu, pois, ao seu pedido e em 1930 viajou para o Rio: no apenas faria a vontade do velho como iria lutar para realizar um sonho que alimentava desde menino: escrever um romance. Sonhava com isso desde os tempos de colgio, quando, certa vez, na sala de aula, um professor de portugus, padre Cabral, ao ler o trabalho de um aluno, na classe, previra a vocao do discpulo: ... o autor desta redao ser um dia um grande escritor, profetizara. O autor da composio que impressionara de tal forma o professor, outro no era seno o menino Jorge Amado, o mais vivo e traquinas da classe.
        Aos quatorze anos, Jorge Amado j colaborava em revistas e jornais e sonhava: quem sabe um dia no chegarei a escrever um romance? A oportunidade chegara, talvez numa grande capital ele teria novos conhecimentos, mais chances de realizar seu desejo.
        
        
      A VOLTA
                                       
        Muitos anos haviam se passado desde os tempos de estudante do rapazinho Jorge Amado. Ele cumprira sua tarefa, fizera a vontade do pai: bacharel formado, um retrato de toga e capelo, l estava, pendurado na parede da sala do Coronel. Escrevera no apenas um livro mas muitos livros; fizera viagens de no acabar. Deputado comunista, fora perseguido, sofrer prises e anos de exlio. Chegara, pois, a hora de voltar definitivamente para a Bahia, sua terra, sua fonte de inspirao. Nesses anos todos de ausncia, no entanto, ele no deixou de voltar, sempre que pde, a Salvador e tambm a Ilhus, cidade de sua infncia.
        
        
      DINHEIRO DO IMPERIALISMO AMERICANO
        
        Jorge vendera  Metro Goldwin Mayer os direitos autorais de seu romance Gabriela, cravo e canela. No recebera o dinheiro que se poderia imaginar, mas lhe pagaram o suficiente para adquirir uma casa na Bahia. Comprarei essa casa com o dinheiro do imperialismo americano, dizia rindo.
        
        
      AMIGOS PERNAMBUCANOS
      
        Morvamos, havia anos, num apartamento dplex, adquirido pelos pais de Jorge. Costumvamos passar as frias dos meninos em Recife, hspedes de amigos muito queridos. Conhecramos Las e Rui Antunes dos tempos em que ambos terminavam o curso de Direito, Rui, lder do movimento estudantil de esquerda. Grande jurista, ele tornara-se professor da Faculdade de Direito de Recife; Las no advogava, contentava-se em ser a me zelosa de vrios filhos, crianas que, nas frias, enturmavam com Joo e Paloma. A casa dos Antunes, na cidade, era enorme, rodeada de pomar com mangueiras de toda espcie. Possuam tambm uma granja nas aforas da cidade que, alm do coqueiral, era plantada de pitangueiras, jambo do Par, goiabeiras, pitomba, graviola, frutas para todos os gostos.
        Verdadeira alforria para Joo Jorge e Paloma, eram as frias e a viagem de avio para Pernambuco, a cada fim de ano, que os libertavam da priso de um apartamento em Copacabana e das recomendaes a azucrinarem-lhes os ouvidos a cada vez que saam  rua.
        Alm de Rui e Las, tnhamos em Recife um outro casal de amigos ntimos: Dris e Paulo Loureiro, donos de um laboratrio de anlises. Juntando as duas filhas do casal, Cludia e Paula, e os de Rui e Las: Julita, Henrique, Aninha, Iracema e Ricardo aos nossos meninos, a festa era uma s: brincavam, brigavam, pintavam o bode.
        
        
      MARIA FARINHA
      
        A casa dos Loureiro na cidade no era grande: em compensao, a que possuam em Maria Farinha era enorme, rstica, na praia quase deserta, mar de peixes e lagostas garantindo soberbas pescarias e deliciosas peixadas. No precisvamos ir longe para trazer peixe. Da praia, ali mesmo, defronte  casa, era s atirar o anzol e recolher em seguida o peixe se debatendo. Fiz at a proeza, certa manh, de pescar, com anzol de trs ganchos, trs peixes de uma s vez, deixando uns estrangeiros que passavam por acaso de queixo cado.
        
        
        
      CONVERSAS DE SOTAQUE
      
        Jorge no aderia s pescarias, nem s grandes caminhadas. Seu divertimento era outro: preferia descansar, deitado na rede do terrao, ouvindo histrias dos empregados da casa e de pescadores que apareciam por l na hora da preguia. Lembro-me bem de trs pescadores assduos no bate-papo, os trs de nome Amaro: um deles, o Amaro Amarelo  palidez igual nunca se viu , aparecia nas estadas da famlia Loureiro em Maria Farinha. Era um operado, ttulo que justificava a preguia para o resto da vida e, alm do mais, um aposentado do istitute  como se referia ao Instituto de Aposentadorias. Funcionava de quebra galho da casa, sem nenhuma funo definida,  disposio de quem dele precisasse para qualquer servio leve. Os outros dois Amaro no faziam nada, nem servios leves, nem pesados, pois tambm, como Amaro Amarelo, eram aposentados do istitute e operados. Tranqilos, os pais da indolncia, cansavam-se s de ver os outros trabalhar. Gostavam de um papo macio com o baiano, amigo de doutor Paulo, que ria com as histrias que eles lhe contavam. Conversa sem compromisso que parecia no levar a nada inspirava o romancista.
        Aos sbados e domingos chegavam os amigos da cidade: Marcos, Benaia, Carlos Pena Filho, Paulo Cavalcanti, Pelpidas Silveira e outros. Os carros chegavam lotados, cada qual com sua famlia, esposa e filhos. Inda bem que a casa era espaosa, vrios dormitrios e redes nos terraos acomodavam todo mundo. Os homens faziam ruidosas rodadas de pquer, as mulheres jogavam canastra, as crianas se espalhavam. Fins de semanas animadssimos com jogos e conversas de varar a noite. Das histrias ouvidas nesses encontros com os amigos pernambucanos e dos momentos de lazer e preguia na hora da modorra, foi que nasceu a inspirao para Quincas Berro Dgua.
         
         
        
      O PEIXE DE MEUS SONHOS
        
        Paulo inventava, de vez em quando, sair num barco a motor, em busca de peixes grandes. Levvamos os meninos maiores e Amaro Amarelo, o Lobo dos Mares, como o nomeara o gozador Paulo Loureiro. Compenetrado, Amaro, achando que orientava sem orientar coisa alguma, brao direito  frente, estirado, movimentando-o de um lado para outro, no apontando direo nenhuma, fazendo de conta que indicava o rumo que evitaria as pedras embaixo da gua. No fosse Paulo conhecedor do pedao, teramos batido, naufragado com o sbio conhecimento de Amaro. A presena dele servia apenas para nos divertir e colaborar na hora de baixar e levantar a ncora. Um dia ele at foi til: movido pelo entusiasmo, esqueceu que era um operado e ajudou-nos a tirar da gua e colocar no barco uma arraia enorme, o maior peixe que pesquei em toda a minha vida. No vou mentir, todos colaboraram: ao ver aquele peixe imenso se debatendo, lutando para livrar-se do anzol, Paulo tomou a frente e mesmo Joo Jorge me ajudou at conseguirmos tirar o bicho da gua.
        Antes disso, Amaro j participara, dando palpites, de outro episdio emocionante numa de nossas sadas de barco. Estava eu, muito na minha, tranqila, esperando pescar o peixe de minha vida quando senti que mordiam minha isca.  ele, disse em voz baixa para no assustar o peixe e fui puxando a linha, estirada, pesada... o danado resistindo. Paulo largou sua vara, tentava me ajudar, e eu, orgulhosa, no deixando, querendo ter a glria de pescar sozinha o peixe que ali estava ao alcance de minhas mos... depois de um bom tempo nessa peleja, eu insistindo, suando, j quase sem foras, aconteceu o que eu no queria que acontecesse. No gosto nem de lembrar, muito menos de contar, mas a verdade  que, numa das arrancadas, a linha se partiu e a vara ficou leve em minhas mos, um pedao de fio balanando no espao. Paulo ficou possesso. Ouvi todos os desaforos que um pescador enfurecido pode atirar sobre um parceiro incompetente que deixa o peixe escapar por puro orgulho e vaidade. Se eu tivesse permitido a ajuda dele, nada disso teria acontecido. Amaro, com sua sabedoria infinita, chegou a afirmar que a garoupa fujona  ele vira at a marca do peixe  tinha pra mais de um metro.
        Ainda desconsolados, demos por terminada a pescaria, nem tinha graa continuar. Ao puxarmos a corda para recolher a ncora foi aquela surpresa: minha garoupa pra mais de metro, reluzente, outra no era seno a ncora que eu tentara levantar, gastando todas as foras. O anzol estava ali, de testemunha, preso na corda que sustinha o pesado ferro.
        
        
      A ARRAIA NOVAMENTE              
        
        No contei, nem posso deixar de contar o final da pesca da arraia, coisa que nunca pude esquecer, nem eu nem ningum que se encontrava na casa de Maria Farinha naquela manh, principalmente Jorge que at hoje fala no assunto. Ao saber que eu pescara uma arraia enorme, Jorge deixou a preguia na rede, foi at a praia para esperar a nossa chegada, aplaudir a gloriosa pescadora.
        A arraia podia pesar uns dez quilos e Paulo resolveu carreg-la sozinho. De um s golpe, atirou-a nas costas e, sustendo-a pelo rabo, foi andando, j que Amaro fizera corpo mole. Quando lembrava que fora operado de apendicite em criana, Amaro se recolhia. No havia fora humana que o fizesse levantar pesos acima de cinco quilos e, a seu ver, aquela arraia devia pesar pra mais de vinte. E com essa, a duras penas, Paulo chegou at nossa casa trazendo o fardo, exausto, porm satisfeito.
        Avisados do acontecido, todo mundo foi nos esperar no porto. Reclamando do peso que carregara e da comicho que sentira nas costas o tempo todo, ainda de um s golpe, Paulo atirou a arraia de costas sobre a areia: do ventre branco do peixe saa uma espcie de pnis, enorme, vermelho, ainda com vida, latejando. Comicho, seu Paulo?, perguntou-lhe Jorge, a perder o flego de tanto rir. A histria da arraia macho foi motivo de galhofa para o resto das frias; Jorge espalhou entre os amigos que Paulo era um fenmeno, o nico homem no mundo a ter excitado sexualmente um peixe.
        
        
        
      PLANOS
        
        Quando comprssemos a casa na Bahia nossas frias iam ser diferentes: j no precisaramos viajar para ter um grande pomar, jardim com flores e, quem sabe,  nossa disposio, l estaria o marzo da Bahia, repleto de peixes, peixes para nossos anzis, peixes fresquinhos para nossas panelas. Iramos ter a alegria de hospedar os Antunes e os Loureiro em nossa casa, retribuiramos o carinho.
        
        
        
      LALU NO ACHA GRAA
      
        Ao saberem de nossa inteno de mudana, os velhos no gostaram, o coronel Joo Amado calou-se, Lalu se afligiu. No querendo discutir com o filho, ela tentava me tomar de aliada:
          Menina, vocs esto ficando malucos? Deixar uma cidade linda como o Rio de Janeiro, com praias e jardins, para irem se meter naqueles matos?  Passava da voz de comando para a mansido:  Fia, v se tu d uns conselhos pra Jorge. Diga pra ele que o lugar de vocs  na cidade, no  no mato. Se tu no quer ir ele no vai. E s dizer que tu no quer ir e pronto.
        Em realidade, a mudana do Rio para a Bahia representava para mim uma certa cota de sacrifcio, sacrifcio esse que valia a pena em se tratando da segurana de meus filhos, da realizao de um sonho de Jorge. J estivera vrias vezes na Bahia e me sentira uma espcie de corpo estranho, uma intrusa. Jorge, rodeado de amigos a recordar fatos passados, namoros e amores antigos, todo mundo se divertindo, rindo e eu ouvindo calada.
        To calada ficava que aconteceu, certa manh de domingo, numa de nossas estadas em Salvador, escutar o que no queria. Acompanhamos Caryb e Jenner, antes do almoo,  casa de uns amigos deles, no Campo Grande, pessoas que mal conhecamos. Como de hbito, nesses encontros domingueiros, a animao era grande, exaltao que ia crescendo  medida que as caipirinhas e as batidas produziam efeito.
          De que fruta  esta?  perguntei ao saborear uma deliciosa batida de mangaba.
          Voc no sabe?  admirou-se algum.  Voc no conhece mangaba?
          Mangaba  manga?  perguntei inocente.
          No  manga, no  riu a dona da casa.  Manga no tem nada a ver com a mangaba, mangaba  uma fruta pequena...  explicou, gentil, a senhora.
         Como  que ela pode saber?  interveio uma outra.  Zlia  paulista. Em So Paulo no h frutas como as nossas... L  s pra e ma, uva, banana...
        Nem respondi. Podia enumerar todas as frutas de So Paulo, variadas e maravilhosas, mas preferi no dar bola. Calei-me.
        A conversa e as gargalhadas corriam soltas quando, de sbito, um cidado cujo nome no lembro (possuo a qualidade  ou ser defeito? de esquecer por completo o nome de quem me ofende, me agride), de p em minha frente, apontou-me com o indicador: Essa a at parece minha me: pamonha e besta. Dessa vez ningum achou graa, Lusa, mulher de Jenner, artista vindo de Sergipe, alis, os dois so sergipanos, reclamou, os outros tambm reclamaram. Eu fiquei ainda mais calada e mais besta.
        Felizmente, nessas idas e vindas  Bahia, eu conquistara algumas amigas: Norma, mulher de Mirabeau Sampaio (colega de Jorge dos tempos de colgio interno); Nancy, mulher de Caryb, Lusa de Jenner, Nair, mulher de Genaro de Carvalho, o tapeceiro inigualvel da Bahia, Lcia, mulher de Mrio Cravo, escultor do ferro e da pedra. Todas se tornaram minhas amigas, todas dispostas a me ajudar nessa mudana. J no estaria sozinha fazendo papel de "pamonha e besta" e, ainda por cima, paulista.
        Mesmo sabendo que na poca a vida da dona de casa na Bahia no era fcil, tratei de avivar meu otimismo, passei a pensar somente nas vantagens que iramos ter com a mudana. Assim enfrentava com bom humor a presso de Lalu, que no se conformava de nos ver partir, depois de dez anos de convivncia.
        
        
        
      LALU VOLTA  CARGA
      
          E quem vai cuidar da casa, aqui?  perguntava Lalu.
          A senhora vai cuidar da casa por pouco tempo, dona Eullia. A senhora e seu Joo vo morar conosco na Bahia. No vai demorar. No encontramos ainda uma boa casa mas vamos achar. Antes do fim do ano esperamos estar de mudana.
          Tu quer que eu fique aqui, trabalhando? J trabalhei muito na vida, pra mim chegou...
        Tive vontade de rir mas me contive:
          E verdade  disse , a senhora j trabalhou muito, no deve trabalhar mais. Por isso queremos que venham viver conosco na Bahia. A senhora devia aconselhar seu Joo a ir embora com a gente.
          Eta sujeitinha pedante! Aconselhar o qu? Ora veja s! Ento tu no sabe que quem no quer ir sou eu? Joo no diz nada, s quer ficar junto do filho seja l onde for... Tu  que deve aconselhar Jorge. Tu s vai se tu for besta...  s dizer que no quer ir que ele no vai.  verdade ou no ?
          Mas eu quero ir, dona Eullia. Salvador  uma cidade bonita, tranqila, vai ser bom para os meninos.
          Bom para os meninos? T... Que bom, o qu! Bom coisa nenhuma! Teus filhos vo virar dois tabarus. Tu pensa que l tem as facilidades daqui? Tu pensa que l tem recepes nas embaixadas? Vai ver que nem embaixadas tem por l. Tu pensa que l  como aqui, todo mundo convidando pra festas?... V atrs disso! V atrs!
          L no tem embaixadores mas tem amigos, dona Eullia. Na Bahia esto os colegas de Jorge dos tempos do colgio interno: Mirabeau e Giovanni Guimares; esto tambm esperando, Caryb, Mrio Cravo, Carlos Bastos, Jenner, todos ansiosos.  Citei esses nomes, esperando impression-la. Mas qual!
         Ora veja! No  por falta de amigos que vocs vo embora; a casa aqui vive sempre cheia.  verdade ou no ? Tu no acha que seu Portella, seu Jos Conde, seu Joo Conde, seu Mauritnio, dona Eneida, seu Jos Mauro, a Misette, dona Glorinha, seu Giges (era assim que ela chamava o poeta Sosgenes Costa), dona Gervance (referia-se  Giovanna Bonino), seu Waldemar e dona Gerusa ento eles no vo ficar tristes aqui sem vocs?  Ela mesma respondia:  Ora se vo!
        No adiantava discutir com Lalu, ela ganhava sempre. Carregava um trauma dos tempos da juventude. Irm de desbravadores de mata, mulher de outro desbravador, vivera no serto e em fazendas de cacau, rodeada de jagunos, vendo irmos e marido serem atingidos por tiros de carabina, o irmo mais velho perdendo uma vista, o marido com as costas cravejadas de chumbo... dormia com uma repetio carregada ao lado do travesseiro para se defender, por via das dvidas. Muitssimos anos haviam decorrido desde esse tempo, mas ela no esquecera, no queria saber de histria: Salvador, Ilhus, Itabuna, Pirangi ou Ferradas, era tudo a mesma coisa, o fim do mundo. Sem nenhuma cerimnia, o que ela dizia mesmo era: o eu do mundo.
        Jorge no perdia a esperana de convencer os pais a nos acompanhar. Havamos de encontrar uma casa, confortvel, com jardim e pomar, onde eles pudessem viver tranqilos. Mas isso seria resolvido depois de comprarmos a casa.
        
        
        
      A PRIMEIRA TENTATIVA
        
        Nesse incio de dezembro de 1960, logo que os meninos entraram em frias, os mandamos para Recife, onde nos aguardariam na casa de nossos amigos. Tudo fora muito bem planejado: iramos de carro at Salvador, compraramos a casa, o carro ficaria nela nos esperando, de avio iramos a Recife, passaramos as festas de Natal e Ano-Novo l, como de hbito. Apanharamos Joo e Paloma e da Bahia voltaramos todos juntos, de automvel. Coisa mais simples e tranqila, impossvel.
        Os velhos tomaram o mstico, nome dado pelo Coronel e repetido nas risadas ao referir-se ao avio misto  carga e passageiros , mais barato do que o de vo normal, com direito a lanche e tudo. Por muito favor, Lalu acompanhava o marido a Pirangi, onde possuam uma fazenda de cacau. Todos os anos, em dezembro, l se iam os dois de avio at Pontal e de l, numa lancha velha, desconfortvel, de apelido Gasolina, iam para Ilhus, de onde seguiam de automvel at Pirangi. poca de colheita e de acerto de contas, o velho no deixava de estar presente para o devido controle. Apenas chegavam a Pirangi, ele montava a gua j atrelada,  sua espera, e se tocava para a roa enquanto Lalu permanecia na cidade, hspede das sobrinhas, tratada nas palmas das mos, tiazinha pra c, tiazinha pra l.
         
         
        
      A LONGA VIAGEM
        
        No mstico, seguiram os velhos para Ilhus, enquanto Jorge e eu partimos no Cara de Sapo, como j se sabe. O apartamento da Rodolfo Dantas ficou sob os cuidados de Milu, Emlia Jacob David, amiga dos velhos, sergipana de Estncia. Moa velha, mulher alta e sacudida, uma fora da natureza, Milu no tinha famlia, quer dizer, no vou mentir, sobrara-lhe um irmo de quem ela no tinha notcias havia uns trinta anos. Milu vivia ora na casa de um, ora na casa de outro, sem endereo certo. A chegada de Milu em casa com sua loucura e sua animao era um alvoroo. Amiga leal, podamos deixar tudo em suas mos, sem susto.
        
        Peo licena para contar apenas uma historinha sobre o carter, a retido e a maluquice de Milu.
        O coronel Joo Amado possua um relgio de estimao, um cuco, presente dado pelo filho Jorge, que o ganhara de um amigo, o mdico mineiro Belini Burza, relgio recebido de um cliente. O cuco em sua casinha de madeira, pendurado na parede da sala de jantar, era a grande distrao do velho. Relgio bom, gabava ele. No atrasava nem adiantava, as horas sempre conferidas com o cebolo de ouro, de algibeira, preso a uma corrente tambm de ouro, um American Swatch Company que o Coronel chamava de meu Patek Philippe, Afinado, o cuco cantava em horas certas. Saa por uma portinhola e soltava a voz. Enquanto isso, os pesados pndulos de ferro, em formato de pinha rematando duas correntes, se movimentavam, ora um, ora outro. Enquanto um descia, o outro subia. Acontece que, encostada na mesma parede que o cuco, bem embaixo dele, havia uma pequena mesa, um consolo, cuja altura impedia a corrente do relgio de seguir seu curso normalmente, ir at o fim. Era preciso estar sempre atento, afastar a mesa no momento exato, para que a pinha no tombasse sobre ela, o que faria o relgio parar. Isso acontecera uma vez e dera um trabalho danado ao velho faz-lo voltar s boas. Sempre de olho, seu Joo controlava e manobrava, puxava rapidamente a mesa antes que acontecesse o estrago.
        Obedecendo s recomendaes a respeito do cuco, Milu seguia  risca as instrues: afastava o consolo na hora certa. Acontece que numa certa manh de sbado, ao sair s compras, ela esbarrou de repente com o irmo, o irmo que no via h sculos. Ficou sabendo que ele morava no subrbio do Encantado, passara por acaso em Copacabana. Do encontro resultou um convite: Milu iria almoar com a famlia no dia seguinte, conheceria a cunhada e os sobrinhos, relembrariam o passado, matariam saudades.
        
        De Copacabana ao Encantado faziam-se necessrias duas ou trs baldeaes, no sei quantas exatamente, uma verdadeira viagem em nibus paradores. Precavida, Milu saiu cedo de casa, comprou na padaria uns doces para os sobrinhos e se tocou.
        A viagem parecia no ter fim, contou Milu, tempos depois, ao narrar sua aventura, o nibus parando em todos os pontos, recebendo passageiros, despejando outros... Comecei a me preocupar, o tempo ia passando e nada de chegar... desse jeito no ia dar tempo de estar de volta em Copacabana na hora de puxar a mesa. Do ponto final do nibus at a casa de meu irmo ainda tinha uma boa caminhada. Fui ficando nervosa, agoniada, agoniada... Cheguei no porto da casa do mano, toda esbaforida, suada. Ele veio me receber, os meninos e a cunhada atrs, eu nem vi a cara de ningum, entreguei a bandeja de doces, o papel todo amarrotado, fui me despedindo, me desculpem, fica para outra vez, tenho que voltar antes que a pinha da corrente encoste na mesa. Diante do espanto da famlia que no entendeu nada, ou que na certa pensou estar a pobre maluca, ela se foi rapidamente para o ponto do nibus. Quando abri a porta do apartamento, ouvi o canto do cuco, o ltimo antes dele soltar a corrente de vez. Ufa! Foi Deus quem me ajudou!
        
        
        
      OTIMISMO
        
        Vivo me gabando de ser otimista. Alis no me gabo propriamente, no  esse bem o termo pois no considero ser o otimismo uma virtude, cada qual  como , uns nascem otimistas, outros pessimistas. Acho apenas que tive sorte de ter nascido otimista, no me apoquento com pouca coisa, no sofro por antecipao, acho sempre  mesmo que o cu ameace desabar sobre minha cabea  que posso dar uma guinada e seguir em frente, acreditando em dias melhores.
        
        Viajei para a Bahia, como de hbito, com esse esprito, cheia de otimismo, certa de que encontraria  nossa espera dzias de casas, as mais belas, para comprar. Pura iluso. Quem tinha uma boa casa no queria vend-la.
        
        
        
      O SAPO BRILHA
        
        No precisei recorrer ao leo de rcino para alimentar meu carro na estrada. Nossa viagem  Bahia foi perfeita, at divertida. O Sapo no reclamou, obedeceu sempre que desejei ultrapassar um carro  alis, quem sempre deseja ultrapassar os carros  Jorge, reclama quando me deixo ficar para trs: Ora, minha filha! Voc parece que gosta de comer poeira, todo mundo passa em tua frente!... Foram dois dias de cansao, de tenso, mas no poderia me queixar; o ID19 nos proporcionou momentos muito engraados. Em todas as paradas ele causava sensao. Naquela poca, os carros desse tipo eram raros no Brasil e, creio, o nosso era o primeiro a enfrentar a BR-316.
        Em Tefilo Otoni, por exemplo, o trnsito chegou a parar. Estacionamos um momento, para tomar um caf. Ao voltarmos, encontramos o carro cercado de curiosos, meninos e adultos, vendedores de pedras semipreciosas a turistas ali estavam no maior entusiasmo. Entusiasmo que aumentou quando, ao ligar o motor, resolvi fazer uma demonstrao, botando a suspenso a leo a funcionar: Uai! Que trem mais sabido! Bonito demais da conta!, disse, surpreso, um rapazinho enquanto acariciava o capo empoeirado. Em Milagres o Sapo chegou a realizar um milagre: fez um ceguinho recuperar a vista. O pedinte cantador, de culos pretos e cuia estendida, ao ver o carro parar em frente a uma barraquinha de frutas, foi se chegando e, esquecido de sua condio de cego, exclamou: Eta bicho porreta! Igual que este eu nunca vi.
        
        
        
      SALVADOR  VISTA
      
        Chegamos  Bahia muito antes do tempo previsto. Jorge dizia: S quero ver a cara de Caryb... s quero ver a cara dele.
        Caryb, mesmo que irmo, de artes com os encantados, ntimo dos Orixs, afilhado de Exu, ele prprio um capeta, era rival de Jorge em pregar peas. Eu estava curiosa s de imaginar sua reao ao ver o automvel. Diante do compadre embasbacado eu manejaria a suspenso, faria o carro subir s alturas.
        Cansados da viagem, sujos, suados, paramos no porto de Norma e Mirabeau Sampaio, no Chame-Chame. Ouvimos de Mirabeau e Norma  sobretudo de Norma, animada por natureza  exclamaes de entusiasmo diante do Sapo. Eles haviam reservado, a nosso pedido, acomodaes no Retiro de So Francisco, em Brotas, ficaramos hospedados nessa espcie de pousada, tranqila e barata, no iramos gastar nosso dinheiro em hotis caros. Norma entrou no carro, me ensinaria o caminho. Mirabeau parecia satisfeito:
          Eu tambm vou com vocs mas acho que devamos antes dar uma passadinha pela casa de Caryb. Ele vai ficar surpreso, pensa que vocs chegam amanh. Quero s ver a cara dele diante deste automvel. Vai ficar humilhado. Comprou um fusquinha caindo aos pedaos, no sabe guiar mas no d o brao a torcer. Vive fazendo barbeiragens. Capotou noutro dia em Feira de Santana. Felizmente ningum se machucou.
        Caryb e Nancy moravam no Rio Vermelho, num sobrado em cima de uma padaria, no Largo de Santana.
        Buzinei debaixo da janela de Caryb, Norma abriu a porta do carro e da calada berrou: Caryb!  Nancy espiou da janela, acenou com a mo, chamou o marido. Ele apareceu, olhou e sumiu, para em seguida surgir junto ao carro, limpando as mos sujas de tinta, com uma estopa.
          Estava trabalhando... pelejando pra botar um cavalo de p e o burro no querendo me obedecer  riu. De repente grudou os olhos no automvel que subia s alturas:  U! Onde foi que vocs arranjaram esse Man Pato?
          Man Pato, Caryb? Voc est querendo dizer Man Sapo?  protestou Jorge.
          Sapo? Ora veja! De sapo ele no tem nada.  um pato, direitinho! Olhe s o bico dele!  Caryb era forte.
        No adiantou discutir se era sapo ou pato, Caryb ganhou a parada. O apelido pegou, pegou de tal maneira que at ns, Jorge e eu, passamos a cham-lo de Man Pato e Man Pato ficou sendo at o ltimo dia de sua vida.
        Man Pato agentou ainda duas viagens: BahiaRio, Rio Bahia. Continuava lpido, obediente, at que um belo dia, alis, uma bela noite, ao voltarmos de uma visita a Odorico Tavares, no Morro Ipiranga, ao descer a ladeira, na escurido, no percebi que faltava no meio da pista uma tampa redonda de ferro, das que cobrem os bueiros. Meti a roda dianteira na boca-de-lobo, o tanque do leo bateu com violncia no cho, partiu-se e, era uma vez... L se foi o pobre se arrastando, o leo escorrendo at a derradeira gota, marcando uma trilha no asfalto. No porto de Mirabeau,  rua Ari Barroso, logo abaixo do morro Ipiranga, nosso Man secou de vez, arriou para sempre; deu um ltimo suspiro, emudeceu.
        Por mais que buscssemos um tanque para substituir o quebrado, no encontramos. Em Salvador no havia, nem por milagre. No havia outro jeito seno despachar o carro. Numa ltima tentativa mandamos ele, em cima de um caminho, para o Rio de Janeiro, onde havia uma agncia da Citroen, mas nem l conseguiram ressuscit-lo. Nosso Mane Pato terminou seus dias num depsito de sucata. Quando penso nele ainda sinto saudades, um n na garganta...
        
        
      CAD A CASA?
        
        Batamos pernas em busca de casa, muita gente empenhada em nos ajudar e, nada. Meu otimismo rolava por gua abaixo.
        Genaro de Carvalho nos aconselhara a dar uma olhada num sobrado antigo, no alto da colina, ao lado da igreja de Santo Antnio.  a casa que eu gostaria de ter, dissera. Mesmo sabendo que ela estava ocupada, fomos at l dar uma espiada.
        Genaro nos entusiasmara: Os moradores so suos, quem sabe se eles no esto querendo ir embora, voltar para a Europa? No custa tentar.
        Aquela, sim, era a casa de nossos sonhos. Toda branca, contrastando com o verde do gramado, na encosta algumas rvores enormes e o mar inteiro a seus ps com direito a nascente e a poente refletidos em suas guas. J imaginou, Jorge, nas noites de lua cheia?, comentei, romntica, j me sentindo debruada na janela, embevecida. Ao ver-nos ali, to interessados, a proprietria, uma senhora loira, se aproximou. Antes que ela dissesse qualquer coisa eu me adiantei: Estamos gostando muito de sua casa. A resposta veio pronta: Ns tambm gostamos... S se fosse louca ela ia vender a casa, disse Jorge. Da por diante ia ser difcil encontrar fosse o que fosse que nos agradasse. Esta era a terceira casa visitada e riscada da lista.
        Partimos para uma, na Pituba. Casa boa, nova, com frente para duas ruas, um belo terreno com rvores e flores. A proprietria, uma viva, queria vend-la. O preo anunciado estava dentro de nosso oramento. S havia um inconveniente: ficava bem na praa, ao lado da igreja, lugar movimentado e barulhento, sobretudo em dias de festas da parquia. Esse inconveniente foi superado quando pensamos que talvez os velhos gostassem de morar l, poderiam passear na pracinha, sentar num banco, apreciar o movimento. A casa era bem-conservada, havia acomodaes para todos, at para hospedar a turma de Recife, no precisava de reformas, podamos nos mudar em seguida. Ao procurarmos a viva para concretizar a compra, ela no teve meia conversa: Olhe, seu Jorge Amado, esta casa est muito barata... no sei onde estava minha cabea quando dei esse preo. E, alm do mais, gosto muito dela,  a minha prola, no fao questo de vend-la. Tenho outras propriedades, mas esta  a minha preferida. No encompridamos conversa, no quer vender, no vende. Ainda uma riscada da lista.
        No local dessa casa na Pituba, por coincidncia, ergue-se hoje o Teatro Jorge Amado.
        Partimos para outra recomendada, na cidade baixa, em Itapagipe. Diziam maravilhas do casaro antigo, localizado em frente ao mar. Tratava-se, na verdade, de um casaro velho, caindo aos pedaos, um horror! Vimos logo que no prestava para ns. Os quartos eram enormes, altos, a pintura descascando, nas paredes manchas de percevejos esmagados. Eu as reconheci, eram iguais s que vramos nos campos de concentrao na Alemanha, Tchecoslovquia e Polnia. Nesta casa encontrei uma coisa que me surpreendeu: um cachorro que ria. Ele esticava o focinho, levantava o lbio superior, mostrava os dentes num sorriso. Fiquei encantada com o animal que passou a me acompanhar por toda a parte como se fosse um velho amigo: Se ficarem com a casa, sorriu o proprietrio, deixo o cachorro de presente para a senhora. E o cachorro sem a casa, no pode ser? Arrisquei, mas no pegou. Sem comprar a casa, neca de cachorro.
        
        
        
      A VOLTA DE MOS VAZIAS
        
        No foi daquela primeira tentativa que conseguimos comprar casa na Bahia. Viemos encontr-la meses mais tarde, ao voltarmos de avio. A viagem de automvel fora cansativa, pesada demais para mim. Ao voltarmos para o Rio com as crianas, em fevereiro, no Mane Pato, contratamos um motorista para me revezar na direo, na longa estrada. Assim mesmo, com motorista, a viagem foi cansativa. De avio eram apenas trs horas, uma beleza para mim, trs horas de nervosismo para Jorge, que tem horror a viagens areas.
        
        
        
      PEO LICENA
        
        Por falar em horror a viagens areas, peo licena para contar uma pequena histria que no tem nada a ver com a compra da casa na Bahia, mas sim com o horror de Jorge por viagens de avio.
        H alguns anos, exatamente dez, foi conferido a Jorge o Grande Prmio de Poesia do Mont Saint-Michel, deciso tomada em reunio de poetas no Encontros Poticos Internacionais da Bretanha, medalha atribuda pelo livro O Gato Malhado e Andorinha Sinh. O prmio seria entregue no prprio Mont Saint-Michel  a oitava maravilha do mundo  durante o festival anual de poesia, comandado pelo poeta francs Claude Couffon e pela presidente do Encontros Poticos, Dodik Jegou. Conhecer o Mont Saint-Michel era um velho desejo meu e eu me sentia encantada com essa perspectiva.
        Nosso avio, de companhia de vos domsticos, sairia do aeroporto de Orly, uma hora apenas de viagem at Saint-Malo, na Bretanha. De l ao Mont Saint-Michel teramos ainda uma boa meia hora de automvel.
        No momento do embarque, descobrimos que viajaramos num turbolice, bimotor, para doze passageiros, e Jorge se alarmou:
         Se eu soubesse que ia viajar num aviozinho desses, no teria vindo.
          s vezes um aviozinho desses  mais garantido do que um aviozo  disse  guisa de conforto, conforto que no pegou, pois Jorge continuou reclamando, nervoso.
        No avio lotado, couberam-nos os assentos ao lado do motor. Apenas levantramos vo olhei pela janelinha, queria ver Paris do alto. As nicas coisas que eu via, no entanto, eram o motor e a hlice do aparelho. Sobre a chapa de metal abaulada do motor, vi escrito: Rolls-Royce. Me animei:
          Fique tranqilo, Jorge, estamos garantidos por um possante motor Rolls-Royce.
          E o que  que voc quer dizer com isso?  irritou-se ele.
          Ento voc no sabe que o Rolls-Royce  o melhor motor do mundo? Dizem at que no encrenca nunca.
          E onde foi que voc descobriu que o motor  Rolls-Royce? Afastei a cabea para dar espao, queria que ele mesmo
        lesse.
          Pois olhe  disse Jorge em tom de ironia , o teu motor que nunca encrenca acaba de encrencar. A hlice est parando.
        Olhei. Vagarosamente, a hlice acabara de dar sua ltima volta. Ouviu-se, em seguida, a voz do comissrio de bordo: Senhores passageiros, acabamos de ter uma pequena pane no motor esquerdo, nada de grave... Nesse momento o tumulto e o pnico se generalizaram. Por favor, pedia o comissrio, conservem-se em seus lugares, sobretudo evitem o pnico! Vamos aterrissar num campo de emergncia. Com a colaborao de todos chegaremos a terra sem problemas.
        Adernado, o avio descia lentamente. Morta de medo, pela primeira vez na vida tive a sensao de ver a morte se aproximar. Se o motor que era Rolls-Royce pifara, o outro, igualzinho, poderia muito bem tambm pifar e a estaramos fritos. Mil pensamentos passaram por minha cabea: no ia mais ver meus filhos, ia morrer sem conhecer o Mont Saint-Michel. Segurei a mo de Jorge: se  pra morrer ao menos que morramos de mos dadas.
          Me d o jornal que est no bolso em tua frente  disse Jorge, a voz quase tranqila.
          E voc vai ler jornal, numa hora destas?
          Ao menos morro sabendo as notcias...
        Aps meia hora de agonia, aterrissamos no tal campo de emergncia, com ambulncias e carros de bombeiro  nossa espera.
        Mesmo depois dessa experincia, continuo preferindo as viagens de avio a outro meio qualquer de locomoo. Voc  uma irresponsvel, costuma dizer Jorge. Voc no tem jeito.
         
         
        
      JORGE VESTE FARDO
        
        Nosso plano, ao voltarmos ao Rio, no incio de 1961, era acertar o colgio dos meninos, esperar que os velhos voltassem da fazenda, orientar a empregada, organizar as coisas l em casa para ento tomar um avio e voltar para a Bahia a fim de continuar a via-crcis em busca de casa. Mas nosso plano falhou, alis, nunca podemos fazer planos e contar certo com eles. Sempre acontece alguma coisa, que impede. Dessa vez foi a eleio da Academia Brasileira de Letras.
        Com a morte de Otvio Mangabeira, Jorge candidatou-se  sua vaga na cadeira 23, cujo patrono  Jos de Alencar e o fundador, Machado de Assis. Em eleio tranqila ele foi eleito a 6 de abril. A cerimnia da posse fora marcada para da a trs meses, Jorge devia escrever seu discurso de posse, devia atender a entrevistas de jornalistas de toda parte, e experimentar o fardo... Ah! O fardo! Habituado a roupas leves, sandlias nos ps, que penitncia experimentar o fardo! No podamos, de forma alguma, pensar em viajar antes da posse na Academia.
        Por falar em fardo, peo licena para contar uma historinha sobre o fardo: na noite da posse na Academia, enquanto ajudava Jorge a se vestir, ouvia ele reclamar da escravido do fardo justo, de l quente, os bordados a ouro, segundo ele, esses bordados pesam que  um horror!
        Dei um passo atrs, olhei-o dos ps  cabea, encantada: Pronto! J est prontinho, lindo!
          Me d uma tesoura a  ordenou ele.
          Uma tesoura? Para qu?
          No pergunte nada, Zlia, me d uma tesoura, depressa! Assim dizendo, foi desabotoando a casaca   casaca ou fraque?  que me dera tanto trabalho abotoar. Apanhou a tesoura que lhe entreguei e, antes que eu dissesse qualquer coisa ou tentasse impedi-lo, foi cortando o colarinho branco, alto, duro de goma, deixando-o esfiapado, rente  parte escura de l. Em seguida me devolveu a tesoura: Muito obrigado. Agora vou me sentir mais aliviado, melhor.
        Ao ver o filho de fardo, de chapu bicorne com arminhos, capa e espada, seu Joo, que nesse dia envergara o melhor terno e colocara no dedo mindinho o anelo de brilhante, sorriu satisfeito. Meu filho!, murmurou e no conseguiu dizer mais nada. Nesse dia Lalu foi ao cabeleireiro, vestiu o traje bordado de miangas, elegante, feito pela sobrinha Din, famosa modista. No perdeu a oportunidade de querer me convencer mais uma vez a desistir da Bahia: Tu t vendo, fia? Na Bahia tem Academia de Letras, com todo esse luxo?
        Jorge completaria 49 anos da a um ms, a 10 de agosto, e os amigos, no Rio, preparavam-lhe uma festa. Viajaramos depois.
        
        
      VOLTA  BAHIA
      
        Ao voltarmos  Bahia, em setembro, por pouco no compramos a casa do Morro das Margaridas, na Mariquita, no Rio Vermelho, bem localizada, no alto de uma colina, paisagem de todos os ngulos. Ao examinarmos a planta, porm, verificamos que aquele terreno todo que a circundava, no era, como nos haviam dito, rea verde da Prefeitura, intocvel. Era, isso sim, terreno loteado, muitas casas e edifcios seriam levantados em torno tirando-lhe completamente a vista e a privacidade, o mais importante para ns, j que a casa no era grande coisa, precisava de muitas reformas.
        
        
        
      SONATA
      
        Em outubro de 1961, assinamos, finalmente, a escritura de nossa casa na Bahia, localizada  rua Alagoinhas, bem no alto de uma ladeira, no Rio Vermelho. Ela pertencia a um pianista suo, Jean-Sebastian Benda, contratado pela Universidade da Bahia para ensinar no Seminrio de Msica. Famlia de msicos, a me violinista, a irm e a mulher, uma jovem baiana, pianistas. O contrato com a universidade estava para terminar e a famlia, acrescida de dois filhinhos, preparava-se para regressar  Europa. Vendemos a casa com muita pena, disseram.
        Essa no era, de jeito nenhum, a casa de nossos sonhos. Grande e desconfortvel, ela necessitava de reformas, de muitas reformas para que ficasse a nosso gosto. O que nos encantou, no entanto, foi o terreno enorme e a deslumbrante vista, descortinando o Rio Vermelho, Descobrimos tambm uma coisa bonita  coisa que nos agradou , a casa tinha nome, um nome potico: Sonata.
        Dois grandes sapotizeiros, seculares, eram as nicas rvores existentes no terreno, cheio de mato rasteiro. De nosso terrao podamos ver o mar em toda a sua grandeza, a Igreja de Santana e o pequeno porto de pescadores, de onde, a 2 de fevereiro, sai a procisso de barcos, levando os presentes que o povo oferece a Yemanj.
        
        
        
      PROCISSO DE YEMANJ
        
        Na grande festa popular dedicada  Rainha do Mar, orix da devoo dos pescadores, o espetculo do pr-do-sol, na hora da virao,  inigualvel: dezenas de embarcaes a vela, carregadas de oferendas as mais diversas, desde os sabonetes e pentes para a sereia lavar-se e pentear-se, aos espelhos para se mirar, frutas, flores, muitas flores, levados pelo povo que, paciente, em filas quilomtricas, aguarda sua vez de depositar o presente num balaio e fazer o seu pedido.
        O balaio, quando cheio,  colocado no barco. Vento soprando, velas enfunadas, eles se distanciam, lentamente, um atrs do outro, at perderem-se no infinito. S ento os cestos, transbordando de prendas, so depositados no mar. Os presentes que afundam so os que a sereia aceita e o pedido ser atendido; repudiados, os que flutuam.
        Assistiramos de nossa casa, de nosso terrao,  festa da Me-d'gua, a procisso martima seguindo at o fim.
        
        
        
      Rio VERMELHO
        
        Bairro popular, distante do centro da cidade, levando-se em conta as maltratadas vias principais. At de bonde podia-se ir ao Rio Vermelho, bonde aberto, pesado, que fazia ponto final, no largo da Amaralina. Nossa rua, a rua Alagoinhas, era mal calada, rua de casas modestas e nenhum edifcio.
        Ao saber da compra da casa, todo mundo se admirou: por que no Rio Vermelho e no num bairro nobre, como a Barra, o Corredor da Vitria, por exemplo? Por que vo morar to longe? Longe de qu, meu Deus do cu? Longe da Praa Castro Alves e da rua Chile, o chamado centro da cidade? Estvamos contentes de morar no Rio Vermelho, contentes da vizinhana de nossos amigos.
        
        
        
      VAMOS PLANTAR?
        
        As frias dos meninos se aproximavam e queramos pass-las juntos na casa nova. Casa nova  maneira de dizer. Na casa que deveria ir abaixo para ser reconstruda a nosso gosto. Trabalho demorado e custoso, no queramos nos apressar, comearamos as obras em 1962, os meninos ainda voltariam ao Rio para estudar. Podamos, no entanto, tratar do terreno, iniciar uma plantao. Habitaramos provisoriamente na casa do jeito que ela estava.
        De Cruz das Almas, da escola de agronomia, conseguimos um presente rgio: mudas de laranjeiras, de limas, de tangerinas, frutas de boa qualidade. Entusiasmado, Jorge providenciou um jardineiro para comear a faxina no terreno.
        No fui com a cara de seu Quiquinho, achei-o com toda a pinta de preguioso e de sabido. Pediu dinheiro para comprar adubo, sabia onde vendiam adubo. Dias depois um caminho despejou em nosso terreno montanhas de lixo: misturadas com a terra, latas de sardinha vazias, papis apodrecidos, uma fedentina a atrair todas as moscas do Rio Vermelho e adjacncias.
        Jorge no teve dvidas, despachou o tal Quiquinho no mesmo dia. Jardineiro era o que no faltava. Chegou seu Ambrsio, homem pacato, boa cara. Seu Ambrsio capinou o terreno todo, fez uma limpeza geral em poucos dias e, mos  obra: numa s jornada, de manh  noite, conseguiu plantar todas as laranjeiras. Ningum mais feliz do que Jorge ao mostrar a Caryb a plantao:
          O senhor est convidado com dona Nancy a voltar aqui em breve para saborear as laranjas  dizia com orgulho.
          Muito obrigado, compadre  retrucou Caryb.  Eu tambm convido voc e a comadre Zlia a provar as frutas de meu pomar. Acabo de comprar uma casa em Brotas com um terreninho de fazer gosto, todo plantado de bananeiras, jaqueiras, pitangueiras, mangueiras, goiabeiras, tudo crescido, dando frutas  anunciou Caryb, tambm orgulhoso.  Estou me mudando.
        amos perder a vizinhana de Caryb, uma pena, mas, afinal de contas, isso no era motivo para ficarmos tristes, Nancy e Caryb no iam para to longe. Brotas ficava logo ali, de nossa casa  casa deles no levava, de automvel, mais de quinze minutos.
        Pela manh, ao despertarmos, tivemos a maior decepo, a maior tristeza: nossas laranjeirinhas, plantadas com tanto entusiasmo, l estavam, completamente peladas, nem uma nica folha em seus galhos. O terreno era minado de savas, vorazes formigas que s aparecem  noite. Elas haviam encontrado seu prato predileto: folhas de laranjeiras, feito a festa, e se encontravam recolhidas debaixo da terra, empanturradas.
        
        
      ZUCA, o MATADOR DE FORMIGAS
        
        Agora, chegava Zuca. De jardinagem ele no entendia nada, mas em formigas era doutor- Contratado para liquidar as inimigas, ele fez um exame no terreno: Aqui tem muita e as que vm de fora so ainda mais, diagnosticou. Vamos ter que liquidar todas as daqui e tambm as dos vizinhos. Enquanto isso, no vale a pena plantar nada.  plantar e perder.
         
         
        
      INTIMAO
        
        Caryb chegou pela manh, trazendo uma jaca: E l da casa de Brotas.
        Lamentava o estrago das savas, quando bateram  porta. Um rapaz queria entregar em mo prpria um papel para Jorge. O senhor assina aqui, disse abrindo um livro de protocolo. Jorge deu uma olhada por alto, assinou e despachou o rapaz: Est entregue.
        S ento foi ver direito do que tratava o documento. Caryb se aproximou, espichou o olho no papel enquanto Jorge, intrigado, sem compreender o que aquilo significava, pediu: Veja se voc entende isso, Caryb.
        Tratava-se de um papel timbrado com as armas da Repblica, da Justia do Trabalho, notificando o Dr. Jorge Amado para uma audincia de uma reclamao trabalhista proposta por Francisco Bispo dos Santos. Mais abaixo, dizia que o no comparecimento implicaria em revelia e confisso. Mais abaixo, ainda: Pede-se trazer a contestao por escrito. Solicita-se, tambm, organizar os documentos oferecidos como prova em ordem cronolgica e reunidos em uma pasta, caso ultrapassem 50 (cinqenta) folhas.
         Voc est entendendo isso, Caryb?
           uma intimao...
          At a eu entendi  disse Jorge.  Mas intimao de quem? De qu? Quem  esse tal de Francisco Bispo dos Santos?
          Voc no conhece?  indagou Caryb.
          Conheo coisa nenhuma. Vai ver que se enganaram...
          Pense bem, Jorge. Como era o nome daquele jardineiro do estrume podre, o que voc despediu? Talvez seja esse sujeito.
        Jorge nem lembrava seu nome:
          Como era, Zlia?
          Quiquinho  respondi.
          Pois a est  entusiasmou-se Caryb, que acabava de decifrar a charada.  Quiquinho  apelido de Francisco. Veja bem: Francisco, Francisquinho, Quinho, Quiquinho.  o prprio que est te intimando, no h dvida.
          Mas eu paguei a ele o que nem devia ter pago...
          Ele te deu recibo?
          Recibo, Caryb? Qual  o recibo? Um analfabeto que nem sabe assinar o nome... Nunca pedi recibo a empregados.
          Pois faz muito mal. A gente deve sempre pedir recibo para evitar essas amolaes.
        Jorge ficara enfurecido. Que miservel! Jogou lixo no meu terreno, recebeu como se fosse adubo de primeira e vem com essa... Eu tambm estava furiosa, no somente com o pobre-diabo, ladro descarado, como tambm, e sobretudo, com o juiz do Trabalho, de assinatura ilegvel a mandar tal convocao:
          Eu acho que voc nem deve se apresentar, Jorge. No vai te acontecer nada.
          No vai acontecer?  interveio Caryb  Com essa Justia do Trabalho, nunca se sabe. Quem  esse juiz? Certamente algum reacionrio, teu inimigo que quer te ver no xilindr.... No convm abusar... Eu acho que voc deve fazer a contestao por escrito, como eles pedem, organizar os documentos oferecidos como prova, ainda como eles exigem, arrumar as testemunhas e esperar pela absolvio.
          Absolvio!?  explodiu Jorge.  Devo contestar por escrito para ser absolvido? E isso? Absolvido de qu?  Jorge espumava, berrava.  Oferecer documentos como prova? Prova de qu? No vou escrever porra nenhuma, no tenho por que fazer contestao... No sou nenhum moleque! O que eu vou fazer, isso eu j sei. Vou procurar o Walter da Silveira. Ora! Absolvio! Vou mostrar a eles a absolvio!  esbravejava Jorge.
        Jorge voou para o telefone. Falou com Walter, que se inflamou em seguida. Velho amigo, advogado trabalhista, conceituado e temido, Walter da Silveira brigava e no perdia causas, sempre ao lado do empregado contra o empregador. Desta vez faria uma exceo, o caso era muito especial, defenderia o empregador, no caso seu amigo Jorge Amado, vtima de um juiz cretino. Resolvo esse caso com um p nas costas, deixa comigo. Queria saber de qual junta viera a convocao. Ao tomar conhecimento, deu um berro, conhecia muito bem o juiz, um cretino, seu desafeto, ele ia ver o que era bom. Combinaram um encontro para mais tarde, ele no devia se preocupar.
        Mais tranqilo, Jorge nos contou, com todos os detalhes, sua conversa com Walter.
          E o que  que voc acha que ele vai fazer?  quis saber Caryb.
          Acabar com esse juiz. Walter  inimigo dele. Disse ter sido muito sacaneado por ele, e que agora chegou a sua vez de tirar a forra. Vai at ao governador se for preciso.
        Caryb se despediu, Nancy o esperava em casa, devia levar Soss e Ramiro  escola. Antes de sair, me fez um sinal para que o acompanhasse at a porta.
          Olha, comadre  recomendou-me, apressado , diga a Jorge que desista do Walter.
          Desistir do Walter, por qu?  me admirei.
         Olha, no v contar nada pra ele, isso  uma brincadeira minha, de Tibrcio e de Gisela.  Assim dizendo, saiu apressado, me deixando sem ao.
        
        
        
      REVANCHE
      
        Se Caryb pensava que eu ia guardar segredo, mancomunar-me com ele contra Jorge, estava redondamente enganado. Jorge precisava saber, o quanto antes, que tinha cado que nem um patinho no trote de Caryb. Precisava acabar, o quanto antes, aquela agonia. E foi o que fiz, contei-lhe tudo em seguida:
        O que  que voc est me dizendo? Caryb? Coisa de Caryb? Ora! S podia ser coisa dele mesmo e eu, idiota, fui cair nessa!, enfureceu-se Jorge, ao saber de tudo. Caryb me paga, ele vai me pagar caro! Que miservel! Armou tudo direitinho, at uma jaca me trouxe para estar aqui no momento, gozar com a minha cara, se divertir  minha custa... que miservel.', repetia. Falou at em absolvio... E onde  que ele foi buscar o papel timbrado da Justia do Trabalho? S pode ter sido obra do Tibrcio. Ele no te disse que armou tudo com Tibrcio e Gisea? Eu at entendo ver Tibrcio envolvido, advogado, procurador do Trabalho com entrada franca no Tribunal... Mas Gisela? O que  que essa gringa, que mal conheo, tinha que se meter?
        Americana, viva de Jos Valadares, conceituado crtico de arte, Gisela, tambm pessoa estimada na Bahia, era dona de uma escola de ingls, a EBEC. Entre tantos amigos era ntima de Nancy e Caryb. Dagmar Barreiros, mulher de Tibrcio, era scia de Gisela, ambos igualmente amigos do casal. Segundo me contou Nancy, de um encontro da turma e de conversas sobre a volta de Jorge para a Bahia foi que surgiu a idia de lhe pregarem uma pea.
        Jorge dava tratos  bola, a vingana devia comear o quanto antes:
          Fale com Caryb ou Nancy, com Nancy at  melhor. No diga que me contou e confirme a minha ida com o Walter ao Tribunal.
          Voc no vai falar com o Walter?  perguntei, j sabendo a resposta.
          Claro que vou falar com Walter, ou voc acha que eu no devia falar?
        Jorge continuava muito nervoso, agitado, e eu tratei de sair de baixo:
          Vou dar um tempinho, o tempo de Caryb chegar em casa, para ento telefonar.
        Ao saber que tudo no passara de um trote de Caryb, Walter ficou desolado, perdia a chance de arrasar o juiz. Prometeu sigilo, com muito prazer ajudaria Jorge a dar uma lio ao sacripanta.
        No foi preciso eu chamar, Nancy telefonou nos convidando para jantar em casa deles. Caryb tomou do fone, queria saber das novidades. Tudo na mesma, compadre, e no adiantei mais nada.
        Convidados tambm para jantar l estavam os componentes do compl: Tibrcio com Dagmar e Gisela, que foi ao encontro de Jorge, toda fagueira:
          Mas que chateao, hem, Jorge? Caryb me contou tudo. Agora me diga, c entre ns, voc pagou ao jardineiro?
        Gisela nem sonhava com quem estava se metendo. Tive medo de que Jorge explodisse, mas ele manteve a linha. Essa vai pagar caro, pensei.
        Caryb e Tibrcio me chamaram em particular, no quarto, estavam doidos por notcias. Tibrcio apavorado com o que podia lhe acontecer caso descobrissem o seu envolvimento na trama, a folha surrupiada do Tribunal, a falsificao da assinatura do juiz. Antes que me perguntassem algo, me adiantei:
          Olha, compadre, no consegui convencer Jorge a desistir de Walter. J est tudo combinado, eles vo juntos ao Tribunal, amanh cedo. Jorge resolveu ir tambm para dizer as ltimas ao juiz, ele est furioso.
        Tibrcio ria amarelo, Caryb sem saber que rumo dar aos acontecimentos.
          E se eu mesmo falar com o Walter, disser para ele no ir?  sugeriu Caryb.
          Voc quer contar a ele que tudo no passou de uma farsa?
          , que tudo no passou de uma brincadeira  corrigiu ele.  Afinal de contas, o melhor seria acabarmos de vez com esta histria e rirmos todos juntos...
        Caryb e Tibrcio estavam to agoniados, to nervosos que cheguei a ter pena.
        Nancy apareceu, Jorge me chamava, queria ir para casa dormir, precisava levantar-se cedo, marcara encontro com o Walter s sete horas da manh. Ao nos acompanhar  porta, Nancy me deu um particular, desabafou: Caryb inventa essas brincadeiras... agora est sofrendo que nem um danado, no vai dormir esta noite.
        Ao chegarmos em casa, pedi a Jorge que telefonasse, tranqilizasse o compadre que de to aflito podia ter uma coisa... O castigo dele e de Tibrcio s vai terminar amanh, depois da noite maldormida, disse. Quanto  Gisela, ela que aguarde.
        Depois da noite maldormida, Caryb apareceu. Fora  casa de Walter e, como chegara muito cedo, no se atrevera a tocar a campainha, ficara tocaiando a sada do advogado para o Tribunal. Tambm seu amigo, Walter ouviu a explicao do que j estava farto de saber, deu o assunto por encerrado. Agora, todo lampeiro, vinha o peste oferecer seus prstimos a Jorge, podia ajud-lo a castigar Gisela, a danada que teve a idia da brincadeira. O santinho dizia ter apenas entrado de gaiato no imbrglio. Jorge fingiu acreditar e tratou de aliciar o compadre, que lhe daria boa ajuda na trama da vingana.
        
        
        
       VENDETTA
        
        O anncio, de trs colunas, na primeira pgina do jornal A Tarde dizia:
        BOLSAS DE ESTUDO EM UNIVERSIDADE AMERICANA
        A escola de ingls, EBEC, na rua Joo das Botas, em prosseguimento  campanha de intercmbio cultural Brasil-Estados Unidos, oferece aos vinte primeiros candidatos que se apresentarem na manh do dia 12, segunda-feira,  citada escola, uma bolsa de estudos de trs meses nos Estados Unidos. Passagens pagas, estada e duzentos dlares por ms. Pede-se levar documento de identidade e diploma de curso primrio. Assinado: A diretora Gisela Valadares.
        
        
        
      CONFUSO NO CANELA
        
        A rua Joo das Botas, no bairro do Canela, amanheceu congestionada. Centenas de pessoas aglomeravam-se em frente  EBEC. Candidatos s bolsas de estudo anunciadas em A Tarde, na vspera, tentavam entrar na escola, falar com os responsveis. De jornal na mo, impacientes, esperavam ser atendidos, porm ningum os atendia. A pacincia se esgotara havia muito. Chegavam candidatos, cada vez mais, e o tumulto se generalizava.
        Os detalhes do que aconteceu depois, soubemos pelo olheiro Caryb que, metido entre o povo, ouvia as reclamaes, divertindo-se  grande. A muito custo consegui entrar na escola. Ao me ver, Gisela, furiosa, gritou: isso  coisa daquele moleque... o moleque era voc... dei um conselho: ela devia colocar um cartaz fora da poria avisando que as vagas j haviam sido preenchidas. Confuso muito grande, as professoras tendo chilique, ningum sabendo pra que lado se virar, quer saber de uma coisa?, acabei fazendo o cartaz, eu mesmo... amigos so para esses momentos... Os dois compadres riam de se acabar.
          Quer dizer que ela estava furiosa? Boa!
         Furiosa  apelido. Ela estava desesperada, histrica, com medo de que o povo invadisse a escola, rebentasse aquilo tudo... E quase invadiram mesmo. No chegaram a forar a porta mas ameaaram, gritaram, disseram todos os desaforos que voc pos* sa imaginar.
          Agora s est faltando o ltimo detalhe da vingana  disse Jorge.
          Qual  o detalhe, compadre? Voc no acha que j est bom?
          Eu s quero ver a cara dela quando chegar a cobrana do anncio, ou voc esquece que ele foi feito em nome dela?
        Sobre esse detalhe tambm tivemos notcia: ao atender o funcionrio de A Tarde com a nota de cobrana do anncio, de dez mil cruzeiros, Gisela endoidou: V cobrar daquele vagabundo do Jorge Amado! Acabou pagando. Ainda um inesperado arremate da vingana, detalhe que no entrara no esquema do plano: pressionada com ameaa de processo, por candidatos de maus bofes, Gisela viu-se obrigada a dar trs bolsas de estudo na prpria EBEC, em Salvador.
        
        
        
      O ARQUITETO
        
        A casa do escultor Mrio Cravo, no Rio Vermelho, era ponto de reunio de intelectuais da Bahia e dos que vinham de fora. Rodeada de um grande terreno repleto de esculturas do artista; casa iluminada, estava sempre aberta para receber a quem lhes batesse  porta. amos freqentemente  casa de Lcia e Mrio.
        L nos reunamos com Mirabeau Sampaio, Caryb, Jenner Augusto, para grandes papos e gostosas gargalhadas. Foi na casa do escultor, em janeiro de 1962, que conhecemos Gilberbet Chaves, jovem e talentoso arquiteto. Esta  a pessoa indicada para reformar a casa de vocs, disse Mrio, ao nos apresentar ao moo e a Snia, sua noiva. Mrio admirava o trabalho e a competncia do jovem.
        Devamos voltar para o Rio depois das frias dos meninos. Nesse movimentado ano da Copa do Mundo, no Chile, tnhamos programado uma viagem a Cuba, devamos partir em maio. No podamos pensar em obras naquele ano, certamente as faramos em 1963. Enquanto isso, manteramos uma na vete entre Rio de Janeiro e Bahia e os meninos continuariam estudando no Andrews por mais um ano.
        Gilberbet Chaves comprometeu-se a nos apresentar um projeto para a nossa aprovao, trataria do assunto com cuidado e carinho, faria o estudo com calma, j que no estvamos apressados.
        
        
      As BANANAS DE PERNAMBUCO
        
        Mesmo no desconforto da casa, havamos convidado Dris, Paulo Loureiro e as duas meninas para as festas do 2 de fevereiro.
        Felizmente Zuca j nos dera sinal verde para recomear a plantao. Ele continuava se ocupando dos formigueiros da vizinhana, no deixaria que elas voltassem ao nosso terreno.
        No Instituto Biolgico da Bahia, compramos plantas, muitas plantas, mudas j crescidas. Contratamos Zuca como jardineiro esperando que, sob a nossa orientao, ele desse certo. Jardineiro inexperiente, porm bom matador de formigas, boa pessoa.  
        Estava Zuca na lida de plantar bananeiras, quando chegou a famlia Loureiro. Paulo vinha disposto a descansar, deitar-se numa rede, curtir a preguia. Encontrou em Zuca a pessoa ideal para uma conversa fiada.
         De que qualidade so essas bananeiras que voc est plantando?  perguntou Paulo a Zuca.
          Aqui tem banana de toda a marca, doutor: prata, ouro, ma, da-terra, So Tome...
          S essas? Em Pernambuco ns temos muito mais. Por exemplo: temos a banana de canudo, voc conhece a banana de canudo? Pois  uma que se espreme com as mos e depois se toma o suco de canudo, feito refresco. Voc no conhece?
        Zuca sorriu:
          Doutor Paulo  to interessante...
          E a banana de metro, a que cresce at arrastar no cho? Outro sorriso:
          Essa tambm no, doutor Paulo.
         E a de saca-rolha? Uma beleza ver as bananas encaracoladas...
        Educado, Zuca apenas esboou um sorriso: Ai, doutor Paulo!
         
         
        
      2 DE FEVEREIRO
      
        A festa do 2 de fevereiro era novidade para Dris e Paulo. De nossa casa podia-se ouvir a msica, assistir a tudo do alto, mas preferimos participar de perto, sentir o calor do povo, falar com as pessoas. Entramos na fila para levar flores a Yemanj, comemos abar e o delicioso acaraj frito na hora, no azeite-de-dend, pelas baianas de roupas bordadas, alvas, impecveis. Mos hbeis giravam a grande colher de pau no caldeiro de alumnio a bater a massa do acaraj, o odor da cebola dourada no azeite fervendo, espalhando -se pela praa, subindo por nossas narinas. Nas barraquinhas de bebidas e peixe frito, o povo abrigava-se do sol, descansava, emborcava sua cerveja, batia papo, cantava. Nos sentamos numa barraca, escolhemos uma que dava sobre o mar: de l podamos receber a doce brisa, ver o movimento dos barcos recebendo os presentes, podamos ouvir conversas divertidas e acompanhar os passos de nossos filhos que, enturmados com Mariozinho Cravo, Maria de Mirabeau e Soss de Caryb, se espalhavam no meio da folia.
        Os Loureiro haviam chegado por uma semana apenas, desejavam assistir  to falada festa de Yemanj, cantada por Dorival Caymmi, exaltada por Jorge Amado. Regressavam encantados, aproveitariam ainda uns dias de frias em Maria Farinha, onde Amaro Amarelo os aguardava com varas de pesca e anzis.
        Da prxima vez viriam tambm os Antunes, para frias completas.
        
        
        
      VIAGEM A CUBA
        
        O convite partira de Nicols Guilln, poeta cubano, maravilhoso, nosso compadre e amigo, companheiro de imensas viagens por esse mundo afora. Proibido de viver em Cuba durante o governo de Batista, vivera perambulando pelo mundo, viera algumas vezes ao Brasil, regressara  sua ptria somente aps a vitria de Fidel Castro. Ocupava um alto posto no Ministrio da Cultura e nos convidara para visitar Cuba, a ns, a Caryb e a Nancy.
        Samos do Rio de Janeiro no ms de maio, para Cuba, devendo mudar de avio no Mxico. Desembarcamos no aeroporto da Cidade do Mxico, escala para Havana. As autoridades policiais examinaram nossos passaportes e mandaram que esperssemos um momento e, sem nenhuma explicao, nos fotografaram de frente e de perfil. A marca do Zorro, disse Caryb, ironizando. Acabamos de ser fichados pelo FBI, afirmou Jorge, no escondendo o seu desagrado.
        A emoo de ir a Cuba, conhecer de perto esse pas to atacado por uns e louvado por outros, acrescentvamos o prazer de rever nossos compadres Nicols e Rosa, sua mulher. No permitimos que a violncia sofrida ao chegarmos ao Mxico viesse perturbar nosso entusiasmo.
        Nosso hotel era o Rivera, gigantesco, luxuoso, construdo para receber milionrios americanos, hospedava agora delegaes de sindicatos operrios de todas as partes do mundo, hospedava pessoas que jamais haviam entrado num hotel dessa categoria a no ser para trabalhar. Nele continuavam os mesmos mveis de sua inaugurao, os mesmos quadros, porm sem o mesmo cuidado.
        De seu quarto, no andar acima do nosso, Caryb telefonou. Subam um momento,
        O que seria que o compadre havia descoberto? Subimos, curiosos.
          Espiem s.Apontava um quadro, o maior entre vrios pequenos.
          Uma natureza-morta. E da?  disse Jorge.
          E da? Se aproxime, repare bem.
        A essa altura eu j estava junto do quadro. Inmeras assinaturas e frases ali rabiscadas sobre o colorido das rosas e das orqudeas da natureza-morta indicavam a identidade dos hspedes que nos haviam antecedido. Espie aqui, Caryb apontava um corao atravessado por uma flecha, amor de Almria e Ricardo. Havia frases: Estive aqui e gostei Joo P. dos Reis; Amor de Roslia Perez e Daniel; Viva el proletariado!, Abajo el sangriento Batista, assinado Juanito, l justicero. E aqui, neste cantinho, vocs no viram nada? No cantinho indicado pelo compadre, um lindo anjinho, nas mos um pergaminho com assinaturas: Nancy e Hctor Jlio.
          Por que voc no assinou Caryb, compadre? Teve medo?
         Porque no sou besta. Caryb todo mundo sabe quem , Hctor Jlio ningum conhece, no sabem que sou eu. No quarto de vocs tambm tem quadros escritos?
        No havamos reparado, mal tivramos tempo de abrir as malas. Nicols nos deixara no hall do hotel, voltaria para nos apanhar dentro de uma hora.
        Os quadros autografados no eram um privilgio de Caryb, ns tambm tnhamos vrios quadros em nosso quarto, mas o preferido para as assinaturas era o maior, tambm uma natureza-morta.
        Antes que pudssemos impedi-lo, Caryb sacou do lpis, riscou uma caricatura de Jorge, nu, segurando um corao e dentro do corao: amor de Zlia e Jorge Amado. Mais respeito, Caryb, estamos num pas..., no encontrava um adjetivo  altura de Cuba, num pas... civilizado, acabei dizendo, e voc no vai fazer das suas. Caryb ria de se acabar, Jorge tambm ria, Nancy, a mais comportada, ria menos.
        
        
        
      TQUETES PARA AS REFEIES
        
        Acompanhado de uma secretria, Nicols nos trazia o programa de nossa estada em Havana.
         Vocs vo receber, esto aqui neste envelope, os tquetes para as refeies. Vocs sabem que estamos em situao difcil, sabotados pelos Estados Unidos que nos fecharam as portas e nos isolam. Estamos num momento de restries, vocs vo receber os mesmos tquetes que todo mundo recebe. Nada de privilgios, tudo muito democrtico.
          Quer dizer que cada cidado cubano recebe tquetes para comer?  perguntei.                                                        
          Isso mesmo, comadre, aqui ningum passa fome..
        
        
        
      PASSEIO A P PELO CENTRO
        
        Samos andando pelas ruas do centro, e, confesso, fiquei chocada com a falta de conservao das casas: descoloridas, abandonadas, pintura e reboco caindo. Poucos automveis circulavam, em geral veculos antigos, americanos, caindo aos pedaos, muita gente nas ruas. Passou por ns um caminho cheio de homens cantando. So voluntrios que vo cortar cana, explicou Nicols, muita gente desertou, esto faltando braos para trabalhar.
        A cada observao nossa, Nicols dava explicaes, alis, para todos os problemas, quase a mesma explicao: falta de divisas, falta de braos, no ter a quem comprar. No se pode gastar divisas comprando tinta para pintar as casas e deixar de comprar monumentos para alimentar o povo... no temos peas de reposio para os automveis, nem podemos importar carros novos. Os que a esto, se no houver um recuo dos Estados Unidos, vo acabar e no haver outros para substitu-los.
        Nicols fez questo de nos levar  Bodeguita del Mdio, clebre taberna, no centro de Havana, onde artistas se renem para tomar um trago, conversar, cantar, tocar violo. Nicols sempre nos falava da saudosa Bodeguita, quando juntos viajamos pela China, Monglia, Unio Sovitica, Tchecoslovquia, Frana.
        Recebido com ovao pelo pessoal da tasca, don Nicols pra c, don Nicolcito pra l... Pedimos ao jovem que dedilhava um violo que cantasse a msica sempre cantarolada por Nicols em viagens, msica que ficara em meus ouvidos: Me voy al pueblo /  I hoy es mi dia /  me voy al centro llenar la calavera... la-ra-la-la, la,la,la,la,la,la... Gostou, comadre? Estvamos os dois emocionados.
        Para o trago no eram necessrios tquetes, para o tira-gosto, de po e salame, sim. A maioria dos restaurantes havia fechado suas portas. Nicols apontou para um restaurante adiante, no outro lado de uma praa: Naquele se come divinamente... se come?, corrigiu rindo, mia, se comia. Sempre rindo, Nicols explicou: J no se pode comer l, est fechado.
        Almoamos numa tasca popularpopular como todas as que existiam em Havana , cada cliente de tquete em punho. O menu era simples porm gostoso, pareceu-me estar comendo numa casa brasileira: arroz, feijo, legumes, um ovo frito, um bife, prato feito sem direito a pedir bis. Quanto damos de gorjeta?, quis saber Jorge. Aqui as propinas so malvistas. Guilln se ps a rir, tenho uma histria que vocs vo gostar de ouvir: Sempre dei a meu peluquero, o que corta meus cabelos h muitos anosj cortava antes de meu exlio , um dlar de propina. Depois que surgiu a moda de que a propina humilha o homem, resolvi entrar na onda, cortei a gorjeta do pobre, repetindo a lio:  a propina humilha o homem. Ele no se deu por achado e, com muito esprito, estendeu a mo: pois humilha-me, humilha-me muito, Nicolazito, humilha-me com um dlar...
        Entre os tquetes do envelope, Caryb descobriu que havia um para la merienda. Entusiasmou-se: onde  que podemos comer a merienda ? Em qualquer lugar, sobretudo no bar do hotel onde vocs esto, disse Nicols.
        Nicols e Rosa nos levaram a conhecer a famosa casa de espetculos de Havana, o cabar Tropicana. Nas suas luxuosas instalaes j no funcionava o jogo, j no se exibiam, em seus palcos, em shows memorveis, grandes artistas e cantores de renome universal, no so mais contratados nem grandes nem pequenos artistas, nos disse Rosa, com pesar. Vocs vo ver.
        O majestoso Tropicana, com o cassino que atrara milionrios de Miami, vindos em seus avies particulares, para o jogo e em busca de aventuras amorosas, esse j no existia. Isto aqui virou uma bela esculhambao, definiu Caryb. No   toa que os americanos esto furiosos contra Fidel Castro, conclu.
        Os garons, vestidos cada qual de seu jeito, circulavam, davam palpites enquanto serviam aos clientes, na maior esculhambao, como repetia Caryb, divertido. Os cantores que se exibiam no sabiam para onde ir. Apareceu no palco uma jovem russa, funcionria de um escritrio comercial sovitico. Desafinada como ela s e encabulada tambm como ela s, a moa cantou uma cano russa, a voz esganiada de fazer pena. Pra cantar como ela, at eu, disse Nancy, horrorizada. Una verguenza, resmungou Rosa, entre o envergonhado e o revoltado, habituada que era aos grandes espetculos na Europa e tambm aos de Cuba, de antes da Revoluo. O garom que nos servira o cuba-libre arregalou os olhos, empertigou-se ao receber das mos de Caryb uma gorjeta: Thank you! Esse voltou s grandes noitadas americanas, ironizou Jorge.
        
        
      Os PROGRAMAS
        
        J tnhamos visto alguns problemas e restries do pas. Os programas que amos cumprir, organizados oficialmente, mostravam o lado positivo, as coisas boas do regime.
        Visitamos uma creche-modelo, para crianas filhas de trabalhadores. Como esta existem muitas, nos explicou a moa que nos acompanhava. Enquanto as mes trabalhavam os filhos eram cuidados por pessoas competentes, em ambiente confortvel, alegre. Caryb sentou-se em meio s crianas e fez vrios desenhos atendendo aos seus pedidos: una cabra, un perro, una casita con el sol... De repente Caryb bateu no relgio: Esta na hora, so 3:30, hora de la merienda  a merenda consistia num copo de refresco e uma fatia de queijo. Jorge levantou-se: Precisamos ir, no era pela merienda que ele se despedia, lembrara que tinha um compromisso s quatro, ia dar uma entrevista coletiva na Casa de Ias Amricas.
        Passamos duas semanas visitando o que nos mostraram e o que quisemos ver.
        Gostei de visitar as casas de camponeses que antes viviam em taperas. Mi casa era tan chica que solo una rueda de la bicicleta entraba en ella, la de detrs se quedaba fuera, contou-nos um trabalhador, cuja casa de duas peas, cozinha e jardinzinho, visitvamos.
        Numa das casas que visitamos nos recebeu uma jovem camponesa, tipo de beleza cigana, de olhar e lbios provocadores, extraordinria. Acompanhada de violo, ela nos cantou uma cano. Jorge e Caryb perderam as estribeiras diante do encanto da jovem. Entreolharam-se: Que coisa! hem, compadre!, gemeu Jorge, sem ligar para o belisco que lhe ferrei. Maravilha!,  concordou Caryb, sem pressa de ir embora, pedindo  moa que cantasse mais.
        Visitamos tambm as aldeias de pescadores. No era hora de pesca e os encontramos consertando redes nos alpendres de suas casas novas. Sentimos que alguns deles no se mostravam entusiasmados com a mudana de vida. Acostumados a viver em choupanas, em casas miserveis, no achavam necessrio manter a casa limpa, arrumada e, sobretudo, receber a visita das chicas, as educadoras voluntrias que os visitavam periodicamente para ver se tudo estava em ordem, para ensinar-lhes a viver na limpeza, a lidar com o fogo, a utilizar a privada, a conservar a casa. No necessito de tanto luxo, prefiro viver em paz...
        Guilln fez questo de ir conosco, numa viagem de cerca de 150 quilmetros,  Baa de los Porcinos, a to falada Baa dos Porcos onde, havia um ano, fracassara uma tentativa de Invaso a Cuba. Desertores cubanos, treinados pela CIA na Guatemala, haviam sado da Nicargua em grandes barcos, para desembarcar na Playa Girn. Nessa tentativa, combate de apenas dois dias, morreram dezenas de pessoas e foram aprisionadas cerca de 1.200. Isso ocorrera havia um ano e agora Nicols nos levaria at l.
        O que desejava nos mostrar Nicols de to surpreendente nesse malogrado campo de batalha?
        De longe avistamos uma longa e larga faixa colorida, cores vibrantes, que se movimentava. A medida que nos aproximvamos, pudemos distinguir milhares de caranguejos amarelos, vermelhos, azuis, cobrindo a abandonada pista de asfalto. Sados do mangue, ao lado, pareciam vir ao nosso encontro, andando, ligeiros, nas patas traseiras, as dianteiras levantadas, verdadeiros fantasminhas, oferecendo um espetculo nico, inesquecvel. Somente um poeta como Nicols Guilln poderia ter se empenhado tanto para mostrar essa maravilha aos amigos.
        Ainda faramos uma visita oficial: visitaramos, no cemitrio de Havana, o tmulo dos Mrtires da Ptria, tombados na Baa dos Porcos.
        Jorge tem horror a cemitrios, evita sempre ir a enterros, mas no pde dizer que no ia e l fomos.
        O velho guia, antigo guarda do cemitrio, foi muito recomendado ao ser escalado para acompanhar os to importantes hspedes; a ordem era de nos levar e mostrar o que havia de mais importante no Campo Santo. Ora! Se era para mostrar o que havia de mais importante, o velhinho no teve dvidas, mostraria o melhor: levou-nos ao tmulo do fundador do rum Bacardi. L estava ele, de p, el senor Bacardi, corpo inteiro, num pedestal sobre o tmulo, em escultura de bronze. Reparen en los anteojos, entre orgulhoso e encantado o guia apontava com o dedo um par de culos colocados sobre o nariz de bronze do falecido: Miren, anteojos autnticos, los mismos que el usaba en vida, disse, a admirao estampada no rosto.
        Jorge deu por terminada a visita ao cemitrio. Batemos em retirada. Felizmente, o mausolu dos Mrtires da Ptria ficava em nosso caminho, pudemos v-lo de relance, cumprir nossa misso. Tratava-se, sem tirar nem pr, de um mausolu igual a tantos que j havamos visto em visitas oficiais em vrias partes do mundo. Ao contrrio do que imaginramos, a ida ao cemitrio no foi aborrecida, at nos divertiu.
        
        
        
      ABAIXO O ANALFABETISMO!
        
        Rosa Guilln queria nos oferecer um almoo antes que nos fssemos mas estava tendo dificuldades. Esperava que o genro, mdico que trabalhava num povoado, viesse passar o fim de semana em casa e trouxesse a encomenda que ela lhe fizera. No povoado ele conseguiria obter uma galinha, um patinho, talvez alguns ovos para melhorar o almoo.
        Tnhamos visto Rosa apenas uma vez, na ida ao Tropicana. Ela andava ocupadssima, empenhada na campanha de alfabetizao do pas, campanha que era levada a srio. Qualquer cubano alfabetizado deveria ensinar ao menos uma pessoa a ler e a escrever. Rosa visitava casas, descobria analfabetos por toda a parte, providenciava escolas e professoras, ficava responsvel pelas pessoas cadastradas por ela. Orlando, neto de Guilln, de quatorze anos, integrava uma brigada de jovens estudantes escalada para ensinar em povoados pobres, prximos a Havana. Ele ficaria um ano sem estudar, recuperaria depois. O genro, mdico, como j disse, fora mandado para um povoado que antes nunca vira a cara de um doutor. Mucho sacrifcio, nina, disse Rosa num suspiro, pero no es lo que queramos? Agora ela esperava a chegada do genro para poder marcar o almoo.
        O apartamento dos Guilln, no 25. andar de um edifcio no Vedado, bairro de gente rica em outros tempos, era amplo, arrumado com bom gosto. A vista do alto era deslumbrante. Tudo muito bonito, porm quando falta energia eltrica quem  que vai subir vinte e cinco andares? Temos apenas um elevador funcionando e s vezes nem ele funciona. A vizinhana  barulhenta, queixou-se Rosa, a maior parte dos moradores  de jovens que vm de fora para estudar e eles no tm a mnima noo de higiene, jogam lixo nos corre' dores, riscam os elevadores, estragam tudo e a gente nem pode se queixar. Pessoas que viviam feito bichos, sem nenhuma noo de higiene, no podem aprender de um dia para o outro... s vezes no aprendem nunca, no  verdade? Existem grupos de educadoras sanitrias para ensin-los a conviver com a limpeza, mas o nmero de alunos ainda  muito grande para as poucas professoras. S neste edifcio vive mais de uma centena de rapazes e moas. Rapazes e moas considerados inteligentes, capazes de cursar uma escola superior. Esses deixaram de cortar cana.
         
         
        
      O ALMOO DE ROSA
        
        A mesa de Rosa estava um primor. Toalha bordada, copos de cristal, flores no centro da mesa. Rosa se virara para obter, com os restritos tquetes da famlia, o material para fazer o almoo. Completado com o frango e o patinho trazidos pelo genro, ela nos apresentava agora uma bela mesa. Conseguira at espigas de milho e frutas.
        Ao entrar na sala de jantar, diante da mesa posta, Guilln se entusiasmou: Que maravilla, Rosita! Me parece que hemos volvido a los sangrientos dias de Batista!
         
         
      CANDOMBL
      
        Jorge quis assistir a um candombl e eles disseram que no havia candombls em Cuba. Num discurso de despedida, para uma grande platia de intelectuais e de leitores seus, Jorge disse o quanto lamentava no ter encontrado um terreiro de candombl em Cuba, o quanto repudiava o sectarismo e que no concordava com qualquer restrio religiosa, fosse ela qual fosse.
        Viemos assistir a um candombl em Havana alguns anos mais tarde, em 1986, ao voltarmos a Cuba quando Jorge presidiu o Festival de Filmes Latino-Americanos.
        Peo licena para me adiantar nos anos e contar um episdio sucedido durante o Festival de Filmes Latino-Americanos.
        O jri do Festival, presidido por Jorge Amado, era formado de personalidades literrias da Amrica Latina.
        Depois de vistos todos os filmes concorrentes, o jri reuniu-se para decidir a premiao. A reunio durou um dia inteiro. J no fim da tarde chegaram a um acordo sobre os vencedores. A resoluo seria anunciada, em ato pblico, no dia seguinte. Nesse mesmo fim de tarde haveria uma grande recepo oferecida ao jri e a personalidades presentes, vindas a Cuba para a instalao da Escola de Cinema, nas proximidades de Havana. Entre tantos, recordo-me de Harry Belafonte, Gregory Peck, Gabriel Garcia Mrquez.
        Estvamos na festa quando surgiram, afobados, dois cidados querendo falar com Jorge. Vinham diretamente do aeroporto, traziam um filme, um curta-metragem que deveria concorrer. Por mil motivos, haviam chegado atrasados e no se conformavam de saber que o julgamento do prmio j estava encerrado, insistiram. Tratava-se de dois brasileiros, gachos, que traziam o curta-metragem de Jorge Furtado e Jos Pedro Goulart: O dia em que Dorival encarou o guarda.
        Felizmente todos os juizes estavam na festa e Jorge falou a todos, convenceu-os a fazer uma sesso extra, assistir ao filme.
        Resolveram assisti-lo naquela mesma noite, e quando chegamos  eu acompanhara Jorge a todas as sesses  foi feita uma pergunta: O filme est dublado? No estava. No sei qual a razo, mas ns brasileiros entendemos o espanhol mas eles no entendem o portugus. O impasse fora criado: Como julgar um filme sem saber o que dizem?, argumentou um dos juizes. Foi a que eu tive uma idia: juntei atrevimento e coragem e me ofereci: Eu traduzo. E traduzi, mal e porcamente, mas traduzi e eles entenderam tudo. O dia em que Dorival encarou o guarda ganhou, merecidamente, nesse festival, o primeiro prmio de curta-metragem.
        Outras histrias dessa viagem, quando tivemos um encontro com Fidel Castro, ficam para serem contadas em outra ocasio, se houver outra ocasio, no quero me distanciar ainda mais da Casa do Rio Vermelho.
        
        
        
      COPA DO MUNDO DE 1962
      
        Junho se aproximava, e com ele a Copa do Mundo no Chile. Em Cuba, nem uma notcia, nem se falava em futebol. Apaixonados por futebol, Jorge e eu estvamos na maior inquietao, loucos por notcias da seleo: o que faziam Pele, Garrincha, Didi, Zagalo? Na televiso o que mais transmitiam eram discursos polticos, palavras de ordem, palestras culturais, msica clssica... Tudo muito educativo, educativo demais para nosso gosto, sobretudo no momento em que estvamos ansiosos por um futebolzinho, ter notcias da Copa do Mundo, prestes a comear.
        No regresso ao Brasil, faramos escala em Lima, no iramos via Mxico. O plano de Nancy era desembarcar em Lima, passar uma semana com sua irm que vivia no Peru. A irm de Nancy nos convidara e eu me entusiasmara, no conhecia o Peru e essa era uma boa oportunidade. E a Copa do mundo? Voc no quer assistir?, revidou Jorge diante de minha insistncia. No houve argumento que o convencesse, queria sentar-se diante da televiso, na casa dele, no perder um s jogo. Foi assim que, por causa da Copa do Mundo no Chile, em 1962, perdi a chance de conhecer Lima.
        
        
        
      DOUTOR MIRABEAU
                           
        O ano terminava, novamente chegavam as frias dos meninos. Da Bahia os amigos nos chamavam, o arquiteto Gilberbet Chaves queria nos mostrar o projeto da casa.
        Presos por compromissos no Rio, resolvemos mandar Joo Jorge e Paloma na frente. Joo se hospedaria na casa de Norma e Mirabeau Sampaio, Paloma, na de Dorothy e Moiss Alves, fazendeiro de Itabuna, amigos nossos, a filha mais velha, Balbina, e a sobrinha, Yeda, enturmando com Paloma. Joo se enquadrava bem na casa de Norma, enturmava com Arthur e Maria, os filhos e, sobretudo, adorava bater papo com Mirabeau, ouvir dele as histrias, contadas com graa, dos tempos em que Jorge era menino. Amizade de infncia, Mirabeau sabia de todas as peraltices do colega no colgio interno, as contava e Joo o ouvia fascinado.
        Formado em medicina, para fazer o gosto do pai, fabricante de calados, dono de uma sapataria na cidade, Mirabeau nunca clinicou, teve um consultrio bem montado, no centro, quando solteiro, que servira, sobretudo, como garonnire, para encontros amorosos. Do bem montado e bem localizado consultrio serviam-se tambm os amigos. Para no dizer que Dr. Mirabeau nunca teve clientes, teve um: passageiro de navio francs que ancorara na Bahia, o cidado sofreu um desarranjo intestinal enquanto passeava pelas ruas de Salvador e, quando sentiu a segunda elica, bateu os olhos, por acaso, numa placa: Dr. Mirabeau Sampaio, clnica geral. Ainda bem que encontrara um conterrneo, pelo nome devia ser francs: Mirabeau. No teve dvida, entrou, bateu  porta do consultrio. Mirabeau o atendeu e lhe deu uma amostra grtis do medicamento que convinha a seus males. No cobrou a consulta. E nunca mais atendeu ningum.
        Mirabeau no exerceu a medicina. Aps a morte do pai, herdou o negcio de calados, foi comerciante de sapatos durante muitos anos. Comandou to bem e com tal tino os negcios que acabou dono de uma rede de sapatarias na cidade. Essa, porm, no era a sua profisso. Sensibilidade e gosto artsticos no lhe faltavam, Mirabeau tornou-se um artista da goiva e do pincel: escultor e pintor admirado e respeitado, professor da Escola de Belas Artes.
        
        
        
      DONA NORMA
        
        Norma, mulher de Mirabeau, era a pessoa mais encantadora deste mundo, alegre, sempre disposta a ajudar a quem lhe batesse  porta, a animao em pessoa. Peo licena para contar apenas uma histria dela, contar um pouco de Norma.
        Quem um dia ler o romance de Jorge Amado Dona Flor e seus dois maridos, no deixe de observar o personagem, Dona Norma, que outra no  seno a prpria Norma Sampaio, copiada com maestria, sem desprezar detalhes, pelo escritor.
        Ao lado da rua Ari Barroso, no Chame-Chame, onde moravam os Sampaio, existia uma favela, pobre, miservel, o Rancho Fundo. Os habitantes dessa favela adoravam Norma, e sempre que precisavam de um socorro recorriam a ela. Certa vez, Caminho, morador do Rancho Fundo, trabalhador do cais do porto, foi ouvido, referindo-se  Norma: Dona Norminha  a pessoa mais porreta desta rua, fala com a gente como se a gente fosse igual que ela, prestativa como ela s, mulher educada est a... filha de famlia rica, av senador, no tem o nariz levantado... Esta gente a, apontara uns sobrados da rua, do alto de suas rnerdacncias no valem os seus cocores.
        Nessa mesma favela do Chame-Chame morava seu Antnio, conhecido como seu Antnio Cozinheiro. Naquela poca, os bons restaurantes eram raros, em geral ningum convidava ningum para comer em restaurantes, convidavam para comer em luas casas, a mulher se desdobrando na cozinha.
        O Conquistador, na Barra Avenida, no chegava a ser um restaurante, era uma bodega popular, onde o prato de resistncia era uma galinha assada. O cozinheiro, seu Antnio do Chame-Chame, no dava a receita por nada deste mundo, no explicava como conseguia fazer uma galinha to dourada e tenra, tio saborosa.
        Formavam-se filas na porta de O Conquistador, candidatos I tal galinha maravilhosa, aguardavam a vez. Maridos que nunca haviam levado as mulheres a restaurantes, as levavam na esperana de que, vendo e saboreando o prato, com prtica de Cozinha, conseguissem reproduzi-lo. Foi o caso de God, poeta Godofredo Filho, gourmet pela prpria natureza, que no titubeou em levar ao O Conquistador dona Carmem, sua mulher. Dona Carmem era conhecida como mos de fada no meninico de carneiro, prato difcil  beca de se fazer e que ela fazia pra ningum botar defeito. Mulher de olfato fino e paladar refinado, dona Carmem desvendaria no primeiro pedao que pusesse  boca. Inexpugnvel segredo da galinha dourada, desfazendo-se de to macia. Para decepo de Godofredo e de amigos freqentadores de sua mesa, a mestra do forno e do fogo no desvendou o segredo. A galinha que tentou fazer no dia seguinte, em sua cozinha, ficou a quilmetros de distncia daquela de seu Antnio.
        J passava de meia-noite, chovia torrencialmente, quando Norma despertou com a campainha tocando, gritos no porto chamando: Dona Norminha, dona Norminha... Era a mulher de seu Antnio, na maior agonia, gritando entre soluos: Meu marido est doido, doido de se amarrar! Quebrou tudo dentro de casa. Me ajude, dona Norminha, me ajude pelo amor de Deus! Mirabeau dormia a sono solto e, mesmo que estivesse acordado, no ia resolver nada. Norma telefonou para seu cunhado, o mdico Wenceslau Veiga, aconselhou-se. Chame uma ambulncia, disse ele, receitou uma injeo de calmante. Mas pea para o enfermeiro aplicar antes de lev-lo, recomendou. No v se meter a aplicar a injeo.
        Norma no chamou ambulncia coisa nenhuma, conseguiu no armrio de remdios a injeo receitada e tocou-se com a pobre mulher para a favela, tropeando na escurido, vou aliviar uma boa alma, no disse, mas deve ter pensado.
          Boa noite, seu Antnio  foi entrando e foi dizendo, como se nada demais estivesse acontecendo.  O que  que h, seu Antnio?
        Sentado num banquinho, no canto do quarto em desalinho, seu Antnio levantou a cabea:
          Boa noite, dona Norminha.
          Ento, seu Antnio, o senhor, to meu amigo e nem pra me dar a receita da galinha, hem?
        Enquanto falava, embebia o algodo no lcool, a seringa em posio, ordenou: Arregace um pouco a manga, seu Antnio....
         Pra senhora eu dou a receita, dona Norma  disse esfregando o brao, depois da picada da injeo.  Logo que fique bom, andei perturbado, vou at sua casa ensinar.
        Dias depois, a crise passada, seu Antnio, que era homem de palavra, bateu  porta de Norma. Levava consigo uma panela de ferro, pesadssima. Um dos filhos, o mais crescido, trazia um fogareiro a carvo. S saiu da cozinha de Norma com a galinha pronta, dourada, cheirando como ela s.
        Naquele dia Mirabeau e a famlia puderam comer a galinha do O Conquistador em sua mesa. Naquele dia e nunca mais, pois Norma no conseguiu faz-la sozinha. No adiantava ter os ingredientes, a panela de ferro, o fogo a carvo; o ponto e a maneira de mexer, sei l... faziam parte do mistrio.
        
        
        
      VAMOS LEVANTAR A CASA?
        
        Jorge chamou os amigos para conosco estudarem o projeto feito pelo jovem Gilberbet. O encontro foi na casa de Mrio Cravo. Estavam todos l: Caryb, Mirabeau, Jenner Augusto e o prprio Mrio. Projeto interessante, de casa ampla, largos terraos, muita trelia, grades, casa para o clima da Bahia. Agora era botar mos  obra. O empreiteiro, conhecido da turma, se props a iniciar o quanto antes, o trabalho ia ser demorado, a casa atual iria praticamente abaixo. Seria preservada uma parte para habitarmos durante aquelas frias, voltaramos ao Rio e l pelo fim do ano estaramos de casa pronta. As grades ficam por minha conta, disse Mrio; eu me encarrego de pintar os azulejos, disse Caryb; eu pinto as portas e os basculantes de vidro, falou Jenner. Por acaso, naquela noite, encontrava-se na casa de Mrio, de quem era muito amiga, Una Bo Bardi, que viera de So Paulo para a Bahia, contratada pelo governador do Estado  na ocasio, Juracy Magalhes  como diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia. Lina tambm deu seu palpite: Por que no colocam no piso das escadas e nos caminhos cacos de azulejos? Vocs podem conseguir  vontade na cermica do Udo. Ele tem montes de azulejos quebrados. Tudo que foi combinado nessa noite foi feito e muito mais.
        
        
        
        
      GARRINCHA
        
        As obras comearam, mas, como havia sido combinado, no samos da casa. Os meninos continuaram hospedados com nossos amigos e ns, sem cozinheira, passamos a aceitar convites para comer ora na casa de um, ora na casa de outro.
        Como viajamos de avio, deixamos Mane Pato no Rio e sem automvel andvamos sempre de txi, txi de um s chofer, o Cigano, um rapaz educado que estava sempre  nossa disposio. Mas no era suficiente para ns ter apenas o carro do Cigano. Nossa casa ficava longe de qualquer conduo e a ladeira era ngreme. Resolvemos ento comprar um  fusquinha de segunda mo e contratamos Garrincha como motorista. Garrincha era negro retinto, magrinho, sempre alegre e surpreendente. Vez ou outra fazamos pequenas viagens. Gostvamos de passear pela feira de gado em Feira de Santana, visitar as pequenas cidades do Recncavo, viagens de pouco mais de uma hora que Garrincha no agentava. Em meio do caminho, aconteceu uma vez ele parar de repente, encostar o carro: T cansado, a senhora passa pra aqui, saltou, deixando o volante  minha disposio. Que fazer? Eu tomei a direo.
        Um dia perguntei a Garrincha:
          Voc tem namorada, Garrincha?
          Tenho, sim senhora  sorriu , ela  tipo balde.
          Tipo balde?me admirei.  Como  isso? Me explique.
          A senhora no sabe? Pois tipo balde  quando a dona  larga em cima e fina nos quartos.
        Na convivncia com Garrincha e com a lavadeira Antnia, aprendi muitas coisas do dia-a-dia do povo da Bahia. Antnia chegava e da porta ia gritando: i eu! Um dia, depois de anunciada a chegada, ela me disse: Vou sair e volto logo. Tenho que dar uma sastifa para uma dona. Vendo que eu no entendera, riu: Eu tinha combinado ir lavar na casa dela hoje e no posso porque vim aqui, a vou dar uma sastifa, repetiu, depois explicou: sastifao.
        No momento de sair para dar a tal da sastifa, Antnia me advertiu:
          A senhora precisa mandar consertar o chute do quarto de passar. Ele est quebrado.
          Chute? Que diabo  isso?
          A senhora no sabe?  parou um momento.   verdade. A senhora fala estrangeiro. Pois olhe, dona Zlia, chute  aquele negocinho que a gente aperta pra acender a luz. Entendeu?
        Fiquei sabendo como me referir ao interruptor de luz na lngua baiana. Fiquei sabendo que falava estrangeiro.
        
        
        
      UM PRATO ESPECIAL
        
        Wilson Lins, escritor, romancista, amigo de Jorge dos tempos de rapaz, nos convidou para almoar em sua casa. Anita, sua mulher, me de trs filhos, era a chamada verdadeira dona de casa, os almoos em casa de Wilson eram famosos. A paixo de Anita, no entanto, era o jardim; semente plantada por ela vingava, as flores de seus potes nas janelas tinham um vio especial.
        Anita nos apresentou no almoo desse dia um prato diferente, no era comida baiana. Que coisa  essa que voc fez?, estranhou Wilson. Pois prove e me diga, respondeu Anita. Tratava-se de um bolo de arroz, com uma abertura no centro, completamente coberto de queijo Catupiry que escorria, brilhante, ainda quente; camares grados, ensopados em molho de tomate, saindo do centro e espalhados em torno, prato bonito de se ver, apetitoso e gostoso. Aprovei a novidade com entusiasmo. Jorge ficou reticente, pois esperava uma comidinha baiana e, alm do mais, detesta queijo Catupiry.
        No dia seguinte fomos comer na casa de Giovanni Guimares, colega de colgio interno de Jorge. Giovanni e Jacy, nossos compadres, somos padrinhos de Vnia, a segunda filha do casal.
        Jacy nos recebeu em seu apartamento, no centro da cidade. Foi logo avisando: Hoje no fiz comida baiana, mas preparei, eu mesma, um prato muito especial para vocs. Trouxe para a mesa o j conhecido bolo de arroz, coberto de Catupiry e os camares com tomate.
        O jantar, no dia seguinte, seria na casa de Godofredo Filho. Hoje vamos, com certeza, comer meninico de carneiro. Dona Carmem sabe que gosto.
        Dona Carmem colocou sobre a mesa o manjado bolo de arroz, coberto de Catupiry e os camares com tomate.
        Norma nos chamou para jantar, na noite seguinte. Espero que Norma no me d pra comer o tal de arroz com Catupiry, j no agento mais, disse Jorge.
        Sobre a mesa dos Sampaio foi posta a surpresa anunciada minutos antes por Norma: bolo de arroz coberto de Catupiry e camares com tomate.
        Com a liberdade que tinha com a dona da casa, Jorge quis saber daquela novidade que o impedia de matar as saudades dos pratos baianos.
         Pois  um prato muito caro  foi dizendo Norma , um Catupiry inteirinho e o camaro do preo que est... Voc no gostou, compadre?
          Eu s quero saber onde foi que voc desencavou essa receita.
         Desencavei? Desencavei coisa nenhuma! Paguei caro para aprender. Tomei um curso com uma professora muito da porreta que veio de So Paulo.
          Anita, Jacy e Carmem tambm tomaram esse curso? Somente ento Norma entendeu tudo.
          Mas no aprendi a fazer s esse prato, no se assuste, compadre, aprendi outros, vou te convidar para um vol-au-vent de galinha. Que tal?
          Que tal? Eu prefiro uma moqueca de siri-mole, um sarapatel, um xinxim de galinha, um ef... Deviam proibir essas professoras de fora dar aulas s senhoras baianas. Vo estragar a nossa culinria.
        
      CAMAFEU DE OXOSSI
      
        Camafeu de Oxssi nos deu o recado de Me Senhora: que fssemos ao terreiro v-la, queria nos dar um presente.
        Amigo do peito, capoeirista, tocador de berimbau, compositor, Camafeu comerciava produtos africanos numa barraca do Mercado Modelo: vendia colares de contas, com as cores dos santos, anis, pulseiras e mil e uma coisas de candombl, recebidos diretamente da frica.
        Irmo de santo de Jorge, ele tambm de Oxssi, tambm Ob do terreiro do Ax Op Afonj, comandado por uma das mais respeitadas mes-de-santo da Bahia, Me Senhora. Casado com Toninha, doce e bela mulata, Camafeu era um bom amigo.
        Camafeu nos deu o recado em sua barraca no mercado quando fomos l comprar colares de santo para levar de presente a amigos do Rio. Aproveitando a ida ao mercado, almoamos no Maria de So Pedro, antigo restaurante popular, onde se comia divinamente. Iramos no fim da tarde, desse mesmo dia, visitar Me Senhora.
        
        
        
      HORA DE LAZER
      
        Lidinha veio ao nosso encontro: Me Senhora est assistindo  novela... est pra terminar. Neta da me-de-santo, a mocinha conhecia bem os hbitos da av, que no gostava de ser importunada na hora da novela, um de seus raros momentos de lazer. Ela gosta muito de ver a Brandines, e daqui a pouco a gente j pode entrar, explicou Lidinha, tentando nos deter um momento mais no terreiro. A Brandines  qual Lidinha se referia era a novela O Cara Suja, de muito grande sucesso na ocasio. A protagonista chamada por Srgio Cardoso, o gal italiano da trama, de Biondina por ser lourinha, era, no entender da me-de-santo, a Brandines. Como eu tambm gostava de assistir  novela da tal Biondina, resolvemos entrar, eu assistiria, com prazer, quele fim de captulo.
        Ao nos ver, Me Senhora sorriu: Entrem... com um gesto de mo, lhe dissemos que ficasse tranqila, esperaramos. Sentada a seu lado, a filha-de-santo Stela levantou-se e nos ofereceu cadeiras para sentar.
        Me Senhora no desgrudava os olhos da tela, no perdia um s movimento dos atores, dava palpites, ralhava: No v atrs da conversa dele, Brandines, olha que tu vai te dar mal,., advertia. Ora! T! Brandines acabava de dar com os burros n'gua. Agora chora... no quer ouvir conselhos... Fim do captulo, entravam os comerciais. Me Senhora, ainda sob a emoo da ltima cena, suspirou: Agora s amanh.
        Me Senhora foi logo nos passando um sabo: Ento, vocs chegam e nem para vir me ver, salvar seus santos... E preciso que eu mande recado. Se eu no chamasse, nem vinham. Pois olhem, tenho aqui uma pitangueira para o jardim de vocs. J soube que esto plantando muito e precisam ter um p de planta daqui do terreiro. Vou dar a vocs uma pitangueira j crescidinha. Chamou o menino Reginaldo, pediu-lhe que trouxesse a pitangueira separada por ela. E at quando ficam por aqui? No esqueam que antes de voltarem para o Rio temos que fazer o bori, j est na hora. Caryb mais dona Nancy podem fazer no mesmo dia. Eu mando avisar.
        Antes de nos despedirmos ela quis notcias de seu Paulo e de dona Simone. Referia-se a Jean-Paul Sartre e a Simone de Beauvoir que a haviam visitado em 1959. Na ocasio ela jogara os bzios para ambos e a resposta fora: Seu Paulo  filho de Oxssi, como Jorge, e dona Simone  filha de Oxum, como Zlia. Impressionada, Simone de Beauvoir ouvira de Me Senhora que o santo dela era o mesmo que o de Zlia e que Zlia vai ser sua me pequena. Vivaldo Costa Lima, que estava conosco, traduziu tudo ao p da letra, deu mil explicaes sobre o que significava ser me-pequena. No havia dvida, sendo eu a me-pequena de Simone, da por diante ela deveria me obedecer, prestar conta de seus atos, no deve fazer nada sem consultar Zlia, afirmou Vivaldo. Pensamos que o casal fosse rir, como ns rimos, mas qual! Mostraram-se intrigados com o que viram e ouviram.
        Depois da visita ao Brasil, todas as vezes que nos encontramos, na Europa, Simone e Sartre pediam notcias de Me Senhora, mulher inteligente e sbia, que nunca iriam esquecer. E Vivaldo? Que  feito dele?, perguntavam.
        
        
        
      STELA DE OXOSSI
        
        A jovem filha-de-santo, Stela, moa esguia, retrada, sria, atenta a tudo, a eficincia em pessoa, era a eleita de Me Senhora que descobrira na moa as qualidades necessrias para substitu-la no comando da casa no dia em que faltasse. Me Senhora a preparava passando-lhe os ensinamentos que recebera de Me Aninha.
        Senhora no se enganara. Me Stela de Oxssi h muitos anos reina no terreiro do Ax Op Afonj, governa com firmeza e competncia o maior terreiro da Bahia.
        
        
        
      O MISTERIOSO VULTO
        
        Devamos fazer o bori uma vez por ano. O bori lava a cabea, limpa-nos dos males de um ano inteiro. Em geral tnhamos, para essa cerimnia, a companhia de Nancy e Caryb, de Zora e Antnio Olinto, velhos amigos. Olinto tambm, como Jorge e Caryb, tinha um posto no terreiro de Me Senhora.
        A cerimnia do bori durava uma noite inteira. Chegvamos  tardinha. Epifnia, filha-de-santo do terreiro, nos dava um banho de folhas, vestamos batas e saias rodadas, brancas, e assistamos,  noite, ao sacrifcio das galinhas e  preparao da comida feita com a galinha no dend, farinha, quiabos... Parte daquela comida, acompanhada de preces em lngua nag, iria lavar nossas cabeas e parte seria oferecida aos orixs.
        Em quartos separados, homens num, mulheres noutro, dormamos sobre uma esteira de palha no cho de cimento. Sobre nossas cabeas era colocada a comida, sustentada por uma faixa que se transformava em toro. Uma luz fraca, quase nenhuma, e o silncio.
        Peo licena para me adiantar e contar o que aconteceu comigo semanas depois da visita  Me Senhora, na noite em que apenas Jorge e eu fizemos o bori, j que nem os Caryb, nem os Olinto puderam nos fazer companhia.
        Pela primeira vez fazia o bori sozinha. Deitada sobre a esteira, mesmo mal acomodada, com o peso da comida amarrada na cabea e seu cheiro ativo, adormeci em seguida. No sei quantas horas dormi. Acordei durante a noite e vi, de p, encostada na porta de meu quarto, a uns trs metros de minha esteira, um vulto de mulher, alta, magra, toda de branco, os braos cruzados. Pensei: Certamente Me Senhora mandou que Stela ficasse a noite toda a de p, de sentinela. No vendo razo para esse sacrifcio, resolvi pedir  moa que fosse dormir. Forcei uma tosse. Ela nem se mexeu. Tossi novamente, nada. Ser que estou vendo direito?, pensei. Ser que  uma pessoa mesmo ou uma sombra? Resolvi sentar na esteira, quem sabe ela se manifestaria? Sentei na esteira. L estava ela, continuava ali parada. Resolvi ento me levantar, falar-lhe. Fiquei de p, andei em sua direo. A medida que me aproximava, ela foi desaparecendo. Junto da porta no havia ningum. Deitei-me novamente, olhei, o vulto havia desaparecido.
        O dia apenas raiara, os gaios comeavam a cantar, quando Me Senhora veio tirar o toro de minha cabea.
          Dormiu bem, minha filha?
         Quase no dormi, Me Senhora. Vi um vulto encostado naquela porta.
          Um vulto? E como era esse vulto?
        Expliquei-lhe tudo que havia acontecido e ela me perguntou:
          Teve medo?
         Nem um pingo. Fiquei bastante calma. Me Senhora deu uma gargalhada:
          Pois, minha filha, tu viu a alma de Me Aninha.  muito raro ela aparecer... Quer dizer que Me Aninha veio te visitar... Parabns...  Falava e ria satisfeita.
        Me Aninha fora a fundadora do Ax Op Afonj, adorada, respeitada.
          Sim, senhora! Agora vamos falar com ela.
        Assim dizendo, me levou pelo brao para o peji de Xang, num quartinho de frente. Diante do altar do santo, me fez ajoelhar junto dela. Em seguida, jogou um punhado de bzios que se espalharam sobre uma toalhinha branca que cobria uma mesinha: braos levantados, olhos para o alto, Me Senhora comeou a falar, conversava com o santo em iorub, falava e sorria. De repente virou-se para mim: Tu no est entendendo nada, no e? Voltou a olhar para o alto: Ela no est entendendo nada, por isso eu vou falar em portugus. Jogou novamente os bzios e foi lendo, de acordo com a posio em que eles haviam cado: Muitas felicidades para voc, nunca ningum vai poder te fazer mal, tudo que for atirado contra tu vai voltar para cima de quem quer te fazer mal. Est satisfeita? Volvendo novamente os olhos para o alto, disse: Muito bem, a conversa est muito boa mas eu tenho que cuidar de minhas obrigaes. Vamos parar por aqui.
        Eu estava verdadeiramente fascinada com a intimidade de Me Senhora com o egum. Incrdula de formao, sempre em busca do desconhecido, procurando descobrir os mistrios da vida e os mistrios da morte, indagando sem nunca encontrar uma resposta convincente, nessa madrugada, no terreiro de Me Senhora, senti-me profundamente comovida, encantada sem no entanto dar por terminadas as minhas indagaes sobre os mistrios da vida e os mistrios da morte.
        
        
        
      LIGA PELA RESTAURAO DOS IDEAES
        
        Norma telefonou me convidando para fazer um curso com ela. Chegara  Bahia uma japonesa, professora de arranjos florais, ikebana, So apenas trs aulas, argumentou, voc tem tempo de sobra, s vai para o Rio daqui a dez dias... Olha aqui, vocs vm almoar com a gente, vou fazer uma galinha de cabidela para o Jorge, quero tirar a m impresso dele do ltimo jantar. Venham cedo, Mirabeau tem uma surpresa para vocs.
        Da gaveta de um armrio de seu ateli, Mirabeau tirou um caderno de capa dura, bastante velho, as folhas amareladas pelo tempo. Aqui est, foi dizendo e rindo, o que eu queria mostrar a vocs. Numa arrumao da papelada, encontrei isto. Estendeu-me o caderno: Leia, Zlia, leia em voz alta, Jorge vai gostar.
        Logo na primeira pgina, com caligrafia caprichada, estava escrito: Este livro fica destinado  cpia dos trabalhos apresentados pelos scios, lidos nas sesses da Liga pela Restaurao dos Ideaes. Assinado, Cndido Colombo Cerqueira  Presidente. Bahia, 2 de Julho de 1926.
        Achei graa, essa tal liga fora fundada a 2 de julho, exatamente no dia de meu aniversrio, quando eu completava dez anos.
          Voc lembra dessa Liga, Jorge?
          Tenho uma vaga idia  disse.
          V mais adiante  ria Mirabeau.
        Mirabeau, sempre que contava uma coisa divertida, ria e falava ao mesmo tempo, muitas vezes difcil de ser entendido. Virei a pgina:
         Liga pela Restaurao dos Ideaes.
         Padroeiro: Santo Estanislau Hostha.
         Fins: Elevao moral, phisica e intellectual
         Meios: Practica do Catholicismo  Amor e Caridade  SerenidadeAlegriaOptimismoDomnio de si mesmo e das paixes.
         Lemma: Sursum!!!
        Parei:
          Sursum? O que significa isso?
          Talvez uma saudao  disse Mirabeau , continue a leitura.
         Deveres: Castidade  Obedincia  Unio  Cumprimento dos deveres sociais  Defesa mutua  Estudo.
         Prohibies: Tudo o que servir para deprimir e rebaixar em vez de levantar para os ideaes, como leituras ms, conversas degradantes e indecorosas, brigas e contendas.
         Direo: Confiada a um Presidente auxiliado por um Censor e pelo Conselho dos scios fundadores, todos subordinados a um Director espiritual.
         Diretor Espiritual: Pe. Camillo Torrend S. ].
         Reunies: Podendo ser cada semana, ou duas vezes por mez consta de
         l) Uma leitura de um captulo da Imitao de Christo, comentada depois por algum scio ou pelo Director Espiritual.
        Depois de vrios itens como tema das reunies, antes de encerrar, havia ainda uma advertncia:
         Infraco: Toda a infraco do regulamento, especialmente a de fallar de assumptos deprimentes ser punida com uma reprehenso dada pelo Presidente ou pelo Censor (Antnio Vieira de Mello) ou pelo Director informado, e o delinqente longe de se entristecer com a reprehenso e de fomentar pensamentos contra aquelle que o reprehende dever mostrar-se agradecido e offerecer uma communho por elle. Em caso de recidiva poder ser excludo da liga ou suspenso.
        Enquanto eu lia, Jorge e Mirabeau riam, comentavam, divertiam-se.
          Voc fez parte dessa liga moralista, Mirabeau?
          Certamente fiz, mas veja: teu marido foi scio fundador, leia mais adiante o discurso dele. Um discurso porreta.
          E eu fui scio fundador dessa liga? Fiz discurso? A gente faz cada coisa...
        Eu no aprendo nunca. Levo sempre ao p da letra as graas, as ironias de Jorge:
         Voc no sabe? Pois est tudo aqui, veja, no estou inventando nada, assinado e com data. Voc ia completar quatorze anos.
         Discurso pronunciado pelo seu auctor Jorge Amado, em sesso ordinria da Liga para a Restaurao dos Ideaes em 1926.
         A tarde morre.
         No horizonte o sol entrega a terra  lua, a Jacy dos ndios, a deusa dos poetas.
         Numa cabana de um camarada agoniza um homem.
         Um padre ao seu lado pede-lhe que se confesse:
          Mas padre  diz o moribundo  eu sou um desgraado, pequei em demasia, Deus no me perdoa,
          Perdoa, filho  diz o padre e reza uma jaculatria por este corao desanimado.
         Mas o desanimo  grande e a morte o leva enquanto pronuncia esta blasphemia:
          Pequei muito, se Deus perdoasse seria injusto.  un facto que todos os dias acontece aos milhares.
         E o desanimo um dos inimigos com quem temos de travar mais aberta guerra.
         ........................................................................................................
         As celebres injeces to bem aplicadas pelo Padre Torvend e Padre Cabral, os elixirs do Padre Arraino, as communhes freqentes, a confisso, a missa diria, congregam-se para impedir o desanimo. Isto no colgio, mas l fora, nas ferias  to fcil desanimar!... Como vence-lo?
         O problema est resolvido; uma nova cohorte de guerreiros entra no campo de batalha.  a Liga para a Restaurao dos Ideaes. E ns, seus membros no s no devemos, mas no havemos de desanimar. E um dever. Se desanimarmos aonde ir parar o nosso Sursum!!!?
        Paro por aqui, embora o discurso no pare por aqui, ainda vai longe. Acabo de pedir licena ao escritor Jorge Amado para incluir em meu livro as palavras do aluno do colgio jesuta, o menino Jorge Amado que encerrou seu discurso com as seguintes palavras: Se abusarem-se com minhas disconessas palavras, vinguem-se exercitando-se na pacincia.
        Sempre ouvi dizer que padre Cabral, do Colgio Antnio Vieira, ao ler a composio de um aluno (Jorge Amado) sobre o mar, teria profetizado que o autor daquelas pginas seria, um dia, um grande escritor. Fico conjecturando, agora, ao copiar o discurso do tal menino onde o padre Cabral  citado: no teriam sido essas pginas, na realidade, as inspiradoras do padre?
        
        
        
      IKEBANA
        
        As aulas que tomei, levada por Norma, no tm conta. Cursos que me valeram e cursos que apenas me divertiram: por exemplo, o de Ikebana, aulas de arranjos florais, me valeu. Mesmo com poucas flores, muitas vezes pude enfeitar minha casa e, numa viagem que fizemos no navio Brasil Maru, para os Estados Unidos, ganhei um prmio num concurso de arranjos de flores.
        Nunca vou esquecer do curso multiponto da Elgin, na Calada, o fim do mundo. Tnhamos que tomar vrias condues, perdendo um tempo no vai-e-vem. At que foi divertido, Norma aprendeu um bocado de pontos e bordados, mas eu no tive pacincia, o pouco que aprendi esqueci em seguida.
        Norma s no conseguia uma coisa comigo: arrastar-me a enterros e a velrios. Tendo grande considerao pelas pessoas que passam a noite velando seus mortos, Coisa mais triste, no deixava de comparecer quando podia e s vezes at quando no podia. Era saber da morte de algum conhecido l se ia ela para o enterro ou para o velrio, levando variado farnel: sanduches, caf, biscoitos, para confortar um pouco os que iam passar a noite em claro.
        Certa vez, passvamos por um enterro de anjinho, enterro pobre, quatro meninos segurando as alas do caixozinho azul, dois ou trs adultos, entre eles Norma com um ramo de flores. Qual no foi nossa surpresa ao reconhecermos entre os meninos que carregavam o esquife o nosso Joo Jorge. Ele havia sido arrebanhado por Norma para essa piedosa tarefa. O coitadinho, era to pobrezinho que no tinha uma nica flor, nem mesmo quem lhe segurasse a ala do caixo, explicou ela.
        
        
        
      Nosso JARDIM
      
        Dessa vez, sim, com as formigas afastadas por Zuca, as plantas cresciam. Os caminhes de adubo, misturados  terra, deram resultado surpreendente. A pitangueira de Me Senhora fora plantada por Zuca, ao lado de um p de fruta-po. Essa pitangueira jamais daria frutos, no receberia o sol necessrio, vivendo  sombra da frondosa rvore. No deu frutos, mas vive at hoje.
        Ao ver aquele mundo de mudas, plantadas uma ao lado da outra: mangueiras, cajazeiras, pitangueiras, jambeiros, jaqueiras, caramboleiras, alm de outras rvores no frutferas, Caryb foi taxativo: Quando isso tudo crescer, para Jorge ir ao fundo do jardim vai ter que ir abrindo picada a faco. Isso s no aconteceu porque nem todas as plantas vingaram na sombra e muitas morreram por descuido do jardineiro. Assim mesmo, o bosque ficou espesso. Tirou nossa vista sobre o Rio Vermelho, mas ficou lindo.
        
        
        
      REMINISCNCIA
      
        De meu terrao diviso, entre o arvoredo, Zuca que se aproxima. Cabelos grisalhos, o mesmo sorriso de sempre. A tiracolo,  pulverizador com veneno de matar formigas.
          Matando uma formiguinha, Zuca?  pergunto-lhe. Antes de responder, educadamente como sempre, ele diz:
          Bom dia, dona Zlia. Como passou a senhora de ontem pra hoje? E o doutor? Ainda est dormindo? Tudo bem, no ? Graas a Deus! Choveu muito e as danadinhas das formigas depois da estiada costumam aparecer... l embaixo encontrei um bocado delas. At amanh no vai ter mais nenhuma, se Deus quiser.
        Fico lembrando dos primeiros tempos, Jorge na peleja com Zuca:
          O Zuca, trouxe estas mudas para voc plantar.
          Muito bem, doutor. Vamos plantar.
          Pensei plantar neste lugar para substituir as que morreram.
          Pode deixar, doutor, amanh eu planto.
          Amanh? Por que no hoje?
          Deixa ver, doutor: hoje  quarta-feira, quinta, sexta... t bom na sexta-feira?
          No est no, Zuca, eu quero que plante hoje mesmo.
          Pode ser de tarde, doutor? Foi a que me intrometi:
          De tarde no, Zuca. Por que de tarde? Tem que ser agora... j!
        Zuca sorriu, balanou a cabea:
          Dona Zlia  to interessante... (Queria ele dizer, to chata?)
        Durante esses anos que Zuca nos serve, todas as vezes que viajvamos deixando o jardim aos cuidados dele, s vsperas de nosso retorno, estivssemos onde estivssemos, recebamos uma cartinha de nosso jardineiro. Elas comeavam sempre da mesma maneira: Dona Zlia mais doutor Jorge, bom dia. Espero em Deus que doutor Jorge mais dona Zlia estejam gozando boa sade. Por aqui vai tudo mais ou menos. Este ano choveu muito, muita gua, afogou um bocado de planta... Ou ento, depois do prembulo, at as novidades da carta: Por aqui vai tudo mais ou menos. Este ano a seca foi demais. No choveu nada. Um bocado de planta secou...
        Certa vez, s vsperas de uma viagem nossa  Europa, visitamos uma fazenda no estado do Rio. Qual no foi nossa surpresa ao sabermos que nessa fazenda havia um bosque de lichizeiros. Entusiasmada, pedi aos proprietrios uma muda. Com muito prazer, disse Jos Amdio, dono da fazenda. Mudas de lichi  o que mais h. A fruta cai, o caroo brota... Chamou um empregado, encarregou-o de preparar a muda para que eu levasse.
        Conheci a fruta na China, no sabia que podia encontr-la no Brasil. Plantaria o lichizeirinho, com todo o capricho, em nosso jardim. Viajei do Rio de Janeiro  Bahia levando no colo a latinha com a planta.
        Mal botei os ps em casa, chamei Zuca:
          Est vendo esta plantinha que eu trouxe do Rio, Zuca? E uma planta rara, no Brasil no existe. Ela d a fruta mais deliciosa do mundo. Vamos plantar e cuidar dela com todo o carinho, entendido, Zuca?
        Zuca olhou a muda, no disse nada. Levei-o para o melhor lugar que encontrei no terreno, para plant-la. Comigo Zuca no regateava dia nem hora de plantar, ele j havia descoberto que dona Zlia era uma pessoa muito interessante e no teimava. Consultei-o:
          Este lugar est bom?
          Est mais ou menos... podia ter um pouco mais de sol...
          Pois  a mesmo que vamos plantar minha plantinha rara.  Voltei a frisar planta rara para que ficasse bem gravado em sua cabea que ele no podia facilitar, devia cuidar dela com todo o carinho, durante nossa ausncia.
        Ordenei-lhe que fizesse a cova bem profunda e exageradamente larga, cercasse a muda de terra vegetal e adubo, e Zuca s obedecendo. Pronto, l estava ela, plantadinha. Com terra boa e tanto adubo ela cresceria rapidamente, daria frutos, mataria Caryb de inveja. Ele vivia se vangloriando da maravilha de seu pomar, atirando em nossas caras frutas e mais frutas que colhia. Lichi ele no tinha.
        Fiz ainda uma recomendao a Zuca antes de partir, mais do que uma recomendao, uma ameaa:
          Cuide direito de minha planta, Zuca. Quando eu voltar, se voc vier com a conversa de que a planta morreu afogada ou de sede, eu te mato. Entendeu bem? Eu te mato.
        Zuca riu:
         Dona Zlia  to interessante... deixa comigo, pode deixar, dona Zlia, eu cuido dela.
        Dessa vez nossa viagem foi longa, passamos vrios meses fora. De vez em quando pensava no meu lichizeirinho: Estaria crescido? Teria morrido?
        Ao chegarmos ao Hotel Tivoli, em Lisboa  nosso endereo em Portugal , na vspera de nosso retorno ao Brasil encontrei na portaria uma carta dirigida a mim. Pelo envelope e pela caligrafia, identifiquei Zuca. Olha aqui, Jorge, disse, desta vez ele enderea a carta a mim. Ser que houve temporais ou seca na Bahia! Abra o envelope, vamos ver o que ele diz, apressou-me Jorge. A carta, como sempre, comeava assim:
        Dona Zlia mais doutor Jorge, bom dia. Espero em Deus que tudo tenha corrido bem com dona Zlia mais doutor Jorge. Por aqui, graas a Deus tudo tem corrido muito bem. Tem chovido pouco e o sol no est muito forte. Tenho uma novidade que vai agradar dona Zlia: aquela planta dela, rara, est uma beleza. Cresceu muito e j deu uma pitanga. Sem mais...
        At hoje, trinta e tantos anos se passaram, Zuca no se conforma que dona Zlia, pessoa to sabida, tenha comprado gato por lebre. Com tantas pitangueiras no jardim ela no viu o que qualquer um podia ver: a plantinha que ela trouxera do Rio de Janeiro, no colo, com tanto cuidado, era uma pitangueira e no a rvore rara da qual ela fizera tanto alarde.
        H pouco, conversando com Zuca  sombra da mangueira, junto ao terrao, ele recordou o fato e isso deu-me a idia de narr-lo agora, j, no deixar para mais tarde ou para amanh ou depois de amanh, no velho sistema do Zuca. No fosse eu a pessoa to interessante...
        
        
      RUFINO
      
        Pelas mos de Wilson Lins, chegou Rufino. Negro, alto, forte, jovem, bem-apessoado, sorriso aberto.
          Este  Rufino  apresentou-o Wilson.  Mestre-de-obras, ele tem trabalhado para mim. A especialidade de Rufino  muro de arrimo. Como vocs vo precisar de um muro de pedras para agentar a terra da frente, achei que com Rufino vocs vo estar bem servidos.
        Realmente, tnhamos um problema srio e caro a resolver. A casa ficava no alto de um barranco e seria preciso levantar uma espcie de muralha para sustentar tanta terra: obra que ia nos custar um dinheiro.
        Contratado, Rufino apareceu com um grupo de pedreiros para fazer o servio. Os pedreiros trabalhavam muito e Rufino s olhava.
          Voc no trabalha, no, Rufino?  perguntou-lhe Jorge um dia, ao v-lo de braos cruzados.
          Tenho que fiscalizar, doutor.
        Depois do paredo pronto, dinheiro recebido, Rufino continuou aparecendo, mesmo sem ter nenhuma funo na obra. Recebera bastante e enquanto no gastasse o ltimo tosto, no precisava se preocupar em arranjar outro trabalho. Gostara da atmosfera da casa, aparecia apenas para se divertir, fazendo camaradagem com nossos amigos, Caryb, sobretudo, que lhe dava muita corda.
        Rufino tornou-se um agregado da casa e, no correr dos anos, at hoje, volta sempre, o sorriso aberto, a simpatia estampada no rosto:
          Tudo bem, Rufino?
          Tudo mais ou menos.
          Mais ou menos? Ento no est bem?
          Sa h pouco de casa, dona Zlia, deixei as brasas vivas no fogo, um caldeiro de gua fervendo, nem um gro de feijo dentro... as crianas em volta olhando a gua ferver, todos de boca aberta assim  imitava as crianas de boca aberta. Na vez seguinte:
          Tudo bem, Rufino?
          Tudo mais ou menos.
          Mais ou menos? Ento no est bem?
          A minha mais velhinha foi subir numa rvore para colher uma manga, estava com fome, teve tontura, caiu e quebrou o brao... Ento eu vim pedir socorro a doutor Jorge e  senhora.
        Ao ver Rufino chegar, j sei que vem problema. Ele aprendeu a ser gentil, sabe nos conquistar. Nos ltimos anos, ele nunca chega de mos vazias: passa antes por um matagal perto de sua casa e colhe flores, traz-me grandes ramos de flores. S depois despeja seus males. s vezes o aconselho a procurar Wilson Lins, que se livrou das suas facadas nos passando a bola.
        Sabendo que Jorge adorava tei moqueado, um belo dia Rufino resolveu tocaiar um que costumava aparecer no seu terreiro. Matou o tei, e sua mulher, que  cozinheira, disps-se a prepar-lo. Ele ento apareceu.
          Tudo bem, Rufino?
         Tudo bem. Cacei um tei para doutor Jorge, sei que ele gosta, agora estou precisando de um dinheirinho emprestado (o dinheiro que pede  sempre emprestado, nunca dado, embora jamais tenha a inteno de devolv-lo) para comprar os temperos. A patroa vai preparar.
        Meio-dia em ponto, Rufino iniciou a subida da ladeira da rua Alagoinhas, um tabuleiro na cabea, o tei moqueado com seu perfume marcando presena.
        Sem conhecer as habilidades culinrias da mulher de Rufino, sem saber como seria esse tei, por via das dvidas, preparei uma galinha ao molho pardo para completar o menu. Tnhamos nesse dia um convidado para o almoo: Antnio Celestino, portugus radicado no Brasil, vivendo desde jovenzinho na Bahia, casado com baiana, pai de trs moas. Celestino era alto funcionrio do Banco Econmico, amigo dos artistas da Bahia, crtico de arte. Eu estava sem saber o que Celestino ia achar do tei de Rufino, o que ia dizer, piadista inveterado, qual a graa que iria inventar para acabar com nosso tei.
        No tabuleiro de Rufino o lagarto dourado cheirava. Ele havia gasto o dinheiro que levara para o tempero, no fizera economia: com o tei vinham batatas douradas, ovos duros, pimento, tudo muito bem-arrumado. Quem pensar que portugus no gosta de tei, se engana. Celestino no tugiu nem mugiu, entrou direto no lagarto, comeu de lamber os beios, Eu provava tei pela primeira vez e confesso a minha desconfiana. Pena ter sido pouco, no lembro ter comido nada to delicioso. Se soubesse que voc ia gostar tanto de tei, Celestino, no teria te convidado ou teria me servido antes, pilheriou Jorge ao v-lo repetir o prato, limpar os ossinhos.
        Rufino descobriu tarde a sua profisso, a que lhe dava prazer: figurante de cinema. Durante as filmagens de Dona Flor e seus dois maridos, aqui na Bahia, Jorge pediu a Bruno Barreto, que dirigia o filme, um lugar de figurante para Rufino. Ele chegou at a trabalhar, quer dizer, fazer fora carregando coisas, levantando pesos, durante as filmagens, alm de aparecer em vrias cenas. O que recebeu em dinheiro no lhe deu independncia, continua, como sempre, a trazer flores, a dar facadas.
        
        
        
      As OBRAS DA CASA
        
        O interesse de nossos amigos baianos pela obra da casa era enorme, acompanhavam passo a passo as demolies e as paredes levantando... Todo mundo dando palpites, todos ajudando.
        Lev Smarchewski fazia parte da turma de artistas e foi trazido um dia por Caryb. Arquiteto, russo de nascimento, to brasileiro quanto um brasileiro nato, casado com Quinquinha, baiana de famlia tradicional, pai de vrios filhos, homem dos sete instrumentos. Lev, na ocasio, debruava-se sobre desenhos de automveis de corrida, montara um para ele prprio. Tambm construtor de barcos a vela, Lev fazia barcos capazes de atravessar o oceano, desenhava mveis, possua fbrica de mveis e sobretudo era pintor, bom pintor.
        De mangas arregaadas, Lev chegou com Caryb, disposto a dar a sua contribuio na reforma da casa. Vira e estudara a planta nas mos de Gilberbet, tomara nota das medidas da sala principal, nos oferecia agora fazer os mveis. Gostamos dos desenhos que trazia, era um privilgio ter mveis desenhados por Lev.
        Caryb trouxera, nessa manh, o desenho do porto de ferro, com pssaros e frutas, uma beleza como s Caryb sabia fazer. Ele prprio falara com Udo Knoff, o alemo dono da cermica, e sem nenhum problema conseguira os cacos de azulejo para colocar nas escadas e nos passeios. Homem requintado, Udo era amigo dos artistas da Bahia, sua cermica era utilizada em todas as casas de bom gosto.
        A Yemanj vermelha, de madeira, de Mrio Cravo, estava  espera que fosse feito o laguinho no jardim. A bela sereia ficaria no centro, refletiria na gua. Nesse lago seriam colocadas plantas aquticas, nenfares, conhecidas na Bahia como baronesas, haveria sapos, muitos sapos.
        O entusiasmo de Jorge, inventando sempre novidades para a casa, era to grande que no tinha vontade de voltar para o Rio, ficava sempre adiando os compromissos que o esperavam l, e onde os meninos j se encontravam desde o incio das aulas. Tnhamos esperana de que antes de terminar o ano a casa estivesse pronta. Cerca de trinta operrios trabalhavam de manh  noite, a toda hora chegava material. Jorge e Caryb ali, conferindo tudo. Gilberbet, no momento, dividia o trabalho na casa com os preparativos para seu casamento. Ele pensara at em adiar, mas Snia batera o p, casamento no se adia.
        O apartamento que possuamos no Hotel Quitandinha, onde haviam passado sua lua-de-mel Joo Gilberto com Astrud e Glauber Rocha com Helena Igns, abrigaria ainda um casal de noivos: convidamos Gilberbet e Snia para passar a lua-de-mel l. Enquanto o arquiteto estivesse ausente, Caryb tomaria da batuta, dirigiria a obra.
        
        
        
      MAUS PRESSGIOS
        
        Mais do que eu, Jorge se afligia com a morosidade da obra na Bahia, no via a hora de sair do Rio de Janeiro.
        Andvamos tristes com a morte do Coronel. Seu Joo morrera quando menos espervamos, deixando-nos desolados. Detalhes sobre o seu falecimento j narrei em livro anterior (Cho de meninos), poupo-me agora de record-los novamente.
        Estvamos inquietos com a situao poltica do Brasil. Vamos as coisas malparadas. Nosso mau pressentimento se agravara depois de termos participado de uma reunio, convocada pelo presidente Joo Goulart, no apartamento de Di Cavalcanti, no Rio, na qual o presidente  empossado a duras penas depois da renncia de Jnio Quadros  falou a um grupo de intelectuais, dizendo de seu otimismo, de sua segurana, contando que nomeara novos oficiais, de sua confiana, reformara comandantes e generais, inclusive seu chefe do Estado-Maior, marechal Castelo Branco.
        Joo Goulart ligara-se a movimentos de esquerda, dando ouvidos a sectrios e dogmticos, enfrentando os militares com planos de reformas, afastando de seu governo comandantes e generais, apoiando passeatas gigantescas com faixas provocativas, comparecendo e falando em comcios... Ele no se d conta de que est forando uma volta atrs?, comentara Jorge, ao ver anunciado um comcio monstro na Central do Brasil. Ele est cutucando vespeiro com vara curta, respondi.
        Segundo os que  inclusive ns  j haviam sofrido na prpria carne dolorosos retrocessos polticos, Joo Goulart marchava a passos largos para a sua deposio, para a implantao de mais um regime totalitrio, de represses, de censura, de violao dos direitos do homem em nosso pas.
        Com esse esprito de preocupao, viajamos de muda para a Bahia, no final do ano de 1963 para 1964.
        
        
        
      MAN PATO NOVAMENTE NA ESTRADA
        
        Dessa vez viajvamos para ficar. Os meninos j se encontravam na Bahia havia um ms, seu Joo morrera havia um ano. Desde a morte do marido, dona Eullia me autorizara cham-la pelo apelido que o Coronel lhe dera: At aqui tu foi minha filha, disse-me ela, daqui por diante, tu vai ser minha me. Pode me chamar de Lalu. S depois da casa pronta, ela iria morar conosco na Bahia.
        Caryb nos apressava em ligaes telefnicas, voz de longa distncia: Venham logo. O olho do patro engorda o gado... Enquanto vocs no vierem a obra no vai terminar. J d pra morar... faltam umas coisas pequenas, arremates... Est uma beleza!...
        Conseguimos um motorista profissional para dirigir o Man Pato at a Bahia, homem competente que nos daria segurana, eu no me esfalfaria como da outra vez. Levaramos no carro mil e uma coisas, a comear por livros e presentes que Jorge comprara para todo mundo.
        Passei a noite empacotando, embrulhando, colocando livros em caixas. Uma consumio! Ao meu lado, Milu procurava me ajudar. Mais atrapalhava do que ajudava com seus suspiros e reclamaes: Coisa mais triste  ser mulher... Deus me livre! Veja! A pobrezinha a trabalhando e o outro l dormindo... Ave-Maria! Jesus! No sei como ela agenta... A interminvel ladainha s acabou quando dei por encerrada a arrumao e me despedi para dormir.
        Logo cedo Jorge me acordou. Queramos aproveitar a frescura da manh, partir antes do sol esquentar. Felizmente Lalu encontrava-se em So Paulo, em casa de Joelson, seu filho mdico, no ia cair na choradeira ao nos ver de mudana.
        Milu estava a postos, na sala, aguardando que o cuco cantasse seis vezes. Ficou vendo Jorge e o chofer descerem a bagagem, no se ofereceu para ajudar. Os dois que se arrumem, resmungou ela, pelo menos que arrumem o carro... ao menos isso... Eu s desceria, com as ltimas miualhas, quando Jorge desse por terminadas as arrumaes.
        Jorge demorava a subir, devia estar tendo dificuldade de acomodar tanta coisa. De repente a porta abriu-se e ele entrou, todo nervoso, falando alto:
          No coube nem a metade...
          Nem a metade?
          Nem a metade, sim, nem a metade  repetiu.  Eu no sei que necessidade voc tem de levar tanta coisa... que mania..
          Sou eu quem quer levar tanta coisa? Decidimos juntos o que levar, voc no lembra? Agora eu  que sou a culpada...  Cansada e nervosa, comecei a chorar.
          Tambm no  motivo para tantas lgrimas  disse Jorge mais calmo, em tom conciliador.  Desa comigo, vamos, voc vai me ajudar.
        Jorge tem fama de bom arrumador de mala de automvel  ele prprio se gaba disso , mas dessa vez fracassara. Depois de nova tentativa, com a ajuda do porteiro do prdio, conseguimos encaixar tudo: na mala do carro e na parte de trs onde eu viajaria, espremida.
        Subimos para nos despedir de Milu.
          Conseguiram?  perguntou ela.
          Tudinho, Milu, coube tudo  respondi.  Quando a casa estiver em ordem voc vai passar uma temporada conosco.
        Milu j tinha seu discurso preparado: Minha filha, foi dizendo, trate de se cuidar. A mocidade  uma s, a vida tambm  uma s. No ligue pras coisas que ele te fizer, homem  assim mesmo, escravagista, fuzilava Jorge com o olhar enquanto ele prendia o riso. Quando ele lhe maltratar no diga nada, no chore, num gesto pattico abriu os botes da blusa, abra a blusa, assim, e diga apenas: no me mate aos poucos, mata de uma vez, mata!
         
         
        
      A CASA COMEA A FUNCIONAR
        
        Vrios operrios ainda trabalhavam dentro das portas, quando ns e os meninos entramos para habitar a casa da rua Alagoinhas. Conseguimos a transferncia de Joo Jorge e Paloma do Colgio Andrews, no Rio, para uma escola pblica em Salvador, o Colgio Estadual Manuel Devoto. Sempre quisemos que nossos filhos estudassem ao lado de meninos de classe menos favorecida, fossem colegas de crianas que no tinham tido os mesmos privilgios que eles. Nossos filhos j haviam feito o curso primrio, no Rio de Janeiro, na escola pblica Marechal Trompowski. S depois foram para um colgio particular. Queramos nossos filhos sem empfia, eles deviam conhecer de perto as necessidades do povo.
        
        
        
      Exu, MEU COMPADRE
        
        Manu, arteso do ferro retorcido e do lato, foi escolhido por Jorge para fazer um Exu a fim de enfeitar o jardim: O Compadre vai ser o guardio da casa, disse Jorge.
        L estava ele, enorme, formoso, de cauda virada, chifrinhos e estrovenga, Exu pra ningum botar defeito, nem mesmo Caryb, se roendo de inveja.
        No tardou muito, um recado de Me Senhora pedia que Jorge fosse v-la, com a maior urgncia.
        A me-de-santo havia sabido da existncia do Exu em nosso jardim e estava horrorizada. Tu no tem juzo, seu Jorge? Onde j se viu botar dentro das portas um orix forte desses, sem o fundamento? No quis nem ouvir Jorge, tentando lhe explicar que colocara a escultura no jardim apenas como decorao. Se tu no tem cabea, eu tenho, disse Me Senhora, encerrando a bronca.
        No dia seguinte, mal o sol levantara, apareceu na porta Lol, emissrio de Senhora. Trazia uma enorme sacola, dentro dela o necessrio para assentar o santo: um galo preto, um litro de azeite-de-dend, um litro de cachaa, farofa amarela e alguns charutos. Cavou a terra, fez uma valeta em torno da escultura, nela atirou os charutos, despejou o dend, a cachaa, a farofa e o sangue do galo de pescoo decepado na hora.
        At hoje sigo as instrues de Me Senhora: s segundas-feiras, infalivelmente, chova ou faa sol, dou de beber ao meu compadre, despejo meio copo de cachaa sobre ele, assobio uma msica que Verger me ensinou e, com isso, dou por completada a obrigao. Nas minhas ausncias, Aurlio me substitui.
        
        
        
      EXPLOSO
      
        Montar a casa no era fcil. Casa grande, de muito movimento, tivemos que comprar trs refrigeradores e um freezer. Tudo a postos, ligamos os quatro aparelhos de vez. Ouviu-se um estrondo. O transformador, que servia  rua toda, no agentara a carga, explodira, e com ele nossos aparelhos. Quem pensou que por ser Jorge Amado ele fosse ter todos os privilgios enganou-se: o novo transformador, de alta voltagem, potncia infinitamente superior, com capacidade para beneficiar a rua toda, foi pago por Jorge, dinheiro alto, de seu bolso.
        
        
        
      O SAPO-CURURU
        
        A casa estava pronta e graas ao excelente arquiteto e aos nossos amigos, grandes artistas da Bahia, tnhamos conseguido o que desejvamos: viver numa casa ampla, arejada, agradvel, sem requintes de grandeza, combinando com a nossa maneira de ser, de vida simples, sem ostentao. Uma casa sincera, como disse certa vez Gilberbet, em sua linguagem de arquiteto. Estaramos rodeados de arte e, ainda de quebra, para a satisfao de Jorge, tnhamos at sapos coaxando  noite no laguinho redondo, rodeado de flores.
        Peo licena para interromper o que dizia e contar a histria do sapo-cururu:
        Certa noite, chovia torrencialmente quando ouvimos o coaxar forte de um sapo junto  porta de nossa sala. L se encontrava um enorme sapo-cururu. De onde teria vindo? Esse detalhe no interessou a Jorge. Tivesse vindo ele de onde fosse, devamos, sem perda de tempo, contar a grande novidade a Caryb. Na casa dos Caryb, em Brotas, no havia lagos nem lagoas e, portanto, nada de sapos, o que deixava nosso amigo na maior frustrao.
        No levou meia hora, enfrentando temporal e ventania, apareceu Caryb. Acocorou-se ao lado do cururu e comeou a coar-lhe cabea e costas. O sapo inchou de tal forma que parecia uma bola de futebol. No brinque com ele, compadre, preveniu Jorge, daqui a pouco ele vai comear a soltar veneno por a e veneno de sapo  perigoso. Caryb s desistiu da brincadeira quando o sapo perdeu a pacincia, se movimentou, deu um pinote inesperado e, a largos saltos, sumiu entre a folhagem do jardim.
        
        
        
      
      BRINCADEIRINHA
      
        Resolvi um dia pregar uma pea em meu compadre e, armada de um gravador, registrei o coaxar dos sapos. Fomos  casa de Caryb. Seu ateli ficava nos fundos do jardim, em cima da garagem. Deixei meu gravador no ltimo degrau da escada, junto  porta e, quando a prosa estava bem animada, dei uma saidinha e liguei o gravador. Espera, espera a, gritou Caryb, interrompendo uma frase pelo meio, vocs tambm esto ouvindo? Tenho sapos no jardim, gritou. Foi em busca de uma lanterna, saiu porta afora,  procura dos sapos, sem lembrar que seus compadres tambm eram bons em pregar peas.
        
        
        
      CALASANS NETO
        
        Em nossa casa, feita com tanto carinho, tanta arte, tanta beleza espalhada por todo lado, havia uma falha: a porta de entrada destoava de tudo o mais, era azul, sem nenhuma graa. A porta que faltava s veio a ser colocada alguns anos depois da inaugurao da casa.
        O talentoso artista, autor da bela porta que veio substituir a que era azul, sem nenhuma graa, Calasans Neto ou Mestre Cala, como  chamado, caprichou na provocante Tereza Batista entalhada na madeira que se abre a nobres e a plebeus.
        Mestre Cala conhecera a fundo a herona do romance de Jorge Amado, ao ilustr-lo em 1971. Pcaro, ele soube muito bem recriar a personagem do escritor, dando forma e sensualidade  jovem Tereza, aproveitando a deixa e, por que no?, dar a doutor Emiliano Guedes, que amou Tereza, traos de Jorge Amado. Numa das ilustraes do livro, ele retrata o casal tomando banho de rio, ambos nus, claro!
          Como  que voc se atreve a mostrar meu marido nu, tomando banho de rio, abraado com Tereza, Cala?  pilheriei, fingindo cimes.
        Calasans no  homem de perder o rebolado, no ia perder dessa vez:
          Voc reclama porque no reparou que a minha Tereza  voc todinha.
          Ora, Cala, no me venha com essa conversa, voc fez Tereza de costas, nem se v o rosto.
          E quem falou em rosto?  riu o malandro.  Ela  voc de costas, sem tirar nem pr...
          Do balaio grande  completou Jorge, que se divertia ouvindo a discusso.
        Mestre da gravura e do entalhe, artista tambm do pincel, Calasans Neto pertencia a uma gerao de jovens, do movimento Mapa, formado por um grupo de moos talentosos, a gerao de Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Joo Ubaldo Ribeiro, Carlos Ansio Melhor, Sante Scaldaferri, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos. Esses no eram da fornada dos mais velhos, da gerao de Jorge Amado, Mirabeau, Mrio Cravo e Caryb.
        Conhecamos a todos, admirvamos o talento desses artistas, cada qual na sua especialidade: Glauber Rocha com seu talento cinematogrfico, Sante com sua pintura, Calasans com suas gravuras e seus entalhes, Joo Ubaldo Ribeiro no incio de sua famosa literatura, Fernando da Rocha Peres, Carlos Ansio Melhor, com sua poesia, e Paulo Gil Soares, homem de mil artes nas letras.
        
        
        
      CASA CHEIA
        
        Amigos na Bahia era o que no nos faltava. Nosso crculo de relaes com figuras da intelectualidade baiana era cada vez maior: Vivaldo Costa Lima, por exemplo, tornou-se nosso amigo mesmo antes de habitarmos a Bahia. Inteligncia viva, Vivaldo era quem mais entendia de candombl. Com ele aprendi muita coisa. Nas festas do terreiro do Ax Op Afonj, de Me Senhora, enquanto Jorge, no seu posto de Ob, sentava-se ao lado da me-de-santo, Vivaldo, a meu lado, esclarecia minhas dvidas, explicava-me coisas que, no meu desconhecimento dessa religio, ignorava.
        Quando da visita de Sartre e Simone de Beauvoir  Bahia, Vivaldo os acompanhou, respondeu com enorme competncia a todas as questes que o ilustre casal, interessadssimo no assunto, lhe fez, tornaram-se amigos.
        Outra amizade que conquistou nossa intimidade foi a deValdeloir Rego. Doutor em capoeira, autor de importante livro sobre a arte de lutar capoeira. Valdeloir passou a freqentar nossa casa e muitas vezes nos acompanhou s festas nos terreiros de candombl. Com Valdeloir tambm aprendi muito.
        Foi Odorico Tavares quem descobriu e nos apresentou o artista Emanuel Arajo, muito jovem, quase um menino, porm j um mestre na arte da gravura.
        Fomos pela primeira vez,  casa de Emanuel, levados por Odorico. amos ver os trabalhos, louvados pelo expert em arte, e tivemos uma surpresa. O menino Emanuel nos esperava com um delicioso almoo preparado por ele mesmo. Nessa ocasio o jovem se dedicava a desenhar gatos. A srie de gravuras que nos mostrou nesse dia era de gatos. S gatos, os mais belos, de olhos de todas as cores, impressionantes.
        J havamos visto um trabalho de Emanuel,  venda, na loja de antiguidades que Luz da Serra mantinha no trreo do Hotel da Bahia. Gostamos, porm era um s, em sua casa, diante do desfile de gatos que ele nos apresentou, pudemos nos encantar e ver que o menino iria longe, no havia dvida, ele era um artista de mo-cheia. Desde ento Emanuel ficou sendo nosso amigo, freqentador de nossa casa.
        Luz da Serra, mulher poderosa, tornara-se nossa amiga desde a nossa chegada  Bahia, mesmo antes de comprarmos a casa. Amizade que perdura at hoje.
        
        
      As VELHINHAS SE ENCONTRAM
      
        Lalu chegara para ficar definitivamente. Preparamos um quarto especial para ela, o nico a ser assoalhado e forrado, na enorme casa de telha-v com piso de lajotas.
        Convidei mame a passar uma temporada conosco. Ela e Lalu se davam muito bem  inimigas ntimas , distraam-se contando e ouvindo casos. Lalu gabando os filhos, filho dela no tinha defeito. Mame, mais modesta, bem mais, no elogiava os seus; aventurou-se, apenas uma vez, em conversa com Lalu, a justificar a sorte da filha caula:
         Zlia nasceu com a estrela.                                      
        Lalu no perdeu tempo:  
          Nasceu mesmo, casou com meu filho! Jorge tambm nasceu com uma estrela. S que a dele  bem melhor que a de Zlia, a estrela dele  muito forte, ajuda ele a escrever livros, uma beleza!
        Essas conversas muitas vezes se repetiam e enchiam o dia das duas velhinhas.
        Dona Angelina chegou ansiosa para ver as maravilhas da Bahia, conhecer o Pelourinho do qual ela tanto ouvira falar.
        J naquela poca o Centro Histrico de Salvador estava muito arruinado, casas caindo aos pedaos, muito lixo acumulado pelas ruas. Levei-a ao Pelourinho e  feira de gua dos Meninos, onde chafurdamos na lama para fazer algumas compras. Dona Angelina no gostou e, muito confidencialmente, temendo ofender, me disse: Nunca vi tanta sujeira... Gostaria de ouvir os comentrios de dona Angelina nos dias de hoje. Ela nos deixou h muitos anos, no viu, no chegou a ver a restaurao do Pelourinho, a urbanizao da cidade. O que diria ela? Parece que estou a v-la e ouvi-la: Que beleza! Gente danada! Nunca pensei.
        Habituada a comer verduras e legumes, dona Angelina estranhou. Naquela poca, em Salvador, no havia verduras a escolher. Encontrava-se: taioba, lngua-de-vaca, repolho, abbora, quiabo, maxixe, jil, alface e tomate da pior qualidade.        
          Com um terreno to grande, por que no fazem uma horta?  sugeriu dona Angelina.  Plantem escarola, tomate do bom, alface, couve-manteiga, couve-flor, brcolis, rcula, salso...
        Lalu ouvia atenta a lista de verduras que dona Angelina citava:
          Virgem Maria!  disse ela.  Pra que tanta verdura?  Quem  que vai comer tudo isso? Eu mesma no como, meu filho tambm no gosta de verduras...
        Os planos de dona Angelina iam muito alm da mesa dos Amado:
          Olhe, dona Eullia, vocs podiam at ganhar muito dinheiro vendendo verduras. Nesta casa tem duas garagens e vocs s tm um carro. Ento! Podiam muito bem usar uma para fazer uma quitanda... Seria a nica da rua, nica do bairro.
        Lalu ouvia estatelada a proposta da me de Zlia:
          Olhe, dona Angelina. Vou lhe pedir um favor: a senhora nunca mais me repita uma baixeza dessas.
          Baixeza, dona Eullia? Ento vender verduras  baixeza? Numa terra que no tem verduras, vender verduras  at uma obra de caridade  respondeu mame, revoltada.
          A senhora esquece, dona Angelina, que meu filho  um grande escritor, um homem conhecido no mundo inteiro? A senhora quer que ele vire verdureiro?
        A discusso estava pegando fogo e eu, que at ento me divertia ouvindo-as, resolvi intervir:
          Muito bem. Dona Eullia tem razo em no querer que o filho vire verdureiro, nem teria cabimento uma coisa dessas. Mas eu tenho uma soluo: Jorge no vai nem entrar na quitanda, Lalu fica na caixa registradora e mame recebe e serve a freguesia, ela  muito comunicativa, gosta de contar casos, a clientela vai gostar.
        Mame entendeu que no valia a pena insistir, Lalu se deu por vencedora.
        
        
        
      A CASA DAS FRUTAS
        
        Correu voz que haviam aberto na Barra, no Alameda, uma casa que vendia frutas e verduras vindas de So Paulo. Era a primeira e nica, freguesia enorme. Quem nos deu a boa nova foi Mirabeau. Jorge resolveu dar uma espiada, pois, se ele no fora habituado a comer verduras e no sentia falta delas, adorava frutas e atrs das frutas  que ele queria ir.
        Mirabeau tinha um chofer de nome Edgard, que o servia desde os tempos de solteiro. Algumas vezes na vida, por circunstncias diversas, Mirabeau deixou de ter automvel mas nunca dispensou o chofer. Na ocasio da abertura da Casa das Frutas, Edgard exercia sua verdadeira funo: dirigia o carro de Mirabeau.
        Mirabeau chamou Edgard.
          Voc sabe onde fica a Casa das Frutas?
          Sei, no, doutor.
         Me disseram que fica no Alameda. Chegando l a gente pergunta. Deve ser fcil  disse Mirabeau.
        Assim dizendo, Mirabeau chamou Jorge e ambos embarcaram no automvel, Edgard ao volante. Ao chegarem ao local indicado, Edgard encostou o carro:
          Vou perguntar ali, no ponto de txi, na certa eles sabem onde fica a tal...
        Voltou sem a indicao:
          Ningum sabe, no, doutor.
          Vamos mais adiante  ordenou Mirabeau. Rodaram mais um pouco:
         V perguntar naquela padaria  mandou Mirabeau. Enquanto Edgard ia em busca do endereo, Jorge divisou, mais adiante, um cartaz anunciando: Casa das Frutas. Ao voltar, ainda uma vez sem a indicao, Mirabeau lhe mostrou o anncio da casa.  ali mesmo.
        Somente dias depois ficamos sabendo do engano de Edgard. Ele confidenciou a Arthur, filho de Mirabeau, que havia entendido casa das putas. No ponto de txi o chofer lhe dissera: Eu mesmo no sei, no. Mas se voc descobrir, me avise. Quanto ao empregado da padaria: Casa de puta mesmo, por aqui no tem. Se tivesse eu saberia, mas est vendo aquele prdio, ali adiante? Dizem que l moram umas francesas que facilitam.
        
        
        
      FLORINDA DOS SANTOS
      
        Uma das coisas que me encantou, durante anos, foi ver, quando menos esperava, passar em minha frente, nas ruas da Bahia, um vulto de mulher coberta da cabea aos ps por uma mortalha de cetim roxo, sria, calada, excessivamente maquiada, andando entre a multido. No era esmoler mas no se acanhava em pedir restos de ruge, batom, qualquer maquiagem. Ningum conhecia a sua identidade. Nem o nome dela sabiam. Corriam lendas sobre sua vida, falavam de amor malparado, de mulher rica que perdera a fortuna, de caso de loucura, mas nenhuma das histrias que ouvi me convenceu. A mulher de roxo de repente sumiu, nunca mais foi vista. Somente agora, no jornal da TV, soube seu nome. Florinda dos Santos, a mulher de roxo, falecera aos oitenta anos num asilo onde fora internada havia tempo.
        
        
        
        
        
      HSPEDE INESPERADO
        
        Um belo dia tocaram a campainha da porta. Fui atender, dei de cara com um senhor idoso, uma valise de viagem depositada ao seu lado, junto  porta de entrada. Embaixo, na calada, dois rapazes que o acompanhavam me deram um al j se despedindo, o automvel  espera, de porta aberta, disseram: Ele  tcheco,  um diretor de cinema, veio do Rio a convite de Walter da Silveira que vai prestar uma homenagem a Jores Ivens e a este cavalheiro, amanh. Ele vai se hospedar a com vocs. No tive tempo de dizer nada, eles se foram.
        O cavalheiro tcheco, professor ilustre da Academia de Artes de Praga, me cumprimentou em tcheco: Dobriden. Dobriden, respondi a seu cumprimento e no fui mais adiante. Alm do tcheco o cavalheiro falava ingls, mas preferia falar tcheco j que lhe haviam anunciado que os hospedeiros na Bahia, ex-moradores da Tchecoslovquia, falavam a lngua correntemente. Exageraram. O pouco do tcheco que eu aprendera, quelas alturas, j estava quase que completamente esquecido, e Jorge tambm guardara apenas algumas palavras.
        O professor Broussel (no lembro se o nome era exatamente esse) entendeu logo que no poderia manter longas conversaes conosco, nem longas e nem curtas. Ele participara de um festival de curtas-metragens, no Rio, chegava  Bahia convidado por cineastas baianos que iam homenage-lo, assim como a Jores Ivens, famoso cineasta, internacionalmente amado e respeitado. Ivens no pudera vir  Bahia nessa ocasio, viria depois a convite de Jorge, velho amigo de longos encontros pela Europa.
        Acomodei o professor tcheco no apartamento da frente, junto  sala. Ele me perguntou se havia laranjas em casa e eu lhe dei uma cestinha com laranjas, um prato e talheres. Ele ento me pediu gua fervendo e um recipiente onde coubessem as laranjas. Colocou duas laranjas dentro do recipiente, despejou a gua fervendo em cima, at cobri-las. S depois de alguns minutos, descascou-as. Me contou das recomendaes que lhe haviam feito, de s comer frutas no Brasil depois de matar os micrbios.
        A homenagem ao professor tcheco seria realizada no dia seguinte, s onze, no Cine Guarany, na Praa Castro Alves. Eu ia lev-lo, pois nosso chofer Garrincha mostrara-se incapaz de dirigir o Mane Pato e fora despedido. Estvamos  espera de um novo motorista que devia chegar a qualquer hora.
        Pela manh, depois do caf, enquanto aguardvamos que o professor arrumasse os seus pertences, ouvimos um rudo estranho que vinha do banheiro: floc, floc, floc... O que estaria acontecendo? Joo e Paloma, que iriam conosco, estavam intrigados com o estranho barulho que no parava: floc, floc, floc... Por fim, o professor abriu a porta, numa das mos trazia a valise  depois da homenagem ele iria diretamente para o aeroporto , na outra, algo branco, embolado. Ao tomar o carro recusou-se a sentar na frente ao meu lado, cedeu o lugar a Paloma, sentou-se atrs com Joo.
        Um vento forte entrava pela janela traseira e eu notei que as pessoas que passavam na rua paravam para olhar. Dei uma espiada para trs: o velho desfraldara uma camisa branca para fora da janela, verdadeira bandeira tremulante; a camisa era, sem dvida alguma, a que ele lavara pela manh, lavagem causadora do intrigante rudo, e ele agora pretendia sec-la.
        Guido Arajo, jovem cineasta baiano, um dos promotores do evento daquela manh, nos recebeu  porta do teatro, conduziu o ilustre diretor ao palco onde Walter da Silveira e outras personalidades o aguardavam para darem incio  cerimnia.
        
        
        
      GOLPE DE ESTADO
      
        Aurlio, o novo motorista, veio avisar que Dr. Wilson Lins e dona Anita, estavam chegando. Havamos passado dias de angstia, com os boatos polticos que corriam, boatos alarmantes de golpe militar.
        Jorge estivera em So Paulo e no Rio, fora tratar com a editora a publicao de Os pastores da noite, romance que acabara de escrever.
        Jorge sara do Rio para a Bahia com o irmo, James Amado, num Peugeot novo que comprara para substituir o arruinado e pranteado Mane Pato, que ficara no ferro-velho para sempre.
        Os boatos sobre o golpe que se armava eram tantos e tais que, ao verem os dois irmos pegando estrada, comentaram: j esto fugindo.
        Os boatos se confirmaram na vspera dessa inesperada visita de Wilson Lins. Rdio e televiso anunciavam a deposio do presidente Joo Goulart, que fugira para o Uruguai, tropas na rua, no Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, cunhado do presidente, comandava um movimento contra o golpe.
        Os generais reformados pelo presidente no estavam to submissos e conformados como ele supunha. Era anunciado o nome do general Humberto de Alencar Castelo Branco, para substituir Joo Goulart.
        Telefonamos para alguns amigos no Rio e sentimos na voz de todos que voltara a prudncia ao falar por telefone. A censura e a autocensura j andavam  solta comboiando toda a sorte de restries.
        O sorriso estampado no rosto, olhos brilhando de satisfao, Wilson era o prprio vencedor do golpe, golpe chamado pelos golpistas de revoluo:
        Em nome da revoluo... disse ele, mas no o deixei terminar a frase. Olhe, Wilson, no venha falar em revoluo nesta casa! Estamos cansados de sofrer, cansados de golpes militares. Me admira voc, nosso amigo, vir com essa conversa de revoluo, revoluo fajuta, fascista, que vai acabar com a liberdade, vai botar todo mundo de novo na cadeia... Diante da minha violncia Anita quis reagir, mas Wilson no deixou. Vim aqui para oferecer meus prstimos, apenas isso, justificou-se ele.
        Sem mesmo lhe pedir, acabamos precisando da ajuda de Wilson Lins. Homem cotado pelos cabeas do golpe, ele mesmo um dos inocentes teis, conseguiu libertar Joo Jorge, que fora espancado e preso ao participar nas ruas de uma passeata estudantil. Nem foi preciso recorrer a Wilson. Ao saber da priso de nosso filho foi ele quem, espontaneamente, se mexeu, no teve dvidas em acordar, de madrugada, uma alta autoridade, tirou Joo da cadeia, veio traz-lo em casa, de manhzinha.
        Nossos amigos andavam preocupados com o que pudesse acontecer a Jorge. Comeavam as invases de lares, os livros de Jorge Amado apreendidos, os leitores tachados de comunistas por lerem tal escritor. Temerosas, as pessoas tratavam de esconder os livros proibidos.
        Ao voltar de uma viagem  Unio Sovitica, havamos trazido miniaturas do Sputnik, novidade, coisa tola, mas que agradara os amigos. Depois desse malfadado 1. de abril at os pequenos Sputniks, por prudncia, foram destrudos por alguns de seus apavorados possuidores.
        A preocupao dos amigos de Jorge era saber se ele pretendia exilar-se ainda uma vez. Daqui no saio, respondia Jorge. Se quiserem me prender, que venham, mas no creio que tenham coragem de tocar em mim, a repercusso no estrangeiro os amedronta.
        O golpe iria, certamente, prejudicar o lanamento do livro novo, Os pastores da noite, apenas sado da impressora. Dmeval Chaves, dono da livraria e nosso amigo, chegou a sugerir o adiamento da tarde de autgrafos. Jorge no concordou, e na tarde do lanamento a Livraria Civilizao Brasileira ficou abarrotada de amigos, de leitores, heris arriscando a prpria segurana, e de olheiros da polcia poltica.
        Depois dessa tarde, pelo que se soube, algumas residncias foram visitadas pela polcia, vrias pessoas intimadas a depor para responder a perguntas que tais: Qual a sua ligao com Jorge Amado?
         
         
         
        
      DONA ZLIA ENTRA NA DANA
        
        J que falei em movimento estudantil e contei da priso de Joo Jorge, peo licena para continuar no assunto e contar um episdio ocorrido com Paloma e eu, fato que se deu alguns anos depois quando nossa filha j cursava o Colgio de Aplicao.
        Naqueles tempos de descontentamento, todo motivo era motivo para que os estudantes levantassem a voz, se organizassem.
        Dessa vez o que os incomodava era a assinatura do Acordo MEC/USAID. A medida mexera com os estudantes universitrios, levando-os a promover uma passeata e concentrao em frente  reitoria para protestar junto ao reitor. O Colgio de Aplicao, onde Paloma estudava, pertencia  universidade, e seus alunos aderiram ao movimento. Tomei conhecimento da reivindicao, achei-a justa.
        Paloma chegou em casa, toda inflamada:
          Me, amanh vou participar de uma passeata. No adianta dizer que no.
        Ela acompanhara nossa angstia na ocasio em que Joo Jorge fora preso e temia que eu a aconselhasse a no se envolver. Enganara-se redondamente. Perguntei-lhe o motivo da passeata e, ciente, quis saber:
          A que horas vai ser essa concentrao?
          Ao meio-dia, quando terminar a aula. Para grande espanto de Paloma, eu disse:
          Muito bem, eu tambm vou.
         Voc vai, me? Vai mesmo? Mas a passeata  s para os estudantes, no  para as mes.
          Voc no conhece tua me, menina  disse Jorge, que ouvia o dilogo , ela est doidinha para ir... deve estar morrendo de saudades dos tempos dela... Tua me no foi brincadeira, Paloma, ela no perdia uma passeata, uma concentrao... Foi numa dessas que nos conhecemos, e ela me pegou, voc sabia?
        Eu no estava doidinha, morrendo de saudades de uma passeata, como pilheriara Jorge. Eu estava, isso sim, preocupada com minha filha, com aquela juventude inexperiente que poderia fazer bobagens, botar tudo a perder. Com minha velha experincia poltica, testemunha e vtima de vrios retrocessos democrticos, retrocessos desastrosos, devidos exclusivamente  inpcia de falsos dirigentes, queria estar ao lado dos estudantes tentando ajud-los, impedindo-os de praticar atos de vandalismo.
        
        
        
      A PASSEATA
        
        Cheguei antes da hora marcada. Tive dificuldade para estacionar o carro, o bairro do Canela estava intransitvel, centenas de adolescentes se aglomeravam nas adjacncias e em frente ao Colgio de Aplicao. Procurei por Paloma, ela ainda no havia sado, fiquei esperando junto ao porto de entrada. De repente ela chegou acompanhada de uma professora. Ao me ver, gritou, eufrica: Me. Olhou para a professora, que havia, minutos antes, tentado dissuadi-la de participar da passeata dizendo-lhe: Pense em sua me, e disse: Est vendo? Esta  minha me. Se a me no tem juzo, deve ter pensado a professora, lavo minhas mos. Disse qualquer coisa que no entendi e entrou no colgio.
        No meio de tantos jovens eu me sentia a prpria choca, cuidando dos pintinhos. Samos andando e, ao ver um menino colhendo pedras no cho, dei meu primeiro grito de comando: Vamos fazer uma passeata pacfica, nada de provocaes, jogue fora essas pedras... Surpreso, o menino me obedeceu.
        A passeata subia a Avenida Sete de Setembro, paramos em frente ao Palcio da Aclamao. Enquanto os meninos gritavam, pedindo escolas para as crianas, tudo bem, eu gritava com eles, mas quando vi que voltavam a colher pedras do cho, dispostos a quebrar os vidros das janelas do Palcio, subi num monte de pedras encostadas a um poste, abracei-me nele e voltei a ordenar, aos gritos, com toda a veemncia, que deixassem as pedras no cho e, sempre aos berros, fiz-me entender: aquela no era uma passeata de baderneiros, de provocadores, botei toda a minha experincia em funcionamento e eles me ouviram.
        Passvamos pela casa de Genaro de Carvalho, em frente ao Hotel da Bahia. Da janela, ele chamou Nair e ambos no acreditaram em seus olhos ao me verem entre os meninos, gesticulando e gritando com eles.
        Nosso destino era a reitoria, tnhamos combinado cantar o hino nacional para anunciar nossa chegada, mas no deu tempo: fomos recepcionados por um camburo de onde saltaram vrios soldados com mscaras, em disparada sobre ns, atirando bombas de gs lacrimogneo. Havia chovido e as plantas do jardim da reitoria estavam molhadas; tambm molhados estavam os carros estacionados. Com um desembarao enorme, os jovens molhavam os rostos com as folhas e as flores, empapavam lenos na gua depositada nos caps e nos vidros dos automveis, passando-os molhados no rosto a fim de neutralizar o efeito do gs. Meninos sabidos, mais experientes do que eu supunha. Segui-lhes o exemplo, molhei meu rosto com flores mas, mesmo assim, passei algumas horas sentindo um incmodo ardor nos olhos.
        
        
        
      LALU SE ACIDENTA
        
        Durante o almoo, o guardanapo de Lalu escorregou de seu colo, ela baixou-se para apanh-lo, perdeu o equilbrio, a cadeira tombou e, bumba, l se foi ela ao cho. Coisa de segundos para interromper um almoo, alarmar a todos. Tentvamos levant-la, mas ela se recusava num gemido s: Ai, ai, ai, me deixem, quebrei minha perna. A muito custo, conseguimos coloc-la na cama e, enquanto esperava o mdico que Jorge chamara, ela se lamuriava: Ai, meu Deus, o que vai ser de minha vida.. Velha e de perna quebrada! Osso de velho no cola nunca.., No vou mais poder andar... No adiantava querer consol-la, dizer que certamente no fora o fmur o osso fraturado, que talvez nem houvesse fratura. Lalu se ofendia:  porque no  tu que est sofrendo as dores que estou sofrendo,  por isso que tu fica a dizendo essas coisas, pensando que estou fingindo... ai, ai, ai...
        O mdico no demorou a chegar, trazendo o necessrio para fazer uma radiografia de cujo resultado s se soube no dia seguinte: completamente descartado o diagnstico de Lalu: nada de fratura na perna, apenas trincara um osso na virilha, pequena rachadura sem importncia.
        Tu viu!, disse-me ela ao ficarmos a ss, no quebrei a perna, no, foi s a caixa da periquita. Fez uma pausa. Tambm ela j no tem mais serventia, no , fia?
        No foi preciso engess-la, apenas o repouso e a imobilidade por alguns dias seriam suficientes para recuper-la. Eu estava sempre a seu lado, mas um dia necessitei sair com Jorge e ao voltarmos encontramos a cama de Lalu vazia. Chamei por Eunice, nossa empregada, e, tranqilamente, ela nos disse que dona Eullia estava passeando no jardim. Alarmados, fomos ao seu encontro e qual no foi a surpresa: Lalu passeava refestelada nos braos de Rufino. Emocionados, vimos a cena: o homem forte, braos estirados para a frente e sobre eles uma pluma, frgil, delicada, feliz da vida entre o arvoredo e as flores, a nossa Lalu.
        Creio ter sido a emoo daquela tarde o motivo, vlido por toda a vida, de nosso reconhecimento, carinho e pacincia com Rufino. (Pode parecer inveno minha mas no : interrompi o que estou escrevendo para atender a Rufino, dar-lhe o dinheiro para que pague a conta de gua atrasada de trs meses. Com seu eterno sorriso, estendeu-me o aviso, dizendo-me apenas: J esto pra cortar.)
        
        
        
        
      LADEIRAS DA BAHIA
      
        Esta cidade do Salvador  uma cidade de muitas ladeiras, seus nomes os mais belos e sugestivos:
        Ladeira do Aquidab, Ladeira dos Perdes, Ladeira da gua Brusca, Ladeira da Preguia, Ladeira do Quebra Bunda, Ladeira da Roa do Lobo, Ladeira do Curriachito, Ladeira do Taboo, Ladeira do Sangradouro, Ladeira Amparo do Toror e mil outras, cada nome fazendo refletir sobre sua origem. A do Quebra Bunda, penso eu, deve ter sido dada aps a queda de algum.
        
        
        
      DAD REALIZA SEU SONHO
        
        Na Ladeira dos Perdes morava Dad, viva de Corisco, lugar-tenente de Lampio. Dad perdera uma perna numa luta do cangao. Ferida e sem recursos para tratar-se, a perna gangrenara e o jeito fora cort-la. Sentada o dia todo em frente a uma mquina de costura, ela vivia de confeccionar embornais de lona, bordados, iguais aos que fizera para Lampio e seu bando. Embornais coloridos e bordados, verdadeiras belezas.
        Conhecramos Dad ao irmos em busca de comprar embornais, uma amiga nos dera o seu endereo. Estvamos de viagem marcada para a Europa e queramos levar alguns para presentear amigos. Da para a nossa amizade com Dad foi um pulo. Casada pela segunda vez, vrios filhos, ela colara, pelas paredes de seu modesto quarto, retratos, recortes de jornais e revistas do bando de Lampio e, sobretudo, de Corisco, de quem falava com grande ternura. Contou-nos que fora raptada por ele aos quatorze anos, ele passara a cavalo, a apanhara e a envolvera numa manta. Fora muito feliz com o cangaceiro, no admitia que falassem mal dele. Transfigurava-se ao contar os episdios por que passara, chorava ao recordar a barbaridade que haviam cometido, cortando as cabeas de Lampio, de Corisco e dos demais do bando, conservadas em formol, sob uma redoma de vidro, expostas  visitao pblica, no Museu Nina Rodrigues, na Faculdade de Medicina.
         Nunca permiti que enterrassem o corpo de Corisco. Um corpo deve ser enterrado inteiro, com cabea, disse ela. Espero que um dia ainda aparea um governador que se d conta desse horror e libere as cabeas. Quando isso acontecer, disse-nos, eu vou fazer o enterro. Indicou-nos um ba de flandres, debaixo de sua cama: Ali dentro esto os ossos de Corisco esperando pela cabea, para o enterro.
        Dad e o segundo marido dormiram durante muitos anos sobre o esqueleto de Corisco, at que o governador Luiz Viana Filho, homem de letras, culto e civilizado, apenas eleito acabou com aquela monstruosidade, ordenando que as cabeas fossem enterradas.
        Havia muita gente no Campo Santo naquela tarde assistindo ao enterro de Corisco, realizado por sua amada. L estava, firme, solidria, Maria Amlia, mulher de Roberto Santos, que por vezes a socorrera. Contribumos para a compra do caixo. Quero um caixo decente para ele, dissera-nos Dada. Ao lado dela, vimos Corisco ser enterrado, esqueleto e cabea juntos no mesmo caixo, num caixo decente.
        
        
        
      BIOGRAFIA DE CORISCO E DAD
        
        Sabedor da amizade e do carinho de Jorge por Dad, tempos depois do enterro de Corisco um cidado telefonou: queria, em nome de Dad, falar com Jorge Amado um assunto da maior importncia. Sendo em nome de Dad, Jorge marcou entrevista com o cavalheiro. Ele apareceu, a vigarice estampada no rosto:
         Seu Jorge Amadofoi dizendo , tenho uma proposta a lhe fazer, empreitada que pode nos dar muito dinheiro.      
        
        Jorge no mostrou curiosidade pela proposta, perguntou-lhe:
          Como vai Dad? Esteve com ela?
          No  bem isso  confessou o cara.  Andei entrevistando Dad...
        No foi preciso ouvir mais nada, Jorge entendeu tudo, foi levantando. O sujeito estava ansioso para explicar a que vinha.
          Veja bem, seu Jorge  insistiu , tenho um belo material, material precioso das entrevistas com Dad e das pesquisas que fiz sobre o bando de Lampio, de Corisco, o amor de Dad. Pode dar um livro e tanto.
          J est escrevendo o livro?  perguntou Jorge
         Bem, a minha participao no livro ser apenas de pesquisador, essa  a minha especialidade. Pensei que o senhor poderia, com a prtica que tem, escrev-lo em trs tempos. Ns dois o assinaramos. Que tal?
        Vendo Jorge calado, cara de poucos amigos, ele ainda ousou:
          A gente pode at dar uma coisinha  Dad, o que acha? Jorge j no achava mais nada, perdera a pacincia. Levantou-se, despediu-se:
          A sua proposta no me interessa. Me desculpe, tenho o que fazer.  Chamou Aurlio, pediu que acompanhasse o cidado at a porta.
        Dias depois, o "pesquisador" voltou  carga, uma, duas, trs vezes, tentando, por telefone, convencer o escritor a ser seu scio no livro. Cansados dos repetidos telefonemas, resolvemos no atender mais, deixamos que a secretria eletrnica gravasse as mensagens. Uma delas, creio que a ltima, porque depois ele desistiu, foi tarde da noite. Uma voz de alm-tmulo dizia: Jooorge Amaaado, h Jooorge Amaaado! Quem fala aqui  a alma de Corisco... ouviu bem? Coooriiiscooo... Faa o livro de Dadaaa, Jorge Amado! Faa o livro de Dadaaa... ouviu bem? H! Jorge Amado... seno eu vou a com Lampio te puxar os ps...
        
        
      As CAMPAINHAS TOCAM        
      
        Histrias como a da alma de Corisco e outras se repetem nesta nossa casa do Rio Vermelho. No fossem elas cansativas seriam at pitorescas. Tocam as campainhas do telefone e da porta, algumas vezes eu atendo o telefone e ouo histrias e pedidos como, por exemplo, o da senhora que, ao terminar de ler Capites da areia, descobrira o bom corao do escritor e o carinho dele pelas crianas:
           dona Zlia? Jorge Amado no pode atender? Ento eu falo com a senhora mesmo: eu tenho uma filha de dez anos, menina estudiosa, s tira notas altas mas... no tem computador para fazer os trabalhos... Ela me pede sempre um computador e eu no tenho dinheiro para comprar. Ento pensei... Talvez o Jorge Amado ou dona Zlia...
          Um computador? A senhora quer um computador? Entendi direito?
          Isso, dona Zlia, mas no precisa ser grande, pode ser pequeno mesmo... desses portteis, ela  uma criana...
        Outro telefonema:
          E dona Zlia? Jorge Amado no pode atender? Ento eu falo com a senhora mesmo. Sabe o que ? Minha professora mandou que a gente lesse o livro de Jorge Amado, Mar morto. Eu no tive tempo de ler e preciso falar sobre ele hoje. Se no souber, tiro zero. Eu queria ento que Jorge Amado, ou a senhora, me contasse o enredo do livro, pode ser mais ou menos, no precisa ser tudo...
        Outro telefonema:
          Jorge Amado no pode atender? Ento eu falo com a senhora mesmo. Sabe o que ? Eu tenho uma filha muito bonita e muito inteligente, uma verdadeira artista. Ela tem vontade de trabalhar no teatro. Eu queria pedir ao Jorge Amado, eu agradeceria muito se ele pudesse fazer um teste com ela no teatro dele... Ela  uma gracinha, garanto que ele vai gostar, vai contrat-la...
        Em homenagem ao escritor, foi dado, h um ano, seu nome ao teatro inaugurado na Pituba: Teatro Jorge Amado. Da a confuso, dessa e de outras que telefonam pedindo entradas.
        Desta vez foi a campainha da porta que soou:                     
        Aurlio veio anunciar: Tem um caboclo a na porta, quer mostrar ao doutor Jorge uns versos que ele escreveu. Ocupado, com visitas em casa, Jorge mandou dizer que no estava.                    
        Passaram-se alguns minutos, novamente a campainha da porta soou. Outra vez Aurlio apareceu, na mo uma folha de papel pardo: E o caboclo que voltou. Enfiada no papel uma enorme pena de peru e, abaixo, escrito: QUIS FALA COM NHO-NH  MAS NHO-NH XISCONDEU!
        Ainda um telefonema: no vendo jeito de falar diretamente com Jorge Amado, conformada em se abrir comigo, a voz feminina foi falando sobre o motivo do telefonema:
         O nico bem que possuo na vida  a minha histria. Moro em casa de aluguel, preciso muito comprar uma casinha para morar e quero propor ao Jorge Amado vender a ele a histria de minha vida. No tenho nada escrito, est tudo na minha cabea e se ele estiver de acordo, posso ir  sua casa e lhe conto tudo.  uma histria muito boa, muito forte, vai dar um romance e tanto, com toda a certeza.
        
        
      O IMPERADOR ROMANO
        
        Quando o Concorde fazia a linha Rio de JaneiroParis, Com escala em Dacar, viagem que reduzia  metade o tempo de Vo, Jorge no quis outra vida. Tomamos o Concorde algumas vezes. Com pouco mais de trs horas de vo, desembarcvamos no Senegal e l ficvamos at o vo seguinte a Paris, trs dias depois.
        Em Dacar tnhamos a companhia de Joo Cabral de Melo Neto, velho amigo, na ocasio embaixador do Brasil no Senegal, visitvamos Leopold Senghor, presidente da Repblica, nosso velho conhecido dos tempos do exlio em Paris. Mais do que a companhia formidvel desses ilustres amigos, gostvamos de perambular pelas ruas, andar pelo mercado, conversar com as pessoas, uma graa, um divertimento. Jorge j se tornara popular entre os barraqueiros do mercado, com os quais, durante horas, barganhava o preo da mercadoria, no velho estilo africano. A intimidade entre eles era tal que certa vez, enquanto um deles teve que se ausentar por alguns minutos, confiou a barraca a Jorge, que no queria outra coisa seno mercadejar como se fosse o dono daquilo tudo e at conseguiu vender um bubu. No mercado e numa butique elegante, de uma irm do presidente Senghor, compramos os mais belos bubus, os mais vistosos e coloridos, cmodos para o nosso clima quente. Jorge adotou o bubu como traje de vero na Bahia, veste-o ao levantar-se da cama, solto, em cima da pele, o ar circulando, um conforto.
        Naquela manh, ele escolhera para vestir o mais colorido dos bubus e tomava o caf quando a campainha da porta tocou. Quem seria, quela hora? Eram apenas sete horas.
        Aurlio entrou anunciando:
          Est a na porta um padre.
          Um padre?  admirou-se Jorge.  Tem certeza?
          Tenho sim, senhor. Ele est de batina branca, traz alguns livros para o senhor autografar.
          Mande ele entrar  disse Jorge.
        Homem ainda moo, simptico, o padre comeou por pedir desculpas pelo horrio, to cedo. Convidei-o a tomar caf conosco, ele agradeceu, acabara de tomar, aguardaria que Jorge terminasse para autografar os livros que trouxera, dele e de outras pessoas de sua parquia, em Tucano, cidade de guas trmicas da Bahia.
        O visitante mostrava-se emocionado e, de mos trmulas, transmitiu um convite do prefeito da cidade, se quisssemos fazer uma estao de guas l, seramos hspedes da prefeitura.
        Os livros autografados na mo, o padre passou a falar da emoo que sentia diante de seu autor preferido, citou trechos de romances seus... No sendo afeito a elogios  queima-roupa, muito pelo contrrio, Jorge ficou encabulado, procurou mudar de assunto, como sempre acontece. Dessa vez no conseguia mudar de conversa, o padre era seu fervoroso admirador. Finalmente, cortando um elogio no meio de uma frase, Jorge lhe perguntou:
          O senhor tem conduo?
          No, no tenho. Vim de txi e o despachei na porta. Naquele tempo no havia a facilidade de hoje, de pedir txi por telefone, e o jeito foi mentir:
         Meu motorista deve sair agora e talvez o senhor possa aproveitar a conduo.
        Dizendo isso, Jorge chamou Aurlio e pediu-lhe que deixasse o reverendo onde ele quisesse: Depois voc vai fazer o que mandei. Escolado, Aurlio entendeu tudo. Jorge levantou-se para as despedidas e qual no foi nosso espanto ao ver o padre cair de joelhos diante a seus ps, tentando beijar-lhe a mo, olhos voltados ao cu e exclamar: Que lindo! Parece um imperador romano!
        Ao voltar da empreitada, Aurlio comentou: O padre estava muito impressionado com doutor Jorge. Ele at me perguntou: O mestre traja-se sempre assim? Ao que eu respondi: Da pra mais!...
        (Interrompo meu trabalho para ouvir um recado que Rose me traz: Uma mulher telefonou agora, pedindo para a senhora escrever uma carta para Roberto Marinho pedindo-lhe um emprego de Mista, na Rede Globo, gostaria que fosse em novela.)
        
         
      CASA PRONTA, HSPEDES ILUSTRES
      
        Morvamos na rua Alagoinhas fazia algum tempo, ocupramos a casa com operrios ainda trabalhando nos mil e um retoques de acabamento e, com ela nesse estado, hospedramos os amigos de Pernambuco  as famlias de Paulo Loureiro e de Rui Antunes  e tambm Floriano Teixeira.
        O ltimo operrio que nela trabalhara arrumou as ferramentas, despediu-se. A casa estava pronta. Tudo em seus lugares. Uma beleza. Podamos receber  vontade.
        Muitos amigos foram nossos hspedes, no correr dos anos: Georges Moustaki, Roseana Sarney e Jorge Murad, Pablo Neruda e Matilde, Chico Ansio e Snia Braga, Odylo Costa, filho e Nazareth, Arnaldo Estrela e Mariuccia Jacovino, Antnia e Gabriel Darboussier, Moacir Werneck de Castro com Nen, Tereza e Mrcio Amaral, Beatriz Costa, Nicole e Frank Thomas, Antoinette Hallery, Misette Nadreau, Anny-Claude Basset, Antnio Olinto e Zora Seljan, Srgio Porto, entre tantos outros, vindos de todas as partes.
        S depois de instalados foi que nos demos conta  eu, sobretudo  de que a casa, maravilhosa no lado esquerdo, era um horror no lado direito. Ela fora construda parede e meia com o vizinho, a cozinha era mnima, a rea de servio no passava de um corredor separado, por um muro, do quintal da casa ao lado e no havia lavanderia.
        Bocas santas as de Lalu e de dona Angelina, ao afirmarem que os filhos haviam nascido com uma estrela: um belo dia, soubemos que o vizinho da direita pretendia vender a casa. No perdemos tempo, no discutimos preo, compramos a casa e, novamente, entramos em obras.
        Demolimos a residncia modesta de trs pequenos cmodos acanhados e fizemos uma cozinha grande, lavanderia, rea de servio, quarto para hspedes e um grande gabinete com estantes, muitas estantes para as tradues dos livros de Jorge. O terreno dos fundos, um belo terreno, foi transformado em jardim de rosas, com roseiras trazidas de So Paulo e de outras partes. Caryb jurava que o clima da Bahia no se prestava para roseiras, mas teve que entregar os pontos ao v-las, meses depois, floridas das mais belas rosas do mundo.
        As mais belas roseiras viveram uns poucos anos, viveram at que uma cartinha de Zuca, na vspera de nosso regresso  Bahia, de uma de nossas viagens  Europa, endereada para o Hotel Tivoli, nos contava: Tudo por aqui vai mais ou menos.... choveu muito estes tempos e as roseiras sofreram bastante... Haviam sofrido tanto que, desanimados, resolvemos acabar com o jardim e nele cavar uma piscina que nos vale, at hoje, nos dias quentes de vero e at nos dias quentes de inverno.
        No gabinete feito para Jorge trabalhar, ele nunca trabalhou: Quero saber o que se passa em minha volta, no consigo produzir em ambiente fechado, costuma dizer e  verdade. Jorge escreveu Dona Flor e seus dois maridos no terrao aberto, o gato Nacib, um siams que o acompanhava por toda a parte, era seu peso de papel. Nacib dormia sobre as folhas dos originais, podia ventar  vontade que elas no voavam. Gabriela e Vadinho eram sua famlia, esposa e filho, porm o grande amor de Nacib era Jorge.
        Certa vez, ao v-lo parado diante da mquina, perguntei-lhe se estava tendo algum problema. Nenhum problema, disse ele, preciso consultar uma pgina e estou com pena de acordar Nacib, que dorme to bem...
        Quando chovia, alis, quando chove, pois ele no mudou seus hbitos, chuva de aoite, molhando tudo, Jorge se recolhe, e  numa das extremidades da mesa de jantar que ele instala sua mquina, a papelada, e trabalha sempre ligado ao movimento da casa, querendo saber quem telefonou, quem tocou a campainha da porta.                                                                               
        
        
        
      GATOS
        
        Jorge teve a quem puxar esse seu amor por gatos. Lalu sempre teve um gatinho de estimao, falava muito num de nome Buzgo mas os que conheci foram Professor e Naninha. Professor morreu ao cair de um segundo andar do Hotel pera, onde os velhos moraram, no Rio de Janeiro. Naninha veio com ela do Rio e recebia de sua dona tratamento especial, verdadeira baronesa: Sempre gostei de ter gato fidalgo, dizia Lalu ao ajeitar a gatinha sobre uma almofada de cetim, ao colocar-lhe um babador no pescoo antes de dar-lhe na boca o mingauzinho.
        A empregada que atendia Lalu um dia lhe perguntou:
          A Naninha j comeu, dona Eullia? Lalu ficou danada:
          Que  isso, menina, mais respeito com minha gata! Ela  tua irm, por acaso, pra voc chamar ela de Naninha? Ela  tua patroa, entendeu?,  Dona Naninha! Dona!!!
        Dona Naninha era uma gata bonita, porm sem nenhuma raa. Lalu mandara castr-la: No quero que ela se meta com qualquer gato por a. Ainda se fosse com o gato de Jorge, gato de raa, eu at deixava, mas o burro nem olha pra cara dela, gato muito cheio de vontades, gato prosa. Um dia, Nacib, o gato cheio de vontades, o gato prosa, engasgou-se com uma espinha de peixe e morreu, deixando-nos inconsolveis. Jorge no disfarou a tristeza de perder seu companheiro. Nunca mais vou me apegar a nenhum animal, disse. Nacib morreu deixando viva a Gabriela, uma siamesa como ele, e Vadinho, filho do casal.
        Ao voltar de So Paulo, onde fora tratar com o editor da publicao de um novo livro, Jorge deu uma parada no Rio. Leu num jornal um anncio: Vendem-se gatinhos persa azuis, tratar na rua Santo Amaro... Seu amor por gatos falou mais alto do que a promessa feita de nunca mais se apegar a animais.
        A ninhada anunciada j estava quase toda vendida quando Jorge chegou, s restara uma gatinha. Pois  uma gatinha mesmo que eu quero, disse ele, encantado com o bichinho cinzento de longos plos finos de seda, quase a lhe cobrir os olhos e o focinho achatado. Comprou a bichaninha, com pedigree, detalhe, alis, que para ele no tinha a menor importncia, estava encantado com o animalzinho e isso bastava. A gatinha chegou  Bahia j batizada: se chamaria Dona Flor.
        Dona Flor crescia, cada vez mais linda, Jorge encantado com ela, at que um belo dia a flagramos cruzando Gabriela. Dona Flor no era apenas macho, revelava-se um garanho de primeira. Achamos a maior graa nesse engano de sexo, mas os empregados no gostaram da brincadeira, a decepo foi geral, sentiram-se logrados e trataram de mudar-lhe o nome: Onde  que j se viu um macho ter nome de mulher?, dizia Eunice, preconceituosa. Passaram ento a cham-lo de Dom Floro. Para ns ele continuou sendo Dona Flor, o pai de Chacha, que nasceu da sua primeira cruza com Gabriela, gatinha linda, de plos brilhantes, escuros, olhos de mbar, grandes e amarelos. Seu nomenome de uma herona argentina  foi sugerido por Pedro Jos Ento, jovem argentino, namorado de Paloma na poca.
        Poderia, ainda uma vez, pedir licena para contar que Chacha ficou sendo minha gata com quem eu conversava nos passeios pelo jardim. Mulher de Vadinho e de todos os gatos da redondeza, Chacha insistia em dar cria ao meu lado e, certa vez, aps uma operao que me obrigara a ficar em repouso, ela, praticamente, induziu Jorge a forrar minha cama com jornais e plstico e pariu sobre meu corpo... A cada intervalo de um gatinho para outro, eu falava com ela, massageava-lhe a barriga, mas... fico por aqui com os gatos, j falei demais neles. Deixo at de contar detalhes sobre um casal que tivemos, vindos da ilha inglesa de Man, no mar da Irlanda, gatos extraordinrios, que tinham a postura e andavam aos saltos, como coelhos, mortos por Chacha numa crise de cimes.
        
        
        
      O GOLPE DO BICHO-PREGUIA
        
        Falarei, se me permitem, num bicho-preguia em nosso jardim.
        Tudo indicava que o rapaz, parado na esquina da padaria, no Largo de Santana, vendia o enorme animal peludo que trazia nos braos.
         Pare, Aurlio, quero ver que bicho  aquele  disse Jorge. Aurlio deu a volta na praa, parou na esquina:
           um bicho-preguia. Olha s a cara dele!
        Jorge pagou pelo animal o que o rapaz lhe pediu, achou caro mas pagou, iria enriquecer o arvoredo l de casa. Pediu segredo a Aurlio, no devia me dizer nada, soltariam o bicho no terreno sem que eu visse, queria fazer-me surpresa.
        Quando me mostraram a preguia subindo, lentamente, num p de mulungu, nem de longe acreditei que ela tivesse aparecido sozinha, com suas prprias pernas, mas fiquei contente, chamei as crianas, todo mundo de cabea para cima assistindo  lenta trajetria do animal.
        No fim da tarde, j no havia mais uma nica folha no mulungu. Zuca disse logo:  a planta que o bicho-preguia mais gosta. Tnhamos trs ps de mulungu e, em dois dias, eles ficaram reduzidos ao toco, no sobrou uma folha sequer. No quarto dia quem sumiu foi a preguia. Nem cogitamos em mandar procur-la, em pouco tempo o animal daria cabo de nossas rvores com tal competncia que faria inveja s savas destruidoras.
        Dias depois, quem  que estava firme, na esquina da padaria no Largo de Santana? O mesmo rapaz que nos vendera o animal. Ali estava ele tentando passar adiante o bicho-preguia, certamente o seu ganha-po.
        
      CASA MOVIMENTADA
      
        As portas de nossa casa estavam sempre abertas para os amigos. Trouxemos da Europa, certa vez, uma quantidade boa de queijos e convidamos alguns amigos para sabore-los, num domingo pela manh. Reunidos em torno dos queijos e do vinho, estavam: Caryb e Nancy, Mirabeaue Norma, Joo Ubaldo Ribeiro, Francs Switt, Alexandre e Judy Watson, Jenner e Lusa, Lev Smarchewski, Coqueijo e Aydil, Gilberbet e Snia, muita conversa, muita cantoria e muita risada.
        Ainda havia muito queijo e vinho, repetiramos aquele encontro delicioso. A notcia se espalhou e, no domingo seguinte, em vez de quinze pessoas, apareceram vinte. O nmero de conhecidos e desconhecidos, parentes e aderentes, que apareciam a cada domingo foi crescendo: Soubemos que vocs esto recebendo aos domingos... open house... E, de repente, nos demos conta de que, mesmo sem queijo francs, estvamos sendo obrigados a receber, aos domingos pela manh, dezenas de pessoas em nossa casa. O que fora satisfao e alegria tornara-se uma obrigao, trabalheira sem tamanho, um cansao para ns.
        Felizmente, uma viagem ao estrangeiro nos ajudou a terminar a esbrnia das manhs dominicais.
        
        
        
      UM EB SEM RUMO CERTO
        
        Jorge reservava as tardes de domingo para uma rodada de pquer. Por vezes, quando os parceiros eram muitos, faziam duas mesas: Mirabeau, Mecenas Marcos, Negro Batista, Odorico Tavares, Yves Palermo, os infalveis. Enquanto os homens jogavam pquer, as mulheres se acabavam no bigorrilho ou no buraco: Norma, Nancy, Josette, Emina, Stella Robato e eu. O nico homem a jogar conosco, de vez em quando, era Alexandre Robato, cineasta, fotgrafo, dentista, homem cheio de bom humor. Caryb no gostava de jogo, mas vinha com Nancy, ficava desenhando.
        Um dia ouvi Lalu falando a Jardelino, seu irmo mais novo, Jarde, como ela o chamava: Tu nem imagina, meu irmo, os amigos de Jorge aqui na Bahia no trabalham, so todos artistas, todos vagabundos, s vivem pintando quadros, cantando, gostam de conversar, de rir e de jogar baralho... O nico trabalhador, deles todos,  Jorge, vive escrevendo o coitadinho, s vezes tenho at pena...
        Num domingo  tarde, depois de uma movimentada partida de bigorrilho, ao despedir-me das parceiras, senti forte dor nas costas. Certamente apanhei uma corrente de ar, pensei. Jorge me massageou, mas a dor no foi embora. Passei uma noite incmoda, a estranha dor persistia.
        Pela manh, apareceu Caryb com Olga de Alaketo, me-de-santo, nossa amiga.
        Caryb tivera um sonho muito estranho: sonhara que eu tinha tido um filho e a criana nascera andando e falando. Ao passar pela casa de Olga, coisa que costumava fazer ao deixar os filhos no colgio ali nas imediaes, ao tomar o cafezinho com a me-de-santo, contou-lhe o sonho que tivera comigo. Olga, dona dos mistrios e dos segredos dos encantados, arregalou os olhos, no quis encompridar conversa: Vamos agora mesmo  casa de Jorge, Zlia est correndo perigo de vida... Prevenida, com um ramo de folhas variadas no brao, ela entrou no quarto onde eu me encontrava com dores, sem poder me levantar:
         Isso  trabalho feito aqui dentro das portas, afirmou. Vocs tm alguma empregada que  de candombl? Ns no sabamos mas, depois de uma sondagem, tivemos conhecimento de que a cozinheira lidava com ebs. Tudo ento ficou claro: a cozinheira queria dobrar Jorge, que se recusara a aceitar em casa, como empregada, sua filha com uma criana de colo. Orientada, ningum soube por quem, a cozinheira ento depositara um p branco nos quatro cantos da casa, aferventara umas ervas, jogara tudo pelas escadas da rua. Segundo Olga, nas ervas atiradas porta afora, estava o perigo, perigo s vezes at de morte. Como Jorge tem corpo fechado, explicou ela, nada pega nele, a mandinga virou sobre a pessoa mais prxima: Zlia.
        Como que por milagre, depois de umas sacudidas das folhas, que Olga trouxera, em cima de mim, e de palavras em lngua nag, as dores sumiram.
        
        
        
      O ANEL DE JUREMA
        
        Bm toda a literatura de Jorge Amado sente-se o destaque que ele d aos mistrios das ruas da Bahia, no poder dos encantados. Vim compreender realmente a verdade dessas afirmaes ao mudar-me para Salvador, ao conviver com seu povo, com seus preceitos e segredos.
        Num domingo  tarde, enquanto Jorge e eu dormamos a sesta, Beatriz Costa, atriz portuguesa, nossa hspede na ocasio, atendeu  porta. Uma senhora, muito aflita, queria falar com Jorge. A visitante era de So Paulo, estava h dias procurando encontrar-se com o escritor, devia regressar no dia seguinte. Beatriz despachou-a: No pode, o escritor precisa de descanso,  preciso respeitar... Tivemos pena da pobre que, segundo Beatriz, partira chorando.
         noitinha, apareceu Caryb, vinha nos chamar para ir  festa de Oxssi, no candombl de Me Senhora.
        A festa comeara, j fora oferecido o pad a Exu, as filhas-de-santo danavam, quando, de repente, Beatriz apertou meu brao: Olhe l, a mulher Que esteve  tarde na vossa casa... De aspecto simples, a senhora estava acompanhada de um casal.
        Assim que as filhas-de-santo foram levadas para mudar o traje, Jorge levantou-se da cadeira dos obs, ao lado de Me Senhora, veio para fora, Beatriz e eu o acompanhamos. A paulista precipitou-se sobre Jorge:
          O senhor  Jorge Amado, no ?
          Sim, senhora  confirmou Jorge.
        Sem nenhum prembulo, ela foi direto ao assunto:
          Jorge Amado, onde  que est meu anel?
        Nesse momento, vimos Camafeu de Oxssi andar em nossa direo. Sem fazer nenhuma pergunta  mulher, Jorge respondeu-lhe:
          Seu anel est com Camafeu de Oxssi.  Assim dizendo, apresentou-a a Camafeu:   ele quem tem seu anel.
        A mulher, ento, tirou da bolsa um papel com um desenho, mostrou-o a Camafeu:   
          O senhor tem este anel?                                                   
          Tenho, sim senhora  disse ele.  	                                     Resumo aqui a histria da forasteira: nunca soube seu nome   nem seu endereo. Tudo que sei  que era costureira de profisso, casada, e o marido querendo abandon-la por outra. No Terreiro da Cabocla Jurema, em So Paulo, fora-lhe aconselhado ir a Salvador, procurar o escritor mais importante da Bahia, pedir a ele um anel  deram-lhe o desenho do anel  e, de: posse dele, ela reconquistaria o marido.
        Levando o desenho na bolsa, ela partira de nibus para a Bahia. Hospedara-se num pequeno hotel junto  rodoviria. O que se passou quando bateu em nossa porta j se sabe. Por coincidncia, ao voltar para seu hotel depois da frustrada visita, viu passar de automvel uma freguesa sua, de So Paulo. A freguesa e o marido passeavam em Salvador e a convidaram para ir ao candombl, naquela noite. Foi assim que a costureira pde falar com quem procurava.
        Acostumado a lidar com pessoas, as mais estranhas, Jorge no se surpreendeu com a pergunta  queima-roupa. No quis perder tempo questionando com a mulher que o abordava. Solucionou o caso apresentando-a a Camafeu que se aproximava, pessoa indicada, j que o amigo possua  como j se sabe  uma barraca de coisas africanas, no Mercado Modelo. Por coincidncia, Camafeu acabara de receber, da frica, uma partida de anis, pulseiras e outros enfeites. Encantara-se com um dos anis, esse seria de Toninha, levou-o para casa, no ia vend-lo.
        Qual foi, finalmente, o resultado dessa srie de coincidncias? Tudo o que eu soube foi que Toninha ficou sem o anel. E a costureira reconquistou o marido? Isso s Deus sabe. Nunca mais tivemos notcias dela.
        
        
        
      PESSOA IMPORTANTE
        
        Nesse dia eu mesma atendi  porta. Em minha frente, Z Trindade, nos braos um cachorrinho pequins.
        Popular ator de filmes de chanchada, Z Trindade apresentava-se em teatros e na televiso, fazia sucesso com seus programas humorsticos. Viera  Bahia visitar a famlia, daria um show no teatro e aproveitava a ocasio para visitar o amigo Jorge Amado.
        A cadelinha  um mimo para voc e j est batizada: o nome dela  KM, disse-me Z Trindade ao me entregar o presente.
        A chegada de Z Trindade em nossa casa causou alvoroo entre os empregados. Jos, o faxineiro, Neusa e Eunice estavam excitados. Ouvi um cochicho entre eles: Tu sabia que doutor Jorge era to importante assim? At Z Trindade? Eu, hem!  Nem acredito...
        Nossa casa era freqentada por Dorival Caymmi, Vincius de Moraes, Joo Gilberto, Tom Jobim, Srgio Porto e outros bambas, sem contar os estrangeiros e os artistas importantes da terra. Nenhum deles, no entanto, aparecera em filmes de chanchada e nem eram populares. Na opinio de Jos, Neusa e Eunice, esses amigos de doutor Jorge no passavam de gente boa, gente educada. Adoravam Caryb mas nunca iriam achar que podia ser importante um cara que s andava de sandlias japonesas e em mangas de camisa. No entender dos empregados l de casa, estou certa, esses amigos estavam longe de dar ao doutor Jorge o status e as glrias de um Z Trindade.
        Kiki no morou conosco muito tempo. Ela chegou num momento em que viajvamos freqentemente e para que tivesse companhia durante a nossa ausncia a deixvamos sob os cuidados de nossa amiga Auta Rosa, esposa de Calasans Neto, louca por cachorros e dona de Yuki, um pequins que, embora platonicamente, adorava Kiki. Auta e Calasans se afeioaram a Kiki e a cadelinha acabou ficando com eles, morando em Itapu.
        Na poca de nossa chegada  Bahia, Caetano Veloso, Maria Betnia, Gilberto Gil, Calasans Neto freqentavam pouco a casa do Rio Vermelho. O mundo dessa juventude era outro. Calasans Neto s veio a ser cidado de nossa casa depois de seu casamento com Auta Rosa, moa de Ilhus, alegre, franca, que nos conquistou, tornando-se uma de nossas melhores amigas. Quanto a Caetano Veloso, viemos estreitar nossos laos de amizade na Inglaterra quando, banido pelo golpe militar, Caetano foi viver em Londres. Nessa poca, passamos seis meses morando num apartamento alugado, na Georges Street, onde Jorge escreveu o romance Tieta do Agreste.
        Gilberto Gil despedia-se da Bahia, as terras do Sul abriam-lhe as portas. Joo Jorge e Paloma freqentavam o grupo dos jovens artistas e eu os acompanhei algumas vezes s despedidas de Gilberto Gil, em locais os mais diversos, cada despedida uma festa.
        
        
      GLAUBER ROCHA
        
        Dos jovens baianos geniais, apenas Glauber Rocha era ntimo de Jorge, mantinham uma amizade quase de pai para filho. Alma inquieta, Glauber no parava na Bahia. Casara-se com Helena Igns, antes que nos mudssemos para Salvador. Assistimos ao seu casamento e lhes oferecemos nosso apartamento no hotel Quitandinha, onde os noivos passaram os primeiros dias de sua lua-de-mel. L, Glauber adoeceu, deve ter se chateado naquele imenso e deserto hotel, desceu para o Rio e ficou em nosso apartamento na Rodolfo Dantas. De Salvador, Jorge viajara para Pernambuco e eu para o Rio. Passei a dormir na sala para ceder nossa cama ao casal. Chamei um mdico amigo, Dr. Alcedo Coutinho, que o botou de p em trs tempos, e l se foi Glauber, partiu para novas aventuras, para novos filmes j bulindo em sua cabea, mundo afora.
        Acompanhamos a carreira de Glauber e sua vida at o fim. Estvamos em Portugal, onde nosso amigo se refugiara, depois de uma campanha srdida e sectria desencadeada contra ele, no Brasil, por ter manifestado sua opinio favorvel sobre o general Golbery do Couto e Silva, terico da Revoluo, com quem manteve bom dilogo.
        Sensvel como era, Glauber Rocha no pudera suportar o patrulhamento do qual estava sendo vtima.
        Ao v-lo gravemente enfermo, Jorge aconselhou-o a retornar ao Brasil onde teria a assistncia de sua me, de seus amigos, estaria na sua terra. Desculpou-se por no aceitar dessa vez o conselho do amigo, recusou-se a voltar. amos visit-lo diariamente no hospital, em Cascais, e depois em Lisboa, onde fora Internado.
        Amigo fraterno de Glauber, desde os tempos da juventude, Joo Ubaldo Ribeiro passava um ano em Lisboa, coincidindo com I estada de Glauber em Portugal. Na casa de Ubaldo e Berenice, Glauber encontrou refgio e carinho. Incansvel, durante a enfermidade do amigo, Joo esteve a seu lado at o fim.
        O cantor Raimundo Fagner, que se encontrava de passagem por l, na poca, tambm o visitava sempre, fazia-lhe companhia. Foi nessa ocasio que conhecemos e ficamos amigos do cantor e compositor cearense. As ltimas fotografias de Glauber, no hospital, foram tiradas por mim e por Fagner.
        J nas ltimas, quando no havia mais esperanas, Glauber foi transportado para o Brasil, onde faleceu apenas chegou.
        
        
        
      DORIVAL CAYMMI
        
        Dorival Caymmi passava temporadas na Bahia e era assduo freqentador de nossa casa. Foi nessa poca que ele comps a cano para Menininha do Gantois: ... a mo da doura, est no Gantois... Isso mesmo. A mo da doura, a doura ela prpria, Me Menininha, a ternura em pessoa.
        Amigos de longa data, Caymmi e Jorge so confundidos muitas vezes, porm de parecido eles tm apenas as cabeas brancas.
        Certa vez, no terreiro do Gantois, numa visita  Me Menininha, encontramos no barraco algumas pessoas  espera de serem atendidas. A chegada de Jorge provocou um certo movimento, houve cochichos, olhos em cima dele. Reconheceram-no, pensei. No passou muito tempo, uma senhora do grupo, no resistindo  curiosidade, adiantou-se:
          O senhor no  o Dorival Caymmi?
         No sou o Dorival Caymmi, mas sou o irmo dele  respondeu Jorge, tranqilamente.
        Caymmi nos contou que o mesmo se passava com ele:
          Jorge Amado, como vai o livro?
         Vai indo, vai indo  respondera Dorival ao homem que o abordou na rua.
        Se nossos empregados no davam a devida importncia aos amigos da casa, em compensao a chegada de qualquer um deles movimentava a rua.
        Vinicius de Moraes, outro amigo de toda a vida, no deixava de aparecer, sempre que vinha  Bahia. Numa dessas visitas, que durou um dia inteiro, ao sair,  noitinha, foi abordado por um grupo de jovens na calada em frente  nossa porta. Munidos de cadernos e canetas, voaram pra cima dele: Dorival Caymmi, pode me dar um autgrafo? Vinicius no perdeu o rebolado, foi autografando: Dorival Caymmi, Dorival Caymmi, Dorival Caymmi..., muito obrigado, e se foi rindo satisfeito.
        Comigo aconteceu confuso semelhante: eu fora visitar Me Menininha no Gantois. Perguntei a um preto velho, sentado junto  janela, pela me-de-santo. De onde estava gritou:  Licinha! Avise Me Menininha que a mulher de seu Caryb est a. Corrigi-o em seguida: No sou a mulher de seu Caryb, no, sou a mulher de Jorge Amado. Ele fez um gesto com a mo:  tudo a mesma coisa...
         
         
        
      VINCIUS DE MORAES
        
        Graas a uma das visitas de Vinicius  nossa casa, salvou-se a srie de canes para crianas, de sua autoria:
        A beira da piscina, o inseparvel copo de usque ao lado, violo em punho, Vinicius cantava.
        Fao um parnteses para me desculpar. Na afobao de querer contar logo a histria que me veio  memria  como j devem ter percebido, no tenho anotaes, tiro tudo da cachola  medida que as lembranas chegam  esqueci-me de pedir licena para, ainda uma vez, avanar no tempo. Peo agora, pois devo explicar como foi que as msicas infantis de Vincius de Moraes se salvaram. Avano tanto, tanto, que falo at de meus netos, os trs que existiam na poca: Mariana, Bruno e Maria Joo.
        Nessa ocasio, o amor de Vinicius, sua mulher, era uma baiana, Gessy Gesse, a quem devemos a vinda do poeta  Bahia, onde at uma casa ele construiu, disposto a ancorar entre o mar e os coqueiros de Itapu.
        Estvamos  beira da piscina e Vinicius cantava  como foi dito  quando chegaram meus trs netos.
        Eu agora vou cantar umas musiquinhas para vocs, disse Vinicius s crianas, e comeou: Era uma casa muito engraada, no tinha teto, no tinha nada... Espera a, interrompi, vou buscar um gravador. Assim dizendo sa ligeiro. Voltei em seguida, gravadorzinho ligado e ele recomeou: L vem o pato, pato aqui, pato acol... Cantou todas as canes, intercalando entre elas uma chamada: Esta  para Marianinha!... Esta  para Bruninho!... Esta  para Maria Joo!... Encantadas, as crianas ouviam as msicas pela primeira vez, pois elas ainda no haviam sido gravadas naquela ocasio. Ao saber que no restara nenhuma gravao delas aps a morte de Vinicius, entreguei meu cassete  Gilda Queiroz Matoso, ltima e amada companheira do poeta at seus derradeiros momentos. Gravao precria, porm a nica que restou e  a que se ouve at hoje.
        Vinicius tornou-se ntimo de Calasans Neto e Auta Rosa, adorava o casal, alugou casa em Itapu antes de construir a prpria, queria ficar perto deles.
        A rua da Amoreira, onde moravam  e moram at hoje  Calasans e Auta Rosa, era um horror: lama, buraqueira e, como se isso no bastasse, havia esgoto a cu aberto.
        Freqentador assduo da casa, inconformado com a situao dessa rua, Vinicius no teve dvida, redigiu uma petio em versos ao prefeito de Salvador. No poema, verdadeiro primor, pedia-lhe ateno e carinho para a rua.
        Combinou com Jorge, que conseguiu a publicao do poema-petio na primeira pgina do jornal A Tarde.
        
        Petio ao Prefeito
       
        Prefeito Clriston Andrade
        A quem ainda no conheo:
        Quero tomar a liberdade
        Que eu nem sequer sei se mereo
        De vir pedir-lhe, em causa justa
        Um obsquio que, sem favor
        Muito honraria (e pouco custa!)
        Ao Prefeito de Salvador.
        Existe ali no Principado 
        Livre e Autnomo de Itapu
        Uma ruazinha que, sem embargo
        Pertence  sua jurisdio
        Uma rua no sem poesia
        E cujo ttulo  dar teto
        A uma das glrias da Bahia:
        O gravador Calasans Neto.
        Dizer do estado dessa ruela
        (Da Amoreira) eu no arrisco
        Porque sem esgotos, correm nela
        Rios de...... Valha-me o asterisco!
        E isso  uma pena, Senhor Prefeito
        Pois Calasans e sua gravura
        Tm cada dia mais procura
        De fato como de direito:
        O que constrange os visitantes
        Com boa margem de estrangeiros
        
        A, entre gravuras fascinantes 
        Ver quadros nada lisonjeiros. 
        Calce essa rua, Senhor Alcaide
        E eu lhe garanto que algum dia
        Pro domo sua, esta Cidade 
        O h de lembrar com mais valia. 
        Na expectativa de que acorde 
        Um novo "Cumpra-se", sem mais 
        Aqui se assina, muito ex-corde 
        O seu, Vincius de Moraes.
        
        Tiro e queda, a resposta do prefeito foi imediata, em pouco tempo a rua de Auta e Cala foi consertada e asfaltada e, diga-se de passagem, ela foi, por algum tempo, a nica rua asfaltada das imediaes.
        Naqueles tempos, a decantada beleza de Itapu se resumia no mar, nas praias, nos coqueirais e nas canes de Dorival Caymmi.
        Para festejar o acontecimento, Jenner Augusto e Lusa ofereceram um almoo ao qual Vinicius compareceu vestido de gari da limpeza pblica, levando para Cala e Auta a petio, enquadrada.
        
        
        
      CONCEITO DE LIBERDADE
        
        Numa edio pequena da editora Macunama, Vinicius de Moraes publicou um livro sobre seu amigo Pablo Neruda: Histria natural de Pablo Neruda ou A elegia que vem de longe.
        Um belo dia, estava Vinicius, muito na dele, tomando seu uisquinho na casa de Cala, divertindo-se com as histrias que o anfitrio lhe contava, mestre na arte de contar histrias, quando apareceu uma reprter do Jornal do Brasil para entrevistar o poeta sobre o livro recm-sado.
        Naqueles anos duros de censura e represso, as palavras deviam ser medidas. A reprter, inocente ou no, fazia perguntas comprometedoras. Vincius, ele prprio, fora vtima da ditadura, perdera seu posto de diplomata com o seguinte despacho do presidente da Repblica: Afaste-se esse vagabundo. Assinado: Artur da Costa e Silva.
        Experiente, Vincius respondia com evasivas s perguntas da reprter at que a jovem resolveu fazer-lhe a pergunta definitiva:
          Vincius de Moraes: o que pensa o senhor sobre a liberdade? Qual  o seu conceito de liberdade?
        Vincius no titubeou, tranqilamente respondeu:
          Meu conceito de liberdade  poder fazer coc de porta aberta.
        
        
        
      MOUSTAKI VEM  BAHIA
        
        
        Assinando a coluna social de A Tarde, notas lidas pela Bahia inteira, July (Julieta Isensse) anunciava: A convite de Vincius de Moraes, chegar  Bahia, nesses prximos dias, o compositor grego, de nacionalidade francesa, Georges Moustaki, autor de Le Meteque e de Joseph, entre tantas composies maravilhosas. Ele vir para a estria, no Teatro Castro Alves, do show de Vincius de Moraes, O poeta, a moa e o violo, que ter a participao de Toquinho e Maria Creuza.
        Georges Moustaki chegou  Bahia quando Vincius ainda morava em casa de aluguel, casa sempre movimentada, ponto de encontro de artistas, cantores, compositores, mais movimentada, sem comparao, do que a nossa.
        Alm de Toquinho e Maria Creuza, integrantes do show, estavam hospedados com Vinicius a atriz Suzana Gonalves e a estrela canadense Alexandra Stewart. Com a casa repleta, Vinicius nos consultou, talvez pudssemos hospedar Georges Moustaki. Foi com o maior prazer que concordamos: o compositor seria nosso hspede.
        Conhecramos Moustaki na Frana, ramos seus admiradores. Paloma possua uma coleo de cassetes das canes dele e a voz de Moustaki nos acompanhava em todas as viagens de automvel.
        Georges Moustaki lera os livros de Jorge Amado e, segundo diz e repete, se apaixonara. Pedira  Verinha, jovem paulista, nossa conhecida, amiga dele, que o apresentasse ao escritor. Da comeou o nosso relacionamento.   
        
        
                                                
      O BANDIDO
                      
         O poeta, a moa e o violo estrearia no dia seguinte, havia grande expectativa em torno do espetculo. Ocupadssimos com os preparativos e os ensaios, Vinicius no poderia ir ao aeroporto esperar seu convidado que chegaria naquele dia. Pediu ento s duas atrizes, Suzana e Alexandra, que o fossem esperar. Elas tomariam um txi, de Itapu ao aeroporto era um pulo.
        Plantadas no meio da rua  espera de que passasse um txi, viram que um carro de luxo, um rabo-de-peixe, que passara por elas, diminura a marcha, parar, dera uma r. Bem-posto, culos ray-ban, o moo perguntou:
         Querem carona? Para onde vo?
        Encantadas, elas aceitaram, o cavalheiro era simptico. Ele abriu a porta da frente e as duas entraram.
          Voc no  a Suzana Gonalves?  Ele a reconhecera das novelas, era seu admirador.
          Sou eu mesma. Minha amiga tambm  atriz, ela no fala portugus.
          Voc no est me reconhecendo, Suzana?  perguntou ele, rindo.
          No, no estou. Creio que nunca o vi antes.
          Ainda bem  disse ele ao mesmo tempo em que tirava os culos.  E agora?
        A moa tentava lembrar-se:
          No, no me lembro.
          Eu sou Mariel Mariscotdisse.Isso no lhe diz nada? Claro que dizia: Mariel Mariscot, o temido policial-bandido do Esquadro da Morte, procurado como agulha no palheiro pela polcia. Os jornais haviam se ocupado muito dele. Suzana conseguiu apenas dizer:
          No acredito. O senhor est brincando, est querendo me assustar...
          No estou brincando, no. Abra a caixa que est a seus ps e veja.
        O homem no mentia. Na caixa havia nada mais, nada menos do que uma metralhadora e munies.
        Alexandra Stewart estava sem entender nada at o momento em que viu a metralhadora e a se apavorou, empalideceu: Vamos pedir para ele parar e vamos descer, pediu a moa. Vivo, Mariscot entendeu o que a canadense dizia: Explique a ela que no precisa se assustar, eu no sou nenhum bicho-papo, no sou o bandido de quem tanto falam. Apenas fao justia com minhas prprias mos, nunca matei um inocente, s mato bandidos, assassinos, por isso perteno  Scuderie Le Cocq. No se assustem, por favor, repetiu ele. Levo vocs ao aeroporto e posso at esperar que vosso amigo chegue um cantor grego, no ?e levo vocs de volta  casa de Vinicius. A conversa havia rolado bastante antes da descoberta da sua identidade.
        Mariel Mariscot estava a par de tudo, no conhecia, nem de nome, Georges Moustaki, mas em compensao era grande admirador de Vincius de Moraes, at cantar, cantou um verso do Poetinha que, segundo ele, o comovia s lagrimas: Mas quero as janelas abrir para que o sol possa vir iluminar nosso amor...
        Aos poucos foi conquistando a confiana de Suzana, que chegou at a oferecer-lhe entradas para o show, no dia seguinte.
         Entradas para o show, disse ele, infelizmente no posso aceitar. Sou procurado pela polcia, como voc sabe, no posso me arriscar a ir a um local fechado, se me pegam me matam na hora. ..S no abro mo de esperar por vocs no aeroporto. Vivo to solitrio que as suas companhias, hoje, foram um presente para mim.
        Georges Moustaki encontrou  sua espera as duas belas e um possante rabo-de-peixe, dirigido por um membro do Esquadro da Morte, que o levou a Itapu.
        Ao deix-lo na casa de Vincius, Mariscot, gentil, ofereceu-se: Posso, se quiserem, passe-lo pela Bahia, no faam cerimnia, estou disponvel, no tenho o que fazer, conheo os mais belos recantos da cidade. Ser um grande prazer para mim. Convite tentador, mas isso seria demais, no foi aceito.
        Ao tomar conhecimento do acontecido, Vincius quase desmaiou. Moustaki, ao saber dos detalhes, achou muita graa e sempre que fala de sua primeira visita  Bahia conta com orgulho: Na minha primeira visita  Bahia fui recebido pelo maior bandido do Brasil.
        Peo licena para dar uma nota, nota que nada tem a ver com a Casa do Rio Vermelho, mas que pode satisfazer a curiosidade de quem, por acaso, tenha se interessado pelo fim que levou Mariel Mariscot:
        Os jornais anunciaram com estardalhao: Preso na fronteira da Bahia, ao regressar ao Rio de Janeiro, de automvel, o bandido Mariel Mariscot, perigoso elemento do Esquadro da Morte...
        Tempos depois, voltei a ler nos jornais: Morto por uma rajada de metralhadora, no rosto, o fugitivo da polcia Mariel Mariscot, membro do Esquadro da Morte... O carro do bandido, dirigido por ele prprio, foi abordado e metralhado, de frente, numa rua do centro do Rio de Janeiro, por um peloto da polcia...
        
        
      PAIXO
      
        Nessa sua primeira visita  Bahia, Moustaki passou um ms conosco e sua presena na rua Alagoinhas aumentou ainda mais o movimento da casa: msicos e compositores o visitavam, moas bonitas e feias tambm apareceriam. Houve at uma que apelidamos de peitudinha, devido, s podia ser, aos seus peitos enormes. Essa se plantou e no queria mais ir embora. Outra convidada por Moustaki a ir  praia e, no tendo um biquni  mo, declarara: Isso no tem importncia, tomo banho nua mesmo. Solcita, quis emprestar-lhe um maio, clssico, Christian Dior. Olhando com o maior desprezo para o meu lindo Dior, ela deu um chega pra l, monologando com desdm: Samba-cano.
        O telefone tocou, queriam falar com Jorge. Jorge Amado foi chamado:
          Querem falar com voc  disse Misette, que passava uma temporada conosco e atendera o telefone.
          Homem ou mulher?  quis saber Jorge.                     
          Tanto pode ser homem como mulher  riu Misette.    
          Al!  Jorge?                                                          
          Sim, eu mesmo.
        A voz  masculina, segundo ele  vinha do fundo do corao e exclamou:
          Paixo!!!
          Espera um pouco  disse Jorge, rindo -, h uma pequena confuso, no sou eu a sua paixo. Sua paixo j vai lhe falar.  Passou o fone para Moustaki.
        Essa histria rendeu muita risada e at hoje os dois, Georges e Jorge, se tratam por paixo.
        Moustaki voltou ainda vrias vezes  Bahia e, numa delas, inspirado, comps duas msicas: Bye bye Bahia e Bahia. Nessa ltima h um verso que diz: c'est la que j'ai trouv l paradis,  ct de chez Jorge Amado.
         
         
        
      A CANJA
        
        O show de Vinicius, no Castro Alves, foi o maior sucesso, o teatro superlotado. Moustaki foi chamado ao palco, deu uma canja, cantou guas de maro em sua verso francesa. Na volta para Itapu, ao passarem por Amaralina, Vinicius resolveu dar uma esticada no bar Sambur. Passaria ainda uma horinha com os amigos, se distendendo.
        Toquinho dedilhava o violo, Maria Creuza cantarolava, falavam, riam. Vinicius pediu a Moustaki que cantasse sua verso do Balance, ele adorava ouvi-la. Moustaki cantou: ... jsais pas dance, pas dance... o balance, balance... A pedido de Moustaki, Vinicius entrou com Garota de Ipanema. Cantava, alma e charme para dar e vender, quando de repente, surgiu um empregado do bar. Interrompendo o poeta disse: Vamos acabar com isso a? O patro no quer esculhambao aqui dentro!
         
         
        
      O HOMEM FORTE
        
        Homem forte da Bahia, diretor do Dirio de Notcias, mandachuva da TV Itapu, primeira estao de televiso no estado, tambm da organizao dos Dirios Associados, de Assis Chateaubriand, Odorico Tavares mandava e no pedia.
        Na casa de Odorico Tavares, no Morro Ipiranga, encontrava-se a mais bela coleo de quadros, pinturas de renomados artistas brasileiros e estrangeiros. L estavam as famosas marinhas de Panceti, as mais belas mulatas de Di Cavalcanti, a Bahia de Caryb, gravuras de Calasans Neto, dois ou trs Portinari. Alm da valiosa coleo de pintura, Odorico possua imagens de ; santos, tantas e to belas que, basta dizer, durante alguns anos o Museu de Arte Sacra da Bahia foi famoso pelos objetos sacros e pelas preciosas imagens emprestados por Odorico Tavares, de sua coleo.
        Numa sala,  parte, estavam os primitivos e entre os baianos destacavam-se Joo Alves, Cardoso e Silva e Willys, pseudnimo de Thales Porto, um mestre primitivo que pintava pouco, seus elos quadros eram raros. Trs personagens que faziam histria.
        A grande casa de Odorico, comandada por Gercina, meiga e doce criatura, a esposa que fala pouco e manda muito, era movimentada e sbria. As filhas Leda e Maria, o filho Jader, ajudavam a receber os visitantes, personalidades quase sempre recomendadas por Chateaubriand.
        A grande festa era a chegada de Di Cavalcanti, amigo fraterno de Odorico, pernambucano como os donos da casa, que vinha para os bate-papos e as rodadas de pquer com parceria formada: o anfitrio, Jorge, Mirabeau, Yves Palermo, Negro Batista... Muitas vezes o jogo era na rua Alagoinhas e, ento, todos almoavam conosco, e o festival de histrias contadas por Di era em nossa casa. Eu no participava do pquer mas me regalava, ali ao lado, sem dar palpites, ouvindo as histrias e as invenes do imaginoso Di. Recordo ele cantando a pardia de uma cano italiana: Comme prima..., que ele dava a sua verso: Quem tem prima, come prima...
        
        
        
      MSICA PARA o ANIVERSRIO
        
        Odorico Tavares ia completar cinqenta anos, Gercina e os filhos haviam preparado uma festa de arromba, at Assis Chateaubriand viria para a comemorao.
        Uma festa dessas sem banda de msica no tem graa, no presta, pensaram os compadres Jorge e Caryb. Se bem pensaram, melhor executaram: foram ao comandante do Corpo de Bombeiros, conseguiram que a corporao prestasse uma homenagem ao ilustre aniversariante, mandando a banda tocar marchas e dobrados, em hora determinada pelos dois pelintras, na porta da casa em festa, no Morro Ipiranga. No satisfeito com isso, por conta prpria, Caryb comprou uns rojes para serem disparados  chegada dos msicos.
        Do caminho aberto que encostou, homens uniformizados, cada qual com seu instrumento, desembarcaram em frente  casa de Odorico, repleta de convidados. Rojes pipocaram no cu, a banda entoou o hino: O Cisne Branco. L dentro os donos da casa se entreolharam: Foram eles, disse Odorico ao poeta Carlos Eduardo da Rocha, a seu lado, Jorge e Caryb. Gercina ouviu o comentrio e disse: Isso mesmo, obra dos dois pilantras, de Jorge e Caryb. Todo mundo saiu  rua, o primeiro a chegar ao porto, rindo de se acabar, foi Di Cavalcanti. Caryb, dava uns requebros na frente da banda, Dmeval Chaves, o livreiro, vizinho de Odorico, assustado apareceu, de roupo, entre os moradores da rua, sara do banho com a gritaria dos filhos que anunciavam uma revoluo, bombas e soldados desembarcando no morro...
        
        
        
      SEM SAIR DO LUGAR
        
        Di Cavalcanti me telefonou um dia. Soube que vocs tm criao de Pug, vi um filhote na casa do Noel Nutels. Ando louco atrs de um cachorrinho dessa raa.
        Tnhamos, realmente, um casal de cachorros da raa Pug, vindos da Inglaterra, chamavam-se: Mr. Pickwick e Capitu. Mr. Pickwick, homenagem de Jorge a um personagem de Charles Dickens, autor de seus encantos, e Capitu, herona de um romance de Machado de Assis.
        Dramos a nosso amigo Noel Nutels um cachorrinho de Capitu, parideira de grandes ninhadas. O cozinho foi o amigo fiel do famoso mdico indigenista, at seus ltimos dias. Numa visita ao enfermo, Di vira o cozinho e ficara alucinado.
          Pois olhe, Di  eu lhe disse , minha cadelinha est prenha e eu vou guardar um cachorrinho pra voc.
        Di Cavalcanti riu satisfeito.
          Em troca, vocs vo receber um quadro meu.
          Sem sair do lugar!  exclamei.
        Aprendera com Odorico Tavares, cuja teoria era a de que jamais se deve recusar um presente de obra de arte.  aceitar na hora, sem fazer rapaps, sem discutir, sem sair do lugar, frisava o mestre.
        Semanas aps minha conversa telefnica com Di, soubemos da vinda dele  Bahia. Fora anunciado que lhe seria outorgado o ttulo de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia.
        A notcia da homenagem da universidade a Di Cavalcanti nos alegrara e a todos os seus amigos e admiradores. Recebamos a notcia com o jbilo de quem havia se revoltado, sem poder reclamar, com a humilhao imposta ao grande pintor pelos donos da Revoluo Redentora, destituindo-o do posto de embaixador na Frana.
        Nomeado embaixador na Frana pelo presidente Joo Goulart pouco antes do golpe de 64, ao receber as credenciais Di Cavalcanti viajou para a Europa a fim de assumir o cargo. Apenas chegara a Paris e mal tomara posse, sua nomeao fora cassada, fora tirado do posto: Fui embaixador por um dia..., costumava dizer Di, cheio de bom humor.
        
        
        
      FESTIVAL DE CASSAES
      
        O embaixador Di Cavalcanti fora cassado, como muita gente boa, naqueles anos de regime militar, quando se vivia num verdadeiro festival de cassaes.
        Uma srie de atos institucionais a partir de 1964, culminou, em 1968, com o clebre AI-5, dando poderes totais ao regime militar, carta branca para cometer, impunemente, os maiores crimes: prender e torturar, cassar os direitos do homem, sobretudo de cientistas, compositores, cantores, artistas plsticos, jornalistas.
        O renomado cientista Haity Moussatch, professor e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, foi cassado e passou quinze anos trabalhando no Conselho de Pesquisas, na Venezuela, at voltar ao Instituto de Manguinhos em 1985. Moussatch costumava dizer: No fui eu quem foi cassado, foi toda uma gerao de jovens em formao.
        Dos compositores, os mais visados e atingidos foram Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda.
        Com a cabea raspada pelos esbirros da polcia, num ato de violncia e selvageria, perseguido, Caetano Veloso deixou o pas, foi procurar teto em Londres.
        A vez de Gilberto Gil no tardou a chegar, no era mais possvel viver no Brasil. Como deixar de criar livremente suas msicas? O clima de restries, de censura, tornava-se insuportvel. Despedindo-se do Brasil e da Bahia, Gil foi encontrar-se com Caetano em Londres, partiu deixando aquele abrao.
        Chico Buarque sobreviveu muito tempo com a censura em seus calcanhares proibindo tudo e ele teimando, prosseguindo, camuflando: Apesar de voc amanh h de ser outro dia..., cantou ele, cantou o povo at que a censura maliciou, cassou, prosseguiu na tocaia  espera de novas composies para novas cassaes. Chico partiu, continuou a compor na Itlia, onde viveu vrios anos. Debaixo dos caracis dos seus cabelos, cantou Roberto Carlos para Caetano Veloso, no exlio.
        Di Cavalcanti voltou para o Brasil, para sua pintura, aguardando dias melhores para seu pas. Agora ele seria recebido com as pompas merecidas, na Bahia.
        
        
      A BARGANHA
        
        Capit j dera cria, o cozinho prometido a Di estava  sua espera. Na vspera de chegar  Bahia ele me telefonou:
          Chego amanh. O quadro est pronto. Vou levando...
          Pois o cachorrinho tambm est pronto,  lindo, voc vai se apaixonar...
        Di veio direto do aeroporto  nossa casa, trazendo o quadro. Quadro enorme, de mais de um metro, mulatas deitadas, coloridas... Cheguei a perder o flego, imaginara que o trabalho anunciado fosse um desenho, quando muito uma aguada... Lembrei dos ensinamentos de Odorico: Aceite antes que ele se arrependa... Entreguei o cachorrinho, apanhei o quadro que foi pendurado, em seguida, na parede de nosso quarto de dormir, onde se encontra at hoje. No momento s me ocorreu dizer: aceitamos o quadro em troca de um cachorro e de quarenta anos de amizade...
        Em homenagem a Vasco Moscoso de Arago, personagem de O capito de longo curso  dos romances de Jorge Amado, a paixo de Di , o cachorrinho foi batizado com o nome de Capito. Inscrito, por Beril, mulher de Di, em concursos caninos, Capito recebeu medalhas de ouro como o melhor da raa. O remorso da disparatada barganha, at que diminuiu diante dos diplomas, das glrias e da satisfao que Capito dava a seus donos.
        
        
        
      Os PRIMITIVOS
        
        Mostrei interesse pelos primitivos da coleo de Odorico Tavares e ele mandou que Joo Alves e Cardoso e Silva nos procurassem.
        Personagem popular no centro de Salvador, Joo Alves comeara a pintar quando ainda era engraxate, no Largo da S. Sem nenhuma instruo, Joo Alves era um primitivo, ele prprio, de grande sensibilidade artstica. Retratava a Bahia em cores vivas, seus casarios, seus telhados. Sua pintura era inconfundvel, destacava-se entre os demais primitivos da Bahia.
        Joo deixara de ser engraxate, dedicava-se apenas  pintura. Vendia seus quadros por qualquer dinheiro e quando no vendia trocava por bugigangas. At por duas latas de goiabada, certa vez, ele trocou um quadro. Estava encantado com o bom negcio e me explicou: Eu como uma, a outra fica de p, de enfeite, na prateleira.
        Joo Alves vivia com uma senhora gorda e calada, a criatura, como ele dizia, numa cafua do Pelourinho. No acanhado cubculo sem janelas, escuro e mido em que viviam, no havia espao para o cavalete de trabalho, o jeito era pintar no corredor ou na rua, o que no fazia diferena para o artista, isso no alterava a qualidade dos quadros.
        Sobraando trs telas, Joo Alves apareceu um dia, todo suado, penara debaixo do sol na ladeira ngreme. Foi doutor Odorico que disse que doutor Jorge est interessado nos meus quadros... Muito bonitos os trs, ficamos com eles. Na hora de dar o preo, Joo torceu a boca, olhou para os lados, por fim disse: Pro senhor eu fao mais barato... Talvez, pela cara de satisfao que fez ao receber o dinheiro, deduzi que ele nunca havia vendido um quadro to caro. Acostumado com clientes que pechinchavam, ele devia ter aumentado um pouco o preo, mas mesmo assim fora barato, ns compramos as trs telas e l se foi Joo, feliz da vida.
        Desde esse dia, as visitas do pintor se renovaram e todas as vezes ria satisfeito, os quadros que comprvamos eram, na sua maioria, para presentear amigos.
        
        
        
      CARDOSO E SILVA
        
        Ao contrrio de Joo Alves, a produo de Cardosinho era pequena. Ele pintava igrejinhas, caprichava nos detalhes. Pintava, vendia seu quadro e quando o dinheiro acabava ele pintava outro. Algumas igrejinhas de Cardoso permanecem em nossas paredes.
        Homem de meia-idade, quase calvo, os poucos cabelos que lhe restavam eram grisalhos. Aposentado de uma repartio pblica onde fora escriturrio, Cardosinho era uma pessoa estimvel. Dono de alguma cultura  falava at frases em francs , tinha a lngua embolada  parecia estar imitando o portugus falado por ingls  devido a um derrame cerebral que sofrera.
        Pessoa alegre, gargalhava por qualquer coisa e tambm chorava com freqncia. Esprita e maom, dizia ser mdium vidente, tinha lembranas de suas vidas anteriores, de suas vidas e das vidas de amigos. Cardoso afirmava, por exemplo, com a maior convico e seriedade, ter nos conhecido, a mim e a Jorge, h cinco mil anos, quando, na Arbia, eu era a princesa Nadeija e Jorge o prncipe Zalomar. Ele, Cardosinho, um vassalo.
        Nossa histria fora romntica e triste, histria que provocava ao narrador lgrimas nos olhos.
         Zalomar e Nadeija eram muito felizes, contava ele. Mas um belo dia, quando o cu escureceu e o vento forte soprou anunciando um siroco, teimoso, Zalomar montou em seu cavalo zaino e despedindo-se de Nadeija disse: Vou para o deserto de areia, minha amada.
         Nadeija implorou: No v, Zalomar!  perigoso! Mas Zalomar no a ouviu e partiu: petel, petel, petel... galopava o cavalo.
        Cardoso no contava uma histria  e eram muitas  sem confirmar a sua veracidade. A histria de Nadeija e Zalomar no escapou  regra. Interrompendo a narrativa, ele me perguntou:
          Me diga uma coisa: Jorge Amado  teimoso?
         Muito teimoso, teimoso at demaisconfirmei e fui dando corda , quando ele encasqueta com uma coisa no h quem lhe tire da cabea.  Por que no colaborar com meu amigo?
        O vassalo riu, glorioso:
          Esto vendo? A est! Teimoso como Zalomar... No mudou nada.
         O fim da histria foi muito triste, prosseguiu Cardoso. Zalomar e seu cavalo zaino foram soterrados pelas areias do deserto. Ao saber que nunca mais o seu amado voltaria, Nadeija caiu morta. Os espritos dos dois se encontraram no cu e ento combinaram voltar  terra, da a cinco mil anos, para serem felizes para sempre.
        Resolvi provocar Cardosinho:
         Jorge combinou nascer na Bahia e eu em So Paulo? H cinco mil anos?
          Isso mesmo  disse ele , combinaram se encontrar na terra... A verdade  que se encontraram... Estou mentindo?  A gargalhada de satisfao encobriu suas ltimas palavras.
        Uma das mgoas do pintor era a de ter sido, numa de suas inmeras encarnaes, o cardeal Pierre Cauchon, que presidira o processo contra Jeanne d'Arc e assinara sua pena de morte:
         Eu sabia que a garota era inocente, dizia o ex-cardeal, aos prantos, mas fui obrigado a assinar...
         Fui tambm prisioneiro, na Frana, passei dez anos na priso des Oubliettes, que, como o prprio nome diz, explicava o erudito, era a priso dos esquecidos. Quem entrasse nela, era para sempre, nunca mais saa. A masmorra ficava num subterrneo ao lado do no Sena e a gua me cobria at a cintura em dias de baixa e at o queixo em dias de cheia. Eu me distraa vendo os peixes passarem pelo meu nariz, para um lado e para outro... Por isso sou um dos maiores entendidos em peixes. Quer uma prova?
          Claro que queremos  falava por mim e por Jorge, que ouvia calado.
          Pois ento me diga uma coisa: quantas vezes eu j comi peixe aqui em sua casa, dona Zlia?
          Muitas vezes...
          E a senhora, por acaso, alguma vez me viu engasgar com espinhas?
          Nunca.
          A est a prova  gargalhou ele, vitorioso.
        Joo e Paloma adoravam ouvir as histrias das reencarnaes de Cardoso. Joo Jorge, segundo ele, fora seu colega no Egito, h milhares de anos, quando Joo era um notvel matemtico. Querem a prova?
          Queremos  dissemos em coro.
          Me diga uma coisa, Joo: qual  a sua cor preferida?
          Azul  disse Joo.
         A est confirmado: azul. A cor da matemtica... Jorge sempre dizia: De Cardoso no se deve duvidar, com Cardoso no se deve discutir, suas histrias so lindas, cheias de imaginao. Ele no  louco. Ele acredita no que conta.  uma alma boa.
         
         
        
      LICDIO LOPES
        
        Ainda um pintor primitivo entrou no crculo de nossas relaes: Licdio Lopes, pintor de parede. Homem de meia-idade, pacato, simptico, Licdio Lopes pintava, para seu prazer, paisagens do Rio Vermelho. Velho morador do bairro, ele retratava com enorme graa e fidelidade as praias do Rio Vermelho, as banhistas, muitas banhistas de mais comportados, porm sempre mostrando pernas rolias e seios abundantes.
        Terminada a pintura de nossa casa, na qual trabalhara, Licdio veio nos trazer um quadro de presente. S ento soubemos de sua arte. Creio que Licdio nunca mais precisou pintar uma casa. Sua fama de bom primitivo se espalhou e ele passou a viver dos quadros que vendia.
        Homem surpreendente, um belo dia Licdio Lopes apareceu com um manuscrito, um dirio que escrevia nos intervalos de tempo. Pginas de muito interesse, escritas com graa, Jorge se encantou, fez uma reviso no texto, escreveu um prefcio: "Duas palavras sobre Licdio Lopes" e conseguiu a publicao do livro com a Fundao Cultural do Estado. O livro, ilustrado com fotografias do Rio Vermelho, saiu com o ttulo: O Rio Vermelho e suas tradies  Memrias de Licdio Lopes.
         
         
        
      FLORIANO TEIXEIRA
      
        A Bahia ganhava ainda um pintor. Desta vez no se tratava de um primitivo. Vindo do Cear pelas mos de Lina Bo Bardi, diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, Floriano Teixeira, com sua pintura e sua simpatia, conquistou a todos os que o cercaram. Caryb, olho crtico severo, decretou: Esse  dos bons; Mirabeau Sampaio disse amm; dos melhores, afirmou Odorico.
        Arquiteta de grande competncia, numa visita a Fortaleza, Lina Bo Bardi batera os olhos no quadro de um artista desconhecido, se encantou e o trouxe  Bahia; faria uma exposio no museu que dirigia. A primorosa pintura de Floriano impressionou todo mundo, sobretudo a Jorge, que viu no modesto funcionrio da reitoria, que jamais vendera um nico quadro por l, um pintor extraordinrio. Na Bahia ele teria mais chance de ir adiante.
        Pai de sete filhos, maranhense de nascimento, radicado em Fortaleza, Floriano titubeou diante da insistncia dos amigos para que largasse o emprego seguro no Cear e se mudasse, com armas e bagagens para a Bahia, numa aventura promissora. Ele contara, com muito humor  humor  o que no lhe falta , que Giotto, seu filho, o mais velho das crianas, lhe dissera ao despedir-se dele: Olhe, pai, se aparecer por l, na tua exposio, um besta, e comprar um quadro, no deixe de trazer uma televiso pra gente...
        Floriano voltou para Fortaleza levando a televiso para a famlia e o bolso cheio. Muitos bestas  segundo o menino Giotto  haviam ido  exposio, comprado todos os quadros e mais houvesse...
        Em nossa casa do Rio Vermelho, Floriano viveu cerca de dois meses, pintando, organizando sua vida para trazer Alice, sua mulher, e os filhos que haviam ficado  espera, em Fortaleza.
        Numa casa rstica, na Amaralina, cedida por Mecenas Marcos, amigo da turma, Floriano alojou a famlia o tempo necessrio at engrenar e poder viver em casa prpria. Com Alice, mulher tranqila e determinada, e seus oito filhoso oitavo nascido na Bahia , Floriano mudou-se para o Rio Vermelho, numa casa prxima  nossa, pinta e vende seus belos quadros e cria netos.
        Floriano ilustrou vrios livros de Jorge: Dona Flor e seus dois maridos, Quincas Berro Dgua, O milagre dos pssaros, O menino Grapina e Tocaia grande.  autor das capas de meus cinco livros de memrias.
        
        
        
      CAMUS, BRUNO E NELSON, NA BAHIA
        
        Quando Marcel Camus chegou com sua equipe  Bahia para filmar Os pastores da noite completou-se o rebulio. Desembarcara em Salvador, com armas e bagagens, poucos dias antes, Bruno Barreto, trazendo a tiracolo Snia Braga e Jos Wilker, para filmar Dona Flor e seus dois maridos.
        Na mesma ocasio, Nelson Pereira dos Santos, na casa da rua Alagoinhas, trabalhava dia e noite no roteiro de Tenda dos Milagres, a ser rodado sob sua direo, a filmagem marcada para aqueles dias.
        A produo de Os pastores da noite era rica. A equipagem que Camus trouxera chegara de navio, num imenso caminho com gerador eltrico que, segundo foi dito, daria para iluminar Salvador inteira. A produtora do filme, Claire Duval, vinha de ganhar rios de dinheiro com seu filme Emmanuelle, sucesso mundial, e apostava no livro de Jorge Amado e no diretor famoso.
        Camus precisava de muito espao para trabalhar. Encontrou e alugou um terreiro de candombl, desativado, que pertencera a Joozinho da Gomia. Numa das casas que permanecia no terreiro vivia um casal de empregados.
        Em conversa com a caseira, Camus perguntou-lhe se conhecia mulatas bonitas, precisava de muitas para figurantes. A senhora lhe respondeu que conhecia poucas, mas bonita mesmo ela s conhecera uma e dessa ela pendurara o retrato na parede, recortado de uma revista. Chamou-o para ver. Na pgina de O Cruzeiro, desbotada pelo tempo, Marcel Camus reconheceu sua esposa, Lourdes de Oliveira, com quem era casado havia anos, desde a filmagem de Orfeu do carnaval, de Vincius de Moraes, que ele dirigira e ela fora atriz.
        Camus necessitava de um ator da terra para ser o padre que batizaria o filho do Negro Massu. Explicou a Jorge as caractersticas do personagem que necessitava para a cena de O compadre de Ogun. Jorge no pensou duas vezes, indicou-lhe Licdio Lopes.
          Licdio Lopes?me admirei. Voc acha que Licdio?... Jorge me cortou:
          Acho sim. Deixa comigo...
        Na bela Igreja do Rosrio dos Pretos, no Pelourinho, o padre Licdio Lopes cumpriria, lindamente, sua misso de ator.
        
        
        
      CONFUSO NO PELOURINHO
        
        No Centro Histrico de Salvador desenvolviam-se, ao mesmo tempo, as filmagens dos trs romances de Jorge Amado.
        Ao iniciar uma tomada, Camus acionava uma estrepitosa sirene, seguida de um grito: Moteur! Como que por encanto, todo mundo se calava, ningum saa do lugar.
        Quando Bruno Barreto ia iniciar uma tomada, munido de um megafone, um assistente dele, um jovem chileno, alertava com seu sotaque: Silncio, por favor! Vamos iniciar a filmagem! O aviso se repetia vrias vezes, tantas quantas fosse preciso, at que o barulho terminasse e as pessoas se aquietassem em seus lugares.
        Quando Nelson Pereira dos Santos ia iniciar seu trabalho, no brega, lugar quente, considerado o mais perigoso do Pelourinho, sem ajuda de sirene nem sequer de um megafone, com sua voz tranqila, ele pedia: Vamos comear a filmagem: silncio, por favor. No precisava repetir uma segunda vez, todo mundo se calava.
        Nelson fora avisado que l no brega vivia um temido desordeiro por nome Sergipinho. Dele contavam que havia matado uma pessoa com um faco e depois lambido o sangue da lmina. Nelson convocou o tal Sergipinho para uma conversa. Contratou-o como auxiliar, fiscal para evitar baguna. Encantado com o posto, o temido facnora passou a ser o mais feliz e eficiente auxiliar da equipe.
        
        
        
      CONFUSO COM DOM AVELAR
        
        Jorge era solicitado diariamente pelas trs equipes, resolvia problemas, os mais diversos.
        Camus lhe pediu, um dia, que conseguisse autorizao do bispo, na poca Dom Avelar Brando, para que a filmagem do batizado do filho do Negro Massu fosse realizada dentro da Igreja do Rosrio dos Pretos, na ladeira do Pelourinho. A produo se informara e fora avisada de que era proibido filmar dentro da igreja.
        Jorge conseguiu a autorizao do bispo explicando-lhe que se tratava apenas de uma cena de batizado catlico, nada que pudesse desrespeitar a religio.
        Ao chegar  porta da igreja para a filmagem, em dois nibus repletos, Marcel Camus, sua equipe, equipagem, atores e figurantes foram barrados. Havia ordem superior para no deixar ningum entrar com cmeras de filmagens. Surpreso, Camus telefonou para Jorge pedindo ajuda, os nibus  porta da igreja aguardando uma soluo. Surpreso e indignado, Jorge no perdeu tempo, telefonou para o Palcio Arquiepiscopal. Atendeu uma pessoa dizendo que Dom Avelar no podia atender, estava meditando.
          Meditando? E at que horas ele medita?  quis saber Jorge.
          Depende, s vezes ele fica at meio-dia  disse o rapaz.
          Meio-dia? So apenas nove horas da manh...
           isso, o jeito  aguardar.
        Jorge no estava disposto a aguardar nem um minuto quanto mais trs horas. Falou grosso, ordenou:
          Pois v em seguida chamar Dom Avelar, v por minha conta, diga que sou eu, que o assunto  urgente, urgentssimo. Pode ir, eu me responsabilizo.
        Finalmente, Dom Avelar veio ao telefone e justificou a sua proibio: recebera queixa da direo da irmandade de que uma equipe de cinema, a de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, havia dois dias filmara um homem nu dentro do templo. O seu pedido, doutor Jorge, foi para filmar um batizado e no cenas de nudismo... no foi isso?
        Depois de muitas explicaes, tudo foi esclarecido: sem saber se podia ou no filmar na igreja e por isso no pedira autorizao, Bruno Barreto encontrara a porta do templo aberta, por ordem de Dom Avelar. O diretor de Dona Flor no sabia  e mesmo que soubesse do equvoco, no creio que seria louco de recuar  que, a pedido de Jorge Amado, a igreja fora franqueada para a filmagem de Os pastores da noite e no para ele.
        Bruno Barreto filmara a sada da missa, entre os fiis Vadinho nu. Por acaso havamos assistido  tomada de cena onde o ator apareceu nu somente de costas, na frente um tapa-sexo, que, como o prprio nome diz, tapava o sexo de Jos Wilker. Wilker no entrara na igreja; aguardara, de roupo, atrs de uma coluna, para, de l, sem o roupo, seguir abraado com Snia Braga, alis, Dona Flor, ladeira do Pelourinho abaixo. Dom Avelar fora mal informado por seus olheiros.
        O quiproqu esclarecido, nova ordem do bispo permitiu que a cena do batizado fosse realizada. Diante da pia batismal, ao batizar o filho do Negro Massu, o padre Licdio Lopes, bom ator, caiu em transe, as filhas-de-santo tambm caram em transe. S faltou mesmo a me-de-santo para que a festa fosse completa, comentou algum.
        
        
      CORAO MOLE
        
        O coronel Joo Amado costumava dizer: Meu filho nasceu para escrever. Fale em literatura com ele que ele entende tudo. S no fale em negcios com ele, pois de negcios ele no entende nada. Tem o corao mole demais.
        Em parte, o velho Joo Amado tinha razo. Quem assistiu ao sucesso de pblico de Dona Flor e seus dois maridos, o estouro de bilheteria por toda a parte, at no estrangeiro, ficou certo de que o escritor havia enriquecido. Ledo engano.
        Dos trs filmes, rodados na mesma ocasio, na Bahia, Jorge no teve participao nos lucros. O contrato com os franceses para Os pastores da noite, que na Frana recebeu o nome de Otlia de Bahia, foi de pouca monta.
        Em Tenda dos Milagres, produo de poucos recursos, dirigida por Nelson Pereira dos Santos, Jorge nem se importou com dinheiro, assinou um contrato modesto, quase simblico. Amigo fraterno do cineasta, Jorge acompanhava a sua carreira desde quando, quase um menino, Nelson dirigira o premiado Rio 40 graus.
         Dona Flor e seus dois maridos tambm rendeu pouco. Produzido por Luiz Carlos Barreto, velho amigo de Jorge, foi dirigido por  seu filho Bruno, menino de vinte e um anos incompletos, talentoso,  apaixonado pela histria de Dona Flor. O corao de Jorgecomo diria o velho Joo Amado  amoleceu e ele assinou um contrato sem participao nos lucros, por dois vintns pingados.
        Jorge Amado no ficou rico com as trs produes, como muita gente pode ter pensado, mas o que ele se divertiu durante as filmagens e as alegrias que os filmes lhe trouxeram depois, cada qual com seu sucesso, no havia dinheiro no mundo que pagasse. Mau negcio feito pelo filho, incompetente no ramo, na viso do velho Coronel, excelente negcio realizado pelo escritor, mestre na arte de viver.
        
        
      PROBLEMAS DOMSTICOS
      
        Numa casa movimentada como a nossa, eu sofria com os problemas domsticos. Casa enorme, povoada, movimentada, e eu sem conseguir arranjar empregadas competentes e de confiana. No me acostumava com o ritmo lento das que conseguia. No havia e no h na Bahiaessa de salrio alto para todo o servio da casa, como estava habituada no Rio. Na Bahia o salrio  baixo para pouco trabalho, servio que pode ser feito por uma pessoa so precisas duas ou trs, restando ainda a terra de ningum, como costumo chamar as reas que ningum limpa achando que  obrigao do outro. Ao menos essa  a minha experincia, at hoje.
        A nica empregada que dera certo, que me contentava, embora lenta, era Eunice, pessoa direita, educada, cumpridora. As outras duas estavam sempre sendo revezadas, tornavam-se mais problema do que ajuda. Eunice est aposentada h bastante tempo, a lacuna continua aberta.
        Das Dores chegou recomendada. A moa  um pouco lesa mas  direita, obediente,  s ensinar e mandar fazer que ela faz..,
        Na adolescncia, Das Dores fora bab de uma criana em Salvador. Um belo dia ela ouviu pelo rdio que o mundo ia se acabar. Pensou com seus botes: Se  mesmo que o mundo vai se acabar, o melhor  eu  ir morrer junto de pai mais me. Pediu as contas e se mandou para o interior.
        O mundo no se acabou, e a me de Das Dores aproveitou a presena da filha para mand-la tirar leite da vaca. Bem-mandada, a mocinha foi. Procurou uma boa posio atrs das patas da vaca, sentou-se, baldinho a postos, mas, ao tocar no bere cheio do animal, recebeu uma patada no p do ouvido. Ficou sem uma orelha e, como j foi dito, lesa para o resto da vida.
        Das Dores foi contratada. Sempre sorridente, ela era tranqila. Todos os dias eu repetia o que devia fazer, embora fosse sempre a mesma coisa: arrume os quartos, varra e tire o p, bem tiradinho. A ltima observao devia ser frisada para que o trabalho sasse a contento.
        Certa manh, depois das recomendaes  moa, samos, Jorge e eu. Ao voltarmos, horas depois, encontrei tudo do jeito que deixara, Das Dores no havia mexido uma palha sequer. Fui encontr-la no terrao, sentada com o gato no colo. Das Dores nos sorriu:
          Nacib estava muito triste  disse , miando pela casa, com saudades de doutor Jorge...
          E voc ento agradou ele?...  perguntou Jorge.
          , doutor. Depois que eu botei ele no colo e fui passando a mo nele, ele parou de miar.
        Entusiasmado com o que presenciava e ouvia, Jorge meteu a mo no bolso, puxou uma pelega de dez, deu a ela:
         Sempre que ele miar me procurando ponha ele no colo e agrade. Agrade muito, viu?
        
        
        
      Os MISTRIOS DA BAHIA DENTRO DAS PORTAS
        
        Neusa chegara para substituir Das Dores, quando a moa voltou para o interior onde foi viver com os pais.
        Tipo franzino, Neusa era uma pessoa educada, discreta, inteligente. Quase perfeita no trabalho, com Eunice ela me dava tranqilidade. At que enfim..., pensava eu.
        Ao receber o salrio, certa manh, Neusa saiu para depositar o dinheiro na Caixa Econmica. Foi e nada de voltar, o que teria acontecido com Neusa?
        Por volta das trs da tarde, Eunice veio me chamar, olhos esbugalhados:
         Corre, dona Zlia. Um homem trouxe Neusa, disse que ela estava perdida na rua. Ela est estirada na cama feito morta. Acho que ela est morrendo.
        Atirada a corpo morto em sua cama, Neusa no dava sinal de vida. Fiz o que estava ao meu alcance para reanim-la sem conseguir. Mandei chamar Aurlio, pedia-lhe que buscasse um mdico, quando Neusa despertou e num salto, dando gargalhadas, ps-se de p em cima da cama. No respondia s minhas perguntas, dizia coisas ininteligveis.
        Alertado, Jorge apareceu para ver o que estava se passando. Ao ver Jorge, Neusa deu um salto, gritando: Vov, vov, vov... Antes que algum pudesse impedi-la ela correu para Jorge, agarrou-o pelas pernas, levantou-o e se ps a cantar e a dizer coisas, com ele nos braos, suspenso.
        Eu nem precisava sair de minha casa para presenciar milagres, os chamados mistrios das ruas da Bahia. No podia acreditar que uma criatura magra e frgil como Neusa tivesse fora para levantar aqueles cem quilos que era o peso de Jorge na poca.
          Ela est com o santo, doutor  diagnosticou o entendido Aurlio.
          Isso mesmo  disse Jorge, tentando desvencilhar-se dos braos da moa, sem conseguir.V Aurlio, v depressa, imediatamente, buscar o Luiz da Murioca  ordenou.
        Aurlio saiu rpido, em busca do pai-de-santo. Felizmente o candombl de Exu, onde Luiz da Murioca mantinha boas relaes com o Exu Toco Preto e o Sete Pinotes, ficava numa ladeira na Vasco da Gama, bem perto de nossa casa.
        Pessoa de nossa amizade, Luiz da Murioca, poderoso e competente, viria em seguida socorrer o amigo caso estivesse em casa. No havia dvida.
        Felizmente, enquanto aguardvamos o pai-de-santo, Neusa resolveu libertar o vov de suas garras e, com a agilidade de um gato, subiu ao alto do guarda-roupa. Falando e cantando sem parar, ela descobriu l em cima, enrolado em jornais, um litro de mel, pela metade. At ento, no dando palpites, apenas murmurando.'Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora..., Eunice gritou: Ai meu mel!, buscando dar explicaes que ningum pediu nem interessavam a ningum: E o mel que eu tomo todas as noites, uma colher de sopa, para a minha bronquite... Est me curando... Assim dizendo, levantou as mos para Neusa: Me d meu mel...
        Neusa no estava nem ali. Para desespero da proprietria do precioso remdio, ela despejava o mel no cho.
        Estvamos nessa quando a porta do quarto se abriu e Luiz da Murioca adentrou, seguido de Aurlio.
          O que  que h, meus meninos?  disse, dirigindo-se a Neusa.
          Meus meninos?  estranhou Jorge
          Voc ento no v que ela est tomada pelos Ibejes? S crianas como Cosme e Damio, pra fazer essas reinaes.
        Neusa gritava:
          Bulofa, bulofa...
        A princpio pensei que ela estava querendo o relgio Bulova de Jorge, mas o pai-de-santo traduziu: Ela est pedindo ovos.
          Traga dois ovos, Eunice, v ligeiro...
          Cru ou cozido, dona Zlia?...
          Cozidos  respondi , bem durinhos.
          Nada disso  interrompeu Murioca , os ovos devem ser crus.
        Meleira igual nunca se viu: sentada no cho, Neusa misturava mel com os ovos abertos sobre os ladrilhos.
        A pedido de Luiz, todo mundo se retirou e o deixamos a ss com a moa para tirar-lhe o santo que a possua, alis, os santos, como afirmara ele prprio.
        O trabalho no foi demorado. Ao sair do quarto, Luiz da Murioca deixava a moa liberada, dormindo profundamente:
          Ela no vai lembrar nada do que aconteceu. Deixem que durma at despertar naturalmente.
          Qual a explicao disso?  perguntei curiosa.  Ela  catlica, vai sempre  missa, no  de candombl...
          Ela no  mas tem uma parenta que  e fez uma promessa em nome dela a Cosme e Damio. Essa parenta, no sei se  prima ou o que , prometeu que se Neusa sarasse de uma doena que teve, com o dinheiro de um salrio ofereceria um caruru a sete crianas pobres. Ela no deu a comida, botou o dinheiro na poupana... deu nisso...  riu o pai-de-santo.
        
        
        
      A VENDEDORA DE QUADROS
        
        Havia muito que no vamos Joo Alves. Depois da morte da criatura, ele no aparecera mais. Supnhamos que ele devia andar muito triste, sozinho. Por isso, ao saber que Joo Alves estava na sala, me preparei para receb-lo com palavras de consolo, mas, qual!, encontrei um Joo Alves sorridente, feliz da vida, cheio de planos.
          Doutor Jorge, mais dona Zlia  foi dizendo , encontrei uma pessoa tima.
        Jorge e eu nos entreolhamos diante do inesperado:
          tima, como?  quis saber Jorge.  Boa pessoa? bonita? quem ?
           tudo isso e muito mais...  respondeu ele rindo.   uma vendedora de acaraj, o nome dela  Neide e eu quero casar com ela.
          Voc quer casar ou juntar?  quis saber Jorge.
          Que juntar o qu! Essa  coisa sria, ela s vem pra minha companhia de papel passado.
          Ento case de papel passado, Joo, voc no  vivo?  disse eu.
        Joo torceu a boca, deu um meio sorriso:
          Eu no era casado com a criatura, no. Eu sou solteiro. Eu s posso casar se tiver onde levar a moa. No posso botar ela na cafua, onde a falecida faleceu. Preciso comprar uma casa.
          E voc tem dinheiro para comprar uma casa?
          Tenho no. Vim aqui hoje pra pedir a doutor Jorge mais tua senhora pra me emprestar o dinheiro.
        Tive uma idia, sabia que ele deixava quadros, em consignao, na galeria de arte de Renot, creio que a nica em Salvador.
          Por que voc no pede o dinheiro a Renot? Ele vende teus quadros e paga a casa. Muito fcil.
        Novamente, Joo Alves torceu a boca:
          Ele no vai concordar no. A galeria dele d muita despesa...
        Entendi que ele j havia tentado com Renot e nada conseguira. Ns ramos, Jorge e eu, sua ltima esperana.
        Ao ouvir que ns tambm no poderamos comprar uma casa para ele, Joo assumiu um ar dramtico:
          Se eu no puder comprar essa casa, ento eu me mato. Diante da situao tragicmica, tentei conversar com ele.
        Ficamos sabendo que a moradia de seus sonhos j havia sido encontrada, ficava em Cosme de Faria, bairro pobre da cidade. Casa modesta, o proprietrio pedia uma entrada e o resto seria pago em prestaes. Pedi a Joo que trouxesse os quadros que tinha em casa, pintasse outros e os trouxesse. Eu mesma faria uma exposio aqui em casa, convidaria a sociedade baiana, venderia os quadros, obtendo o dinheiro para o primeiro pagamento, assinaria as promissrias e continuaria vendendo outros quadros que ele pintasse, at resgatar a ltima promissria.
        Impunha-lhe apenas uma condio: enquanto a casa no estivesse completamente paga, Joo se comprometeria a me dar prioridade na escolha dos trabalhos e estipularamos um preo fixo. Nada de vender quadros por qualquer trocado.
        Nenhum convidado deixou de atender a meu apelo: Caryb, Mirabeau e Norma me ajudaram a fazer a lista de provveis compradores e todos compareceram, quase todos compraram. Recolhi dinheiro suficiente para o pagamento maior, dei o restante para o pintor ir se mantendo.
        Joo estava apressado, marcou a data do casamento, Mirabeau e Norma, Jorge e eu fomos os padrinhos. A noiva era realmente simptica, moa inteligente, trabalhadora. Joo ganhara na loteria, como se diz, ao encontrar Neide para companheira.
        Atenta ao compromisso que assumira, preocupada com o vencimento das promissrias, aproveitei uma viagem ao Rio, poderia vender tambm l os quadros do artista.
        A exposio que improvisei, no apartamento da Rodolfo Dantas, fez sucesso. Vendi todos os quadros que levei, trouxe para a Bahia o suficiente para quitar vrias promissrias e ficar despreocupada por alguns meses. Trouxe ainda dinheiro para o pintor ir se mantendo enquanto pintava outros quadros. As pessoas estavam interessadas nos artistas da Bahia e me pediram que levasse outras telas quando voltasse ao Rio.
        Ao saber que eu estava vendendo para Joo Alves, apareceu Cardosinho com dois quadros pedindo-me que os vendesse tambm. Aproveitou para nos contar que estivera nos visitando na vspera,  noite, disfarado em bolha verde. Do jardim, pelo vidro do janelo, ele nos vira sentados diante da televiso:
           verdade ou no ? Estavam ou no estavam sentados nestas poltronas?
          Estvamosrespondi, dizendo a verdade, confirmando a fantstica histria.
        Depois de Joo Alves e Cardoso e Silva, outros pintores primitivos me procuraram, mas no havia por que s vender primitivos. Minha clientela tornara-se grande, havia compradores para todos os gostos e para todos os preos.
        
        
      
      
      BOLA DE NEVE
      
        De repente, no mais que de repente, me vi transformada em marchand de tableaux, vendendo quadros dos mais importantes pintores da Bahia. Viajava constantemente para o Rio e So Paulo, onde, de sociedade com minha cunhada Fanny, mulher de Joelson, expnhamos e vendamos os trabalhos em seu apartamento de Higienpolis.
        Os negcios aumentavam como uma bola de neve. Conseguira pagar, antes do prazo, todas as promissrias da casa de Joo Alves. No havia sentido continuar trabalhando de graa. Comeamos a ganhar dinheiro, Fanny e eu. Vendi vrios Caryb, Floriano Teixeira, gravuras de Emanuel Arajo, Adelson do Prado, Ana Lcia, Eckemberger, Hlio Basto e outros. At Cristos e ceias em madeira, do Louco, escultor primitivo de Caxoeira, vendi.
        
        
        
      DE REPENTE...
        
        No foi to de repente que desisti de vender quadros. Quando me dei conta, estava to envolvida na nova atividade que j no me sobrava tempo para nada, nem para me ocupar de Jorge, como fazia h mais de vinte anos. A rotina de nossa vida mudara. Minha atividade de mercadora de arte exigia cada vez mais de mim, sobretudo que eu viajasse constantemente, quase sempre deixando Jorge sozinho, na Bahia. Jorge no se queixava, mas senti que ele no estava contente, nem um pouco contente. Ora, se tudo o que eu desejava na vida era fazer Jorge feliz e ser feliz com ele, por que diabo eu me metera naquela empreitada, arriscando a tranqilidade de nossas vidas, arriscando at a estabilidade de nosso amor?
        O dinheiro que eu estava ganhando significava pouco para mim, alis, no significava nada, absolutamente nada, diante do mundo que Jorge me oferecia.
        No tive dvida: desfiz a sociedade com Fanny, desisti de vender quadros.
        
        
        
      As BAIANAS DE CARYB
        
        Caryb fizera uma srie de baianas de cermica, uma diferente da outra, cada qual mais bela. Presenteou os amigos com uma, as restantes ele vendeu. Vendeu, inclusive, cinco para ns, ficamos com duas aqui em casa, levamos uma para o apartamento do Rio, presenteamos James e Joelson, irmos de Jorge, demos uma para Alfredo Machado, nosso editor.
        Ao ir em busca de mais baianas, para outros amigos, j no encontrei. Caryb as vendera com uma rapidez incrvel, muita gente querendo, reclamando. Quisemos saber se ele iria fazer novas cpias e ele disse que no. Tinham dado muito trabalho, a olaria que fizera as frmas e as queimara no forno ficava distante de Salvador, o transporte era difcil, ele havia perdido uma poro delas, quebraram-se pelo caminho.
        Ao ouvir de Caryb: No quero mais saber de negcio com essas baianas, pra mim chegou..., tive uma idia:
          Quer fazer um trato comigo, Caryb? Eu me ocupo de tudo, pago as despesas e dividimos o lucro...
        Caryb gostou da proposta:
          E voc vai at o portugus encomendar e trazer as baianas? T bom, comadre, trato feito.
        O portugus a quem Caryb se referia era o oleiro, profissional competente, que ele descobrira em Dias D'vila e queimara as frmas das baianas.
        O portugus levou mais de um ms para entregar minha encomenda. Nessa poca, tnhamos uma Veraneio, caminhonete espaosa, com bom molejo, na medida para transportar tanta cermica, de Dias D'vila para c, num bom pedao de m estrada. Mesmo tendo Aurlio ao volante, cuidadoso como ele s, assim mesmo, com todas essas facilidades, muitas chegaram quebradas.
        Nosso terrao foi transformado num verdadeiro ateli de restaurao de cermica. Em cima das mesas, que espalhei por toda a parte, podiam-se encontrar baianas sem brao, sem mos, sem dedos, sem tabuleiros na cabea, sem ps, sem enfeites dos vestidos, aguardando a vez de serem recuperadas. Caryb se encantou ao deparar-se com aquele verdadeiro hospital, deu-me um conselho: V  feira de gua de Meninos e compre pratos de cermica, travessas de barro, para substituir os tabuleiros quebrados, vai ficar porreta. E ficou.
        Consumi tubos e tubos de cola na operao cola-tudo, Jorge e Caryb de fiscais, exigindo que tudo sasse na perfeio, uma pagodeira mais do que um trabalho.
        Visitando a Bahia, vinda do Rio Grande do Sul, a artista plstica Zorvia Betiol veio  nossa casa e, ao ver aquele mar de cermicas sendo restauradas, se encantou, no resistiu e entrou na dana; no s me ajudou a colar, como me ensinou truques de restaurao que aprendi e at hoje aplico ao colar uma e outra pea que aparece quebrada, ouvindo as empregadas dizerem: Eu no fui ou Tem anos que est quebrado, quando cheguei aqui j estava... que fazer? Dona Zlia vai colando.
        Recuperadas, na sua quase maioria, as baianas receberam a assinatura de Caryb. Aqui na Bahia tudo se sabe e, durante alguns dias, a casa foi invadida por verdadeira romaria de pessoas querendo comprar baianas. At um grupo de turistas paulistas, de passagem pelo porto de Salvador, sabendo, no sei como, que havia baianas de Caryb  venda, apareceram e saram cada qual com sua pea, enorme, incmoda de ser carregada, porm felizes.
        Contas acertadas, Caryb quis saber, um ar de provocao:
         Vai repetir a dose, comadre?
        
         Pra mim chega, compadre. Foi muito divertido, mas suficiente.
        Mais do que o lucro que tivemos, Caryb e eu guardamos algumas peas que enfeitam nossas casas e as de alguns amigos a quem presenteamos.
        Com a proeza das cermicas de Caryb, encerrei minha carreira de vendedora de artes.
        
        
        
      CASA FESTIVA
        
        Lalu bem que gostava de ver a casa sempre em festa, sempre cheia de gente, mas no dava o brao a torcer:
          Eta trabalheira danada! No sei como tu agenta! O Rio de Janeiro era muito melhor do que aqui, no era? No tinha todo esse movimento na casa...
          E mais alegria do que trabalho, Lalu. Voc no gostou de ver as artistas do bale do Senegal aqui?
        Claro que ela havia gostado. Nem conseguira disfarar o impacto que sentira ao ver surgir, portas adentro, o grupo de moas em seus trajes africanos, artistas lindas. O bale se apresentava no Teatro Castro Alves, viera recomendado a Jorge e recebemos o grupo em nossa casa.
        Muitos artistas amigos nossos vieram  recepo: Norma e Mirabeau, Caryb e Nancy, Calasans Neto e Auta Rosa, Lev Smarchewski, Joo Ubaldo Ribeiro, Carlos Bastos e Altamir, James Amado e Luiza, entre outros.
        Seguindo nosso exemplo, Luiza e James Amado haviam trocado o Rio de Janeiro pela Bahia, dando a Lalu a maior das alegrias: passara a ter dois filhos ao alcance da mo. S falta agora Joelson, dizia ela cheia de mgoa, mas esse  difcil que venha, So Paulo  muito longe...
        Encantada por uma das danarinas, linda no seu toro dourado, no frufru da seda pura dos drapeados do traje a envolver-lhe o corpo, Lalu deu o brao  moa e com ela saiu andando.
        Dona Eullia no esquecera os princpios da boa educao em que fora criada: a polidez ordenava que a dona da casa, ao receber uma visita, lhe perguntasse: Quer tomar um cafezinho ou prefere primeiro correr a casa?
        L se foi Lalu correndo a casa, a bailarina do Senegal a tiracolo. Divertindo-se ao ver a sogra conversar com a moa que s falava francs, Luiza aproximou-se e ouviu o curto dilogo:
          A senhora gosta de gatos?  perguntava Lalu.
         Je ne comprends pas le portugais, madame  respondia a moa.
        Lalu olhou para Luiza e traduziu:
          T vendo, fia? Ela disse que  doida por gatos!
        
        
        
      VERUCHKA NA BAHIA
        
        Chegavam  Bahia para uma srie de reportagens o famoso fotgrafo Franco Rubartelli e a mais comentada das modelos fotogrficas, Veruchka, mulher que, com sua beleza e charme, causava frisson  poca.
        Nossa casa da rua Alagoinhas foi escolhida, entre outras locaes, para as poses e fotografias da famosa modelo,
        A preparao foi grande, uma equipe de apoio se instalou no quarto de hspedes, o maquiador com seus estojos repletos de toda a sorte de cosmticos; uma jovem, com um ferro eltrico, comeou logo a passar os trajessumrios, porm trajesque Veruchka iria usar. A bem dizer, havia mais perucas do que roupas. Montanhas de perucas foram despejadas sobre uma cama: cabelos longos e curtos, castanhos de todos os tons, chegando ao louro, cada qual mais linda. Veruchka usava uma peruca sobre a outra, misturando os tons, cabelos de todos os comprimentos se entrelaando, formando mechas... verdadeira obra de arte. Na idade de gostar de perucas, Paloma se encantou, quem me dera ter uma dessas, disse baixinho, mas seus olhos falaram alto e a modelo percebeu o interesse da jovem.
        Ao contrrio do que se possa imaginar, Veruchka s tinha pose nas fotografias, no convvio era a pessoa mais simples e amvel do mundo. To gentil que ao perceber o encanto de Paloma por suas perucas e sabendo que, em breve, Jorge e eu iramos  Itlia, ela pediu uma mecha dos cabelos de Paloma e outra dos meus: Vou pedir ao meu fornecedor, em Roma, que prepare duas para vocs e quando chegarem l as encontraro prontas. Presente meu. Deu-me o endereo. E no mentiu.
        
        
        
      PARNTESE PARA FALAR DA PERUCA
        
        Ao chegarmos ao cabeleireiro indicado pela modelo, em Roma, as perucas j estavam  nossa espera. Coloquei, em seguida, a minha na cabea: me achei linda. O mesmo no achou Jorge que, ao me ver toda cheia de cabelos encaracolados, quase teve um desmaio: Coisa mais horrvel, disse. Enquanto voc estiver com esse troo medonho na cabea no vou nem olhar pra tua cara... Virou o rosto para o outro lado.
        Ao chegarmos ao hotel, fui logo tratando de retirar a cabeleira  no era por submisso que me desfazia dela, nada disso, queria apenas corrigir um equvoco: achara que Jorge ia gostar de me ver toda emperucada, mas, nada disso, ele detestara, execrara, ficara infeliz. Ora, se o que eu desejava era me enfeitar para ele, eu me enganara. Muito simples, o jeito era abdicar da bela peruca, abdiquei e, diga-se de passagem, ao retir-la, senti um enorme alvio. A meu Deus! Como aquele diabo esquentava!
         
         
        
      FIM DO PARNTESE
        
        Peo desculpas pelo longo parntese que acabo de fazer, encompridando conversa e peo licena para reatar o fio da meada.
        Quem ficou intrigada com a movimentao na casa foi Lalu. Ao saber que aquele aparato todo era s para tirar fotografias da moa, achou um exagero.
        Com uma montanha de perucas na cabea a cobrir-lhe parte do rosto, estirada no parapeito do janelo que d para o jardim, Veruchka posava, Franco Rubartelli s acionando o disparador do aparelho fotogrfico, num clic, clic, clic interminvel, verdadeira metralhadora. Ele me explicou depois que, para conseguir uma fotografia perfeita, a seu gosto, s vezes necessita tirar quatrocentas.
        Assistamos, a certa distncia,  sesso fotogrfica, quando surgiu Lalu, de banho tomado, vestgios de talco perfumado e um pente enterrado nos cabelos lisos, certamente na inteno de dar um jeito neles: Enfroquei um pouco o cabelo, disse-me, por que tu no enfroca o teu? Admirou-se ao nos ver assistindo  distncia, fora do enquadramento do fotgrafo.
          Da tu no sai no retrato  disse , v ficar atrs da moa, boba...
          No vou, no, Lalu. E s a modelo que vai ser fotografada.
          Oxente!  reclamou ela.  E a casa no  tua, menina? V l, vai...  insistiu.
        Pra no dizer que Lalu usou o pente em vo, antes de despedir-se Rubartelli tirou uma foto dela com um aparelho Polaroid.
         Este retrato no valeu de nada  comentou Lalu mais tarde.
        
        
       HARRY BELAFONTE NA BAHIA
        
        Os pais de July Belafonte, russos radicados nos Estados Unidos, haviam conhecido Nancy e Caryb quando o artista, vencedor de um concurso internacional, foi pintar dois murais no terminal da Amrica Latina do Aeroporto Internacional John Kennedy, em Nova York. Dessa poca vinha a amizade deles.
        Um quadro que Caryb oferecera ao casal naquela ocasio encantava seu genro, o ator Harry Belafonte. O interesse de Belafonte pela Bahia aumentou ainda mais quando caiu em suas mos um romance de Jorge Amado, Jubiab.
        Entusiasmado em conhecer a misteriosa terra distante e os dois responsveis por seu entusiasmo, Belafonte e July decidiram que a prxima viagem da famlia seria  Bahia.
        Em seu avio particular, trouxeram os pais de July e os filhos do casal, David e Gina, crianas. A chegada da famlia Belafonte causou rebulio no Brasil, a imprensa, em peso, foi a Salvador, pois nas declaraes de Belafonte, ao desembarcar no Rio de Janeiro, ele dissera ter vindo ao Brasil exclusivamente para visitar os amigos Caryb e Jorge Amado e conhecer Salvador. Depois voltaria direto para Nova York. Seu avio no pudera descer na Bahia, pois o aeroporto de Salvador, na poca, no tinha ainda estrutura para vos internacionais.
        Hospedada no Hotel da Bahia, naquela ocasio ainda o melhor de Salvador, a famlia Belafonte passou a maior parte de seu tempo em nossa casa e na de Caryb. Com eles visitamos os artistas Carlos Bastos e Altamir, Genaro e Nair de Carvalho, que lhes ofereceram um jantar; Jenner Augusto e Lusa que os acolheram com um almoo. No terreiro do Gantois, Belafonte participou de uma festa e, emocionado, no resistiu, danou com as filhas-de-santo em transe.
        Pessoa adorvel, da maior simpatia e simplicidade, Belafonte conquistou a todos que o conheceram. Pudemos ver em seguida que ele era igual aos compadres Jorge e Caryb: brincalho, despojado de empfia, comunicativo, gozador. July nos falou de quanto o marido se divertia pregando peas aos amigos. Entenderam-se os trs personagens, como se velhos amigos fossem.
        Nas vsperas da partida, oferecemos a eles uma grande recepo, reunindo em nossa casa o que havia de mais significativo da intelectualidade da Bahia.
        Antecipamos uma viagem ao Rio para irmos com os Belafonte, no mesmo avio. No Rio de Janeiro, estava sendo organizado um grande almoo a Jorge, no recordo a propsito de qu, programado por amigos.
        Harry Belafonte devia partir do Rio dois dias antes da homenagem a Jorge, mas foi nos ver e almoar conosco no apartamento da Rodolfo Dantas.
        Ao abrir a porta do elevador em nosso andar, Belafonte deparou-se com uma enorme e colorida estatueta de porcelana sobre um mvel no hall  decorao do vizinho de porta , horrvel figura de mulher deitada com um cachorro galgo ao lado. Moleque como ele s, Belafonte no teve dvida: tirou a jaqueta que estava vestindo, envolveu a estatueta nela e entrou na sala fazendo um discurso e entregando o volume a Jorge: No repare no presente, lhe ofereo de corao. Assim dizendo, ele mesmo, rapidamente, retirou a jaqueta que envolvia a pea e explodiu numa gargalhada sem tamanho, gargalhada de satisfao ao ver a cara de espanto de Jorge diante da execrvel estatueta. Ria ele, ramos ns com ele, ria tambm Misette, que se encontrava l em casa. Acostumada com esse tipo de brincadeiras, muito ao gosto dos compadres da Bahia, ela os comparava. Voc no acha que os trs so iguais?, perguntava Misette, entusiasmada. Mais entusiasmada ficou ao ser convidada a ciceronear os Belafonte durante os dois dias que ficaram no Rio.
        Encontramo-nos ainda muitas vezes com Harry Belafonte e sua famlia, em nossas caminhadas pelo mundo: em Nova York, quando jantamos em seu apartamento e tivemos a surpresa e a emoo de encontrar pendurado, em lugar de destaque, um quadro de Portinari. Em Paris, quando, depois de assistir  sua apresentao no Olympia, samos juntos para cear e Belafonte mostrou um exemplar de Tenda dos Milagres, em edio americana, todo anotado por ele, que lia no momento, e trouxera para receber o autgrafo do amigo. Em Cuba, quando juntos fomos a uma casa de santeria, cujo ritual  o mesmo do candombl da Bahia. Da mesma forma que Belafonte se emocionara no terreiro de Menininha do Gantois, voltava a se emocionar com os orixs de Cuba. Com os Belafonte e Gregory Peck, mulher e filha, que estavam com eles nessa viagem, assistimos  inaugurao da Escola de Cinema e a um encontro de artistas, escritores e cineastas, na casa de Gabriel Garcia Mrquez nas aforas da cidade.
        Foi a essa inaugurao e a festa de Garcia Mrquez que compareci de chinelos. Essa histria, se no me falha a memria, j contei em outro livro. S no contei que Belafonte, ao me ver de chinelos, quase morreu de rir, adorou.
        Para quem no conhece os detalhes, peo licena para contar novamente e explicar que tudo aconteceu por causa da afobao de Jorge, sempre preocupado em no chegar atrasado aos compromissos.
        Nesse dia da inaugurao da Escola de Cinema, distante uns quarenta ou cinqenta quilmetros de Havana, Jorge exagerou na pressa, ficou no meu p enquanto eu me arrumava: vambora, vambora, vambora... Eu tambm me afobei e s me dei conta de que ainda estava de chinelos quando j tnhamos rodado mais de vinte quilmetros. Voltar para o hotel, nem pensar. O jeito foi dar a volta por cima, acreditar no que Jorge dizia para me consolar: Teus chinelos so mais bonitos do que qualquer sapato... muita mulher vai morrer de inveja ao te ver to confortvel...
         A noite, aps a festa da inaugurao, fomos  casa de Garcia Mrquez, uma bela residncia com enorme jardim e piscina, cedida ao escritor para trabalhar e viver a vida toda. Nessa noite, o Comandante  como  chamado Fidel Castro, em Cuba  nos disse: Aqui Gabo pode escrever tranqilamente seus livros. A casa  dele enquanto for vivo. Depois, certamente, ser um museu.
        Com July, nessa viagem a Cuba, fui a um deslumbrante desfile de modas, onde ela comprou vrios modelos para levar a Nova York.
        Entusiasta dos produtos de beleza, os famosos cosmticos cubanos, July comprou grande quantidade deles, para ela e para encomendas que levava.
        Encontramo-nos ainda vrias vezes com os Belafonte em Nova York e em Paris. Ao Brasil ele no voltou mais, mas, vez ou outra, nos manda notcias.
        
        
        
      JUBIAB
        
         Jubiab, romance de Jorge escrito em 1935, conseguiu a proeza de atrair para a Bahia trs personalidades excepcionais:
        Caryb leu Jubiab, entusiasmou-se com o livro, com a descrio da Bahia e da maneira de viver do povo baiano. Disse l com seus botes: Quero ver com meus prprios olhos se essa terra existe. Vou dar uma espiada. Veio e ficou.
        Belafonte tambm veio  Bahia, como j se sabe, movido pelo entusiasmo, aps a leitura de Jubiab.
        
        
      PIERRE VERGER
      
        A terceira personalidade a vir  Bahia pelas mos de Jubiab merece um captulo  parte.
        Pierre Verger ainda no era doutor em cincias do Centre de Recherches Scientifiques, na Frana, nem ntimo dos pases da frica, nem profundo conhecedor dos mistrios das religies africanas, quando veio pela primeira vez  Bahia. Era apenas um viajante incansvel a correr mundos, os mais impossveis e distantes, na nsia de tudo ver, tudo conhecer, tudo registrar com sua cmera fotogrfica.
        O ttulo do livro que chamou a ateno de Verger era: Bahia de tous les saints, traduo francesa do romance Jubiab, editado na Frana em 1938. Teve a curiosidade de ler o livro e depois o desejo de ver de perto essa Bahia distante e desconhecida, descobrir com seus prprios olhos o belo e o mgico que o autor do livro to bem descrevera.
        Ancorou em Salvador. Na Bahia encontrou manancial infindvel para sua curiosidade, cidade  espera de suas descobertas, de suas fotografias: Aqui vou viver, disse Verger. A Bahia ficou sendo seu porto de partida e de chegada, a sua casa.
        Tornou-se ntimo dos terreiros de candombl, amigo de mes e pais-de-santo.
        No terreiro do Ax Op Afonj, foi proclamado, por Me Senhora, Oju-Ob, os olhos de Xang, o que tudo enxerga e tudo sabe. Realmente, Verger tudo via, tudo sabia. Com Verger tivemos o melhor relacionamento. Raramente vinha  nossa casa, nos encontrvamos em festas de candombl. Eu nunca tivera ocasio de fotograf-lo e precisava de uma foto sua para um livro que eu preparava, onde apareceria Jorge, ao longo dos anos, ao lado de amigos, em vrios pases do mundo.
        O livro, que veio a receber o ttulo de Reportagem incompleta, seria editado por Arete Soares, nossa amiga, pessoa da maior competncia, que dirigia uma editora, fundada por ela mesma, a Corrupio. O livro ser incompleto se no houver uma foto de Jorge com Pierre Verger, me disse Arete e ela tinha razo. A ausncia de Verger no livro seria uma falha imperdovel. Na primeira oportunidade eu faria a foto.
        Na primeira oportunidade, ao receber Verger em nossa casa, tratei logo de apanhar a minha Leica que estava com um filme apenas comeado e anunciei, pilheriando com o Mestre: Com todo o respeito, professor, permite-me fotograf-lo?
        Para minha surpresa, Verger me respondeu:
          Senhora professora, eu no permito que me fotografe.
          E por qu?
          Porque no gosto de ser fotografado. Basta esse motivo?
          Voc est brincando, Verger? Me chama de professora e se nega a posar para mim...
        Verger ria mas falava srio, o que me encabulava.
          Todas as vezes que voc me chamar de professor eu vou cham-la de professora, certo? E no gosto de ser fotografado porque no gosto do meu perfil, tenho um perfil de pssaro  ficou de lado , est vendo? Meu nariz parece um bico de passarinho... No tire as fotos  repetiu.
        Jorge e ele saram para o jardim, foram sentar-se num banquinho debaixo da mangueira. Enquanto os dois conversavam, coloquei a teleobjetiva na mquina e resolvi dar uma de paparazzi, fotograf-los sem ser vista,  distncia. Bati umas vinte chapas, feliz da vida.
        Ao revelar o filme, no entanto, tive a maior decepo: as quinze primeiras fotos do filme, tiradas antes, estavam timas, as de Verger, completamente veladas.
        Em conversa com Me Senhora, contei-lhe o sucedido. Ela riu: Menina, e tu foi te meter com Verger? Tu no sabe que ningum pode contrariar Verger? Verger  bruxo!
        Acabei achando que Me Senhora tinha razo, alguns anos depois. Me Menininha completava oitenta anos, e o historiador Cid Teixeira programou uma gravao de depoimentos onde deviam participar, contando de seus conhecimentos e experincias com a me-de-santo, Pierre Verger, Caryb, Jorge Amado, entre outros.
        A gravao deveria ser feita naquela noite, no prprio terreiro do Gantois. Nesse dia, nos telefonou um amigo de So Paulo, que acabara de chegar, Thomas Farkas, conhecido homem de cinema. Ao saber da gravao com Menininha, Farkas pediu a Jorge que conseguisse permisso para ir conosco, tinha grande interesse em assistir.
        Ao chegarmos ao terreiro, a parafernlia de Cid Teixeira j estava instalada: aparelhos e mquinas as mais sofisticadas. Eu levara comigo um gravadorzinho, seria interessante registrar tudo. O aparelho que Farkas levara era maior que o meu, um gravador profissional.
        Carmem e Cleusa, filhas de sangue de Me Menininha, nos receberam e nos acomodaram nas cadeiras em frente  me-de-santo.
        Fez-se silncio e Cid Teixeira pediu que Verger fosse o primeiro a falar. De microfone em punho, Verger disse algumas palavras para, em seguida, pedir aos operadores que parassem, ele reiniciaria. Voltou a falar, mas, de repente, parou: No, no  isso que eu queria dizer... por favor apaguem o que j foi gravado. Disse e s recomeou a falar depois de estar convencido de que seu pedido fora atendido. Ao pedir, pela terceira vez, que apagassem o que dissera, explicou sua emoo: desejava ser o ltimo a intervir. Nem preciso dizer que no desliguei o meu gravadorzinho. Atrs de mim, Farkas tambm no desligou o seu.
        Ao voltarmos para casa, j de madrugada, depois do depoimento de Me Menininha e de Verger, uma beleza, eu disse a Jorge: Oua s, gravei todo o comeo, Verger emocionado... Ligado o aparelho, cad a voz de Verger? O que se ouviu foi uma esttica ruidosa que s parou quando o primeiro depoente, Caryb, comeou a falar. Jorge riu: Tambm com um gravadorzinho furreca desses, voc no podia esperar outra coisa... Pela manh, logo cedo, o primeiro telefonema foi de Farkas, que me pedia: Por favor, Zlia, estou precisando que voc me empreste a sua gravao para completar a minha... parece que deu um enguio no meu gravador e toda a fala de Verger, do incio, se apagou, s deu esttica...
        Lembrei do que me dissera a saudosa Me Senhora: No se meta com Verger, menina, Verger  bruxo.
        Verger gostou muito quando lhe contei das falcatruas que tentara contra ele e da palavra sbia de Me Senhora. Isso mesmo. Eu sou um bruxo, professora doutora.
        Professora doutora foi o ttulo que Verger passou a me dar para sempre. Caoada ou carinho? Preferi acreditar no carinho desde o dia em que, no lanamento de seu livro Oxssi, na livraria da Editora Corrupio, Verger me chamou: Professora doutora, venha tirar um retrato meu com Jorge e Caryb. S no tire meu perfil. Verger vestia um belo bubu africano e essa fotografia dele entre Jorge e Caryb encontra-se no Reportagem incompleta, editado por Arete Soares, livro em trs idiomas sendo que a traduo para o francs foi feita por Pierre Verger.
        Editora principal e amiga dedicada de Verger, Arete Soares conseguiu restaurar velhos e antigos negativos que ele deixara em Paris para public-los num livro: Retratos da Bahia. Publicou ainda Orixs, lendas africanas dos orixs e sua obra-prima, o admirvel livro sobre o trfico de escravos, Fluxo e refluxo.
        
        
      UMA NOTA APENAS
        
        No quero, nem posso deixar de falar em Cleusa, filha de sangue de Me Menininha do Gantois. Amiga querida, herdeira da ternura e da sabedoria da me, Cleusa ocupou o lugar da me-de-santo no candombl do Gantois. Cultivando com delicadeza e bondade seus amigos e devotos, honrando o nome da Casa, Me Cleusa partiu, tem poucos meses, nos deixando, seus amigos, muito tristes e um pouco rfos. O terreiro est de luto por um ano e, segundo o ritual, estar fechado durante esse tempo. S ento, no jogo de bzios, os orixs elegero a nova me-de-santo.
        
        
        
      CARLOS BASTOS
        
        Alm, pouco alm de Itapu, estende-se a praia de mar bravio da Pedra do Sal. Nela, Carlos Bastos levantou sua casa, casa senhorial, requintes compatveis com seu dono, artista de tela e cavalete, mestre na argila e no cinzel.
        Logo  entrada, na casa da Pedra do Sal, junto  porta, encontra-se sobre uma coluna o busto de Molire com sua vasta cabeleira, trabalho do dono da casa.
        Conta-se que dois franceses foram visitar Carlos e, ao reconhecerem o clebre conterrneo, exclamaram entusiasmados: O l-l! Molire! O empregado da casa que lhes abrira a porta, sabido como ele s, os corrigiu em seguida: No  mulher, no. Seu Carlos disse que  homem mesmo.
        O pintor Carlos Bastos se diferencia de todos os pintores da Bahia: em seus quadros ele consegue, brincando com as tintas, retratar,  perfeio, pessoas de sua intimidade e personagens da Bahia.
        Uma das curiosidades que Jorge quis me mostrar na Bahia foi um painel de Carlos Bastos, A procisso, exposto no hall do Edifcio Martins Catharino, na rua da Ajuda. Nesse trabalho, o pintor incorpora aos santos os rostos de artistas, em geral seus amigos, e de pessoas conhecidas na cidade, como, por exemplo, todos os componentes da famlia Jos Martins Catharino. L estavam, que me lembre, nossa amiga, a bela atriz Nilda Spencer, os pintores Genaro de Carvalho, Caryb, Sante Scaldafferri, Mirabeau Sampaio, Mrio Cravo, Jenner Augusto, cada qual com sua respectiva aurola de santo, uns segurando andores, outros sendo carregados sobre andores. Jorge Amado teve a regalia de aparecer duplamente: de bispo, puxando o cortejo, e de So Jorge, ao lado de Cosme e Damio. Por esse painel Carlos Bastos recebeu o ttulo de Paleta Satnica, dado por um colaborador de um jornal catlico da poca.
        Anos depois, em 1972, fomos ao Parque da Cidade, no Rio de Janeiro, ver o trabalho que Carlos Bastos realizava na capelinha abandonada, uma dependncia do Museu Histrico, capela que nunca fora consagrada para atos religiosos. Funcionara sempre como um simples depsito.
        Obtendo permisso para pint-la, Carlos Bastos no perdeu tempo. Aproveitou todo o espao de duas paredes para retratar amigos, apresentar como santos alguns, outros sem o aparato da santidade, queria que l estivessem pessoas em evidncia e representativas da poca: Di Cavalcanti, Vincius de Moraes, Djanira, Pele, Caetano Veloso, Gal Costa, Marta Rocha, Jorge Amado, Orlando Villas-Boas, Genaro de Carvalho, Zanini, Adolfo Bloch... at o presidente Medici estava l. Marina Montini, de Salom, segurava a cabea de So Joo Batista. O rosto de So Joo Batista era, sem tirar nem pr, o de Altamir Galimberti, o grande amigo de Carlos, companheiro de toda a vida. Djanira era Santa Isabel, Caetano Veloso era So Joo com seu carneirinho, Pele era um anjo. Dessa vez, Di Cavalcanti, Jorge Amado e Vinicius de Moraes no foram santificados. Gal Costa, montada a cavalo, seria Joana d'Arc? Havia outros personagens, mas me lembro bem desses.
        Os murais, que ainda precisavam de retoques, ficaram inacabados. Ao chegar para trabalhar certa manh, como habitualmente fazia, Carlos Bastos encontrou a porta da capela trancada e lacrada. Cometera a heresia de misturar aos santos, pecadores comunistas, os mais perigosos: Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti, Caetano Veloso, Djanira... Ao mesmo tempo, Carlos Bastos colocara entre eles o presidente Medici, tido e havido como inimigo dos comunistas, presidente das perseguies, das prises e das torturas. Carlos no era poltico, de poltica e de seus partidos ele nada entendia, sua nica inteno fora a de retratar os amigos de sua admirao e de seu bem-querer, sem restries, e pessoas em evidncia na poca, nada mais que isso.
        A capelinha do Parque da Cidade, no Rio de Janeiro, permaneceu lacrada de 1972 a 1997.
        
        
        
      ANTNIO CARLOS MAGALHES
        
        A populao de Salvador aumentava, a cidade sofria o problema do menino que cresce e a roupa fica apertada; tornara-se quase impossvel o trnsito pelas ruas do centro, cada vez mais sufocado. Fazia-se necessrio abrir as comportas, estender a cidade.
        Homem dinmico, voz de comando, apaixonado por sua terra, Antnio Carlos Magalhes, governador do Estado, arregaou as mangas e foi em frente: abriria vales e montes, na direo do aeroporto, construiria avenidas, pontes e elevados nos quilmetros e quilmetros de terras abandonadas, mato desprezado, expandiria a cidade do Salvador.
        Planejou e fez: construiu o Centro Administrativo, para onde foram transferidas as secretarias de Estado que entulhavam o centro da cidade. Plantados em grande rea de jardins gramados, ergueram-se prdios da mais alta qualidade, onde foram instaladas a administrao do governo estadual e as reparties pblicas. Antnio Carlos no fez por menos, mandou colocar uma obra de arte em cada edifcio. Convocados para realiz-lassem ser levado em conta o seu credo poltico, amigo ou inimigo do governador , os grandes artistas da Bahia l deixaram, perpetuadas, suas pinturas e suas esculturas. Entre outros l esto: Caryb, Fernando Coelho, Calasans Neto, Floriano Teixeira, Sante Scaldafferri, Mirabeau Sampaio, Juarez Paraso, Carlos Bastos, Tati Moreno, Mrio Cravo e outros. Carlos Bastos faria o mural do plenrio da Assemblia Legislativa.
        
        
        
      OBRA DE POLTICO CORAJOSO
        
        Ainda uma vez peo licena, quero testemunhar, no poderia deixar de falar sobre mais uma realizao de Antnio Carlos Magalhes em sua gesto anterior, como prefeito: a instalao do esgoto na cidade do Salvador. Obra de necessidade premente, obra gigantesca e antiptica, obra de poltico corajoso que no tem medo de incomodar o povo, aquela gente que gosta de ver tudo pronto e bonitinho, que exige benefcios mas no tolera sacrificar-se para obter o resultado. Pois o pioneiro das obras do esgoto da cidade foi ACM. Centenas de quilmetros de ruas foram abertas, montes de terra entulharam as caladas, enormes manilhas de esgoto atravancaram o trnsito durante meses, at o trabalho estar terminado. Fazemos parte dos sacrificados e recompensados depois, j que nossa casa da rua Alagoinhas, at a instalao do esgoto era servida pelo detestvel sistema de fossa. Ouvi de algum, entusiasmado com a obra do prefeito: ... se ele no tomasse essa providncia, Salvador, logo, logo, ia afundar na merda...
         
         
      
      O MURAL
        
        Carlos Bastos nos chamou  sua casa, pediu que levssemos retratos. Ele recebera uma encomenda do Estado: devia realizar um trabalho, pintaria um painel cobrindo toda uma parede do plenrio da nova Assemblia Legislativa, no Centro Administrativo de Salvador.
        O croqui do trabalho estava pronto: os desenhos da procisso do Bom Jesus dos Navegantes, que seria pintada no mural, dava bem noo do trabalho gigantesco que o artista tinha pela frente.
        A idia de Carlos era a de colocar na barca principal da procisso, a galeota, a que conduz a lo. de janeiro o Bom Jesus e a Virgem, sua me, pelo golfo da Bahia em festa, personagens e personalidades as mais importantes da terra. Atrs, no cortejo, nas barcaas e nos saveiros, nas pequenas e nas grandes embarcaes enfeitadas de bandeirolas coloridas e bandeirinhas do Brasil, retrataria ainda outras figuras conhecidas.
        Nesse mural pintado sobre acrlico, em 1973, Carlos Bastos retratou 170 pessoas. Tivemos a honra e o privilgio de aparecer na primeira fila da galeota e a tristeza de desaparecer num incndio em 1978, nas chamas que destruram completamente o mural pintado sobre material inflamvel.
        Em 1994, ainda por encomenda de ACM, Carlos Bastos pintou novamente, para o mesmo local do mural incendiado, outra procisso de Bom Jesus dos Navegantes. Figuras representativas da Bahia novamente ocuparam os barcos.
        
        
        
      CASA NA PEDRA DO SAL
        
        Ao lado da casa de Carlos Bastos havia um terreno  venda. Me entusiasmei, poderamos ter uma pequena casa na praia, um bom refgio para trabalhar. O sossego para escrever tornava-se cada vez mais difcil. Os ltimos livros de Jorge haviam sido escritos aqui e acol, em casa de um e de outro e at fora do Brasil. As solicitaes eram cada vez maiores e Jorge, de corao mole, como bem dizia o velho Joo Amado, no conseguia negar nada a ningum, muitas vezes sacrificando seu trabalho para atender a pedidos,
        Nos recolhemos certa vez na chcara de Dmeval Chaves, na Boca do Rio, mas o esconderijo logo foi descoberto e adeus viola, tivemos que levantar acampamento.
        Fomos para a casa de campo de Nair e Genaro de Carvalho, na Estrada Velha do Aeroporto, Isso foi em 1969, quando Jorge escreveu Tenda dos Milagres,
        Lugar tranqilo, uma beleza. Na chcara do famoso tapeceiro, Jorge poderia trabalhar sem ter que abandonar a mquina para resolver problemas alheios, pedidos de pessoas que o procuravam, s vezes at desconhecidas.
        Por falar nos problemas que sempre aparecem para serem resolvidos por Jorge, at de desconhecidos, peo licena para contar uma historinha que ilustra bem:
        Em certa noite de tempestade, ouvimos tocar a campainha da porta. Quem poderia ser quelas horas, com aquele temporal?
        Tratava-se de uma senhora de aspecto modesto, acompanhada de uma jovem em adiantado estado de gravidez, me e filha, molhadas como dois pintos: Seu Jorge Amado, foi dizendo a me, s o senhor vai poder resolver o nosso problema, me desculpe ter vindo aqui a estas horas mas no tinha outro jeito. S o senhor mesmo, repetiu, vai poder dar socorro pra gente. Chorava e falava ao mesmo tempo, fungando e enxugando as lgrimas e o nariz nas costas das mos: Minha filha, como o senhor v, est grvida e tem que se casar amanh. Tudo est pronto, os mveis do quarto, as panelas, at as alianas... A moa abriu uma caixinha, mostrou o par de alianas, a me no estava mentindo. A gente ia at fazer uma festinha, festa de gente pobre, o senhor compreende, eu s tenho ela...
        Para encurtar a conversa, o noivo dera o fora, sumira deixando apenas um bilhete lacnico, no ia mais se casar.
          E da?quis saber Jorge.  No que  que posso ajudar?
         Eu quero que o senhor me diga o que devemos fazer  respondeu ela.
        Jorge refletiu e em seguida me pediu que telefonasse a Tibrcio Barreiros, o nosso amigo advogado, explicasse-lhe o problema. Tibrcio at parecia j conhecer o caso, pois estava com a soluo na ponta da lngua:
          No h outro remdio seno adiar o casamentoaconselhou o experiente advogado , a noiva deve dar parte de doente.  s a me ir ao cartrio amanh, logo cedo, e dizer que a filha no pode se locomover. S isso.
        Ao saber que devia adiar o casamento, a noiva, que at ento no pronunciara uma nica palavra, pronunciou, num quase gemido doloroso: Adiar? S ento chorou, chorou aos soluos...
        Tibrcio entendia da coisa. O noivo fora ameaado por uma ex-amsia com quem j tinha dois filhos: Vou ao cartrio com as crianas e acabo com tudo... gritara ela.
        O jeito era sumir do mapa e foi o que ele fez. Reapareceu quinze dias depois, quando tudo voltara  calma e, ento, o casamento realizou-se na surdina e sem festa.
        Se aparece gente em casa com pedidos, ou por pura curiosidade, quando trabalhamos, h, no entanto, pessoas que adoramos receber, mesmo tendo que interromper nosso trabalho. Foi o caso da inesperada visita de Clarice Lispector. Ela estava em Salvador e desejava entrevistar Jorge para uma revista. Estvamos na chcara de Genaro e Jorge pediu a Aurlio que a levasse at l.
        A tarde que Clarice Lispector passou conosco foi tima, com ela batemos grandes papos, Jorge respondeu com satisfao ao que ela queria saber para sua reportagem. Foi a ltima vez que a vimos.
        
        
        
      RUA DO LAGARTO AZUL
        
        O terreno ao lado da casa de Carlos Bastos me entusiasmou. Jorge ficou reticente mas se rendeu diante dos argumentos de Carlos e de Altamir. Naquele ermo, Jorge ia ter paz e inspirao na rua que nem nome tinha, rua deserta, apenas Carlos e Altamir como vizinhos. Ficaramos  esquerda deles, o terreno  direita pertencia a Pel, que, certamente, no tinha inteno de construir. A nossa frente todo um oceano encheria nossos olhos, subiramos nas pedreiras que, ao meio-dia, com o sol escaldante, ficavam brancas de sal.
        Altamir encarregou-se de providenciar a papelada para a compra do terreno. Jorge havia estado com Juca Chaves e se entusiasmara ao saber que o Menestrel, nosso amigo, planejava com Yarinha comprar um terreno em praia da Bahia e nela levantar um iglu, espcie de tenda dos esquims do plo Norte, novidade pitoresca, anunciada em jornais e revistas. Jorge achou a idia divertida, mas um iglu no iria servir para ns, assim como no iria servir para Yara e Juca Chaves que acabaram construindo uma bela residncia em Itapu, perto da Pedra do Sal, em frente ao mar.
        Optamos por uma casa mais modesta que a do Juca. A Sun House anunciava casas pr-fabricadas, patente da Finlndia: A casa que  sucesso na cidade, na praia, no campo e na montanha. Projete voc mesmo sua Sun House: paredes de poliuretano rgido injetado entre laminados tipo Frmica/Eucaplac. Esquadrias: madeira de lei, com ao inox e alumnio e laminados, pisos de lajoto. Tudo isso e muito mais eu li, decorei e repeti para entusiasmar Jorge que, como eu, pouco ou nada entende de poliuretano rgido injetado. O mais importante do anncio eram os noventa dias apenas para a construo ficar pronta para habitar. E, j que havamos decidido construir a tal casa de mdulos, procuramos o arquiteto Andr S. Com ele bolamos a disposio dos cmodos e ele armou e construiu a casa a nosso gosto.
        Tati Moreno, nosso amigo, escultor dos orixs, mestre no manejo de peas de sucata, de ferros retorcidos, de placas laminadas, com que levanta e d vida a Exus, Oxssis, Yemanjs e Omolus, nos presenteou com uma bela escultura de material refratrio ao salitre e a colocou em nosso jardim da Pedra do Sal.
        A casa estava pronta, uma gostosura, porm ainda havia um seno: Jorge no se conformava em morar numa casa de rua sem nome e sem nmero de porta. Depois de muita confabulao com Carlos Bastos, acabaram por encontrar um nome que agradasse a todos ns e rua do Lagarto Azul ficou sendo o nome de nossa rua. E o nmero da porta? Carlos adiantou-se: Eu adoro o nmero 500. Pois eu gosto do nmero 1.000, disse Jorge. At hoje, as casas vizinhas ostentam em placas nas portas: 500 e 1.000, e o correio chega direitinho, ningum se atrapalha.
        
        
        
      A BRISA DO MAR
        
        A brisa do mar  inimiga do trabalho. Jamais Jorge havia escrito um livro em casa de praia. Em nossas frias, nos tempos de Maria Farinha, em Pernambuco, bem que ele tentara escrever, mas a brisa do mar o convidava  preguia, a rede o atraa mais do que a mquina de escrever.
        Ao chegarmos  Pedra do Sal, Jorge levava na cabea, amadurecido, um romance. A fora da criao, desta vez, foi mais forte do que todas as brisas de todos os mares, a vontade de ir para a mquina suplantou a preguia. Fez como costuma fazer quando comea a escrever um livro: imps-se uma disciplina de trabalho e, diariamente, inspirado ou no, sentava-se pela manh, muito cedo, o papel branco a ser preenchido em sua frente, e o santo baixava, como costumo dizer.
        Durante o ano que passamos na Pedra do Sal,  beira-mar, Jorge Amado escreveu: Farda, fardo, camisola de dormir.
        Eu jamais havia escrito coisa alguma, jamais pensara escrever um dia e, no entanto, foi na casa da Pedra do Sal que escrevi meu primeiro livro: Anarquistas, graas a Deus.
        Sempre gostei de contar histrias, meus ouvintes eram as crianas da casa e da vizinhana. Desde muito pequenos, Joo e Paloma viviam atrs de mim: Conta, conta, conta... e eu contava coisas vividas na minha infncia, infncia de uma criana viva, olho crtico sempre atento a tudo, menina que nada perdia, nem esquecia.
        Foi na ocasio da estada na Pedra do Sal que Paloma me perguntou um dia:
          Por que, me, voc no escreve as histrias da tua infncia?
        At me assustei:
         Porque no sei escrever, minha filharespondi.  Est brincando comigo, menina? O escritor da casa  teu pai e j estamos bem servidos.
          No estou brincando, no, me. Voc acha que no sabe escrever porque nunca tentou... Voc conta histrias to bem... Faa uma experincia, escreva como se estivesse falando, bem natural... por exemplo, escreva a histria do disco quebrado, o da Serenata de Schubert, to divertida.
        A semente estava atirada, a conversa com Paloma no me saa da cabea, bulira comigo e, num belo dia, estando eu sem ter o que fazer, enquanto aguardava que Jorge me desse pginas j revisadas de seu trabalho para que eu passasse a limpo, resolvi escrever a historinha que Paloma me pedira. Fiz um clculo: em trs ou quatro laudas liquido o assunto.
        Comecei a escrever minha histria e, no entusiasmo, as folhas escritas aumentavam: No  que essa danada  muito mais longa do que eu imaginava?, disse eu com meus botes e continuei escrevendo. Ao chegar s quinze pginas vi que no havia ainda contado tudo.
        A hora do recreio terminara, Jorge me chamou, pediu-me que consultasse a enciclopdia, precisava de um dado histrico. Minha brincadeira ficou de lado, continuaria depois. Continuaria?
        Enquanto espervamos que o almoo fosse servido, criei coragem e, morta de encabulamento, estendi as quinze pginas a Jorge: Leia. Entreguei as folhas e sa da sala, conjecturando: e se ele rir? Eu tambm riria. E se ele disser: Que besteira  essa? Eu calaria. E se ele me devolver as folhas sem dizer nada? Eu choraria. Tudo isso poderia acontecer, Jorge no ia, nunca, fazer um elogio s para me agradar, no  de seu feitio. Ele jamais iria me expor ao ridculo. Em se tratando da mulher e dos filhos, ele possui um sentido crtico severo, no d colher de ch.
        Jorge me chamou: Cad voc? Senta aqui. Sentei a seu lado, esperando a sentena. Gostei do que voc escreveu, foi dizendo, gostei da simplicidade da escrita. Coisa difcil de se conseguir. Afora, o que est aqui  apenas uma anedota, histria que j conheo de ouvir voc contar. Essa anedota, assim, isolada,  muito pouco, no tem valor. Voc, que foi menina pobre, mas teve uma infncia rica de acontecimentos, criada num meio de imigrantes estrangeiros, de famlia integrante da Colnia Ceclia, de anarquistas sonhadores, que assistiu ao crescimento de So Paulo, poderia escrever um livro de tudo o que viveu e recorda. Quero te dar apenas um conselho: escreva com a mesma simplicidade com que escreveu estas quinze pginas, ser um livro escrito com emoo, de dentro para fora, com o corao, ao contrrio dos historiadores que pesquisam e escrevem de fora para dentro. Seu livro ser nico. Agora, uma coisa importante: no tente fazer literatura, nem procure palavras difceis, voc no  literata. Talvez temendo me magoar ao dizer: Voc no  literata, acrescentou ele: Eu tambm no sou literato.
        
        Deus me livre! Sorriu: Toque o bonde! Me mostre quando o livro estiver pronto.
         
         
        
       ANARQUISTAS, GRAAS A DEUS
        
        Nunca pensara poder sentir tantas e tais emoes, quela altura de minha vida, aos sessenta e trs anos de idade, como as que senti ao escrever Anarquistas, graas a Deus.
        Sem ter uma nica anotao, apenas a memria trabalhando, voltei ao passado, voltei a ser criana no convvio de meus pais e de meus irmos, recuperei amigos perdidos na distncia do tempo e, sobretudo, descobri minha me. Dona Angelina era uma pessoa formidvel e eu no lhe dera o devido valor. Seu Ernesto, meu pai, era bem como o julgara: inteligente, humano, homem bom. A seu Ernesto eu sempre fizera justia.
        Nas minhas lembranas cheguei mesmo a sentir o perfume do talco de heliotrpio que mame usava na gente. Ai que saudades de Maria Negra, chorei de saudades de Maria Negra, ri das graas dela. Lembrei da beleza de Wanda, minha irm, mais bonita do que Zez Leone, a miss Brasil. E Vera? Minha irm to despachada, prestativa, to boa... E Tito? Esprito crtico, generosidade camuflada... Remo, irmo mais velho, sabia conquistar as meninas do bairro e eu o admirava. Chorei novamente ao ver Flox, meu cachorro, meu companheiro, atropelado e morto no meio da rua...
        Jorge s viu o livro pronto. Tive como leitores e conselheiros, enquanto escrevia, Paloma e Joo Jorge, Luiza e James Amado, que deram palpites e me encorajaram a prosseguir.
        
        
        
        
      LINA WERTMLLER
        
        Ao pensarmos que poderamos escrever tranqilamente nossos livros na Pedra do Sal, nos enganamos. Durante esse ano que passamos l tivemos que interromper o trabalho, vrias vezes. Uma delas foi quando chegou  Bahia toda uma equipe de cineastas italianos. Vinham conversar com Jorge e fazer locaes para o filme Tieta do Agreste, estrelado por Sofia Loren e dirigido por Lina Wertmller, diretora e roteirista dos filmes: Mimi o metalrgico, Pasqualino Sete Belezas, Dois na cama numa noite de chuva, entre outros. Nessa embaixada cinematogrfica estavam o produtor Alfredo Bini, velho amigo nosso, e Renzo Rosselini, jovem simptico, filho de Roberto Rosselini.
        
        
        
      SOFIA LOREN
        
        Numa de nossas estadas em Paris, Jorge foi procurado por Cario Ponti e cedeu-lhe uma opo de Tieta do Agreste para o cinema. Para Cario Ponti ele vendera, havia anos, os direitos de Mar morto, filme nunca realizado.
        Carlo Ponti e Sofia Loren nos receberam em seu apartamento de Paris: Sofia est fascinada pelo personagem de Tieta, deseja muito conhec-lo pessoalmente, conversar. Quer saber se essa Tieta existiu mesmo ou se  apenas fruto de sua imaginao, dissera Ponti ao nos convidar  sua casa.
        Fui a esse encontro munida de cmera fotogrfica, no ia perder a oportunidade.
        No imenso apartamento, pouco iluminado, havia outras pessoas alm do casal. Foi nessa noite que conhecemos Lina Wertmller.
        Ao sermos apresentados a Sofia e a Lina, Jorge disse: Podem falar com Zlia em italiano, ela  filha de italianos. Com tantos mritos, disse Lina, descubro mais este no Amado:  casado com uma italiana... Todos riram, menos eu, pois nunca abri mo de ser brasileira. Mas esse no era momento para discusso; aos italianos basta o sangue italiano para ter a nacionalidade.
        Entre os convidados da noite havia um cidado muito elegante e muito paparicado, era s: Toscan pra c, Toscan pra l... Esse deve ser muito importante, pensei. Realmente era: tratava-se de Daniel Toscan du Plantier, nada mais, nada menos que o presidente da Acadmie des Arts et Techniques du Cinema, nada mais, nada menos do que o mandachuva do mais importante prmio do cinema francs, o Csar.
        Sofia repetiu a Jorge o que Carlo Ponti j lhe dissera: queria saber se o personagem Tieta fora copiado da vida real ou era fico. Com todo o seu charme Jorge lhe disse o que ela gostou de ouvir: Depois que voc a interpretar ela passar a ser personagem da vida real. Rindo muito, ela chamou o marido: Senti questa, Cario. Contou que desde a leitura do romance se pusera na pele da personagem e decidira interpret-la. Ela j quisera, havia anos, fazer o papel de Lvia, de Mar morto. Ponti comprou os direitos do romance, a montagem da produo j andava adiantada quando Sofia engravidou do primeiro filho. Foram obrigados a suspender tudo, adiar a filmagem. Sofia realizava o sonho de sua vida: ter um filho e para esse filho dava prioridade. Depois tivera outro filho, e o sonho de ser Lvia terminou. Entusiasmara-se tambm por Gabriela, mas quando Ponti correu atrs dos direitos eles j haviam sido vendidos  Metro.
        Enquanto Jorge conversava com Sofia e Lina, eu s ia tirando fotografias. Num dado momento, Toscan se aproximou de mim e disse: Essas fotografias vo lhe render milhes... No so para serem vendidas, expliquei-lhe, so para um livro que estou fazendo. No sei se ele acreditou, muito menos acreditaria se eu lhe dissesse que jamais recebera um tosto furado das fotos que tenho, publicadas em matrias sobre Jorge, em revistas e jornais, em capas e contracapas de livros, no mundo inteiro. Quando muito, por muito favor, me do os crditos, mas em geral ao lado da foto aparece simplesmente a palavra: arquivo. As daquela noite, com Sofia Loren e Lina Wertmller, esto no Reportagem incompleta.
        Carlo Ponti nos convidou a voltar no dia seguinte, Sofia desejava nos mostrar os filhos, tomaramos um drinque e sairamos para jantar num restaurante. Cario Ponti at sugeriu que a prpria mulher nos preparasse uma bela macarronada, especialidade dela, mas ficou mesmo decidido que iramos a um restaurante.
        Nessa ocasio, nosso amigo e editor, Alfredo Machado, encontrava-se na Europa e nos telefonou de Londres. Jorge contou-lhe que jantaramos naquela noite com Sofia Loren. Alfredo se entusiasmou: Estou nessa boca, disse. Pois tome um avio e venha, aconselhou Jorge
        Foi assim que, naquele jantar, com Sofia Loren, num charmoso restaurante de Paris, Jorge levou um convidado: seu amigo, Alfredo Machado, responsvel pela publicao de Tieta do Agreste.
        Como toda histria deve ter comeo, meio e fim, no sou eu quem vai deixar de contar o fim desta. Seu desfecho foi bastante complicado, mas vou tentar resumi-lo a fim de explicar por que o filme acabou no sendo feito pelos italianos. Peo, no entanto, licena para contar tudo depois que Lina Wertmller for embora da Bahia.
        Lina e sua equipe chegavam agora  Pedra do Sal, prontos para com Jorge irem fazer locaes em Mangue Seco. Fretaram um pequeno avio, visitariam todos os locais das filmagens. A diretora contava certo com a companhia do escritor nessa caravana, mas ele se negou,  ltima hora, a subir no aviozinho. Foi Renato Ferraz, nosso amigo, que tudo conhece e sabe da regio, quem lhe serviu de cicerone.
        Em Salvador, Lina Wertmller entrevistou vrios artistas, contratou uma poro de gente. As filmagens deveriam comear o mais cedo possvel. Jorge negou-se a voar com a diretora, mas prontificou-se a acompanh-la a um candombl, mostrar-lhe a cidade, apresent-la a uns e a outros.
        Com a presena dos cineastas italianos na Bahia, nossas mquinas ficaram fechadas, no pudemos escrever uma linha sequer.
        Pouco depois da partida de Lina, fomos apanhados de surpresa com a notcia dada pela televiso, em edio extraordinria: ao desembarcar em Roma, Sofia Loren foi presa. Havia contra ela, na Itlia, um processo por sonegao de imposto, ou coisa semelhante. Sofia Loren deveria filmar umas tomadas internas, de Tieta na Cinecit, em Roma, antes de viajarem para a Bahia, e, mesmo ameaada de ir para a cadeia caso voltasse  Itlia, ela resolveu arriscar. Ningum poderia acreditar que algum ousasse prender a to famosa atriz. Enganou-se quem assim pensou, inclusive ela.
        Lina Wertmller voltara do Brasil com tudo encaminhado. Mas o inesperado acontecera: La Loren  in galera, realidade que acabava com o entusiasmo da realizao do filme. Segundo dizia a imprensa, na ocasio a falncia do Banco Ambrosiano, que patrocinava a produo da parte italiana do filme, fora decisiva para que o projeto no fosse adiante, gorasse, mesmo depois da libertao da atriz.
        O destino de Tieta era o de ser interpretada por uma brasileira, e que brasileira! Snia Braga. Do filme de Caca Diegues, Tieta, realizado na Bahia, recentemente, feito com a maior competncia e carinho, com excelentes atores, quero destacar, com entusiasmo, os trabalhos de Marlia Pera e de Chico Ansio. E por que no contar que foi o primeiro trabalho de minha neta Ceclia, segunda filha de Paloma, como continusta, tendo inclusive nos dado a emoo de bater a claquete para a cena de abertura do filme, onde seu av Jorge, sentado num banco de praa, l uma pgina de seu livro.
        
        
        
      ADEUS, PEDRA DO SAL                
        
        Com as idas e vindas da equipe italiana  Pedra do Sal, nosso esconderijo foi descoberto e comearam a aparecer visitas, comearam os pedidos. Como se isso no bastasse, uma empresa de turismo colocou no seu roteiro a casa de praia do escritor. Diariamente,  hora certa, parava em nossa porta um grande nibus cheio de turistas, de nacionalidades as mais variadas. Eunice, nossa empregada, ficava de tocaia, aguardando a chegada do by day, para dar o alarme: L vem eles... Com o aviso de Eunice, nos trancvamos dentro das portas, ouvindo o rumor l fora.
        A guia da excurso fazia todo mundo saltar do nibus e, de microfone em punho, sapecava seu discursinho decorado: Esta  a residncia do escritor Jorge Amado... por a ia, contando coisas sobre o escritor, inventando gracinhas para fazer os clientes rirem. Eles rodeavam a casa e chamavam: Jorge Amado! Jorge Amado!, saia um pouquinho... Turistas argentinos aos gritos de: Que salga Jorge Amado! Certa vez invadiram o jardim. Jorge me disse um dia: No vejo a hora de terminar esse livro e sair daqui, voltar para nossa casa. Tenho s vezes a sensao de ser um foragido, um bandido me escondendo da polcia,: dia e noite...
        Agentamos at o fim. S voltamos para a casa do Rio Vermelho de livros prontos.
        
        
        
      CONCURSO DE BELEZA
        
        Hoje em dia os concursos de beleza perderam a graa. J no so, nem de longe, aqueles de outros tempos, da poca em que as baianas foram as maiorais. Lembro das duas Martas, a Rocha, injustiada na hora das medidas, podia ter sido a Miss Universo, a outra Marta, a Vasconcelos, foi vencedora nos enchendo de orgulho e entusiasmo. Terezinha Morango, Adalgisa Colombo, Vera Fischer e tantas outras so lindas at os dias de hoje.
        Permito-me falar aqui de um concurso de Miss Bahia, do ano de 1967, quando esses concursos ainda tinham seu lugar, quando o interesse por eles ainda era grande e quando, irresponsvel, entrei de gaiata numa fria e sofri as conseqncias.
        O movimento para a escolha da mais bela brasileira daquele ano apenas iniciara. A TV Itapu, nica emissora da Bahia e, por isso mesmo, ouvida por todo mundo, comeava a movimentar-se na pesquisa e na descoberta de beldades baianas.
        Diretor dos Dirios Associados, o mandachuva da televiso Odorico Tavares me convidou para dar uns palpites sobre os concursos de beleza em geral. Mesmo no sendo expert no assunto, aceitei o convite e fui ao estdio  noite, para a entrevista, no horrio nobre. Entre outras coisas, me perguntaram se conhecia alguma moa bonita para concorrer. Eu conhecia: Ana Maria Guimares, sobrinha de Norma Sampaio. Havia estado com ela naquela mesma tarde, em casa de Norma, e no me cansara de apreciar a beleza da moa. No tive dvidas em citar seu nome e endereo.
        Ao chegar em casa, Norma j havia me telefonado vrias vezes: Menina, exclamava, entusiasmada, a televiso j est na casa da Ana Maria... Ana Maria teve a maior surpresa ao ver voc falando no nome dela... est doidinha...
        Convidada, dias depois, fui  casa de Carmilton, irmo de Norma, pai da candidata. Norma, como sempre,  frente de tudo:
        Ana Maria j est inscrita e voc vai ser a madrinha dela, vai fazer a campanha... Levei um susto:
          Eu, Norma? Voc est doida?
          Doida coisa nenhuma. No foi voc quem atirou a menina no fogo? Agora agente!!
          Eu apenas disse que ela  bonita, nada mais que isso...
          E voc acha pouco? No vejo motivo para se assustar... Vai ser at divertido.
        Felizmente, surgiram patrocinadores para a campanha da moa: duas conhecidas casas comerciais, a Ip e a Rosatex, dariam toda a assistncia  candidata, fornecendo-lhe o guarda-roupa e o que necessitasse: acompanhante e conselheira, automvel  disposio, em troca da promoo das duas lojas comerciais. A mim coube, sempre sob a batuta de Norma, dar mais umas entrevistas e levar Ana Maria  casa de Genaro de Carvalho para que Nair, entendida em beleza, estudasse o rosto da moa e lhe desse conselhos sobre a maquiagem a usar. Bem ou mal eu cumpria a minha sina de madrinha de miss.
        O dia do desfile se aproximava, a consagrao seria no Balbininho. Os patrocinadores de Ana Maria encheram o estdio, por dentro e por fora, de faixas de propaganda das duas lojas. A opinio dos que acompanhavam o concurso era a de que no havia candidata mais bela do que Ana Maria Guimares. Ningum duvidava de sua vitria.
        S no tnhamos atinado, Norma e eu, com um perigo ameaador: o patrocinador do concurso, era A Moda, conceituada casa de roupas femininas de Salvador, concorrente ferrenha da Ip e da Rosatex. Inocentes desse detalhe que punha em risco o desfecho da eleio, fomos ao Balbininho com bastante antecedncia, o tempo suficiente para pensar sobre o caso. Encontramos os patrocinadores de Ana Maria furiosos. Marcos Kertzman, proprietrio de A Moda, o que bancava o concurso e pagava alto, havia mandado retirar todas as faixas das lojas adversrias.
        Sentado em nossa frente, Odorico Tavares mal nos cumprimentou. Fiquei cismada: Odorico sempre to efusivo, to gentil... A seu lado, na primeira fila, o prefeito Antnio Carlos Magalhes, o governador Luiz Viana Filho e dona Juju, sua esposa, o general Augusto Tinoco e senhora, entre outros.
        Entraram os componentes do jri, quase todos conhecidos nossos, entre eles o poeta Hlio Simes. Norma se entusiasmou: Est no papo, disse, Dr. Hlio  garantido, vota nela e os outros tambm. Enquanto o meu entusiasmo diminua, dando lugar ao pessimismo, o de minha amiga pegava fogo. J ganhou!, dizia ela.
        As seis misses selecionadas na finalssima desfilavam. Mais linda do que nunca, Ana Maria flutuava entre as ptalas de rosas que caam do alto sobre ela. Isso, as ptalas de rosas, seu Marcos no pudera evitar.
        O tempo passava e nada de sair o resultado. Deciso mais demorada, reclamou Norma. O que  que essa gente est tramando l dentro?, disse eu, desconfiada ao ver que havia um vai-e-vem de bilhetinhos e de recados para Odorico.
        Finalmente, os alto-falantes entraram em ao, anunciavam a deciso do jri:
         Ana Maria Guimares, sexto lugar! Isso mesmo, sexto lugar!
        O estdio quase veio abaixo com as vaias: Marmelada, marmelada...
        Norma endoideceu, saiu na disparada para alcanar Odorico que tambm sara na disparada, tratando de salvar-se. Segurando-o pelo brao, Norma esbravejou: Olhe aqui, seu Odorico, quando voc escolher outro jri filho da puta como esse para seus concursos, me avise para no meter minha famlia nele... Tratei de lev-la para fora do estdio, ela estava exaltada demais.
        Enquanto espervamos que Aurlio encostasse o carro, aproximou-se de mim uma senhora do grupo dos patrocinadores da miss derrotada, que, aos berros, foi me insultando: Voc  a culpada dessa derrota. Ela s perdeu por sua causa, dizia gritando. Sem ao, surpresa com tamanho disparate, ainda a ouvi esbravejar: Seu lugar era l dentro e no assistindo da poltrona... Se estivesse l dentro, ao lado dos juizes, teria evitado essa marmelada... Sem lhe dizer palavra, dei-lhe as costas e fui saindo. Aurlio demorava, e Norma, que continuava exaltada, divisou entre as pessoas que saam pelos fundos do estdio o poeta Hlio Simes que acabara de dar seu voto. Alcanou-o, segurou-o pelos gorgomilos e gritou para o pobre que, atnito, no estava entendendo nada: Quer um conselho, Dr. Hlio? Nunca mais se meta em concursos de beleza, porque de beleza o senhor no entende nada!... A muito custo ele conseguiu se defender: Mas eu votei nela, dona Norma, votei em Ana Maria... Era a mais bonita... Ele votara, sim, e outros tambm haviam votado na nossa candidata. Norma conseguiu tirar tudo a limpo: Ana Maria ficara em primeiro lugar, mas seu Marcos no concordara nem em lhe dar o segundo.
        Nesse concurso de beleza, no qual me metera de gaiata, venceu uma casa comercial contra duas adversrias.
        
      HANSEN BAHIA
      
        A primeira vez que ele veio  Bahia, h muitos e muitos anos, seu nome era Karl Heins Hansen. Alemo de Hamburgo, conceituado professor de gravura em sua terra natal. O cidado Karl Heins veio dar com os costados na Bahia, trazendo Rosa, sua mulher e um casal de filhos. Artista de primeira linha, todo mundo logo viu, homem de hbitos diferentes dos nossos, Karl Heins fez sucesso, no teve dificuldade em relacionar-se com o que havia de melhor nas artes, tornou-se amigo de Deus e o mundo. Comprou uma casinha rstica na praia de Amaralina, o mar na porta, o resto um descampado. Pela porta sempre aberta de sua casa entravam e ficavam habitando os animais que aparecessem: cachorros, gatos, cabras, porcos e at um jegue passou a fazer parte da famlia.
        Encantado com a terra que escolhera, nosso heri resolveu um dia mudar de nome, passou a chamar-se, para todos os efeitos, Hansen Bahia.
        Do artista alemo, tnhamos notcias atravs de amigos, de Caryb sobretudo, que por ele tinha o maior respeito e admirao. Caryb se divertia contando uma histria que sucedera a Hansen: caminhava ele pelas areias da praia de Amaralina quando deparou-se com uma pedra amarela coberta de areia. Pedra grande, deveria pesar uns dois quilos. Lavou-a no mar, ela era transparente, uma beleza! Levou-a para casa, tirou-lhe um pedacinho, ia levar a amostra para ser avaliada por um entendido, na cidade. Guarda essa pedra a, disse  Rosa, entregando-lhe o achado.
        No foi preciso examinar muito para que Mamede, o antiquado da cidade, reconhecesse a qualidade do material que lhe fora entregue.  mbar, Hansen, disse-lhe o expert, coisa rara na Bahia. Se voc tem em casa uma pedra dessas, do tamanho que voc diz ter, est rico. Traga ela aqui para eu ver.
        No percurso de bonde que o levaria ao ponto final de Amaralina, Hansen achou a viagem longa, estava ansioso por chegar em casa, contar a grande novidade a Rosa e aos meninos, fazia planos. Foi entrando porta adentro e perguntando  mulher:
          Onde est a pedra, Rosa?
          Que pedra?
          A que eu te dei para guardar.
         Deve estar onde deixei, ali no cho  respondeu Rosa. No lugar em que Rosa a havia deixado, ali no cho, restavam apenas farelos do mbar. O jegue a havia comido.
        Hansen tornara-se assduo freqentador do Pelourinho, melhor dito, do baixo meretrcio que reinava no Centro Histrico de Salvador. Chegava, sentava-se junto  janela do bar Flor de So Miguel, onde a cachaada era uma s, ficava apreciando os tipos que se misturavam, homens e mulheres de todas as cores e matizes, ia tomando nota, desenhando, material precioso para um lbum que faria, inclusive at o ttulo estava escolhido Flor de So Miguel.
        Os originais do lbum foram levados por Caryb, ao Rio, ele queria que Jorge visse e escrevesse: Este trabalho do Hansen merece um texto teu, disse ele, mais uma intimao do que um pedido. Jorge se encantou com as gravuras e o lbum de Hansen, todo feito  mo pelo artista na sua primeira edio, teve a apresentao de Jorge Amado.
        Ao chegarmos para viver na Bahia, Hansen j se havia ido, partira com a famlia. Ao que soubemos, ele mudara de mulher, casara-se com uma jovem aluna de nome Ilse, estavam morando na Abissnia.
        Depois de correr mundos, de ter vivido na Etipia, de ter sido amigo de Haile Selassie, de ter tido hienas a gargalhar em seu jardim, em Ads-Abeba, Hansen Bahia sentiu saudades da terra de seus encantos. Trazendo uma grande tenda de campanha, com Ilse ao lado, voltou para Salvador. Juntara algum dinheiro, comprou um terreno em Patamares, armou a tenda e l ficaram instalados at levantarem a casa. A casa foi construda tempos depois, ampla e arejada, como gostavam seus donos, portas abertas e franqueadas a quem chegasse, suas vidas passaram a ser compartilhadas com aves e animais: ces, gatos, papagaios, macacos, inclusive um jegue.
        Fomos  inaugurao da casa de Ilse e Hansen, festa para a qual eles convidaram meia Bahia, desde as prostitutas do Pelourinho s mais elegantes damas da sociedade baiana.
        Vestido de rabe, toro na cabea, Hansen recebia os convidados no terrao da casa. Nunca soube se era um hbito rabe ou inveno dele, o leilo que Hansen fazia com cada senhora que chegava. Levantava-a pela cintura, deitando-a em seguida de bumbum para cima e comeava o prego: Quanto me do por esse mulher? uma camelo? duas camelos? trs camelos?... a cada camelo ele sapecava um, dois, trs tapas na bunda da dama que se debatia no ar, tentando desvencilhar-se. Hansen ria divertido, mas os maridos no achavam graa nenhuma na brincadeira e, quanto ao meu, tratou de me arrastar com ele e entrar pelos fundos da casa para evitar a maluquice do anfitrio. Caryb e Nancy nos acompanharam, alis, muita gente nos acompanhou.
        Como esquecer a maneira como Hansen, no seu portugus germnico, apresentou Ilse aos amigos?
         Eu conheci Ilse no barriga do mame dela, Ursula, meu amiga. Quando vi Ilse depois, ela j estava grande, era meu aluna de desenho. Me apaixonei por Ilse, Ilse se apaixonou por mim. Meu casamento com Rosa, muito ruim, acabou. Tinha medo de casar com Ilse, Ilse muito novo pra mim. Fui falar com minha papai: minha papai, eu quer casar com llse, gosto muito de Ilse mas tenho medo, Ilse  muito moo pra mim. Minha papai disse: meu filho, mulher velha come mais do que mulher moo. Mulher velha fica mais doente do que mulher moo. Mulher velha gasta mais dinheiro no remdio do que mulher moo. Mulher velha  mais feio do que mulher moo. Casa com Ilse, minha filho. Ao terminar de contar a entrevista com o velho pai e de louvar o sbio conselho, Hansen abria-se num sorriso de satisfao: Minha papai uma poeta.
        Hoje, vinte anos aps sua morte, seu nome  recordado, suas divertidas histrias so repetidas, sua arte  louvada por toda a parte e, sobretudo, na Fundao Hansen Bahia, onde se encontra o acervo do artista, em Cachoeira, cidade de encantamentos que Hansen e llse escolheram para viver at o fim de seus dias.
        
        
        
      TRS AMIGAS FRANCESAS
      
        As trs amigas francesas das quais desejo falar tm a ver com a casa do Rio Vermelho e ainda mais com a nossa vida:
        Misette Nadreau  citada em quase todos os meus livros. Nossa amizade vem do tempo do exlio, na Frana e na Tchecoslovquia. Desde ento, Misette continua presente, nos bons e nos maus momentos, estejamos aqui ou l, no Brasil ou na Conchinchina.
        Moradora do Rio de Janeiro, que adora de paixo, sem renegar a sua nacionalidade francesa, Misette prefere morar no Brasil onde, trazida por nossa amizade, vive h mais de quarenta anos, rodeada de amigos brasileiros. Em nossa casa do Rio Vermelho temos um quarto para nossa amiga que, quando pode, vem nos dar a alegria de sua presena. Nossa amiga? Eu diria mesmo que, mais do que amiga, ela  irm, se  que irm pode ser mais do que amiga.
        Anny-Claude Basset apareceu em nossa casa do Rio Vermelho j faz muitos anos, sou muito ruim para clculos de tempo, mas posso afirmar que isso se passou h mais ou menos trinta anos. Ela trazia na mo uma carta de recomendao de Rubem Braga para Jorge e para mim que dizia mais ou menos isto: Tratem bem a menina, ela  gente boa...
        Formada em literatura de lngua portuguesa, na Frana, Anny-Claude fizera um mestrado sobre a obra de Erico Verssimo. Estagiara em Portugal e, nessa ocasio, conhecera Otto Lara Resende e Joo Cabral de Melo Neto. Dessa amizade resultou a sua vinda ao Brasil, mais precisamente a Porto Alegre, onde pde ter contato com Erico Verssimo, autor de seus encantos, responsvel pelo trabalho que realizava. A moa francesa tornou-se amiga de Erico e de Mafalda, amiga de grandes escritores brasileiros.
        Terminado o mestrado, doutora em literatura brasileira, Anny-Claude Basset no quis ser professora, optou pela profisso de aeromoa, na Air France, teria a possibilidade de retornar muitas vezes ao Brasil, pas que a conquistara, rever seus amigos. At aposentar-se, Anny-Claude veio ao Brasil, constantemente, comprou apartamento no Rio de Janeiro e divide sua vida entre Brasil e Frana.
        Desde o dia em que apareceu em nossa casa com a cartinha de Rubem Braga, Anny tomou-se nossa amiga. Nem vou contar aqui histrias que tenham acontecido com ela, quis apenas falar dessa amiga fiel, sempre presente em nossa vida, s vezes em temporadas na casa do Rio Vermelho e na Pedra do Sal, outras vezes nos confins do mundo, em viagens que fazemos juntos. Infelizmente as temporadas de Anny-Claude na Bahia no so freqentes, pois a moa adora buscar emoes em mundos distantes e estranhos, adora fazer grandes marchas e escalar montanhas. Por acaso, no momento ela se encontra fazendo cooper no deserto de Gobi, na Monglia, com Mimiche, sua irm, outra andarilha inveterada, de onde nos mandaram notcias.
        Alice Raillard  a francesa que mais conhece o portugus, que mais sabe da arte de ser amiga. Conhecedora profunda da obra de Jorge Amado, Alice traduziu a maior parte de seus livros. No contente com isso, resolveu escrever sobre ele.
        Veio para a Bahia e em sua bagagem trouxe um gravadorzinho para as entrevistas. Deixou em Paris o marido, como ela nosso grande e querido amigo, Georges Raillard, um intelectual retado, no dizer de Jorge, que, entre outros trabalhos,  autor de um importante livro sobre o pintor Miro.
        Se minha estima e admirao por Alice era grande, aumentou muito depois dessa sua temporada na Bahia. Impressionante sua pacincia e obstinao. De gravador em punho, sensvel, discreta, um senso de oportunidade incrvel, ela aguardava calada que Jorge se dispusesse ou tivesse tempo de responder s suas perguntas. Devia aproveitar os momentos livres dele, coisa rara. Muitas vezes Jorge at se esforava para atender  amiga, mas bastava sentar-se para ser importunado, interrompido por telefonemas ou problemas que iam dos mais importantes aos mais banais. Desligando o gravador, Alice aguardava. E nesse ligar e desligar do aparelho, passou-se um ms ou mais. O esforo de trabalho e de pacincia foi coroado de xito: O livro Jorge Amado, conversations avec Alice Raillard,  um dos melhores estudos j publicados sobre o escritor. Traduzido em vrias lnguas, faz sucesso.
        
        
        
      NOIVADO E CASAMENTO
        
        Nos mudamos para a Bahia por causa das crianas, quisemos preserv-las das ameaas de uma cidade grande. Agora as crianas j no eram crianas, criavam asas, buscavam seu rumo prprio.
        No me admirei quando Paloma me contou um dia que estava namorando o Pedro. Eu j percebera um certo clima entre os dois.
        Filho do poeta Odylo Costa, filho, amigo da juventude de Jorge, Pedro viera estudar na Bahia. Ainda bastante traumatizado com o que sucedera a Odylinho, seu irmo mais velho, morto num assalto em Santa Tereza ao voltar do cinema com a namorada, Pedro tornara-se um rapaz triste, parecia ter perdido o gosto pela vida. Ele precisa mudar de ares e de ambiente, disse Odylo a Jorge que o aconselhou em seguida a mandar o filho estudar na Bahia, onde seria nosso hspede.
        Os ares da Bahia, realmente, faziam bem ao rapaz. Os ares, a convivncia com Joo, Paloma e a turma deles, jovens animados, sempre em dia com os programas festivos da cidade, participando de tudo. Pedro aderiu  turma e foi aderindo, com o passar dos meses, aos encantos de Paloma.
        
        Jorge no gostou da notcia  e qual  o pai que gosta de ver sua filha nica namorando? Nesse caso ele tinha razo, Paloma era ainda muito nova e ele desejava v-la formada, mais madura para saber o que realmente queria, antes de pensar em casamento. Mas quem  louco de se meter a dar conselhos a jovens apaixonados ou proibir, como faziam os pais de antigamente? Nem pai, muito menos me seriam ouvidos. O jeito foi atender ao apelo dos namorados, doidos de pressa para oficializar o noivado.
        Ao menos uma coisa agradou a Jorge. Gostou de saber que Pedro, por iniciativa prpria, aps oficializar o namoro, mudara-se, alugara um quarto onde passara a dormir todas as noites. Dormia no quarto alugado, era bem verdade, mas logo cedo aparecia para o caf da manh e, quando no estava no curso que fazia na Escola de Arquitetura, era em nossa casa que podia ser encontrado.
        Ao ter notcia do acontecido, Odylo achou muita graa, eu j esperava por essa, teria dito. Nazareth, me de Pedro, da mesma forma que ns, se preocupou, o filho era jovem demais para assumir um compromisso to srio. Mas tambm Nazareth sentiu-se impotente diante da resoluo do filho, no teve outro jeito seno abeno-lo.
        A famlia Costa chegou de automvel, pais e irmos para o noivado de Pedro, todos hospedados na casa da rua Alagoinhas.
        Amigueiro como ele s, Odylo convidou para a festa de noivado seus amigos da Bahia, a comear por Dom Timteo, abade do Mosteiro de So Bento, ex-professor de Pedro no Rio, pessoa do nosso maior bem-querer, ao governador do Estado, na poca o escritor Luiz Viana Filho, que veio com Juju, sua esposa.
        Jorge fazia questo do pedido formal, com discurso e tudo: Afinal de contas s tenho uma filha e no fao por menos, disse. Podamos at vestir o fardo da Academia, pilheriou Odylo.
        
        Na sala repleta, o pai do noivo levantou-se e mandou verbo: com palavras cheias de poesia, pediu a mo de Paloma para seu filho Pedro. Terminava perguntando:
          Voc d a mo de Paloma para Pedro, Jorge?
          Bem...  ia respondendo Jorge, mas Odylo exigiu que ele ficasse de p.
        Jorge levantou-se.
          Bem  prosseguiu ele , antes de dar uma resposta, eu queria consultar a pessoa mais sbia que se encontra nesta sala, minha me. Minha me  disse ele , o Odylo est pedindo a mo de Paloma em casamento. Paloma e Pedro querem ficar noivos. O que voc acha?
        Sentada ao lado da cadeira vaga que fora ocupada pelo filho, Lalu no titubeou, respondeu em seguida:
         Acho muito bom. Que fiquem logo noivos para acabar com esse namoro de descarao.
        Se houvera pressa para o noivado, agora havia pressa para o casamento. Insistiram e marcaram data para da a menos de um ano.
        
        
        
      JOO JORGE ENTRA NA DANA
        
        Como se o casamento de Paloma no bastasse, Joo Jorge tambm inventara se casar. Filha de um amigo nosso, o portugus Antnio Celestino, radicado na Bahia, Mariinha era a eleita de Joo Jorge.
        O problema se repetia, ambos muito jovens para assumir um compromisso to srio. Joo recm-formado em sociologia, ela, ainda cursando veterinria. Mas, como j foi dito, quem  doido de se meter a dar conselhos a jovens apaixonados, mais doido ainda de proibir? Nessas ocasies, pai e me devem concordar sem abrir o bico para evitar problemas maiores.
        
        A cabea ardendo, precisando arejar, Jorge tratou de organizar uma longa viagem, seria bom sair um pouco.
        
        
        
      A LONGA VIAGEM
        
        Nossa filhinha nos escapava das mos. Ia-se embora, voltaria a morar no Rio de Janeiro, viveria em outro ambiente familiar, se aproximaria da famlia Costa, se distanciaria de ns... Seriam cimes da minha Palominha o que eu sentia? Sem que me vissem, chorei muitas lgrimas. Embora nada dissesse, Jorge tambm andava triste. Mas Jorge no  homem de se entregar, de se lamuriar,  homem de ao: convidou Paloma a fazer uma viagem conosco pela Europa, viagem de uns quatro meses, chegaramos um ms antes do casamento.
        Jorge participaria de um congresso de escritores latino-americanos, na Alemanha, na cidade de Dsseldorf. Como a data do congresso ainda estava muito distante, ficaramos circulando pela Europa, iramos  Escandinvia. Em Copenhague, visitaramos nossos amigos Emlia e Georges Ploestanu. Ele fora, durante anos, embaixador da Romnia no Brasil, da nossa amizade.
        Temi que Paloma fosse reagir, no querendo ficar tanto tempo longe de Pedro, mas no, a viagem era tentadora demais. Prazerosa, ela aceitou o convite, tinha muita vontade de conhecer a Escandinvia. Jorge sorriu satisfeito, ao menos por mais algum tempo a filha de seu amor estaria a seu lado.
        Quanto a Joo, amos cuidar de seu casamento na volta da viagem. Ao menos ele no sairia da Bahia, teria sua prpria casa mas no o perderamos de vista.
        
        
        
      CABO SAN ROQUE
      
        A empresa de navegao espanhola, Ybarra, tinha trs navios que faziam a linha regular entre a Bahia e Vigo com escalas em Tenerife, nas Ilhas Canrias e em Lisboa. Viagem de descanso, agradvel e confortvel para quem no gosta de avio, a fazamos sempre, ora num ora noutro navio.
        Ainda uma vez embarcamos no Cabo San Roque, voltaramos no Cabo San Vicente, com data j marcada.
        Recordo que numa dessas viagens, no Monte Umbe, Jorge levou a mquina de escrever e trabalhava no tombadilho quando dele se aproximou um homem: Por favor, meu senhor, disse, onde  que se encontra a porta de sada? Debruou-se no tombadilho e, olhando o mar, disse: Quero ir ao Baile... Veja que beleza! Todo mundo danando... Sem se perturbar, Jorge apontou-lhe Guillelmo, o barman: Pergunte a ele, ele sabe tudo.
        No porto de Lisboa uma ambulncia aguardava o paciente, portador de um desequilbrio mental.
        
        
        
      LISBOA  VISTA
        
        L estavam, no porto, nos esperando como de hbito, vrios amigos: o escritor Ferreira de Castro, a atriz Beatriz Costa e os amigos, editor Francisco Lyon de Castro com sua mulher, Eunice e Arete Soares, nossa amiga baiana que viera de Paris onde defendia uma tese, para nos esperar e seguir viagem conosco.
        Do Hotel Tivoli, onde nos hospedamos, samos andando, descemos a Avenida da Liberdade, subimos ladeiras, matamos saudades dos lugares, de amigos que encontramos e da comida portuguesa.
        
         noite, com Ferreira de Castro, Lyon de Castro e Fernando de Assis Pacheco fomos  Alfama ouvir fados. Nessa noite, no A Nau Catarineta, deu-se um fato divertido.
        Ao dar-se conta da presena dos famosos escritores na sua casa de fados, a proprietria pediu ao fadista, que no momento ia cantar, que anunciasse a presena dos dois insignes cidados. Desembaraado, o fadista nem engasgou ao anunciar com grande nfase: Temos a honra e o prazer de anunciar a presena nesta casa de duas grandes personalidades: o ilustre poeta brasileiro Ferreira de Castro e o escritor portugus Jorge Amado. Ferreira de Castro riu, mas no gostou: Veja s o parvo... Tentou at corrigir a parvoce do outro, mas Jorge o dissuadiu. Deixa pra l, foi at divertido...
         
         
        
      RUMO  DINAMARCA
        
        Num Mercedes preto, com motorista e tudo, carro alugado em Lisboa, samos numa viagem pelo norte de Portugal, atravessamos serras e plancies, passamos a fronteira com a Espanha. Nos divertimos constatando a diferena de carter entre os vizinhos, to prximos e to distantes na maneira de ser.
        Deixvamos Portugal e antes de atravessarmos a fronteira lemos numa parede: Um dia o sol brilhar para todos. Logo abaixo, a intromisso de um gaiato: E nos dias de chuva?
        Mal pisamos a Espanha, lemos na fachada de uma casa, em letras garrafais: Te dio, te dio y te dio!
        Em Vigo almoamos no restaurante El Mosquito os mais deliciosos frutos do mar. Jorge fez questo de passar com Arete por uma papelaria, nossa conhecida, atrao e divertimento de brasileiros que por ela passam, interessados no nome do proprietrio escrito na fachada da casa comercial: Papeteria Juan Buceta.
        
        Nosso destino era Santiago de Compostela, passaramos, a caminho, por Pontevedra, onde tnhamos amigos. L encontraramos Manolo ou Jos Alberto Moreira, donos do melhor anti-qurio da Bahia. Os Moreira tinham em Pontevedra uma sucursal ou matriz, no sei, da casa de antiguidades. Nessa cidade tambm viviam alguns baianos casados com galegos. Por onde passvamos amos encontrando conhecidos.
        Santiago de Compostela  a cidade de meus encantos. No vamos a hora de chegar  catedral, no queramos perder a impressionante cerimnia do bota fumem, quando um gigantesco turbulo suspenso ao alto por grossas cordas  balanado de um lado a outro da igreja, a velocidade aumentando cada vez mais, a fumaa do incenso se espalhando, invadindo tudo.
        Havia fila para reverenciar Santiago de Compostela, cuja imagem estava instalada no centro do altar-mor.
        Paramos para ver, dentro do templo, nas suas laterais, enormes pinturas, onde Santiago, montado a cavalo, de espada em punho, decepa cabeas, mata os mouros que o rodeiam. Por isso o chamavam Santiago Mata Moros, explicava um guia de turismo a um grupo que acompanhava.
        Eu estava doida para me aproximar da imagem, no altar, ao alto, coisa fcil pois era s subir uma escadinha atrs, que dava acesso s costas do santo. Esperei que um grupo de turistas acabasse de subir, fui atrs. Naquele ambiente sombrio, a proximidade com a imagem me impressionou. Queria dar-lhe um beijinho e para completar o carinho devia tambm abra-lo. No momento em que o abraava e beijava-lhe as costas, ouvi uma gargalhada, alis, duas gargalhadas. Sem me separar de Santiago, olhei para o lado, onde Arete e Paloma morriam de rir. Eu no estava ali por caoada, nem por devoo, apenas tivera esse mpeto e fora adiante. No sei se foi impresso minha ou no, senti Santiago tremer na base, no devia estar muito preso. Nesses momentos a gente pensa nos maiores absurdos, e eu pensei: e se a imagem desabar sobre o altar e eu junto, grudada em suas costas? Atacou-me uma vontade louca de rir, sobretudo ao ver que Jorge chegara junto  escadinha e ria com as duas. No conseguia me soltar do santo, atrs de mim a fila aumentava e eu ali, fingindo que chorava de emoo, recurso instintivo, evitaria ser linchada caso descobrissem a falta de respeito, rir daquele jeito nas costas de Santiago de Compostela. Situao tragicmica, inesquecvel, nos rende boas risadas todas as vezes que a recordamos.
        Nosso destino era a Frana onde pararamos uns poucos dias em Paris, antes de prosseguirmos a viagem para a Escandinvia.
        
        
        
      PARIS
        
        Em Paris demos folga a seu Noel, o motorista, ele no conhecia a cidade e descansaria antes de reiniciarmos a viagem, rumo a Estocolmo.
        Arete vivia na Casa do Brasil, na Cite Universitaire. Fazia, na Sorbonne, um mestrado cujo tema era a praia de pescadores de Jau no litoral da Bahia. Tinha como orientador, em Paris, o professor Brusse Bastide. Ela comprara um Renault 4L j bastante combalido mas ainda muito prestativo.
        No 4L de Arete, fizemos o nosso recorrido em Paris, visitando velhos amigos, em geral comerciantes, pessoas de nossa estima desde os tempos do exlio.
        No podamos deixar de visitar Madame Salvage, e a encontramos no seu posto, na portaria do Hotel Saint Michel. Ela se revelara uma grande amiga ao nos hospedar durante todo o tempo de nosso exlio. No mudara nada: Ma petite Zlia! Mon cher Jorge!, exclamou satisfeita, ao nos ver. Quase se ofendeu ao saber que estvamos hospedados em outro hotel. Insistiu para que passssemos para o dela, havia feito algumas reformas, teramos mais conforto. Nossos quartos, os que habitramos durante dois anos, estavam ocupados, mas isso no tinha a menor importncia, ela despejaria tranqilamente os hspedes que l estavam: O quarto  de vocs, insistiu, e no vo pagar nada, sero meus convidados.
        Preferimos ficar mesmo no Select, um hotelzinho simples, mas bem melhor do que o Saint Michel.
        
        
        
      BLGICA
        
        Chegamos em Bruges num domingo pela manh. A cidade estava em festa, alis, ela em si j  uma festa com seus canais navegveis circundando a cidade de casares antigos, belos.
        Pernoitaramos no Hotel Portinari, o escolhemos por patriotismo, homenagem ao nosso grande artista, e acertamos. Era um bom hotel e bem localizado, prximo ao centro onde se concentravam figuras gigantescas, fantasiadas, que danavam movimentadas por uma pessoa que se encontrava dentro. No consigo recordar como so chamadas no Brasil essas figuras. Em Portugal as chamam de gigantones e, em espanhol, mascarones.
        Pelas janelas dos sobrados ao lado dos canais podia-se assistir a concertos, os msicos vestidos a carter, com trajes de poca, tocando instrumentos antigos, enquanto barcos enfeitados de flores deslizavam, levando personagens caracterizados.
        Chegramos a Bruges num dia de festa, por acaso, no espervamos assistir a espetculo to belo. Em meio a gigantones e mascarones, a tanta msica, tivemos ainda tempo de comprar rendas, as famosas rendas de Bruges, feitas  mo, s comparveis s rendas de bilro do norte do Brasil.
        
        
        
        
      HOLANDA
      
        Bm Amsterd pararamos mais tempo, havia muito a ver, desejvamos voltar ao Museu Rembrandt e ao Museu Van Gogh, queramos que Paloma visse as obras dos dois gnios holandeses, na Holanda, l ela veria quadros que no vira em sua visita de um dia inteiro ao Museu do Louvre.
        A viagem a Amsterd foi tranqila e linda, passamos por campos e campos de tulipas, verdadeiros tapetes coloridos.
        Passeamos em barcos, pelos canais, vendo a parte pitoresca da cidade, famlias inteiras, com ces, gatos e passarinhos, morando tranqilamente em barcos onde at jardim cultivavam.
        Tnhamos grande curiosidade de conhecer as clebres ruas das vitrines, onde prostitutas esperam algum que as eleja para uns momentos de prazer.
        Procurvamos que algum nos desse uma informao, nos indicasse o caminho, quando vimos parar um imenso by night de onde saltaram turistas, na sua maioria senhoras idosas que pelo trajar e o indefectvel chapeuzinho indicava serem americanas. Os guias, um homem e uma mulher, com um guarda-chuva fechado, abanando no ar, iam  frente indicando o caminho como quem dirige uma boiada. L vo eles!, dissemos e, sem perda de tempo, colamos na excurso.
        Em cada vitrine, nas ruas estreitas e movimentadas, encontrava-se uma moa, em geral bonita. O ambiente de cada vitrine era diferente do outro: numa, apenas uma jovem sentada numa cadeira de balano, decentemente vestida, com o ar mais ingnuo do mundo, lendo um livro; noutra, a moa fazia tric, noutra ela segurava um gatinho, noutra, apenas fumava e da por diante. Em toda a extenso da vitrine havia uma cortina grossa que,  chegada de um cliente, era fechada aos olhos dos passantes. O que fora vitrine virava uma alcova. A cortina s voltava a ser aberta depois de tudo terminado, o ambiente novamente arrumado, a moa composta esperando, comportada, um novo fregus.
        
        
      DINAMARCA
        
        Atravessamos a Alemanha e, como pretendamos parar em Colnia, na volta, seguimos diretos e, sempre ouvindo msicas de Moustaki, pelo gravador de Arete, entramos por Lubec e, costeando o mar Bkico, chegamos a Puttgarden de onde atravessamos para a Dinamarca num ferry-boat.
        Em Copenhague os Ploestanu nos esperavam e se puseram  nossa disposio para o que precisssemos.
        Com Emlia passeamos e ela nos levou a ver a famosa Sereiazinha de Copenhague, escultura singela, homenagem da Dinamarca ao seu escritor maior, Andersen. Nos regalamos com os pratos romenos preparados por Emlia, nas vezes que almoamos e jantamos na embaixada com o casal.
        Enquanto seu Noel folgava, andamos pelo centro da cidade, s vezes pelas nossas prprias pernas, s vezes com a ajuda de Emlia, que sabia tudo sobre as melhores lojas e onde fazer compras.
        Diante de tanta coisa bela nas vitrines de Copenhague, Paloma se entusiasmou, no resistiu: por que no comprar o que gostara tanto e jamais encontraria em nenhuma outra parte? As peas e os objetos iam fazer o maior sucesso no Brasil. Compraria o que pudesse para sua casa, devia comear a pensar nela j que a data do casamento estava marcada.
        Ao nos despedirmos da Dinamarca, indo para a Alemanha, seu Noel teve que amarrar uma grande mala que acabramos de adquirir, cheia das compras de Paloma e compras nossas, no porta-bagagem em cima do carro. Nossa mala faria companhia  de seu Noel, que desde o incio da viagem estivera l em cima.
        Depois da parada em Colnia voltaramos a Paris onde terminaria o contrato de aluguel do carro e l o entregaramos.
        Em Paris tomaramos o trem noturno para Londres onde Antnio Olinto e Zora nos esperavam. Olinto era na ocasio adido cultural da Embaixada do Brasil na Inglaterra. Ele e Zora nos hospedariam em seu apartamento na Harowby Street. A data do congresso em Dsseldorf ainda estava distante, mais de um ms. Teramos tempo bastante para mostrar Londres a Paloma, visitar museus, ir a teatros, fazer compras. De Londres voltaramos, sempre de trem, a Paris de onde, no carro de Arete, seguiramos direto para Dsseldorf, a tempo de Jorge chegar antes do incio do Congresso.
        
        
        
      COLNIA
        
        Por recomendao de seu Noel, paramos num hotel no centro da cidade onde passaramos a noite. Hotel simptico, cujos empregados eram em grande parte portugueses. Ao contrrio dos outros hotis nos quais pernoitramos, esse no tinha garagem, apenas um ptio interno de estacionamento onde j havia vrios carros ao chegarmos.
        O malo das compras era to pesado que nem tivemos coragem de insistir para que ele fosse levado para dentro do hotel. Lugar seguro, gente sria, garantira seu Noel, podem deixar tranqilamente a mala, dissera um empregado que ajudava a levar nossas coisas pessoais para nossos quartos. Dormimos tranqilos, um sono s.
        Nosso programa da manh seria andar pelo centro, visitar a famosa catedral. Isso faramos com um amigo de Arete, alemo de Colnia, que ela conhecera em Paris.
        Madrugador como sempre, Jorge saiu logo cedo do quarto, me deixou dormindo. Nem estranhei de s v-lo aparecer quando, com Paloma e Arete, tomvamos caf. Jorge foi chegando e nos estendendo uma folha de papel em branco: Vamos v se vocs tm memria, se lembram das compras que fizeram em Copenhague, disse na maior calma. Vam'bora, tomem nota a de tudo o que trazamos no carro, dentro e fora, insistia. No agentei: E loucura ou um capricho apenas? A essa hora da manh fazer uma lista de tudo? Vamos perder tempo,  muita coisa pra lembrar, pra que isso agora?... Enquanto eu reclamava, Arete e Paloma atiravam-se  tarefa, viam na proposta de Jorge apenas um grande divertimento, faramos a lista num abrir e fechar de olhos enquanto aguardvamos a chegada do amigo de Arete.
        Ao entregarmos a lista a Jorge, devia, certamente, faltar ainda alguma coisa a lembrar. Eu no me convencera de que o capricho de Jorge fosse apenas um divertimento, continuava curiosa e, ao v-lo com a relao das coisas na mo, novamente perguntei:
          Agora me diga, por favor, pra que voc quer essa lista?
          Pra mandar para Emlia Ploestanu  respondeu.
          Para Emlia? Por qu?  Cada vez eu entendia menos.
          Porque fomos roubados  respondeu Jorge.
          Roubados?  dissemos as trs, em coro.
         Isso mesmo. Roubaram o malo de cima do carro, arrombaram o vidro e levaram tudo o que estava dentro.
        Ficamos as trs sem ao. Paloma perdera tudo o que comprara com tanto gosto para a sua casa... Arete perdera a mquina fotogrfica, o gravador e as fitas; eu perdera um par de botas que deixara dentro do carro e algumas compras pequenas, sobretudo presentes que levava para amigos, coisas que estavam no malo.
         Levaram tambm a mala de seu Noel?  lembrei de perguntar.
          No. Ele no deixou a mala dele no carro...
        A mim, seu Noel explicou que retirara sua mala do porta-malas porque precisara tirar dela um pente para pentear-se. Explicao que achamos melhor no discutir.
        O pessoal do hotel no quis saber de conversa, no tinham nada a ver com o sucedido, isentaram-se de qualquer responsabilidade.
         Nunca mais vamos recuperar nossas coisas, disse Jorge. Eu no quero ver ningum de cara triste, ningum chorando, no quero, sobretudo, que esse roubo venha estragar a nossa viagem. Vou telefonar aos Ploestanu, pedir  Emlia que nos faa o favor de comprar tudo novamente e nos enviar para Portugal. Virou-se para a filha: Voc vai ter de volta o teu lindo faqueiro, as peas de cermica, os bordados... tudo. A Emlia  uma boa amiga, ela vai conseguir comprar tudo. No fique triste.
        Por insistncia do amigo de Arete, revoltado e encabulado com o que nos sucedera em sua cidade, fomos  polcia que tambm no resolveu nada. Disseram que havia sido imprudncia nossa, que os roubos em Colnia eram freqentes. Se um dia conseguissem pegar os ladres e recuperar nossas coisas, nos dariam notcias, e adeus, fim de conversa. O ladro no foi apanhado e nossas coisas no foram recuperadas.
        Embarcamos novamente no Mercedes depois de Jorge ter pago a reposio do vidro quebrado. Seguamos a longa viagem de volta, sem msica, toda hora algum lembrando de uma coisa que no havia entrado na lista, quando Jorge rompeu o silncio caindo na gargalhada: Eu estou s pensando, dizia ele, no susto dos ladres ao pegarem a risadinha... Havamos descoberto e comprado em Copenhague a risadinha, caixinha que bastava apert-la um pouco para que dela sassem gargalhadas seguidas e escandalosas, novidade na ocasio. Essa caixa de risadas fora a nica coisa que restara, desprezada dentro do carro.
        
        
        
      RUMO A DSSELDORF
        
        No conhecamos Dsseldorf. O nome para mim, no entanto, era familiar, fazia-me recordar um filme: O vampiro de Dsseldorf, impressionante, interpretado pelo magistral Peter Lorre, filme cujas imagens de uma cidade sombria eu conservava na lembrana.
        Depois de ter viajado dias e dias num possante Mercedes, o frgil 4L de Arete tornava-se bastante desconfortvel, sobretudo para mim e para Paloma, que ocupvamos o duro banco de trs, onde at a ponta de uma mola que escapara do estofamento nos arranhava sempre que nos distraamos.
        Viagem desconfortvel, porm mais agradvel, mais ntima, livre da presena de seu Noel, com Arete ao volante. A voz de Moustaki retornara no gravador novo que comprramos em Paris para Arete em substituio ao roubado. A viagem se tornara no somente mais ntima, como mais engraada. Transformamos a chateao do roubo da mala em gozao e nos divertamos. Jorge falara com Emlia por telefone, ela lhe garantira, encontraramos tudo em Lisboa, antes de embarcarmos de volta para o Brasil.
        A prova de generosidade e de nobreza de carter que Jorge nos dera ao preocupar-se em apagar nossa tristeza e nos devolver o riso lhe dava crditos para o futuro. Da por diante ele poderia at implicar com bobagens, berrar fora de hora, pegar no meu p quando apressado, sem que eu reclamasse, e at o absolveria de um eventual espichar de olho sobre umas ancas a rebolar em sua frente.
        
        
        
      DSSELDORF
        
        Em Dsseldorf fazia frio e o dia era sombrio. Na sede da organizao do congresso nos informaram que os hotis da cidade estavam lotados e nos coubera como acomodao um gentil hotelzinho, rodeado de jardim e bosque, a uns trinta quilmetros do centro da cidade. Mesmo com um mapa riscado na hora numa folha de papel, tivemos dificuldade para encontr-lo. Deixamos a bagagem no hotel e voltamos para a cidade.
        Os escritores convidados haviam chegado e fomos encontr-los reunidos num salo. Apenas Miguel Angel Asturias, Prmio Nobel, conseguira lugar em hotel da cidade. Os demais, Vargas Llosa, Gabriel Garcia Mrquez, Eduardo Portella, Josu Montello, estavam espalhados em pequenos hotis, distantes.
        Se l fora a noite era fria e triste, dentro, no salo, onde se encontravam escritores dos mais distantes pases da Amrica Latina, reinava a euforia num clima clido de confraternizao. Que alegria te encontrar aqui, Prncipe, disse Jorge, ao se aproximar de Eduardo Portella, seu amigo a quem sempre chama de Prncipe. Nosso amigo dos tempos de exlio, Miguel Angel Asturias, me abraou: E tu comadrita, que me contas? Blanca quiere ver te.
        A abertura do congresso estava marcada para o dia seguinte pela manh, em sesso solene, num teatro. Ficamos contentes ao saber que houvera um equvoco, tnhamos reserva num hotel do centro. Dormiramos ainda aquela noite fora da cidade. Deixaramos o hotelzinho pela manh ao sairmos para a solenidade.
        Pela manh, logo cedo, como de hbito, Jorge se arrumou, tomou caf sozinho, ficou  espera do nibus que viria busc-lo. Combinou comigo que eu arrumaria a mala com calma e iria depois com Arete e Paloma. Eu no posso esperar por voc. Tenho horror de chegar atrasado aos compromissos, voc sabe disso. Claro que sabia. No reclamei.
        Eu sempre digo e repito que a pontualidade  uma qualidade, mas o excesso de pontualidade, a preocupao de chegar antes da hora marcada,  um defeito. Sobre essa minha teoria eu poderia dar vrios exemplos, contando algumas histrias, mas no me alongo, fico por aqui.
        O nibus para Dsseldorf chegou s oito e trinta e a abertura do congresso estava marcada para as dez horas. O chofer devia ainda apanhar umas pessoas pelo caminho.
        Eu j estava pronta, a mala fechada, faltando apenas recolher a miualha de ltima hora quando Jorge apareceu na porta do quarto: Vou indo que j estou atrasado. Voc vai com Arete e Paloma, j avisei a elas. Falou e desceu rapidamente as escadas.
        Desci em seguida a tempo de ainda ouvir o ronco do motor do nibus que acabara de partir. A moa da portaria fez um gesto indicando com a mo o porto de sada. Pedi-lhe que mandasse buscar a mala l em cima e sa  procura das meninas. No as encontrei em parte alguma. Voltei  portaria e perguntei em ingls,  mesma moa, pelas duas. Com o mesmo gesto que fizera havia pouco, acrescido de uma bela risada, ela mostrou-me o porto de sada. Essa  obtusa mesmo, pensei, no entende gestos e nem ingls, deve estar achando que pergunto novamente: por Jorge e responde novamente que o nibus j foi. A risada s podia ser de gozao: Ele foi e te deixou, hem! No disse mas pensou, claro. Voltei ao quarto das meninas, at os colches das camas j no estavam.
        Minha mala se encontrava na portaria e nem sombra de Arete e Paloma. Sa andando pelo jardim e percebi um sorriso significativo nos lbios de cada pessoa que eu ia encontrando pela frente. A notcia de que eu ficara esquecida, abandonada, j devia ter corrido e eu, com razo ou no, me senti humilhada, alvo da chacota daqueles alemes todos. No podia me comunicar com ningum, no tinha um nico nmero de telefone para chamar, ia perder a abertura do congresso, a interveno de Jorge... me sentia impotente.
        Felizmente o tempo levantara, fazia sol e eu resolvi ler um livro, sentada no jardim, aguardando os acontecimentos. No consegui ler nem uma pgina. Tudo estava claro para mim: Arete e Paloma haviam me esquecido, ido embora. O jeito era esperar.
        Esperava h quase duas horas quando divisei no porto a ponta vermelha do capo do Renault, dentro as duas, afobadssimas: Me, desculpe..., dizia Paloma.
        Todos os sentimentos, os maus sentimentos, acumulados e remodos durante essa interminvel espera, vieram  tona.
        Em nenhum momento sequer, no entanto, meti Jorge no embrulho, no o culpei: essa sua pressa exagerada, a eterna preocupao de chegar aos encontros antes da hora marcada, estava convencida, era coisa hereditria, defeito congnito, sem remdio, a herdara de Joo Amado de Faria, seu pai, que por sua vez herdara do velho Jos Amado, av de Jorge. No fora, porventura, o coronel Joo Amado que, certa vez, saiu do barbeiro de cara ensaboada, a barba meio feita, meio por fazer? O diabo do barbeiro mais falava do que trabalhava... perdi a pacincia, explicara o Coronel. O velho Jos Amado devia embarcar s oito da manh, num trem que saa da gare perto de sua casa, e, precavido, chegou s seis. Na estao deserta, o trem ainda fechado, ele no teve dvida, no ia ficar esperando de p, forou e abriu a janelinha de um vago, por ela entrou e aguardou sentadinho.
        Despejei minha ira toda sobre Paloma e Arete, a meu ver as nicas responsveis por tudo. Exaltada, exaltao congnita, hereditria da raa italiana, atirei contra elas o que me veio  boca, disse o diabo: no desculpava coisa nenhuma, nunca sofrer uma desconsiderao tamanha, uma falta de respeito tal, e da pra mais. O prprio vampiro de Dsseldorf, a mostrar as presas afiadas, a lanar chispas pelas narinas e pelos olhos, no teria impressionado tanto as duas. At hoje elas no gostam de relembrar a cena. Nem eu. Pela primeira vez, depois de tantos anos, toco no assunto descrevendo-a aqui, na esperana de que assim, quem sabe, consiga esquec-la.
        Acontece que, no final das contas, Arete e Paloma no eram to culpadas assim: no entenderam que deviam me esperar. Ao chegarem ao ptio viram que Jorge j se encontrava dentro do nibus e acharam que eu devia estar com ele. O nibus dava a partida e as duas no perderam tempo, colaram em seu fundo, assim no se perderiam pelo caminho. Ao entrarem no teatro depois de estacionar o carro, deram de cara com Jorge que perguntou  Paloma: Cad tua me? Ao saber do mal-entendido ele se alvoroou: Voltem imediatamente, ela deve estar aflita. Elas voltaram e se perderam vrias vezes, s chegaram l quela hora, considerando um milagre terem conseguido encontrar o caminho.                                                    
        
        
        
      NOTURNO PARA LONDRES
        
        Em Paris tomamos o noturno, com leito, para Londres. Dessa vez Arete no nos acompanhou. amos sentir falta de nossa amiga.
        Ao chegarmos ao apartamento dos Olinto tnhamos a sensao de chegarmos em casa. Nos hospedramos l vrias vezes. Perfeitos anfitries, eles nos deixavam  vontade, me sentia a prpria dona da casa: ia para a cozinha, fazia nossa comidinha costumeira, cansados que estvamos de comer em restaurantes. Em Londres podamos encontrar tudo que quisssemos para os meus pratos brasileiros: desde o arroz e feijo e a farinha de mandioca  carne-seca.
        Aproveitando a estada em Londres, com uma cozinha  disposio, dei aulas de culinria a Paloma, que estava para se casar e no entendia nada de panelas e temperos. Eu era da teoria de meu pai, que a moa quando casa deve saber como se virar diante de um fogo. Se no precisar, muito bem, dizia seu Gattai, mas  sempre bom saber. Disso eu tinha experincia, quantas vezes precisei, quantas vezes tive que assumir o comando da cozinha?
        O apartamento dos Olinto era refgio de brasileiros. Podamos encontrar l pintores, msicos, estudantes brasileiros com bolsas de estudo ou mesmo sem bolsa, dando um duro danado... Zora tinha sempre uma palavra de boas-vindas para cada um, l eles se sentiam bem.
        Adido cultural da Embaixada, Olinto conseguia exposies e concertos para uns e outros. J estivramos hospedados na Harowby Street, ao mesmo tempo que Genaro e Nair, por ocasio de uma exposio das tapearias de Genaro.
        Agora, a surpresa de encontrar Caryb j instalado na casa dos Olinto fora grande. Dessa vez Nancy no estava com ele. Sua estada era rpida, o tempo de amarrar uma exposio e receber uma homenagem do diretor de um banco de Londres que lhe oferecia um cocktail no prprio banco. O convite para essa honraria l estava  nossa espera. Ficamos intrigados:
          Por que isso tudo, compadre? Voc  amigo do banqueiro?  perguntou-lhe Jorge.
          No sou amigo do banqueiro, no conheo ele, nem sei quem . No sei mesmo por que isso tudo. Vai ver que  porque eu sou um porreta  caoou. 
          Que voc  um porreta todo mundo sabe, mas como  que esse banqueiro te descobriu?
        Quem botou tudo em pratos limpos foi Olinto. O tal banqueiro era um criador de eqinos, apaixonado por cavalos. Seu filho estivera na Bahia e comprara um quadro de Caryb e o presenteara. Na tela, dezenas de cavalos, de todos os tamanhos e todas as cores, saltando e correndo em todas as direes, cavalos em movimento que s Caryb sabia pintar. O banqueiro apaixonara-se pela pintura e agora homenageava o artista. (Um quadro de Caryb, de cavalos, encontra-se num dos aposentos da rainha da Inglaterra, num de seus palcios.)
        Querendo fazer uma surpresa a Caryb, Jorge comprou um chapu-coco. Vou com ele  tal homenagem, quero s ver a cara dele. Escondeu o chapu bem escondidinho, segredo absoluto, s botaria na hora de sairmos. E assim foi. J estvamos prontos quando Caryb e Jorge disseram ao mesmo tempo: Esperem um pouquinho. Caryb entrou no quarto dele, Jorge no nosso. Saram ambos de chapu-coco. Haviam tido a mesma idia. Lpidos e fagueiros, l se foram os dois, chapu-coco na cabea, dois distintos ingleses.
        Estavam levando, com grande estardalhao, num teatro de Londres, uma pea musical, Oh! Calcut. A pea escandalizava, pois, coisa ainda no vista em teatro para o pblico em geral, os artistas ficavam nus em cena. O musical combinava com o clima londrino onde, pelas ruas, jovens cabeludos, os revolucionrios hippies, enfrentavam preconceitos, muitos deles at ento filhinhos de papai, cantavam e tocavam, cuia estendida para receber um cent, verdadeiros mendigos felizes, realizados.
        No programa de Paloma, entre as visitas a museus, passeios no Hyde Park, estava a ida ao teatro para assistir Oh! Calcut. No era apenas o escandaloso ou a curiosidade de ver os homens pelados que a atraam, mas, sobretudo, a sensao de pensar na cara de Balbina, de Maria Sampaio e de outras amigas da Bahia, quando soubessem que ela assistira  tal pea proibida no Brasil e lhes contasse, com todos detalhes, o que vira. Nem iam acreditar.
        Entre outras coisas, Paloma tinha curiosidade de ir ao Hyde Park, onde qualquer um podia dizer o que bem quisesse, at falar mal da rainha podia. Era s conseguir um caixote, subir nele e deitar verbo. Juntava logo gente em torno e, dependendo da eloqncia e da pose do orador, a assistncia aumentava ou diminua. Para ns que vnhamos de um pas onde a liberdade de fazer crticas era proibida, tal espetculo era uma novidade. Outra curiosidade do Hyde Park era o homem tatuado. Montado num caixote, um homem forte, de toro nu exposto, exibia suas tatuagens inclusive no rosto e na cabea, tatuagens azuis formando desenhos, frases e datas, no deixando espao nem para se ver a cor da pele, coisa horrvel, no gostamos.
        
        
      
      Os CELESTINO EM LONDRES
        
        Chegavam da Bahia Antnio Celestino, Cndida, sua mulher, pais de Mariinha, noiva de Joo Jorge, e Gininha, a filha mais velha. Hospedaram-se numa penso do bairro. Traziam notcias frescas de todo mundo. Ficamos sabendo por eles que nossos filhos, jovens apressados, haviam marcado data para o casamento que seria realizado um ms depois ao de Paloma. Cndida ia comprar em Londres peas de enxoval para a filha.
        Cndida no esquecera a malandragem que Caryb lhe fizera, antes de viajarmos para a Europa; ainda uma vez puxou-lhe as orelhas, reclamou e ele mais uma vez se divertiu.
        Baiana, afeita a gentilezas de boa vizinhana, pelo So Joo Cndida preparara uma perfumada canjica de milho verde e leite de coco para nos mandar de presente. Telefonou para casa, pediu a Jorge que mandasse Aurlio apanhar a encomenda. Explicou que havia colocado a canjica numa frma de porcelana em formato de carneirinho, pea antiga, de estimao, devia ser devolvida.
        Ao atender o telefone Jorge comentou com Caryb, que se encontrava em casa, a gentileza de Cndida, iria se regalar na hora da ceia. Caryb ouviu calado mas deve ter pensado: quem vai se regalar  aqui o compadre. Despediu-se e foi diretamente para a casa de Celestino. Jorge me telefonou, disse a Cndida, me pediu que apanhasse aqui com voc um prato de pamonhas. Como vou l agora, posso levar. Cndida riu: Jorge no entendeu, eu no falei em pamonhas, eu falei canjica e at expliquei que ele pedisse  Zlia para virar na travessa e ver como o carneirinho sai inteirinho. Explique isso a ele, Caryb. Pegando a encomenda, que inclusive estava coberta com um belo e recomendado guardanapo de linho a ser devolvido, disse; , vai ver que Jorge se enganou porque gosta mais de pamonha do que de canjica. Atirou a farpa e foi direto para a casa dele onde papou a canjica toda.
        Logo depois, Aurlio chegou e Cndida deu-se conta, furiosa, de que havia sido ludibriada, cado na trama de Caryb. Indignada, telefonou para ele que, tranqilamente, lhe disse: Dona Cndida, adorei sua canjica, no lembro de ter comido outra to boa, s acho que a senhora deve, na prxima vez, procurar um carneiro maior...
         
         
        
       OH! CALCUT!
        
        Com os Celestino, Olinto e Zora, fomos ao teatro assistir Oh.' Calcut. To ou mais entusiasmada do que Paloma era Gininha, pois ouvira sobre o musical, no Brasil, os mais contraditrios comentrios: dos mais elogiosos aos mais depreciativos: o mnimo que diziam era que se tratava de uma afronta ao pudor, uma indecncia encenada...
        Teatro lotado, as meninas sentaram-se longe de ns. Adoraram e no se preocuparam em poupar comentrios enquanto assistiam ao espetculo e parece que, segundo Paloma depois me contou, elogiaram ou depreciaram a plstica e os complementos dos atores. Falavam soltas, diziam coisas, satisfeitas de no serem entendidas pelos vizinhos sem nem de longe desconfiarem que, sentado atrs delas, um cidado baiano divertia-se mais com os comentrios das duas moas do que com o que via em cena. Por coincidncia, o cidado era Walter Barana, marido de Ninita, prima de Jorge. Ao acenderem as luzes, ele deu uma batidinha no ombro de Paloma: Gostou, Paloma? Onde esto teus pais? Educado, felizmente, no fez comentrios.
        O que aconteceu com Paloma e Gininha costuma acontecer com muitos brasileiros que se soltam a dizer besteiras quando se vem em terras estrangeiras sem pensar que sempre h algum nas imediaes que entende o portugus.
        Lembrei de contar uma historinha, elucidativa, sobre o assunto que venho de comentar e no h quem me segure:
        Estvamos em Paris, a data no importa, com Auta Rosa e Calasans Neto, hospedados no Hotel de EAbbaye, e devamos ir ao aeroporto esperar Antnio Celestino, que chegava do Brasil.
        Em Paris, todo mundo sabe, os txis no apanham mais do que trs passageiros, a conta do banco traseiro. Quando se deseja um txi para quatro pessoas  preciso especificar, pagar mais caro, pois esses carros pagam seguro para quatro passageiros, em caso de acidente, quando os outros pagam s para trs.
        Com Cala e Auta pedimos o txi para quatro, o que significava termos que esperar mais tempo pois so poucos os que fazem esse servio. O avio de Celestino devia chegar por volta das dez horas da noite. Fizemos um clculo, pediramos o txi para as sete horas, chegaramos ao Charles De Gaulle por volta das oito, teramos tempo de sobra para jantar no restaurante do aeroporto.
        O txi foi pedido e samos para esper-lo na porta. O tempo passava e nada dele chegar. Jorge comeava a ficar nervoso, no contramos com o engarrafamento quela hora de fim de expediente. Enquanto Cala se encostou na porta do hotel, Jorge foi para o meio da rua e de l gritou: Cad esse txi, seu Cala.. Ele no vem e eu j estou morrendo de fome... Olhando para a sua esquerda, Cala divisou dois rapazes que se aproximavam trazendo na mo um queijo redondo e vrias baguetes de po. De onde estava, Cala gritou:  Jorge, voc no disse que est com fome? Pois d uma porretada na cabea desses dois caras, tire o queijo e o po deles e coma. Os rapazes, dois brasileiros, deram uma pequena parada e disseram: Pode dar a porretada mas  perigoso! Pela primeira vez vi Cala desconcertado.
        
        
        
      FIM DA ESTADA EM LONDRES
        
        Nesse fim de estada em Londres tivemos ainda uma surpresa; vinda do Brasil, nossa amiga Helosa Ramos, viva do escritor Graciliano Ramos, acabara de chegar e trazia novidades.
         Helosa pode almoar conosco, disse Zora, convido alguns brasileiros que gostaro de v-la e ter notcias frescas da terra e ainda matar a saudade de uma feijoada. Vamos fazer uma feijoada, Cndida?
        Zora era vegetariana, macrobitica, preparava a sua gororoba  como a denominavam, pilheriando, Jorge e Olinto  e s hspedes dava a liberdade de cozinhar os venenos em seu fogo e em suas panelas. Por isso, Nair de Carvalho e eu j havamos sido cozinheiras em Londres, no apartamento dos Olinto, a preparar almoos festivos.
        Chegara a vez de Cndida mostrar seus dotes culinrios. Ns estvamos de partida para Paris, Arete nos esperava com o seu 4L para seguirmos viagem para Lisboa.
        Combinamos com Celestino e Cndida nos encontrar com eles em Pvoa do Lanhoso, ao norte de Portugal, na quinta de dona Virgnia, me de Celestino, onde eles passariam o resto das frias. L ento, combinaramos os detalhes do casamento de Joo e Mariinha.
        
        
        
        
        
      PORTUGAL NOVAMENTE
      
        Tnhamos muito tempo pela frente. A data da sada do Cabo San Vicente de Lisboa ainda estava distante. Poderamos, com folga, encontrar e curtir os amigos que no pudramos ver na ida. Se fizssemos a conta, seria difcil dizer se tnhamos mais amigos em Portugal ou no Brasil.
        Queramos muito estar com Fernando Namora e Zita, com lvaro Salema e Elisa, com Antnio Alada Baptista, com Forjaz Trigueiros e Helena, Fernando Assis Pacheco e Rosarinho, Jos Carlos Vasconcelos e Maria Jos, Raul Solnado. Iramos, sem falta, comer no restaurante Amadora, no Parque Meyer, onde seramos recebidos por Mimi, Gloria e Amadora, trs velhas amigas, trs queridas. Restaurante de comida caseira feita por Amadora para fregueses certos, em geral artistas dos teatros do Parque. Alguns amigos nossos, por exemplo, Antnio Alada Baptista, era fregus assduo do pitoresco restaurantezinho.
        Faramos programas com cada amigo, almoaramos e jantaramos juntos, bateramos grandes papos, saberamos das novidades da terra, contaramos as nossas. Teramos tempo de ir ao Norte conversar com Celestim. Paloma teria a oportunidade de fazer compras. Ela encontraria em Lisboa as mais belas porcelanas e toalhas bordadas, para seu enxoval, as juntaria s compras de Copenhague, que j haviam chegado. Estavam  nossa espera no Hotel Tivoli, segundo informao de Vinagre, amigo nosso, funcionrio do hotel. Emlia fora formidvel, comprara e remetera tudo.
        
        
      
      JOS FRANCO
        
        Com Francisco Lyon de Castro e Eunice e com Beatriz Costa, fomos ao Sobreiro, nas cercanias de Lisboa, visitar a cermica de Jos Franco. O ceramista reproduzira num grande terreno,  volta de sua casa, toda uma aldeia saloia: do moinho de vento  roda-d'gua, uma singela capelinha, o armazm de secos e molhados, o ferra-cavalos, o aougue, o correio, tudo em tamanho natural, e ainda fizera um grande prespio onde as figuras se movimentavam. As esculturas de madonas, santos e tipos populares, que Jos Franco esculpia, moldadas no barro por suas mos de artista, eram a maior perfeio, a maior delicadeza. Nos encantaram tambm as grandes peas rsticas, e no resistimos, compramos vrios gaios, azul, verde, preto... que trouxemos para a Bahia e at hoje enfeitam a nossa casa do Rio Vermelho. Tnhamos a tranqilidade de comprar o que bem quisssemos, sem nos preocupar com o peso. Embarcaramos tudo no navio, em Lisboa, e desembarcaramos tudo no porto de Salvador, a bem dizer, na porta de casa, sem problemas. Sabedora dessa facilidade, Beatriz Costa comprou e nos ofereceu um servio de jantar, de barro, completo. Nesses pratos e nessas travessas eu costumo servir a nossa comida baiana, em grandes ocasies.
        Voltamos sempre ao Sobreiro em nossas visitas a Portugal. No entanto, o que nos atrai j no so tanto as cermicas como o encontro com nosso amigo Jos Franco. Homem de bem, grande artista, grande amigo. Na porta de nossa casa, na rua Alagoinhas, temos cravada na parede uma pequena placa, dois pequenos azulejos com dois coraes pintados, dentro de cada corao, nossos nomes: Jorge e Zlia e Jos e Helena. Dona Helena, mulher de Jos Franco, ela tambm com sensibilidade artstica, foi a autora da plaquinha, pintada pouco antes de morrer.
        
        
        
      O AMIGO NUNO
        
        Nessa tarde da visita a Jos Franco, encontramos l Nuno Lima de Carvalho, que com Clarinda, sua mulher, fazia compras. Sem esperar que nos apresentassem, Nuno se aproximou, falou com Jorge, era seu admirador.
        Jornalista, secretrio-geral do ncleo Estoril Sol, homem de ao, executivo de primeira, pessoa simptica, inteligente, em seguida nos tornamos amigos. Amizade que perdura at hoje, amizade sempre presente, mesmo nas longas ausncias.
        Aqui venho novamente pedir licena para me adiantar no tempo. Como o Cabo San Vicente ainda demora a zarpar de Lisboa, nos levando e ao casal Francisco Lyon de Castro, para a Bahia, eu no queria perder o fio da meada e contar as proezas de Nuno Lima de Carvalho.
        Interessado pela Bahia, por sua msica, pela comida baiana, pelos cantores, por seus artistas plsticos, sem nunca ter visitado Salvador, Nuno tudo sabia, aprendera bastante lendo os livros de Jorge Amado. De nosso encontro, de nossa convivncia, nos dias que se seguiram, Nuno projetou um intercmbio cultural com a Bahia. Comearia com a realizao de uma semana da Bahia, no Casino Estoril. Depois faria a semana do Estoril, na Bahia. Empreitada difcil, cheia de tropeos burocrticos, mil e um problemas a enfrentar, porm, obstinado, levou o projeto avante. Custaram-lhe dez anos de esforo at realiz-lo.
        Plano amadurecido, Nuno Lima de Carvalho estudou e entendeu que havia chegado a hora de concretizar seu projeto. Com Antnio Carlos Magalhes no governo do Estado, homem dinmico e empreendedor, tudo ficara mais fcil, teria o apoio necessrio.
        Apresentado por Jorge, ele entrou em contato com o prefeito de Salvador, na ocasio Manuel Castro, procurou Paulo Gaudenzi, o responsvel e quem mais entendia de turismo e divulgao da cidade.
        Estudada a importncia desse projeto de intercmbio cultural entre Brasil e Portugal, o plano recebeu o beneplcito do proprietrio e diretor do Casino Estoril, Dr. Manuel Telles, que o apoiou permitindo a sua realizao no Casino, na sala de visitas do turismo portugus, espao privilegiado para a realizao de grandes eventos culturais, para a apresentao da Semana da Bahia no Estoril. Com a colaborao do embaixador do Brasil em Portugal, Drio Castro Alves, a festa foi realizada em 1980.
        Numa grande sala foi montada uma exposio bibliogrfica e documental de Jorge Amado, com muitas centenas de capas de tradues do autor, alm de valiosa documentao, a primeira exposio desse material a ser mostrado fora do Brasil.
        Pode-se visitar, nessa semana de arte da Bahia, uma exposio de obras de Caryb, Carlos Bastos, Mrio Cravo Jnior, Jenner Augusto, Calasans Neto e Floriano Teixeira. Pode-se ver as obras e conhecer os artistas, l presentes.
        Responsvel pelo catlogo, trabalho de alto nvel, James Amado tambm l estava, porm dessa vez sem Luiza. Ela no pudera viajar, ficara com Fernanda, sua filha, que esperava o primeiro filho por aqueles dias. Tambm naqueles dias nasceria o terceiro filho de Joo. Os nascimentos de Joo Jorge Filho, o nosso neto Jonga, e de Fbio, neto de Luiza e James, foram celebrados ao mesmo tempo que a inaugurao da Semana da Bahia no Estoril, com direito a enorme bolo, decorado com dois bonequinhos e dizeres de boas-vindas aos nossos netinhos.
        Os portugueses poderiam, nessa semana de 11 a 19 de fevereiro, no espao principal do Casino, encontrar o que havia de mais significativo na Bahia. Poderiam ver exposies de arte popular e de artesanato. Poderiam saborear um bom vatap, um caruru, xinxim de galinha, de peixe e de camaro, preparados com material da Bahia, dezenas de quilos de camares secos, azeite-de-dend, castanhas de caju, transportados de avio, servidos por belas baianas, vestidas de bata bordada, pano da Costa e toro na cabea, se regalariam com os acarajs e os abars, feitos por mestras da cozinha baiana, cozinheiras da Casa da Gamboa, sob a batuta de dona Conceio, que l se encontrava dirigindo a cozinha. No palco do grande restaurante exibiam-se todas as noites grupos folclricos da Bahia.
        
        Ainda no quadro da semana da Bahia, Jorge Amado foi honrado com uma recepo no Forte S. Julio da Barra pelo presidente da Repblica, general Ramalho Eanes, que o condecorou com o grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago de Espada. O secretrio de Estado do Turismo atribuiu-lhe a Medalha do Mrito Turstico.
        O incansvel Nuno Lima de Carvalho,  frente de tudo, comeava a pr de p a campanha de promoo da Semana do Estoril na Bahia a ser realizada da a um ano.
        Uma bela medalha de bronze, comemorativa do evento, com a efgie de Jorge Amado, foi feita pela escultora Dorita Castelo Branco.
        Compareceram  inaugurao dessa festa, que transformou o Casino Estoril numa Bahia alegre e colorida, o presidente da Repblica, Dr. Antnio Ramalho Eanes com dona Manuela, sua esposa. No faltou nenhum intelectual portugus, pintores e escritores l estavam, e artistas e intelectuais baianos os receberam como donos da casa.
        Nessa noite, ao cumprimentar o presidente da Repblica, Calasans Neto, que, por merecimentos, conquistou o direito de pilheriar, contar as mais picantes anedotas, sem que ningum reclame ou se ofenda, ao contrrio, diverte a todo mundo, perguntou a Ramalho Eanes: Sabe, Presidente, qual foi a coisa que os brasileiros mais gostaram do senhor em sua recente visita ao Brasil! Homem aparentemente sisudo, que no ria em pblico, no sabia o que os brasileiros haviam mais gostado dele, ficou curioso: No, no sei... Pois foi do seu sorriso, Presidente. Sem poder conter-se, Antnio Ramalho Eanes soltou uma boa risada. Riram juntos, e desde esse dia o presidente e Calasans tornaram-se amigos.
        Outra amizade ilustre que Cala fez nessa noite foi com o primeiro-ministro, Mrio Soares. Visitando a exposio de pintura Mrio Soares bateu um grande papo com Calasans, autor do quadro de que gostara muito e convidou-o para, quando sassem, lev-lo a dar um giro por Lisboa, queria mostrar-lhe algo interessante.
        Na hora de ir embora, o escritor Alada Baptista passou pela exposio de Cala para lhe oferecer uma carona: Vamos, Calasans!, dou-te bolia na minha carrinha..., ao que Calasans lhe respondeu: E eu l vou querer bolia na carrinha de um simples escritor, quando tenho carona garantida no carro de um primeiro-ministro, o prximo presidente da Repblica? Seria apenas um palpite de Cala ou ele entendia mesmo da poltica portuguesa?
         
        
        
      NOTA TRISTE
        
        Nessa noite da inaugurao da Semana da Bahia, com as autoridades portuguesas, a direo do Casino e os artistas brasileiros espervamos a chegada do presidente da Repblica para dar incio  inaugurao.
        Drio Castro Alves, embaixador do Brasil que dera grande apoio ao evento, no conseguia esconder sua tenso, rosto transtornado... Jorge quis saber o que estava ocorrendo e ele no pde conter as lgrimas. Sua mulher, a escritora Dinah Silveira de Queiroz, estava agonizando, no Brasil, onde se encontrava em tratamento. Ele s esperava que o presidente Eanes inaugurasse a exposio, para sair direto para o aeroporto, no podia sair antes, no podia quebrar o protocolo diplomtico.
        Assim que o presidente chegou, Jorge chamou dona Manuela de lado, explicou-lhe o drama do embaixador. Dona Manuela no teve dvidas, discretamente falou em particular ao marido, e foi assim que o presidente Eanes inaugurou em seguida a Semana da Bahia no Estoril.
        Drio conseguiu tomar o avio e chegar ao Brasil a tempo de assistir aos funerais de sua amada Dinah.
        
            
      ALDEIA SUBMERSA
        
        Acompanhados pelo engenheiro-agrnomo Joo Vasconcelos, primo de Celestino, visitamos uma aldeia ao lado da Serra do Jerez, nos seus ltimos dias de vida. As comportas da barragem que acabavam de construir iam ser abertas, a aldeia e quilmetros de campo ao seu redor iam ficar submersos.
        Descemos com dificuldade o terreno ngreme at chegarmos  aldeia, onde caminhes estavam sendo carregados com os ltimos pertences da populao.
        Aldeia mais linda, mais pitoresca, me emocionou. As casas, na sua maioria, eram feitas de blocos de pedras, com vasos de delicadas flores nos parapeitos das janelas. Por toda a parte, o terreno fora aproveitado, l estava o vinhedo, as parreiras baixas carregadas de cachos de uvas mal despontadas que estavam sendo devoradas, com avidez, por cabras, bodes e carneiros, diante da indiferena dos camponeses. Deixa que comam, coitadinhos, ao menos que eles as aproveitem, dizia a velhinha,  j no as colheremos...
        Com um n na garganta diante da tristeza daquelas criaturas que se despediam de toda uma vida, eu fotografava. Olhe esse, no perca..., apontava-me o engenheiro-agrnomo a porta da igrejinha. Dela saa um homem equilibrando um caixo morturio na cabea, o nico da comunidade, o que servia para velrios e o acompanhamento do funeral at a cova, quando ento o cadver era envolvido num lenol para ser enterrado e o atade devolvido para o prximo ocupante. O caixo foi colocado no caminho ao lado de colches, cadeiras, mesas, tachos e mil tralhas. At um cachorro foi embarcado nessa viagem.
        Nosso entusiasmo ao chegarmos se fora, dera lugar  melancolia, assistamos aos ltimos momentos,  agonia de um povoado. Corao apertado, nos despedimos dessa gente da aldeia do Jerez, seus ltimos habitantes.
        
        
      PVOA DO LANHOSO
        
        Nosso plano de passar alguns dias na quinta de Celestino no deu certo, ficamos com eles apenas um dia e uma noite. Viagem muito longa, de Lisboa ao norte, a gente parando em Pvoa do Varzim, querendo visitar uma das maiores joalherias de Portugal, cujo proprietrio era casado com uma baiana, Fernanda So Paulo. Como passar por Braga, cidade encantadora, sem parar?
        Os acertos com Cndida e Celestino para o casamento de nossos filhos no foram fceis. Havia um problema muito srio para os pais da noiva, a ser resolvido, problema que para ns, os pais do noivo, no existia.
        Catlicos praticantes, o casal Celestino no podia admitir um casamento que no fosse na Igreja, a noiva de vu e grinalda.
        Consultado sobre a realizao da cerimnia na Igreja de Santa Tereza, no Museu de Arte Sacra do qual era diretor, Dom Clemente da Silva Nigra se negara a oficiar a cerimnia, como no permitiria, sequer, o casamento de um herege em sua igreja. Joo no queria batizar-se, era irredutvel em seus princpios.
        Para ns isso no era um problema, pois tanto Jorge como eu ramos de opinio que o casamento s no civil era suficiente e at sem civil bastava. Tnhamos o nosso exemplo: apenas o amor nos ligava h tantos anos. No podamos nos casar oficialmente, pois Jorge e eu ramos desquitados e ainda no existia a lei do divrcio.
        Por falar nesse assunto to delicado de casamento e amigao, eu me permitiria contar aqui um sucedido, mostrar que nem tudo o que brilha  ouro. Quem pensa, e h muita gente que assim julga, que na Bahia Jorge Amado manda e desmanda, tem todas as facilidades e regalias, se engana.
        Ao completarmos vinte e cinco anos de vida em comum, Jorge achou que devamos oficializar meu nome. Eu usava ilegalmente o sobrenome Amado. Para quem viajava e necessitava apresentar passaporte, s vezes era desagradvel ter que dar explicaes: Afinal de contas a senhora  Amado ou Gattai! Encomendas postais, recomendadas  Zlia Amado, eu no podia retirar.
         No custa nada oficializar teu nome de vez, disse Jorge, vamos resolver isso em trs tempos. Tnhamos tanto o exemplo de Mindinha Villa Lobos, que adotara oficialmente o nome do Maestro com quem vivia h muitos anos, como tambm o de Nair de Carvalho que adotara, oficialmente, o nome de Genaro.
        Tibrcio foi convocado para tratar do assunto. Vai ser fcil, disse, principalmente j havendo precedentes. Nenhum juiz vai ter medo de ser o primeiro. Se foi por medo ou por qual motivo foi, no sei. A resposta  petio foi um no redondo, o juiz, cujo nome fiz questo de esquecer, borrar de minha mente, negou o pedido de Jorge. Soubemos por Tibrcio, que nos contou morto de encabulado, que houve rebulio no Tribunal por causa dessa negativa e at gestes foram feitas junto ao juiz, mas ele, irredutvel, confirmou a sentena: No pode e tenho dito.
        Quem resolveu o assunto foi o senador Nelson Carneiro, que, atravs de seu escritrio em So Paulo, encaminhou novo pedido. Numa semana tudo foi resolvido. Viajei para So Paulo apenas para assinar os papis necessrios. Estava autorizada a usar oficialmente o nome Zlia Gattai Amado.
        Com a promulgao da lei do divrcio, lei proposta e batalhada por Nelson Carneiro, Jorge e eu, aps trinta e dois anos do concubinato, nos casamos oficialmente, o que nada mudou em nossa vida, a no ser nos permitir legalizar nossos filhos que deixaram de ser filhos ilegtimos para serem filhos legtimos.
        Ao escrever Anarquistas, graas a Deus, assinei o livro com o nome herdado de meu pai. No queria, de forma alguma, aproveitar a promoo de um nome famoso, no queria vender livros na rabeira de Jorge Amado. Se o que escrevi agradar aos leitores, pensei, que seja esse o nico motivo para um eventual sucesso. Hoje sou conhecida como Zlia Gattai, no desprezo o nome que ganhei pelo casamento, ao contrrio,  um nome que muito me honra e o uso sempre que preciso.
        
        
        
        
      Dois PADRES, DUAS CABEAS
      
        A seu ver, Cndida no nos pedia muito, queria apenas que, ao voltarmos para a Bahia, convencssemos Joo a se batizar. Na sua ingenuidade ela nem desconfiava estar pedindo a coisa mais impossvel.
        Criamos nossos filhos na maior liberdade religiosa, eles seguiriam o que suas cabeas e seus coraes mandassem, estaramos sempre ao lado deles sem interferir. Pelo visto, Joo e Paloma ainda no haviam abraado nenhuma religio e no seria o pai nem a me que iriam violar seus princpios de liberdade, forando-os a fazer concesses. Joo, alis, fizera uma concesso, casaria na Igreja Catlica para no desgostar a noiva e seus pais. Porm, de jeito nenhum se batizaria nem confessaria.
        O impasse criado, Jorge deu uma sugesto: Por que no procuram outro padre? Certamente encontraro um mais liberal. Por exemplo, Paloma ia casar-se na Igreja Catlica, Dom Timteo Amoroso Anastcio, abade do Mosteiro de So Bento, de Salvador, convidado pelos meninos para celebrar a cerimnia, sugerira realizar um casamento ecumnico, de um catlico com uma no-catlica. Mas era difcil encontrar outro padre to aberto, to inteligente quanto Dom Abade.
        
        
        
      CASAMENTO ECUMNICO
        
        Cerimnia marcada para as onze horas da manh, no Mosteiro de So Bento, no Rio de Janeiro, s dez horas, em nosso apartamento da Rodolfo Dantas, todo de branco, terno impecvel, Jorge dava pressa  filha que se vestia. Vestido simples de seda tailandesa, presente de uma das madrinhas, Beatriz Costa, confeco de Din, prima de Jorge. Paloma no quisera vu nem grinalda, apenas um arranjo na cabea, desenhado pelo noivo.
        s onze em ponto Jorge ajudava a filha a saltar do carro, na porta da igreja. Desta vez ele no conseguira chegar adiantado, desistira de apressar a filha ao ver que a menina chorava nervosa. Os convidados, em sua maioria, acostumados aos atrasos das noivas, ainda no haviam chegado, pouca gente estava na igreja. A menina Ana Tornaghi, filha de Maria e sobrinha de Pedro, que levaria as alianas, s chegou no fim da cerimnia. Pedro fazia hora conversando com Dom Abade na sacristia, quando foi chamado s pressas, assim mesmo, ao chegar ao altar a noiva l se encontrava  sua espera.
        Elegante, num vestido novo, comovida com o casamento da neta, l estava Lalu. Eu usava um vestido verde e chapu de palha, trazidos de Paris, onde comprara na companhia de Blanca Astrias, que morava l e, muito expedita, sabia tudo de modas e onde encontrar o melhor e mais barato.
        Dom Abade, com sua batina branca, iniciou o ato: Realizo aqui a cerimnia ecumnica do casamento de um catlico com uma no-catlica. Ao meu lado Lalu no gostou, cutucou meu brao. Dom Timteo continuou escandalizando Lalu, a cada vez que mandava Pedro ajoelhar-se e Paloma ficar de p ou Pedro rezar e Paloma permanecer calada.
        Em casa, ao ser indagada se gostara do casamento, Lalu desabafou: Se gostei? Estou indignada com esse padre, disse, havia necessidade dele atirar na cara da menina, na frente de todo mundo, que ela no  catlica? Mandou a pobrezinha ficar de p, mandou que no rezasse pra que as pessoas pensassem que ela no sabe rezar... Eu estava vendo a hora dele meter a mo na cara de minha neta... Nem sei como tu mais Jorge tiveram pacincia de assistir tudo isso, calados...
        No entendendo nada sobre essa modernidade de casamentos ecumnicos, Lalu fora sincera ao desabafar e no se convenceu nem mesmo depois de ouvir a explicao do filho sobre a significao do progresso da Igreja Catlica, permitindo, democraticamente, que tal cerimnia se realizasse. Jorge tratou de desfazer a m impresso da me sobre Dom Timteo... Achvamos que Lalu entendera tudo mas ela ainda tinha uma ressalva: Est tudo muito bem, disse, no meu tempo no tinha dessas coisas, s no achei certo o padre dizer na frente de tanta gente que a menina no  catlica. Roupa suja a gente lava em casa, no , meu filho?
        Deixamos Paloma no Rio, ela ia morar no andar superior de nosso apartamento, na Rodolfo Dantas.
        
        
        
       A OUTRA AV
        
        Fico pensando o que teria dito minha me se tivesse assistido ao casamento da neta. Liberal, anarquista anticlerical, ela era, no entanto, preconceituosa, tinha medo da lngua do povo e, certamente, pelos mesmos motivos de Lalu, no teria gostado da novidade ecumnica. No se deve fiar nos herdeiros da Santa Inquisio; os anos passam mas o rano fica. Ouvi mais de uma vez dona Angelina repetir essa frase.
        Mame nos deixara havia dois anos. O telegrama anunciando a sua morte, enviado por meu cunhado, Jos Soares, marido de Wanda, era lacnico: Dona Angelina faleceu, repentinamente, esta noite. O enterro ser s cinco horas.
        Repentinamente, eu ficara sem me. Me atirei na cama, o corpo morto, chorei, chorei, sem mesmo poder ouvir as palavras de consolo de Jorge e de meus filhos.
        Jorge trabalhava no momento num livro, escrevia Tenda dos Milagres, no podia me acompanhar aos funerais de minha me. Consegui um vo para So Paulo e sozinha parti. Cheguei ao cemitrio do Ara, onde o corpo estava sendo velado, a tempo de beijar a testa gelada de mame e de colocar-lhe nas mos uma rosa vermelha.
        
        
        
      CASAMENTO DE JOO
        
        Voltamos logo do Rio, o casamento de Joo estava marcado para da a um ms e eu no tivera tempo de providenciar nada.
        O impasse continuava: Dom Clemente fincara o p, no celebraria o casamento de um herege, filho de um ateu. Botara Jorge na berlinda ao negar tambm a Igreja de Santa Tereza.
        O Museu de Arte Sacra, ao qual pertencia a Igreja de Santa Tereza, era administrado pela Universidade Federal da Bahia. Bastou uma palavra do reitor, Roberto Santos, para que suas portas fossem franqueadas e bastou uma autorizao do cardeal-arcebispo, Dom Avelar Brando Vilela, para que o casamento ecumnico se realizasse sem necessidade de batismo.
        Finalmente, foi escolhido o padre ideal, pessoa tima, liberal, estimado na Bahia, Dom Jernimo de S Cavalcante, de famlia cearense. Ele, inclusive, fora citado por Jorge, como personagem, num romance.
        Dom Jernimo deu incio  cerimnia, presentes o reitor e dona Maria Amlia, sua esposa, o governador do estado, Luiz Viana Filho com dona Juju. s tantas, Dom Jernimo fez uma pausa e, dirigindo-se ao noivo, disse: Joo, no romance Dona Flor e seus dois maridos seu pai deu-me a honra de fazer-me personagem. Na pgina 231 ele diz: "onde o celebrante, Dom Jernimo, sapecou sermo dos mais eloqentes". Eu queria dizer aqui, hoje, na presena de Jorge Amado, que no costumo sapecar sermes, costumo proferir palavras de amor... e  o que vou fazer agora ao celebrar um casamento ecumnico de uma catlica com um no-catlico.
        A gargalhada foi geral, Dom Jernimo acabara de lavar a alma, livrara-se daquele incmodo sapecou, que havia anos estava entalado em sua garganta.
        Felizmente, segundo a praxe, os pais da noiva ocuparam-se dos detalhes do casamento, inclusive os da recepo. A ns coube ceder um pedao de nosso terreno e construir uma casa para os jovens morarem. Seramos vizinhos, dividiramos o mesmo jardim.
        
        
        
      CASA VAZIA
        
        Nossa casa to grande, to movimentada com nossos filhos e seus amigos trazendo msica e entusiasmo para dentro das portas, de repente, no espao de um ms, ficou vazia, silenciosa. Bom motivo para fugirmos daquela tristeza, foi Jorge aceitar o convite para um perodo de trs meses, como autor residente de uma universidade da Pensilvnia, a Pen State University, em State College. Sairamos um pouco da condio de pais rfos de filhos.
        O programa que a universidade propunha era interessante. Jorge se reuniria uma vez por semana com alunos que estudavam literatura brasileira nos livros de Jorge Amado. Nas reunies semanais entre o autor e seus leitores, haveria debates e questes apresentadas pelos alunos, curiosidades respondidas pelo escritor. Uma intrprete faria a traduo nesses encontros e nas palestras que ele deveria realizar.
        Jorge respondeu a Stanley Wentraub, conhecido escritor e diretor da universidade, aceitando o convite. Seria uma boa experincia o contato direto com alunos e leitores, conheceramos de perto o dia-a-dia da vida americana, aprenderamos bastante. Eu voltaria aos trabalhos de dona de casa, pois teramos um apartamento mas no uma empregada. Ser dona de casa, arrumar e limpar, cuidar da roupa lavada e ir para a cozinha no me assustava.
        Deveramos estar em State College em agosto, tnhamos muito tempo pela frente, podendo nos dar ao luxo de ir de navio at Los Angeles, onde passaramos uns dias com Cyva e Aloysio de Oliveira que, ao saberem de nossa viagem, nos haviam convidado a passar uns dias na casa deles. Depois, a conselho de Alfredo Machado, doutor em roteiros americanos, tomaramos um confortvel nibus indo at Las Vegas.
        
        
        
       BRASIL MARU
      
        Deixamos Lalu com Fanny e Joelson, em So Paulo. Ao lado do filho mdico ela se sentiria confortada.
        Tomamos em Santos o Brasil Maru que nos levaria at Los Angeles. Navio japons, pequeno, simptico, ele tinha apenas trs cabines de primeira classe, duas das quais j se encontravam ocupadas por passageiros embarcados na Argentina. No convs inferior havia uma pequena piscina e, mais abaixo, uma segunda classe que ia lotada de japoneses de volta  sua terra, depois de muitos anos no Brasil. Famlias inteiras com filhos nascidos em So Paulo, haviam, como ns, embarcado em Santos.
        Naquela tarde fria, tarde triste de garoa, o navio zarpou lentamente, iria costeando as cidades do Norte.
        Passvamos ao largo, em frente a Salvador, vendo ao longe as luzinhas da cidade, quando ouvimos pelo rdio de um vizinho o noticirio da Bahia. Teramos entendido bem? Prestamos ateno, o locutor falava da morte de Genaro de Carvalho, vtima de um aneurisma. Genaro morrera no dia do meu aniversrio. Passamos um telegrama para Nair, falando de nossa imensa tristeza. Nada mais podamos fazer.
        As distraes no navio eram poucas: concurso de arranjos florais, roleta com pequenos brindes para os ganhadores, cerimnia do ch,  tarde... No tnhamos com quem bater grandes papos, as conversas de nossos companheiros argentinos eram diferentes das nossas. Um dos casais levava uma filmadora e marido e mulher faziam planos de filmagens para um documentrio, aproveitando em Los Angeles em excurses de nibus, j programadas, uma ao Grand Canyon, onde pretendiam esbaldar-se. No esqueo a cena: diante de um espelho, o camera man, em atitude de quem est filmando, ensaiava, dizendo com voz pausada, um texto decorado: Estamos delante del grande canon, muy grande... muy grande...
        Mais interessante do que as conversas com os companheiros da primeira classe era o convvio com os pequenos nisseis l de baixo, uns azougues, vivos como eles s. Jorge os convidava todos os dias para um piquenique, comprava na cantina Coca-Cola, sanduches, bolos, balas... Reunia-se com os meninos l embaixo, pois eles eram proibidos de subir  piscina e  primeira classe. Todos eles tinham um nome japons e um brasileiro. Gilberto, o mais esperto, o mais sabido, em voz baixa, tom confidencial, perguntou-me certa manh, aps um gole de Coca-Cola e um arroto: O marido da senhora  prefeito? no ? ento como ele compra tanta coisa pra gente?... Esse mesmo garoto um dia, levado por  mim ao nosso camarote, se encantou ao ver que at tapetes havia no cho. Depois pegou de cima da mesinha um jornal de Santos que comprramos ao embarcar e, ao ver o retrato de Jorge estampado nele, se admirou. Soletrando a legenda embaixo, descobriu o nome do generoso promotor de piqueniques e no se conteve, bateu a mo na testa: Jorge Amado! Pooorrra!
        A freguesia para os piqueniques aumentava cada vez mais. Jorge, com suas compras, cada vez maiores, ia esgotando os estoques da cantina. Os meninos traziam a me, o pai, o tio, as irms mocinhas que animavam o convescote com msicas de Roberto Carlos cujos discos eram tocados numa eletrolinha. Era uma graa v-las revirando os olhos ao ouvir a voz de seu dolo. Essas nunca vo se conformar de viver longe do Brasil, profetizava Jorge.
        
        
        
      Los ANGELES
        
        Depois da repousante viagem no Brasil Maru, chegamos a Los Angeles onde Cyva, Aloysio e um grupo de brasileiros nos esperavam.
        Numa casa pr-fabricada da longa avenida de graciosas residncias, as casas exatamente iguais, rodeadas de grama e jardins floridos, viviam Aloysio de Oliveira e Cyva Leite, fundadora do clebre Quarteto em Cy. Voz suave, afinada como um sabi, toda delicadeza, Cyva ali na cozinha, de dona de casa, limpava um peixe enorme que ela mesma prepararia para ns. Perguntou-me se tnhamos roupa para lavar: Hoje  dia da lavadeira vir... Aloysio ouviu a conversa e desmascarou-a em seguida: No v na conversa dela, Zlia, aqui no  Brasil, no existe essa de dia de lavadeira vir... Temos mquina de lavar mas  Cyva quem se ocupa disso e, se voc duvidar, ela  muito mulher de ir para o tanque e lavar a roupa de vocs, ela mesma. Vi logo que, com a disposio de nossa amiga, no poderamos encompridar a estada em sua casa.
        Com Cyva e Aloysio fomos  Disneylndia e passamos uma tarde inteira nos estdios da Universal assistindo a filmagens simuladas, tudo novidade para ns.
        Chegara a hora de partir, nossos anfitries tinham compromissos de trabalho, Cyva fazia dublagem em filmes da Walt Disney e Aloysio era conselheiro musical. J dramos muito trabalho  nossa amiga, a nos cercar de atenes. Alm do mais, tnhamos pela frente um bom pedao de caminho a percorrer.
        Os carros do casal eram enormes, alis, eram to grandes quanto os que todo mundo usava em Los Angeles, no dirio. Pelas ruas da cidade a novidade era ver-se um carro pequeno. Estranhamos, desde o primeiro dia, um carro estacionado no jardim, encostado  casa de nossos hospedeiros.  do Edu Lobo, explicou Aloysio, est a guardado at que um dia ele volte do Brasil. Se vocs quiserem ir a Las Vegas nele, est s ordens, Edu no vai se incomodar, ao contrrio, vai at gostar. Agradeci, preferamos ir de nibus mesmo.
        
        
        
      LAS VEGAS
      
        Las Vegas era o que espervamos ver e muito mais. O txi que nos pegou no ponto final do nibus nos levou ao hotel indicado por Alfredo Machado, reserva feita tambm por ele.
        O chofer nos deixou diante de um prdio onde havia uma porta fechada. Largou nossa bagagem na calada, recebeu e partiu sem querer muita conversa. Esse homem nos deixou em lugar errado, disse Jorge. Isto no tem cara de hotel. Fique a com as malas, vou at a esquina, talvez a entrada seja do outro lado... No era. Fique voc agora com as malas a que eu vou empurrar aquela porta e ver se algum pode nos informar, disse eu.
        Logo atrs da discreta porta, divisei um verdadeiro mar de maquininhas, caa-nqueis com pessoas em torno, puxando manivelas para a frente e para trs, os nqueis caindo nas cuias, fazendo barulho. Na porta no havia uma nica pessoa para dar informaes. No foi preciso. Descobri, logo adiante, num cantinho, a portaria do hotel. Apenas um balco que no ocupava grande espao. Nossa reserva l estava. Um hotel quatro estrelas, luxuoso, e no tinha, no entanto, uma portaria decente. Nos deram, como oferta da casa, alguns vales para jogar. Nessa eles no me pegam, disse Jorge que tanto adora um joguinho de pquer com amigos quanto detesta jogos de azar. Jamais joga em cassinos.
        At chegarmos ao nosso quarto fomos esbarrando com jogos de todos os tipos e tamanhos. Descobrimos, em seguida, que no hotel no havia um nico relgio. Ningum devia se dar conta da hora, estavam ali para jogar, sem se preocupar com horrios, sem parar. Passamos dois dias em Las Vegas, tempo suficiente para ver tudo, inclusive para assistirmos ao espetacular show que o cassino oferecia na hora do jantar.
        Em Las Vegas tomamos uma excurso, o nibus nos levaria ao Grand Canyon e  Floresta Petrificada.
        
       GRAND CANYON E FLORESTA PETRIFICADA
        
        Para o Grand Canyon, eu nunca encontrarei um adjetivo que lhe faa justia: grandioso? monumental? A enciclopdia,  qual pedi ajuda, diz tratar-se das gargantas do Colorado no Arizona, sem outros comentrios.
        Pensvamos t-los perdido de vista, mas l estavam eles os argentinos companheiros de viagem, filmando, ele de operador, ela de assistente. A distncia dava para notar que ele filmava e falava ao mesmo tempo. Estaria repetindo o que decorara no navio ou, diante daquela grandeza, teria mudado o texto?
        Se o Grand Canyon nos causou um grande impacto, o mesmo no aconteceu com a Floresta Petrificada. Era a segunda que visitvamos, uma bem diferente da outra. A primeira fora em Kuo-Ming, no sudoeste da China, em viagem com Pablo Neruda e Matilde. Viagem comeada em Sri Lanka  na poca, Ceilo  depois de um congresso de escritores. De l seguimos para a ndia, depois fomos  Birmnia e, finalmente,  China, viagem e peripcias j narradas em livros anteriores.
        Na Floresta Petrificada do Colorado os enormes troncos de pedras que um dia, h milhares de anos, haviam sido rvores, estavam tombados, cados no cho, enquanto as rvores petrificadas de Kuo-Ming conservavam-se de p, verdadeira floresta de troncos e galhos de pedra, espetculo nico. A caminho de Nova York passaramos pelas cataratas do Nigara.
        Estvamos ansiosos para chegar a Nova York onde, certamente, encontraramos cartas de nossos filhos, notcias da Bahia. Mirabeau ficara de escrever sempre. Jorge dera a todos o endereo da Editora Knopf, que publicava seus livros, para o envio das cartas ou para qualquer emergncia.
        
        
        
      NOVA YORK
      
        A nossa espera, em Nova York, estava nosso amigo e editor de Jorge, Alfred Knopf. No hotel, reservado por ele, encontramos uma cesta de frutas, frutas de toda qualidade, formando uma pirmide altssima com um gentil carto de Helen e Alfred.
        Ao lado da corbeille, estava o que mais ansivamos: vrias cartas do Brasil e ainda um cassete. Na fita gravada, Joo mandava notcias, fora de casa em casa, gravando mensagens de nossos amigos.
        Agora, deleitados, ouvamos Joo contando as novidades da casa, falando com orgulho da gravidez de Mariinha, que nos preparssemos para estrear de avs. Norma, Mirabeau e Caryb contavam as novidades da terra. Havia carta de Paloma, falando de sua vida nova, de seus estudos. A carta de Joelson dava notcias de Lalu. Havia ainda uma cartinha de Zuca: Graas a Deus, o jardim vai bem, no tem chovido muito, nem feito muito sol...
        
        
        
      ALFRED KNOPP
        
        Alfred Knopf editara nos Estados Unidos, pela primeira vez, em 1945, um livro de Jorge Amado: The Violent Land traduo de Terras do sem fim. De editor ele se tornara nosso amigo.
        Knopf estivera no Brasil havia pouco tempo e com ele fizemos uma viagem de automvel  cachoeira de Paulo Afonso, Norma, Caymmi e Paloma, alegrando a longa viagem.
        Foi em Pedra, cujo nome hoje  Delmiro Gouveia, que Antnio Carlos Menezes, dono de uma fbrica txtil, nos hospedou. Essa fbrica, ao lado da cachoeira de Paulo Afonso, estava instalada onde outrora fora a famosa e moderna, para sua poca, fbrica de linhas de Delmiro Gouveia, destruda por concorrentes estrangeiros, que atiraram as mquinas na cachoeira. Fato histrico.
        Noto que me distanciei da viagem a State College sem ao menos pedir licena. Mas, j que me deslanchei nesse longo parntese, me desculpo agora e vou at o fim que, alis, no est muito longe. Talvez.
        Numa espcie de gaiola, sustentada por um grosso cabo de ao, atravessamos a cachoeira, barulho ensurdecedor, espetculo fantstico. No jantar ao ar livre, no jardim da fbrica, assistimos a danas populares regionais, inclusive uma de autoflagelao: homens sem camisa, munidos de ramos de urtiga, fazendo uma roda, cantando, danando e se autoflagelando, batendo com violncia os ramos da erva-de-fogo no peito e nas costas, os verges vermelhos rompendo a pele... Espetculo que recebia aplausos dos curiosos que assistiam de p, mas que a nenhum de ns agradou.
        My God!, dizia Alfred Knopf, horrorizado, ao terminar o macabro espetculo, quando um cidado que nos rondava desde a nossa chegada aproximou-se, abaixou-se e lhe disse:
          Fodelequ? Fodelequ?
          O que ele est dizendo?  quis saber Knopf.
        Jorge tambm no entendera, perguntou  mulher do gerente da fbrica que riu meio encabulada:
          Ele est oferecendo mulher e, para que as esposas presentes no entendam o que diz, ele muda um pouco a palavra... no  a primeira vez que faz isso.  um cretino  concluiu , est pensando que ns somos burras.
        Quem gostou da histria foi Caymmi: Que moleque mais descarado!, riu a viagem toda recordando a astcia do pilantra. At hoje ele no esquece e ri novamente ao lembrar o malandro de Paulo Afonso.
        A mesma moa, a mulher do gerente da fbrica, nos falou de um hbito da terra: na vspera de seu casamento, a noiva  banhada pelas amigas com leos perfumados. Ela mesma participara do banho de Socorro, uma operria da fbrica:
        No bacio, pelada, Socorro, ia recebendo a gua perfumada e os leos que as amigas lhe passavam, respondendo, deleitada, s suas piadas maliciosas:
         E hoje, hein, Socorro...
          Cala a boca, mulher!                                         
          Socorro, tu t nervosa?
          Cala a boca, mulher!
          Socorro, tu t com medo?
          Cala a boca, mulher!
          Socorro, tu vai gritar?
          Cala a boca, mulher!
          E se tu no gostar, Socorro?
          Cala a boca, mulher!
        Segundo a simptica senhora que nos contou essa e outras historinhas da terra, o banho das noivas dura horas e enquanto houver perguntas ele no termina.
        Nosso ltimo passeio por Paulo Afonso foi a Piranhas, nas margens do So Francisco, quando fizemos um belo passeio de barco. Eu sabia, de ouvir Dad contar, que fora em Piranhas que haviam matado o seu amado Corisco.
        O prefeito de Piranhas nos ofereceu um almoo e foi nesse almoo que eu cometi a grande gafe: na maior das inocncias perguntei ao anfitrio, a meu lado na mesa, se o assassino de Corisco fora preso, se ainda era vivo. Houve um silncio de gelo, e no precisei que me explicassem nada. Metera a pata: o tal prefeito outro no era seno o mandante ou o prprio que matara Corisco, nunca fora esclarecido. Em Piranhas o assunto era tabu, ningum comentava.
        De Salvador, Knopf seguiria para o Rio de Janeiro onde se encontraria com Helen, que devia chegar do Oregon, sua terra, para casar-se com ele. Ambos idosos, ambos vivos, ela autora de livros, ele seu editor, haviam tido um romance no passado. Tendo se reencontrado, depois de muitos anos, o amor renascera, marcaram encontro no Rio para o casamento. Alfredo Machado se encarregara dos papis, de tudo. A cerimnia seria celebrada na casa do advogado Jos Nabuco, grande amigo de Knopf.
        Minha admirao por esse cidado, apaixonado aos setenta e tantos anos, aumentou ao saber que ele no iria esperar Helen  sua chegada no aeroporto, s primeiras horas da manh. Quero deixar Helen  vontade, no vou constrang-la com a minha presena... Depois de uma viagem longa, de uma noite maldormida, na sua idade, certamente chegar muito cansada.. S vou me encontrar com ela depois que descansar, de banho tomado, toalete feita, maquiada.  Pedi a Alfredo Machado, ele ir receb-la. Tanta delicadeza me impressionou.                                            
        Maravilhado com tudo o que vira na longa viagem, Knopf disse sua ltima palavra: Quem tem uma cachoeira como a de Paulo Afonso no pode invejar as cataratas do Nigara. Foi exatamente o que pensamos, Jorge e eu, tempos depois, a caminho de Nova York, no encontro com as famosas cataratas do Nigara, to lindas, to arrumadinhas, to bem-cuidadas... Nem se comparam com as nossas cachoeiras, dissemos, a de Paulo Afonso, poderosa com sua voz de trovo e as selvagens e grandiosa Sete Quedas do Iguau, nicas, nenhuma outra pode nos causar inveja.
         
         
        
      LAS E WALTER
        
        Alm de Alfred Knopf, tnhamos encontro marcado em Nova York com uma amiga, Las Saldanha. Casada com o americano Walter Palmer, Las deixara o Rio, onde tinha uma butique de luxo, fora morar na Pensilvnia. amos ser quase vizinhos por trs meses, motivo de jbilo para ns e para eles. A cidadezinha onde Las e Walter moravam ficava entre Washinghton e State College, nos separaria apenas uma montanha.
        A gentileza de Las e Walter nos comovia. Em dois automveis eles foram a Nova York especialmente para nos oferecer um dos carros que usaramos enquanto estivssemos nos Estados Unidos.
        
        Sa, pois, de Nova York dirigindo um Chevrolet enorme, sem tamanho. Eu nunca pegara um carro daqueles. Morta de medo, diante do sofisticado painel em minha frente com mil botes e mil luzinhas, sem conhecer as estradas americanas, dei a partida e me toquei. Seja l o que Deus quiser. Felizmente Las e Walter nos acompanharam no seu carro e, comboiados na longa viagem com montanhas e curvas fechadas, chegamos  State College sos e salvos.
        
        
        
      STATE COLLEGE
        
        A cidade universitria, pequena e simptica, nos agradou em seguida. Professores e alguns brasileiros aguardavam a nossa chegada, destacando-se entre eles Gerard Moser, entusiasta da literatura brasileira, ele mesmo falando perfeitamente o portugus.
        Nosso apartamento era situado num edifcio igual a todos os daquele correr de prdios. Apartamento de dois quartos, uma sala e cozinha, era absolutamente idntico, inclusive na decorao, a todos os apartamentos do prdio. Disso tivemos uma experincia divertida.
        Todos os dias,  mesma hora, da janela aguardvamos a chegada do carteiro. Ele descia de um carro, entrava no prdio, separava a correspondncia e a depositava cada uma a seu dono, em seus escaninhos. Assim que o carteiro apontava, corramos ao seu encontro. O desejo de receber cartas, ter notcias de nossos meninos, dos amigos, era grande.
        Nesse dia, o da historinha que vou contar, Jorge desceu sozinho, eu estava ocupada na cozinha. O carteiro trouxera vrias cartas e ele tratou de abrir logo a de tarja verde e amarela com carimbo da Bahia. Abriu a carta e foi lendo, o elevador chegou e ele continuou lendo no elevador, a porta do elevador se abriu e ele saiu, sempre lendo, empurrou a porta do que achou ser seu apartamento, entrou e, como de hbito, refestelou-se na poltrona, tirou os sapatos e me chamou. Quem atendeu ao seu chamado foi um casal de japoneses, habitantes daquele apartamento. Jorge descera em andar errado. Ao dar-se conta do engano, tratou de calar os sapatos, desculpe, e se foi, sem outra explicao. Jorge cumpria com seriedade o contrato que fizera com a universidade. Participava e gostava dos encontros, sempre muito animados, com alunos americanos e tambm assistidos por jovens brasileiros. Com Gerard Moser, esses jovens haviam fundado o clube do bate-papo que, como o nome indica, os reunia para grandes papos.
        Sempre cercados de muito carinho, fomos algumas vezes convidados a jantar em casa de um e de outro. Ningum tinha empregada, as mulheres, em geral professoras, acumulavam funes, trabalhando muito, embora sempre ajudadas pelos maridos nos afazeres da casa e, sobretudo, na hora de servir o jantar cabia ao marido cortar o pernil assado, trinchar o frango, servir as bebidas. Ajuda que jamais poderia esperar de Jorge, desajeitado, sem vocao nem vontade de se bandear para tais misteres. Tambm no era tanto assim, no quero ser injusta: Jorge arrumava a mesa e me ajudava a tir-la, despejava o lixo.
        Morrendo de saudades de meus filhos, estranhei constatar que, em geral, os jovens, ao chegar  puberdade, iam cuidar de suas vidas, deixavam a tutela dos pais, iam se arrumar, morar sozinhos.
        
        
        
      VRIAS VIAGENS
        
        Para quem sempre teve uma vida movimentada, a tranqila estada em State College comeava a cansar. Estvamos em pleno outono, o inverno se aproximava, j vramos tudo o que queramos ver, inclusive a coisa mais bela, o amarelo em todos os seus tons, do ouro ao vermelho, das folhas cadas das rvores, formando um tapete, no outono da Pensilvnia. Descobrimos uma feira nas aforas da cidade, onde vivia toda uma comunidade de homens e mulheres que cultivavam a terra, construam suas prprias casas, faziam as prprias roupas e em suas grandes carroas, tambm feitas por eles, transportavam verduras e frutas para vender. Em nosso pequeno e frio alpendre havia sempre melancias e meles geladinhos que comprvamos desses camponeses.
        Na companhia de Las fomos mais de uma vez a Washington, parando nos imensos shopping centers, em plena estrada, onde eu comprava coisas para meu neto que estava para chegar.
        De Nova York, Knopf preocupava-se conosco, Alfredo Machado tambm andava inquieto, telefonava muito do Brasil e, conhecendo como conhecia Jorge, estava achando que devamos espairecer um pouco e trataram, ele e Knopf, de organizar viagens para ns, que no atrapalhassem os compromissos cpm a universidade.
        Organizada pelos dois amigos, passamos um fim de semana em Filadlfia, visitando o grande museu, to grande e to poderoso que um fim de semana no foi suficiente. Voltamos ainda uma vez.
        
        
        
      BOSTON
      
        Tnhamos grande curiosidade de conhecer Boston, queramos ver de perto o problema racial onde, na voz geral, o poder negro era absoluto, dominante.
        Por telefone, Knopf nos disse que chegara do Brasil para ns uma carta e um cassete. Pedimos-lhe que mandasse tudo para o hotel em Boston, no mesmo reservado por ele.
        Cidade imensa, poderosa, Boston com seus arranha-cus, lembrou-me um pouco So Paulo. Pelas ruas circulavam enormes cadilaques conversveis, de cores vivas, alguns at com pinturas de flores, todos, sem exceo, dirigidos por negros to ou mais enfeitados que os prprios carros.
        Prevenidos da animosidade deles contra os brancos, procuramos ser o mais prudentes possvel. Mesmo assim, ao olhar encantada, sem nenhuma segunda inteno, para uma fila de mulheres negras de vestidos coloridos e vistosos chapus de abas largas que, de braos dados, tomavam grande parte da calada, quase fui agredida por uma delas que me ameaou com um guarda-chuva.
        Sempre repudiamos, Jorge e eu, o preconceito racial, sabamos, e quem no sabe? S no sabe quem no quer, o quanto os negros sofreram, desde os tempos da escravido, nas mos dos brancos. Pela primeira vez, no entanto, conhecamos de perto um novo tipo de racismo, o racismo ao contrrio: o do preto sentindo-se superior ao branco, enfrentando-o, acintoso, sem camuflagem, com evidente esprito de revanche, de vingana. Em Boston no vimos mulatos nem casais de preto com branca, nem branco com preta.
        
        
        
      O CASSETE
        
        A carta que viera com o cassete de fita gravada, enviados por Knopf de Nova York, era de James, dando notcias da Bahia, contando que Lalu voltara de So Paulo, estava hospedada em sua casa, esperando por ns. A fita gravada, ai a fita gravada!
        Como ouv-la? Havamos esquecido de levar nosso gravador, falha imperdovel. Nessa gravao, como a da outra vez, certamente Joo nos faria ouvir os amigos e ele prprio falando, contando do filho por nascer... O problema, no entanto, no era to grave como parecera, seria solucionado: procuraramos na cidade uma loja que vendesse gravadores e pediramos que nos deixassem ouvir a fita, l mesmo, muito fcil.
        A loja era enorme, a vitrine repleta de tudo quanto era aparelho, um mundo.  aqui mesmo que vamos entrar, dissemos ao mesmo tempo. Na movimentada loja no conseguamos localizar uma pessoa que nos atendesse at que, finalmente, descobri um rapazinho de crach no peito e, com a voz mais suave deste mundo, num precarssimo ingls, pedi-lhe que nos emprestasse um gravadorzinho para ouvir a voz de nossos filhos, to distantes, no Brasil. Para que ele entendesse bem que falava do Brasil, mostrei-lhe o envelope tarjado de verde e amarelo, da carta de James. Sem dizer uma nica palavra, o rapaz tomou-me o cassete da mo. Graas a Deus, ele entendeu tudo, disse eu a Jorge, enquanto o via sumir pelos labirintos da loja. Voc acha que ele foi buscar c gravador?, duvidou Jorge. Claro!, respondi. Ele levou o cassete para ver o tamanho. Estvamos nesses comentrios quando, de repente, uma altssima e poderosa voz ecoou, sada de possantes alto-falantes distribudos pela loja toda: E a voz de Lalu, alarmou-se Jorge, reconhecendo a voz da me.
         Jorginho, meu filho. Como vai? E Zlia, vai bem?  perguntava ela.
        Aps o primeiro choque, baixamos a cabea, encabulados. Ai meu Deus que vergonha, todo mundo ouvindo, ningum compreendendo o que se passava.... O rapaz no me entendera. O jeito era ficarmos encolhidos, incgnitos num canto, calados para ouvir o que Lalu dizia. Agora ela reclamava de Joo:
          Eles no esto entendendo nada, nem respondem... No esto me ouvindo...
          No  pra responder no, Lalu, v falando que eles ouvem  dizia Joo.
        Lalu voltava a falar:
          Olhe Jorge, por aqui vai tudo bem. Eu voltei de So Paulo, estou na Bahia, vim esperar vocs. Quando  que tu volta, meu filho? Ainda vo demorar muito? As saudades so grandes...
          Diga, Lalu, que Paloma est grvida  soprava-lhe Joo, ao lado.
          Que grvida o qu, menino! Grvida! coisa nenhuma!...  reclamava Lalu, rspida. Tendo falado fora do microfone, ela julgara que no a tivssemos ouvido, nem percebido que ela estava contra a gravidez de Paloma. Ao voltar ao microfone, Lalu mudara o tom de voz, falava com doura:  Olhem, Paloma veio com uma histria de gravidez... mas no tem nada certo... no passa da vontade da moleca.
        Durante um tempo sem fim, de p, sem comentar, nem rir, como se a coisa no fosse conosco, ouvimos Caryb, Nancy, Mirabeau, Celestino, Luiza, James, contando as novidades da Bahia, falando de saudades.
        Ao terminar a fita, gentil, o rapaz veio nos trazer o cassete: Querem ouvir novamente? Thank you very much, agradeci e nos fomos. Ouviramos a gravao ainda algumas vezes, tranqilamente, ao voltarmos a State College.
        
        
        
      INVERNO
        
        Nem bem o outono terminara, o inverno entrou dando o ar de sua graa, dias escuros, frios, dias tristes, de vez em quando um barrufo de neve.
        De nossa janela podamos vigiar nosso carro que, desde a nossa chegada, ficava estacionado no ptio, bem em frente ao nosso prdio. No tnhamos nem por que vigiar, pois ningum iria roub-lo, no havia casos de furtos de automveis em State College. Esse Chevrolet nos servira muito e iramos devolv-lo nas vsperas de nossa partida que j se aproximava.
        A festa de despedida, em homenagem a Jorge, no salo nobre da universidade, fora organizada por Stanley Wentraub, Gerard Moser e outros professores. Muitos convidados, vindos de fora, inclusive Alfredo Machado, Alfred Knopf com Helen, Las e Walter entre outros, l estavam, naquela noite, quando, alm dos discursos e das msicas brasileiras, houve uma apresentao teatral, trecho de um romance de Jorge, adaptado e interpretado por alunos e professores.
        Por telefone, eu pedira a Alfredo Machado que levasse de Nova York, onde tudo se encontra  venda, material para uma feijoada, incluindo carne-seca, paio e farinha de mandioca.
        Convidamos alunos, professores e amigos brasileiros para um encontro de despedida em nosso apartamento. Preparei uma imensa feijoada num caldeiro emprestado e lhes ofereci um almoo brasileiro. At espiga de milho e coco ralei para a canjica de milho verde e as cocadas, preta e branca, que ofereci como sobremesa. O aroma apetitoso da feijoada invadiu o prdio todo. Da portaria ao ltimo andar do edifcio, podia-se sentir a presena do Brasil.
        Viajaramos para Nova York, nos primeiros dias de dezembro, onde tomaramos um navio de volta ao Brasil. Como fora combinado, devolveramos o carro de Las no dia 25 de novembro, data que no poderamos esquecer pois esse era o dia do aniversrio de Joo Jorge. Era tambm o thanksgiven, dia de ao de graas dos americanos. Jantaramos com Las e Walter, participaramos de sua mesa festiva, assistiramos Walter trinchando o tradicional peru assado.
        
        
        
      VIAGEM PERIGOSA
        
        Olhei pela janela e me assustei: nosso carro estava coberto de neve. Deveramos devolv-lo naquele dia. Ao saberem que tencionvamos descer a serra, nossos amigos se alarmaram. Rodella Wentraub me telefonou. No faam isso, por favor, o rdio est anunciando novas quedas de neve, pedem que ningum viaje com esse tempo, as estradas se encontram escorregadias, perigosas.
        Enquanto Jorge, l embaixo, com a ajuda de alguns vizinhos, tirava a neve do carro, os telefonemas se sucediam, nossos amigos, alarmadssimos, nos pediam que adissemos a viagem. No dava para adiar, nosso tempo era limitado, um adiamento iria nos causar a maior confuso. Prevenida, eu dirigiria com prudncia, iria devagar e, sem pressa, chegaramos ao nosso destino.
        Fazendo ouvidos moucos aos apelos, samos lentamente pela estrada afora. Dos carros que vamos passar, o nosso era o nico que no tinha correntes antiderrapantes nos pneus e alm do mais nossos pneus estavam bastante gastos, quase carecas.
        Descamos a serra, eu quase no agentando segurar o carro. Ele deslizava como se rolasse sobre uma pedra de gelo. De um lado tnhamos o precipcio, do outro, um barranco e uma valeta separando-o da estrada. De repente me dei conta de que devia optar entre o precipcio e o barranco e no tive dvidas, despenquei para dentro da valeta cheia de neve. Os carros que vinham atrs de ns pararam e, munidos de ps, picaretas, etc. que, prevenidos, traziam na mala do carro, homens, mulheres e crianas puseram-se ao trabalho e depois de muito esforo conseguiram nos colocar novamente na estrada.
         nossa busca, na raiz da serra, encontramos Las e Walter que, alertados e alarmados, estavam indo nos procurar.
        Digo e repito sempre que mesmo nos piores momentos no me desespero, procuro tirar dos males o lado positivo. O lado positivo que tiramos do acidente na serra foi descobrirmos que no estvamos ss, estvamos protegidos pela solidariedade humana. Aqueles americanos, sem mesmo nos conhecer, interromperam sua viagem, pararam, desceram debaixo de neve e trabalharam duro para nos dar ajuda. Experincia essa que, em vez de nos trazer m recordao, nos traz boa lembrana da viagem.
        
        
        
      GREVE NO PORTO DE NOVA YORK
        
        Alfredo Machado nos esperava em Nova York com uma novidade: doqueiros e estivadores do porto de Nova York estavam em greve. Nossa viagem, com data marcada, estava suspensa. O jeito era esperar com pacincia at que tudo se normalizasse. Enquanto isso, eu faria compras para meus netos, que agora seriam dois, pois a gravidez de Paloma se confirmara.
        Pela primeira vez viajaramos num navio americano, alis, em dois navios americanos. No primeiro, depois de fazermos uma escala na Flrida, no porto de Fort Lauderdale, onde embarcaria muita gente, seguiramos at o Panam. Mudaramos para outro navio que deveria passar por l, a caminho do porto de Salvador, na Bahia, dez dias depois.
        Embora o longo roteiro e os dez dias em terra fossem atrasar nossa chegada ao Brasil, essa viagem nos entusiasmava, desembarcaramos na Bahia. Conheceramos o Panam, atravessaramos o canal. Teramos tempo suficiente para conhecer a Cidade do Panam, lugar que, em geral, ningum lembra de visitar, ningum sai de sua casa para ir l a passeio, como sai para ir a Paris, Londres ou Roma. Teramos a oportunidade nica de conhecer o pas, embora de passagem. No porto livre de Cristbal, eu compraria uma filmadora e uma cmera fotogrfica.
        
        
        
      SOMOS AVS
        
        Ainda estvamos em Nova York quando chegou a notcia to esperada: nascera nosso primeiro neto. Joo nos telefonou em seguida ao nascimento do menino, vai se chamar Bruno, disse. Impossvel descrever a emoo que senti ao pensar que Joo j era pai, Jorge e eu, avs. Agora s desejava que a greve terminasse logo, no via a hora de chegar em casa, ver meu neto.
        Em Purchase, na casa de campo dos Knopf, passamos um fim de semana. Tnhamos estado l no vero onde tudo era verde e florido, e agora, em pleno inverno, a paisagem mudara completamente: tudo branco, caa neve. Tomando um bom vinho da adega dos anfitries, nos aquecemos recordando a viagem deles ao Brasil.
        Alfredo Machado, nosso informante sobre o movimento grevista, finalmente nos deu a boa nova; mesmo no estando completamente resolvido o problema, o navio ia zarpar. Como os carregadores do porto continuavam em greve, os passageiros deveriam encarregar-se de suas bagagens, coloc-las nas cabines. Felizmente, Alfredinho, filho de Alfredo, estava estagiando em Nova York e, com seu pai e um funcionrio da editora Knopf, conseguimos embarcar tudo sem maiores dificuldades.
        
        
        
      INCIO DA VIAGEM DE VOLTA
      
        Viagem pssima, em mar revolto, mar de inverno, diziam, a viagem curta tomou-se longa. Prevenida, tomei remdio contra enjo. Velho marinheiro, Jorge recusou o remdio, nunca precisou precaver-se contra o mal de mar.
        Naquele navio imenso, ramos os nicos a enfrentar o balano do barco para conseguir chegar ao salo de refeies. Nos segurvamos em grossas correntes que atravessavam o navio e assim mesmo muitas vezes perdemos o equilbrio. Os demais passageiros haviam sumido, deviam estar trancados em suas cabines. S nos demos conta de que eram numerosos ao chegar  Flrida.
        
        
        
      RUMO AO PANAM
        
        Os novos passageiros, embarcados no porto de Fort Lauderdale, em excurso que os levaria at a Argentina, ida e volta, eram, na sua maioria, pessoas idosas, aposentados, que, na maior animao, no desistiam de gozar a vida.
        A longa experincia nos ensinou que numa longa viagem martima somente depois de muitos dias de convvio pode-se reconhecer as pessoas. s vezes, no ltimo dia de viagem aparecem caras novas: Estes embarcaram hoje, costuma pilheriar Jorge.
        Nossas companheiras de viagem se pareciam muito, no modo de trajar, no modo de vestir, no cabelo crespo de permanente. Notamos que uma das mulheres, de seus setenta anos, todos os dias colocava um lacinho de fita colorida nos cabelos loiros, encaracolados; o lacinho que enfeitava sua cabea um dia era azul, noutro, vermelho, noutro, roxo... Eu e Jorge s reparando nos coloridos enfeites da coquete. Quem mais se divertia era ele que ao v-la surgir, certo dia, com um lao bicolor, me disse: Se essa burra me aparecer amanh de lao amarelo, sou capaz de lhe dar um bofete... Pela manh do dia seguinte, no deu outra, a burra surgiu toda faceira, um lacinho amarelo encarapitado no cocuruto. Olhei para Jorge: E agora? Sempre rindo, ele no se atrapalhou e apontando ostensivamente o laarote na cabea da outra, atrevido, gastou uma das poucas palavras que sabia em ingls dizendo: Beautiful!
        Pouca coisa, ou nada, servia para encher nossas horas. Quando poderamos imaginar que uma besteira daquelas, como a dos lacinhos coloridos, poderia nos fazer rir com tanto gosto? Nos divertiam tambm, e muito, os comentrios que fazamos sobre os namoros dos velhinhos. Sapecas todos eles, velhos e velhas, danando, no maior assanhamento, namorando, saindo do baile, como quem no quer nada, indo para encontros amorosos na escurido do tombadilho. Soubemos que alguns namoros, nessas longas excurses, algumas vezes resultaram em casamento. Acontecia tambm morrer algum velhinho, durante a viagem, em alto-mar. O navio levava de reserva dois ou trs caixes morturios, prprios para serem metidos no frigorfico em caso de necessidade. Viajava, nessa excurso, uma senhora que perdera o marido durante uma viagem anterior, havia um ano, e agora, viva e solta, no perdia uma dana.
        Por coincidncia, uma passageira que viajava com o marido estava lendo Dona Flor e seus dois maridos, em edio americana, presente de uma amiga, na Flrida, onde moravam. Ao ler a lista de passageiros ela encontrara o nome de Jorge. Aproximou-se, queria saber se ele era ele mesmo. Seu entusiasmo, grande, aumentou ainda mais ao descobrir na Enciclopdia Britnica, na biblioteca do navio, o nome de Jorge Amado. Nos chamou, nos levou para ver. Essa senhora, uma das passageiras mais jovens, devia ter uns cinqenta anos, era quem mais danava, o marido s apreciando. Um dia ele confidenciou a Jorge: Ela vai esquentando o prato para eu comer depois... Ela fez tudo para dar umas rodopiadas com Jorge, sem conseguir. Jorge no sabe danar e nem se esfora, o que para mim, apaixonada por dana,  uma falha enorme.
        
        
        
      PANAM
        
        Viagem longa, pelo mar do Caribe at Coln, e ainda teramos oito horas antes de chegar ao porto de Balboa. Atravessaramos o canal do Panam, comportas e mais comportas antes de atracar.
        Ainda era dia claro quando iniciamos a travessia do canal. Pudemos assistir s manobras demoradas de entradas e sadas de navios nas eclusas, a gua baixando, o navio l embaixo esperando que ela subisse. Apaixonante movimento de gua e de navios, baixando, subindo, seguindo em frente, lentamente, at chegar ao porto e atracar.
        No hotel, simptico, no centro da cidade, deixamos nossa bagagem, samos em seguida, curiosos de conhecer a cidade. Na portaria vimos um cartaz anunciando a estria de um show de artistas brasileiros.
        A hora marcada, alis, muito antes da hora marcada, l estvamos naquele imenso teatro ao ar livre. As cadeiras vagas ao nosso lado em seguida foram ocupadas. O rapaz moreno que sentara ao lado de Jorge tinha ar de brasileiro. No s era brasileiro como baiano, soubemos depois, no intervalo do show, quando ele se apresentou. Seu nome era Miguel Franco, morava no Panam com a mulher e filhos, a famlia toda fora assistir ao show dos brasileiros, matar saudades.
        Espetculo bonito, entusiasmava panamenhos e americanos, passageiros do navio que l estavam. Ouvindo as msicas to nossas conhecidas, as danas to sensuais, nos sentamos mais prximos do Brasil.
        No intervalo, Jorge viu-se rodeado de brasileiros que o reconheceram, no sabamos que haviam tantos vivendo no Panam.
        Encontro providencial, Miguel Franco, que se revelou amigo de Camafeu e de Caryb, nos deu todas as dicas da cidade, o que ver e onde ver... Soubemos por ele que a senhora do ministro da Cultura, Jayme Ingram, era uma pianista brasileira, Nelly Ingram.
        Eu estava interessada em comprar trabalhos dos ndios cunas, as molas, trabalhos feitos com tiras de tecidos de cores variadas, costuradas a mo, formando desenhos, verdadeiras obras de arte. Eu j vira almofadas e at peas de vestidos, como bolsos, golas, barras, feitos com molas. Ao desembarcar, ainda no porto, eu as vira expostas ao lado de um ndio que as vendia.
        Aconselhados na portaria do hotel, fizemos uma excurso  Ilha de San Bls, comarca indgena, onde os cunas vivem e trabalham. Seria um experincia nica, no podamos perder tempo.
        Na agncia de turismo tivemos quase todas as informaes: a viagem era feita num avio de doze passageiros, trinta minutos de vo at a ilha. O avio saa duas vezes por semana pela manh e voltava no final da tarde. O entusiasmo de Jorge era to grande que, mesmo sabendo que devia entrar num avio pequeno, no recuou. Ao ver que a passagem, tirada pela funcionria da empresa, era de ida e volta para o mesmo dia, Jorge reclamou: No quero voltar no mesmo dia de jeito nenhum, quero ficar l, tenho tempo de sobra. A moa do guich fez uma cara admirada, todos voltam no mesmo dia, disse, mas, como no explicou mais nada, marcamos nossa volta para dali a trs dias.
        Samos num avio lotado com um grupo de turistas franceses e um guia. Pousamos numa pista cercada de torres de controle, ao lado de uma espcie de quartel. Achamos que era quartel pois havia soldados por l. Mais adiante um restaurante, e mais nada. Cad os ndios?, perguntei admirada ao guia da excurso. Estvamos numa base militar e para ver os ndios devamos ir de lancha a outra ilha.
        Seguimos o guia ao restaurante onde, numa sala reservada, ele costumava dar aos excursionistas uma aula sobre os ndios de San Bls, antes de ir visit-los. Com ares professorais, o guia contou a histria da chegada dos ndios na regio, pescadores de prolas, prolas que, segundo ele, abundavam por l... Essa da abundncia de prolas no Panam era novidade para ns, mas, se o guia afirmava com tanta veemncia,  porque devia ser verdade. Todo mundo prestando muita ateno, faziam perguntas, ele respondia s dvidas de alguns,  curiosidade de todos. Bem-falante, simptico, ouvimos sua palestra durante uma interminvel meia hora.
        Antes da travessia na lancha que nos levaria aos cunas o guia tinha ainda uma tarefa a cumprir: conduziu o bando todo, e ns atrs a segui-lo, para visitar algumas malocas. A uns cem metros do restaurante, no meio de um pequeno bosque, as divisamos, redondas, bonitinhas, feitas de polidos troncos de rvores e cobertura de sap. Construdas pela companhia de turismo  guisa de dormitrios para hspedes, essas malocas, estava na cara, nunca haviam sido habitadas por ndios. Nem por ndios, nem por ningum, pois o cheiro abafado do mofo, l dentro, dizia tudo. A cama de casal, bem arrumadinha, e os lenis com vestgios de bolor estavam  nossa espera, seria nessa cama, com certeza, que devamos passar a noite. Aqui eu no durmo, nem morta, cochichei ao ouvido de Jorge. Vamos primeiro ver como  a ilha dos ndios, depois a gente resolve, disse ele.
        A ilha dos ndios, onde eles viviam e trabalhavam, era outro blefe, no havia nada de interessante a ver. Acostumados a essas visitas de turistas curiosos, a lhes fazer perguntas idiotas, a lhes encher o saco, eles nem nos deram confiana, ficaram na deles, na sua pobreza, no seu trabalho. Quanto s molas que eu pretendia comprar, no havia uma sequer, quanto a prolas, nem o rastro. Os trabalhos prontos eram levados para a cidade, vendidos l, e quanto s prolas, que prolas?
        Somente agora entendamos a surpresa da moa do guich ao saber que pretendamos passar algumas noites na ilha. Na lancha, ao voltarmos para a base, onde iramos almoar, j no tnhamos dvidas, estava decidido, voltaramos naquele dia mesmo, nem pleitearamos a restituio do dinheiro pago pelas trs noites. Queramos voltar mas no conseguimos, nossos lugares no avio j estavam reservados, seriam ocupados por dois oficiais da base. Nem adiantou insistir.
        Depois de horas lutando contra mosquitos que nos atacavam, dispostos a nos devorar, naquela maloca de lenis midos, cheirando a bolor, desistimos de dormir, samos andando e, sentados num degrau do restaurante fechado, passamos o resto da noite contando estrelas no cu. Contando estrelas ou procurando nossas estrelas? Por onde andavam elas que no nos socorriam? A minha, que dona Angelina, minha me, afirmava ter nascido comigo e a de Jorge que, segundo Lalu, era bem mais poderosa que a minha. S em pensar que devamos passar ainda duas noites naquele horror, perdramos a graa.
        Tudo aconteceu quando menos espervamos. O dia j estava alto quando nosso mau humor foi interrompido pelo ronco de um avio. Um teco-teco descia, pousou na base. Vinha buscar um soldado que sofrera um acidente, precisava de socorro.
        Nossas estrelas tardaram mas no falharam. Apareceram iluminando o sol do meio-dia, trazendo o aviozinho que nos levaria dali. Nesse teco-teco embarcamos de volta, aliviados, felizes da vida.
        A notcia da presena de Jorge no Panam correra e  nossa espera, no hotel, vrias mensagens, inclusive um convite do ministro da Cultura, Jayme Ingram e senhora, nos convidando para um jantar.
        Nossa estada no Panam chegara ao fim. O jantar na casa de   Nelly e Jaime Ingram fora dos mais agradveis. Conhecemos, nessa noite, intelectuais e artistas panamenhos e brasileiros da Embaixada do Brasil. No pudemos aceitar mais nenhum convite, nosso navio j estava chegando e partiria em seguida.
        Antes de embarcar s tivemos tempo de combinar um almoo com Miguel Franco e sua famlia. Com eles estava uma senhora, leitora de Jorge, amiga do casal. Notei que a moa falava de boca fechada e me impressionei. Miguel me explicou que ela fazia regime para emagrecer utilizando um mtodo muito empregado no Panam, mtodo esse que os mdicos diziam ser nico e infalvel: colocavam uma armao nos dentes do paciente, trancando-lhe a boca, permitindo-lhe apenas a ingesto de lquidos. Mas ela  gorda, comentei com Miguel, parece que a boca trancada no est adiantando... Miguel riu: E que ela toma, com um canudinho, todos os dias, litros de Coca-Cola.
        H vrios anos, com Telma, Miguel Franco voltou a viver na Bahia. Amigo de Camafeu, de Caryb, nosso amigo.
        Novamente atravessaramos o canal, rumo ao Atlntico, viajaramos a noite inteira. Faramos uma escala, pela manh, em Coln, onde o navio permaneceria algumas horas, o tempo suficiente para que os passageiros, aproveitando a vantagem nos preos da zona franca, pudessem fazer suas compras.
        No perdi tempo. No porto livre de Cristbal, comprei o que desejava: molas, as mais belas; uma cmera fotogrfica com vrias lentes e uma filmadora com as quais pretendia fotografar e filmar a cidade de Cristbal Coln.
        Infelizmente, no pude fotografar nem filmar nada, pois as compras feitas na zona franca s eram entregues ao comprador dentro do navio, na hora do embarque. Se no pude utilizar meus aparelhos em terra, em compensao, durante a viagem para a Bahia, no belo e luxuoso transatlntico, infinitamente melhor do que o primeiro, fotografei, filmei, me esbaldei. Como no me esbaldar, com tais companheiros de viagem? Verdadeiro buqu de velhinhos e velhinhas sapecas, exemplo de amor  vida, provando no haver limite de idade para aproveit-la nem para se amar.
        
        
        
        
      CARTAGENA
      
        Fotografei e filmei meus velhinhos no navio, fotografei em Cartagena, nossa primeira escala depois da sada de Coln.
        Prevenidos por Carmem Balcells  nossa amiga e agente literria em comum  de nossa passagem pela Colmbia, Mercedes e Gabriel Garcia Mrquez nos esperavam no porto de Cartagena, terra natal de Gabriel.
        Com o casal Garcia Mrquez passamos o tempo todo da escala do navio. Almoamos na casa dos pais de Gabo, passeamos pela cidade e pudemos constatar o prestgio, o respeito e o amor daquele povo pelo seu escritor maior.
        Personagem de vrios mundos, com moradas em algumas partes, o casal conservava um apartamento em Cartagena, para quando pudessem aparecer. O apartamento ficava localizado em cima de uma casa comercial, uma loja que vendia calas femininas. Paramos em frente, na calada, para que eu os fotografasse. Na fachada da loja, em letras garrafais, um anncio: Tenemos pantalones para todas las nalgas. Rindo, Jorge chamou a ateno do casal e Gabo jurou nunca t-lo notado antes.
        
        
        
      MAIO DE 1981
        
        Havia pouco mais de um ano, a Bahia fora festejada pelos portugueses, artistas e homens de cultura da Bahia recebidos com pompa e carinho, em Portugal. Era a nossa vez de retribuir: recepcionaramos o que de mais significativo havia na cultura portuguesa que chegaria s terras baianas.
        Sempre sob a batuta do maestro Nuno Lima de Carvalho, com o apoio do governador Antnio Carlos Magalhes, a colaborao de Paulo Gaudenzi que comandava o turismo na Bahia e a do prefeito Manuel Castro, o programa da festa do Estoril na Bahia ganhou vulto e enorme importncia.
        Uma exposio histrico-documental e bibliogrfica, organizada pela Junta de Investigaes Cientficas do Ultramar e pelo Arquivo Histrico Ultramarino, com dezenas de documentos, cdices, espcies cartogrficas e iconogrficas dos sculos XVI a XIX sobre a Bahia e o nordeste brasileiro, foi mostrada no Gabinete Portugus de Leitura, em Salvador.
        Uma exposio de artes plsticas, realizada no saguo do Teatro Castro Alves, nos trouxe os artistas: Manuel Cargaleiro, Carlos Botelho, Bartolomeu, Charters de Almeida (Conde da Bahia), Dorita Castelo Branco, autora da medalha comemorativa com a efgie do padre Antnio Vieira, Jlio Resende, Francisco Relgio e Maluda; com eles, os jornalistas Vitor Direito e Vera Lagoa. Do Sobreiro, chegou nosso amigo Jos Franco com sua mulher, artista ela tambm, dona Helena. Jos Franco trazendo, para a exposio, suas peas de cermica.
        A TAP, comandada na poca pelo engenheiro Santos Martins, deu contribuio fundamental para o sucesso do acontecimento. Sem a liberao de peso para o transporte das obras de arte, do material da culinria portuguesa e as passagens dos participantes, essa manifestao de intercmbio cultural entre os pases irmos no teria sido possvel.
        Uma semana gastronmica portuguesa, no Hotel Othon, ofereceu aos baianos o mais completo cardpio at hoje apresentado.
        Houve a apresentao do Grupo de Folclore da TAP e uma exposio de trajes regionais do Minho.
        Verdadeira embaixada de 83 personalidades do mundo artstico e cultural portugus desembarcou em Salvador. Jorge e eu fomos ao aeroporto, o dia apenas amanhecia. Nesse vo chegariam amigos muito queridos: Fernando Namora que vinha para a apresentao de uma grande exposio documental e bibliogrfica de Ferreira de Castro e pronunciar conferncias. Com Namora chegava nossa amiga Zita, sua mulher.
        Tambm Amlia Rodrigues, nossa querida, com sua voz incomparvel, participaria de um espetculo no Teatro Castro Alves. Espetculo esse que teve um xito estrondoso, levando para o Campo Grande milhares de pessoas.
        Recebemos, naquele incio de manh, nossos amigos Jos Franco e Helena e os trouxemos em nosso carro para a cidade. Franco estava encantado, assombrado com o calor e a areia fina e alva que cobre as encostas da estrada nas imediaes do aeroporto:
          Disseram-me que na Bahia j  inverno...  comentou Jos Franco.
          Isso mesmo  disse Jorge, apontando as alvas areias das dunas , l est a neve, e apenas entramos no inverno.
          Neve?  assombrou-se Franco.
        Em seguida, dando-se conta de que o amigo pilheriava, tambm riu:
          Com esse sol... ela estaria derretida h muito... Franco ainda tinha uma curiosidade a satisfazer:
          E c, no inverno no faz frio, pois no?
          No, na Bahia nunca faz frio...  dissemos. Cada vez mais intrigado, Franco perguntou:
          Ento, quando  que deitam as batatas?
          Quando der vontade  respondeu Jorge, rindo.
          Ento, no pode haver pobreza neste pas...  concluiu nosso amigo.
        O rdio tocava msica portuguesa. Alis, durante uma semana antes e outra depois do evento, o tema de fundo da programao local, das rdios e televises, era Portugal.
        Para ns no podia haver maior alegria do que receber em nossa casa velhos e queridos amigos e para eles fizemos um almoo: comeando pelo incansvel Nuno Lima de Carvalho com sua Clarinda, Jos Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras, com Maria Jos, sua mulher, ambos nossos queridos; Manuel Telles, que contribuiu com seu apoio ao sucesso da Semana da Bahia no Estoril, chegado com Maria Emlia, sua mulher, recebia os agradecimentos dos baianos e participava de nossa festa; Santos Martins com Graciete seriam nossos convidados de honra, no fossem todos convidados de honra as quase duzentas pessoas que vieram almoar em nossa casa. O etnlogo Amadeu Costa, bom amigo, de Viana do Castelo nos trouxe duas palmas douradas, da Festa da Agonia, e o prefeito de Cascais estavam entre os nossos convidados, em mesas espalhadas nos terraos e jardins, entre tabuleiros de baianas fazendo acarajs, oferecendo abars e beijus de tapioca.
        Mais numerosos eram os convidados brasileiros, a comear pelo governador Antnio Carlos, o prefeito Manuel Castro, Paulo Gaudenzi, Caryb e Nancy, Calasans Neto e Auta Rosa, Carlos Bastos e Altamir, James Amado e Luiza, Mrio Cravo e Lcia, Jenner e Lusa, Floriano e Alice, Lev Smarchewski e Quinquinha, Gilberbet Chaves e Snia, Mirabeau, Vitor Gradim e Grace, para citar apenas alguns nomes.
        Vitor e Grace, maravilhosos anfitries da Bahia, costumam abrir as portas de sua casa, no Morro da Pacincia, aos amigos no dia 2 de fevereiro, festa de Yemanj. L do alto, da bela residncia, descortina-se um oceano inteiro e a procisso do presente  bela sereia, no dia de sua festa.
        Em seu jardim, Grace Gradim construiu um forno onde queima cermicas, peas feitas com amor por suas mos de artista.
        Na casa do Morro da Pacincia refugiou-se Jos Franco nessa Semana da Bahia. As peas trazidas de Portugal foram vendidas no primeiro dia da exposio, xito absoluto, muita gente querendo comprar. Grace ofereceu-lhe ateli e forno onde o ceramista do Sobreiro criou muitas peas, novas figuras de saloios, que em seguida tambm foram vendidas.
        
        
        
        
      CIDADO SOTEROPOLITANO
        
        Ainda uma vez, h uns poucos anos, festejamos aqui, em nossa casa do Rio Vermelho, o cidado Nuno Lima de Carvalho, responsvel e idealizador da Semana da Bahia no Estoril e da Semana do Estoril na Bahia. Aplaudimos a Cmara de Vereadores de Salvador que lhe conferira, na ocasio, o ttulo de Cidado Soteropolitano ou, para quem no conhece a palavra, cidado da cidade do Salvador, um filho da terra.
        O presidente Mrio Soares encontrava-se na Bahia e veio  homenagem que prestvamos ao seu concidado. Veio ele e vieram altas autoridades portuguesas e brasileiras, a comear pelo embaixador de Portugal no Brasil, do embaixador do Brasil em Portugal e pelo governador do estado.
        Almoo sem protocolo, num dia quente de vero, todo mundo tirou palet e gravata, Mrio Soares, pessoa mais simples e informal do mundo, foi o primeiro a dar o exemplo.
        Por falar na simplicidade de Mrio Soares, ocorreu-me contar um fato sucedido em Paris e para isso peo licena e me desculpo por interromper o que contava.
        Estvamos passando uma temporada em nosso apartamento em Paris, quando Jorge adoeceu. Nessa mesma ocasio chegava  Frana, em visita oficial, o presidente Mrio Soares. A cidade engalanou-se com bandeirinhas portuguesas e pela televiso o vimos, com dona Maria de Jesus, desembarcar do avio pisando em tapete felpudo, vermelho, recebendo todas as honras que cabem a um estadista estrangeiro.
        Recebemos um convite assinado pelo presidente Mitterrand e senhora, para jantar no Palais de LElyse em homenagem ao presidente portugus. Jorge estava doente, como j disse, e eu respondi explicando o motivo de nossa ausncia no jantar.
        No dia seguinte, um telefonema da Embaixada Portuguesa nos pedia agendar uma visita do presidente Mrio Soares e senhora a Jorge Amado. A visita seria s seis da tarde e j s cinco o quarteiro onde morvamos, no quai des Clestins e rue St. Paul, foi interditado. De nosso apartamento, no quinto andar, s seis horas, ouvimos a sirene do peloto que abria alas para o presidente que se aproximava. Joo Jorge, que se encontrava conosco, desceu rapidamente para receber as ilustres visitas no porto de entrada.
        Mrio Soares pediu aos membros da comitiva que os aguardassem l fora e, com Maria de Jesus, subiu ao nosso apartamento.Tirou o palet em seguida, refestelou-se numa poltrona, livrou-se dos sapatos e, enquanto na rue St. Paul comitiva e curiosos o aguardavam, l em cima ele descansava os ps, batendo um papo descontrado com o amigo.
        Volto ao almoo oferecido ao mais jovem soteropolitano, Nuno Lima de Carvalho e  sua bela Clarinda, num dia de grande calor, em nossa casa do Rio Vermelho, quando cerca de duzentos convidados vieram felicit-lo e nos alegrar.
        No almoo a Nuno, tivemos um convidado muito especial o doutor Aloysio Campos da Paz, diretor e criador dos hospitais Sarah, da Associao das Pioneiras Sociais, hospitais de primeiro mundo, atendendo, indiscriminadamente, a pobres e ricos, sobretudo, gente pobre que jamais poderia pagar um tratamento como o que recebe no Sarah. A Bahia tem o privilgio de possuir um desses hospitais. Dr. Aloysio estava de passagem por Salvador e nos deu a honra de sua presena. Aps o almoo, Jorge e Jos Aparecido de Oliveira, nosso embaixador em Portugal, que so conselheiros da Associao, acompanharam o presidente Mrio Soares a uma visita ao Sarah. Queriam mostrar ao amigo, velho lutador pela causa dos deserdados, o que j tnhamos de bom e de positivo em nossa terra.
        Mrio Soares percorreu as dependncias do hospital, falou com os pacientes e, ao despedir-se, foi entrevistado pela televiso, que desejava saber sua opinio sobre o hospital. Mais do que impressionado, emocionado, disse jamais ter visto nada que se lhe comparasse:  bestial! Coisa de primeiro mundo. Jos Aparecido de Oliveira aproveitou para contar o chiste que corria em Portugal: Deus esteve em todos os lugares, mas antes l esteve o doutor Mrio Soares.
        Quem leu a coluna de July, em A Tarde, depois desse almoo ao qual ela compareceu, alis comparece sempre,  nossa amiga, ficou a par do menu e dos convidados presentes, com a lista completa. Terezinha Cardoso, em sua pgina dominical do mesmo jornal, descreveu com imagens poticas o que viu, estampou fotos das personalidades presentes, instantneos batidos por ela prpria.
        Mrio Soares chegara acompanhado de oficiais que faziam parte de sua comitiva. Entre eles, um simptico oficial da Marinha que, sufocado em seu uniforme de gala, chamou-me de lado:
          Estou a morrer de calor, sufocado...  me disse.  Vejo que esto todos em mangas de camisa...
          Pois no faa cerimnia  disse-lhe , tire seu dlm.
         No posso, minha senhora, no tenho nada por baixo, precisaria que me arranjasse um T-shirt.
        Da gaveta de camisetas de Jorge, escolhi uma com desenho de Miro que entreguei ao oficial. Ao v-lo com a camiseta, Paloma perguntou-lhe se havia estado em Barcelona, na exposio de cermica no centenrio de Miro onde ela comprara uma igualzinha  dele. No estive, no senhora, e creio que estou a vestir a que a senhora comprou, pois foi sua me quem ma emprestou. E era. A empregada colocara por engano na gaveta de Jorge a camiseta de Paloma e eu, na afobao, no reparara. Encontrei esse oficial em outras cerimnias e ele nunca deixou de comentar a histria da camiseta de Paloma que o salvou de morrer sufocado, na Bahia, no dia da homenagem a Nuno Lima de Carvalho.
        
        
        
      ACERVO COBIADO
        
        A carta vinha da Universidade de Boston. Assinada por um professor, falava em nome da universidade, pedindo a Jorge Amado que recebesse uma comisso de professores que voaria para a Bahia, especialmente para conversar com ele sobre um pedido de doao de seu acervo para a universidade americana.
        O acervo de Jorge, material precioso, composto de centenas de tradues de livros seus para cinqenta e tantas lnguas, em vrias edies; artigos do autor e sobre o autor, recortes de jornais e revistas, teses de doutorado sobre sua obra, vindas de vrias partes do mundo; centenas de fotografias e negativos; retratos e caricaturas do escritor, retratos de personagens dos romances vistos por artistas renomados como, por exemplo, Dona Flor vista por Floriano Teixeira e Jos de Dome, Tereza Batista vista por Calasans Neto, Gabriela vista por Di Cavalcanti; o prprio Jorge Amado visto por Caryb, Portinari, Carlos Scliar e Calasans Neto, sem esquecer a pintura dos admiradores annimos que, mesmo sendo amadores, quiseram expressar seu carinho retratando seu autor e seus personagens.
        O material, aumentando a cada dia, h mais de meio sculo, invadia armrios, estantes e gavetas. Nossa casa to grande tornava-se pequena para conter esse mundo de coisas, mas sobretudo tornava-se cada vez mais difcil a sua catalogao, conservao e a preservao dos livros e documentos, dos filmes e fotografias, ameaados pela umidade e em vias de destruio.
        Os americanos da Universidade de Boston acenavam com um departamento especializado em preservao de documentos e livros, com salas climatizadas e pessoal qualificado na separao e na classificao do material. Material que seria consultado pelos estudantes da universidade. Haveria uma exposio permanente, com vitrines, enfim, tudo que o nosso sacrificado acervo estava necessitando.
        Proposta tentadora, porm Jorge nem precisou refletir, no podia mandar para fora do pas um bem que, por direito, devia ficar no Brasil. Recusou a proposta da Universidade de Boston.
        No tardou a surgir outra proposta. Desta vez era a USP, de So Paulo, melhor credencial impossvel, que pleiteava os arquivos de Jorge Amado. Os planos para o aproveitamento do imenso material estavam prontos. O acervo ficaria em boas mos, preservado, separado e catalogado, exposto em ambiente climatizado,  disposio de interessados para pesquisas e estudos. Desta vez Jorge se entusiasmou, a conversa era outra, seu acervo permaneceria no Brasil e eu senti que ele estava propenso a mandar tudo para So Paulo.
        Me alarmei. Embora paulista, no achei justo que um material to rico, inspirado pela Bahia, fosse embora daqui, herdado por So Paulo. Disse a Jorge o que pensava e ele retrucou: E voc prefere que tudo se estrague, se acabe de vez? Ele no pensava isso de mim, sabia muito bem o que eu desejava: ver seus arquivos na Bahia, cuidados e aproveitados pelos baianos. Porm, ctico, ele no acreditava no meu otimismo exagerado, a fazer planos, no contando com obstculos. Mesmo assim, ouviu minha opinio, concordou comigo e recusou a proposta da USP: No posso, meu acervo deve ficar na Bahia, encerrou o assunto.
        Com Joo e Paloma conversamos sobre a possibilidade de criar-se uma instituio cultural que cuidasse de tudo. Ouvindo a conversa Jorge apenas disse: S no quero que faam de minhas coisas um museu. Claro que nossa inteno era criar um centro de cultura, mas por onde comear? Fcil era desejar, difcil executar.
        A frente da Fundao Cultural do Estado da Bahia, Geraldo Machado organizou uma exposio comemorativa dos setenta anos de Jorge Amado e dos cinqenta anos da publicao de seu primeiro livro, O pas do carnaval. Exposio iconogrfica e biobibliogrfica, no foyer do Teatro Castro Alves. Montada por Myriam Fraga e Zilah Azevedo, com fotografias e peas do acervo do escritor, a exposio alcanou enorme sucesso. Logo surgiram convites para que ela fosse levada ao Cear, a Ilhus, a So Paulo, na Bienal do Livro, e a Braslia.
        Diante do interesse despertado por esse material, surgiu a idia do aproveitamento do acervo de Jorge para criar-se uma instituio cultural que permitisse, ao mesmo tempo, catalogar, conservar o material e garantir aos estudiosos e pesquisadores o acesso a ele.
        Pessoa de prestgio, poetisa respeitada, nossa amiga Myriam Fraga j andara sondando sobre a possibilidade da criao de uma Casa Jorge Amado, mas no conseguira.
        Soubemos que o reitor da Universidade Federal da Bahia, Germano Tabacof, estava interessado no assunto. Com a sua colaborao poderamos tocar o plano avante. Com Germano Tabacof James Amado, desejoso de ver o problema resolvido, porm ctico como o irmo , Myriam, Paloma, Pedro Costa, Joo e eu nos reunimos e decidimos que a primeira coisa a fazer era procurar casa. Depois iramos atrs do dinheiro para o primeiro impulso.
        Quem descobriu que o casaro do Largo do Pelourinho estava vazio havia muito foi Joo Jorge. O casaro do sculo XIX, o mais belo do Pelourinho, era ideal para o nosso plano. A Casa de Jorge Amado ficaria no corao do centro histrico, fonte das histrias de seus romances, onde circulavam seus personagens. Conseguirmos essa casa seria ainda um milagre da Bahia.
        A casa enorme era, no entanto, dividida em vrios imveis: um deles pertencia ao Banco do Estado que j o utilizara com uma de suas agncias. Ao Baneb pertencia ainda parte do casaro vizinho, na ladeira ao lado. Ainda um outro imvel pertencia ao Estado.
        Myriam Fraga procurou em seguida o presidente do Baneb, Lafayette Ponde Filho, que, ao saber do plano de fazer-se uma fundao contendo o acervo de Jorge Amado, mostrou-se sensvel  iniciativa e tomou as necessrias providncias para a doao dos imveis pertencentes ao banco que iriam abrigar o patrimnio da nova instituio. A outra parte do prdio pertencia ao Estado.
        Na ocasio o governador era Joo Durval. Com o apoio de Antnio Carlos Magalhes, falou-se com ele, que no teve dvidas em assinar um documento de cesso de uso, por dez anos, da casa do Pelourinho
        Mas nem tudo foi to fcil como pode parecer. Ao visitarmos o casaro encontramos, j pregada ao lado de fora da porta, uma placa do Instituto Mau. Dentro, no recinto principal, vrias vitrines indicavam a chegada de mudana.
        Sem ter conhecimento do acerto do governador com a instituio Jorge Amado, dona Yeda Barradas, esposa do governador, havia cedido a casa ao Instituto Mau. Situao embaraosa, no foi fcil desfazer o mal-entendido, levou algum tempo at que a deciso fosse tomada a nosso favor e a casa nos fosse entregue.
        Em pssimo estado de conservao, o casaro precisava de grandes reformas, todo o sistema de eletricidade devia ser mudado e tudo o mais tambm.
        No foi difcil conseguir, atravs de nosso amigo Renato Martins, um dos diretores da Odebrecht, que a poderosa construtora se responsabilizasse pelo trabalho de restaurao da casa.
        Teramos o prdio tinindo de novo, porm sem um nico tosto furado para pr de p a instituio. Por intermdio de Paloma, assessora do presidente Jos Sarney, consegui uma audincia com ele no Palcio do Planalto e viajei para Braslia.
        Velho amigo nosso, Jos Sarney ouviu tudo o que eu tinha a lhe dizer sobre o plano. Sem fazer objees aplaudiu a iniciativa, dando-nos uma soma, no grande, porm suficiente para comearmos a nos movimentar.
        A 2 de julho de 1986 Jos Sarney e Marly ofereceram um grande almoo no Palcio da Alvorada. Mais tarde, no Palcio do Planalto, em presena de numerosos amigos e personalidades, foi instituda a Fundao Casa de Jorge Amado, Germano Tabacof, presidente, Myriam Fraga, diretora executiva. Ao mesmo tempo, o presidente da Repblica promulgava a lei de incentivo  cultura que passou a ser conhecida por Lei Sarney.
        Sabendo o quanto eu ficaria feliz, sensvel, boa amiga, Marly me fez uma surpresa: convidou meu filho Luiz Carlos que vive em So Paulo e eu, rodeada pelos meus trs filhos, apaguei as setenta velinhas de um grande bolo, outra surpresa de Marly, pelo meu aniversrio, naquele dia.
        
        
      INAUGURAO DA CASA
        
        A 7 de maro de 1987 foram inauguradas as instalaes da Fundao Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, depois de quase um ano de sua instituio em Braslia. Jovens funcionrias da universidade atiraram-se  tarefa de separar cartas e documentos. Bibliotecrias recm-formadas, como Maried Carneiro e Rosane Rubim, at hoje fiis funcionrias da Fundao, catalogaram livros, documentos e negativos fotogrficos. Claudius Portugal, diretor-adjunto, coordenando tudo, Adenor Gondim fotografando. Jacira Oswald foi a responsvel pelo projeto arquitetnico da reforma da casa. Ainda outras pessoas, contratadas ou voluntrias, trabalharam para que a Fundao comeasse a funcionar.
        Compareceram  festa de inaugurao da Casa o presidente Jos Sarney e Marly, assim como o governador, j em fim de exerccio, Joo Durval com Yeda, Antnio Carlos Magalhes com Arete, o governador de Braslia, Jos Aparecido de Oliveira com Leonor, Walter Moreira Salles, o ministro Marcos Vincius Vilaa com Maria do Carmo, Fernando Sabino, Aldemir Martins, Roberto Santos com Maria Amlia, ngelo Calmon de S com Aninha, Regina de Melo Leito, Celso Furtado, Renato Martins com Norma, Jorge Calmon, o recm-eleito governador Waldir Pires com Yolanda, Mrio Kertesz, Newton Rique com Regina, Manuel Castro com Neusa, Edivaldo Boaventura com Solange, Zitelmamm de Oliva com Lygia, Dmeval Chaves com Inas, Cludio Veiga com Mary, Wilson Lins e Anita, entre tantas personalidades. Um dos institudores da Fundao, Edwaldo Pacote, veio do Rio para a festa e ofereceu  Casa um belssimo quadro do pintor Siron Franco. O ltimo coronel do cacau, Raymundo de S Barreto com Itassuss, vieram de Ilhus. Alfredo Machado 'com Glria chegaram do Rio de Janeiro.
        No citei aqui outros amigos da Bahia, amigos que nos acompanham e esto presentes desde o incio destas minhas memrias, como, por exemplo, Calasans Neto que pintou um enorme e magnfico retrato de Jorge, um velho marinheiro, do qual foram feitos cartazes; Caryb que ofereceu para a Fundao uma escultura em placa de concreto com figuras das trs raas que formam a nossa identidade: o ndio, o negro e o branco. Colocada na parede azul da fachada, pouco acima de uma escultura de Tati Moreno, um Exu, protetor da casa.
        Dom Timteo Amoroso Anastcio e Luiz da Murioca, do candombl da Murioca, deram suas bnos: A essa casa de cultura que hoje abre suas portas, disse Dom Timteo. Ax, disse Luiz da Murioca, libertando uma pombinha branca que voou pela janela.
        Emocionado, Jorge Amado proferiu algumas palavras de agradecimento: ... o que desejo  que nesta Casa o sentido da vida da Bahia esteja presente e que isto seja o sentimento de sua existncia. Que ao lado da pesquisa e do estudo, seja um local de encontro, de intercmbio cultural entre a Bahia e outros lugares.
        Junto  porta de entrada, uma placa de azulejos, desenhada por Floriano Teixeira com texto de James Amado, diz:
        
        CASA DE JORGE AMADO, NESTE LARGO DO PELOURINHO CORAO DA BAHIA E DO BRASIL E DE SUA OBRA, FIEL  NOSSA GENTE E AO NOSSO AMOR  LIBERDADE, TENDA DOS MILAGRES PARA O ZELO DA CRIAO LITERRIA E O ESTUDO DA FICO BAIANA E BRASILEIRA.
        SEJA BEM-VINDO SE FOR DE PAZ
        PODE ENTRAR
        
        
        
      O ALMOO
      
        Do Pelourinho, terminada a cerimnia da inaugurao, partiram os convidados para nossa casa da rua Alagoinhas onde oferecamos um almoo.
        Convidamos cerca de trezentas pessoas, a comear pelo presidente da Repblica e sua comitiva, personalidades da Bahia e de fora, artistas, instituidores da Fundao, amigos e jornalistas.
        Jorge convidara para o almoo personagens da vida baiana, no levando em conta se eram amigos ou inimigos, adversrios polticos ou no. Convidou a todos que quis convidar, indiscriminadamente. No tenho nada com isso, disse ele ao lhe chamarem a ateno para a confuso que poderiam dar esses encontros, cara a cara: Convido quem bem me parece e estou certo de que em minha casa no haver brigas.
        As trezentas pessoas, com lugares marcados, em mesas espalhadas pelo jardim, nos terraos e ao lado da piscina, aumentaram para quase quatrocentas. Trabalho de Pedro Costa e Paloma, responsveis pela disposio das mesas e dos convidados.
        Estava eu atendendo a uns e a outros, quando fui chamada  porta. Os seguranas da guarda do presidente haviam barrado a entrada de uma senhora que, sem saber do tal almoo, insistia em entrar sem convite. Fui socorr-la, tratava-se de Amlia, nossa amiga de Gois, vinda diretamente do aeroporto, trazendo-nos mudas de orqudeas para colocar nas rvores de nosso jardim.
        Oferecemos aos convidados tira-gostos, pratos tpicos e no tpicos, tais como: beiju de tapioca, acarajs e abars servidos por baianas, lindas. Mesmo com tanta gente a mais, o almoo deu e sobrou.
        Almoo alegre e descontrado, todos, indiscriminadamente, amigos e inimigos, alguns ferrenhos adversrios polticos, riam, esquecidos das desavenas. Ao passar por Jorge, seu xar Jorge Calmon lhe disse ao ouvido: S mesmo voc, seu Jorge Amado, seria capaz de realizar tal milagre.
         
         
        
      HSPEDES ESPECIAIS
        
        Aguardvamos a chegada de um jovem casal de chineses que seriam nossos hspedes por uma semana, duas pessoas de nossa maior estima: Ho-Ping e Ting-Li.
        Conhecramos Ho-Ping ainda beb, na Tchecoslovquia, no Castelo de Dobris, onde vivemos dois anos, exilados. Ho-Ping era filho de Eva Siao, fotgrafa alem, e do poeta Emi-Siao, na ocasio representante da China no Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslovquia. Nessa ocasio, nascia Paloma e nos divertamos combinando um casamento de Ho-Ping o Pupsik, como era chamado pela me, com a nossa Palomita.
        Anos mais tarde na China, em plena Revoluo Cultural, quando eram cometidas as maiores injustias e crimes inominveis, Emi-Siao foi preso e passou dezesseis anos na cadeia de onde saiu enfermo para falecer em seguida.
        Ting-Li, esposa de Ho-Ping, era filha de Liu Cho Shi, que fora presidente da Repblica Popular da China e assassinado durante os terrveis anos do domnio do Bando dos Quatro.
         Filhos de traidores, proibidos, pelo regime, de estudar na China enquanto meninos, eles s sentaram em bancos escolares quando, j adolescentes, partiram para os Estados Unidos. Parentes que l viviam os chamaram responsabilizando-se por sua manuteno e estudos.
        Ting-Li e Ho-Ping conheceram-se na Universidade de Harvard, em Cambridge, onde estudaram e se formaram. Casaram-se e trabalham em postos de responsabilidade em grandes empresas, em Nova York.
        Chamei Eunice, nossa antiga empregada, e pedi-lhe que preparasse o quarto de hspedes.
          Desta vez voc vai se atrapalhar, Eunice  disse-lhe , os hspedes so chineses, falam chins.
        Eunice riu:
          Atrapalho, nada... A senhora  que pensa. Se eles so chineses eu vou entender o que eles falam.
          E voc entende chins, Eunice?  me assombrei com tal revelao.
        
         Entendo tudo. A senhora se lembra quando a dona Tisuka andou por aqui? Pois eu entendia tudinho do que ela dizia, no perdia uma palavra...
        Eunice referia-se  consagrada diretora de cinema, Tisuka Iamasaki, brasileira, nissei, que fora, aqui na Bahia, assistente de Nelson Pereira dos Santos, na filmagem de Tenda dos Milagres e vinha muito aqui em casa.
        Na estante de livros do quarto em que o casal dormia, Ting-Li encontrou tradues de Dona Flor e seus dois maridos em edio americana e em chins.
        Nos intervalos dos passeios pela cidade, Ting-Li mergulhava na leitura das duas tradues. Estvamos curiosos de saber a sua opinio sobre a chinesa. Finalmente, ao fechar os livros, ela disse a Jorge o que achara: As duas tradues so timas, apenas a chinesa  mais romntica. A americana  mais sensual. Ela explicou: Por exemplo, na verso chinesa, quando Dona Flor, depois do eb que fez para mandar Vadinho embora o v partindo, desesperada, o chama com o corao. Na verso americana ela o chama com a outra coisa... Fazendo-se de desentendido, malandro, Jorge perguntou: Que outra coisa? Ting-Li no se apertou: Com aquilo que tem debaixo das calcinhas. E como se diz isso em chins?, insistiu ele. Desta vez a moa encabulou, apenas riu.
        Casal adorvel, cheios de vida, voltamos a v-los ainda algumas vezes: na China, em Nova York e em Paris.
        
        
        
      SO PAULO
        
        Infalivelmente, ao chegar a So Paulo, canto o incio de um hino que aprendi na distante infncia: "So Paulo, terra querida, de gloriosas tradies, aceite de vossa filha as sinceras saudaes..."
        Voltar a So Paulo sempre  motivo de satisfao para mim, embora h muito no reconhea a terra em que nasci. Minha casa na Alameda Santos nmero 8 j no existe, deu lugar a um enorme edifcio; a rua da Consolao e a avenida Rebouas, ruas dos meus folguedos de criana, esto irreconhecveis.
        O motivo principal de minha alegria em So Paulo era rever meus irmos, meu filho e minhas trs netas: Adriana, Camila e Valria.
        Lalu costumava queixar-se das saudades do filho Joelson que morava to longe, em So Paulo. Eu achava graa da sua noo de lonjura, at que, pensando bem, vejo que ela estava certa.
        Falo em Lalu no passado, no toquei no assunto at agora, porque me custa. Ainda me recuso a admitir que Lalu j no existe. Na maior tristeza, peo licena para contar que em 1972, aos oitenta e oito anos, Lalu nos deixou. Entrou em coma diabtica, e em dois dias se foi.
        Ao voltarmos do cemitrio onde a deixamos, a nica coisa que me ocorreu para atenuar o sofrimento de Jorge, distender seus nervosnem sei mesmo se tinha cabea para pensar, o que fiz, certamente, foi instintivo , enchi a banheira de gua morna e, com um sabonete perfumado, dei-lhe um banho, o banho que a me daria pela ltima vez no seu filhinho.
        
        
        
      Os AMIGOS CONFABULAM
        
        Ouvi muitas vezes Jorge dizer que jamais escreveria suas memrias. Ele e seus amigos Pablo Neruda e Ilya Ehrenburg costumavam dizer isso.
        Em anos passados, no apartamento de Ehrenburg, em Moscou, a rua Gorki nmero 8, os trs amigos conversavam, nunca vou esquecer. Somos homens de mil histrias, diziam, vivemos muito. Vimos coisas que pouca gente viu. Conhecemos povos os mais distantes. Tivemos algumas alegrias e grandes decepes. Aprendemos a conhecer os homens, os falsos e os verdadeiros, a bondade e a maldade. Damos o que temos de melhor, por dias melhores. Temos compromissos com nossos princpios, com ns mesmos. Nunca poderemos escrever um livro de memrias.
        Neruda costumava fazer apontamentos. Ehrenburg tambm. Jorge nunca fez apontamentos, sempre disse que o que no  importante para ele no deve ser lembrado e as coisas importantes ele guarda na cabea, no precisa anotar.
        Depois de sua morte, a filha de Ehrenburg, Irina, reuniu os escritos do pai e publicou suas memrias em vrios tomos.
        Depois da morte de Neruda, Matilde, sua mulher, publicou, como j se sabe, o livro de memrias de Pablo Neruda, Confesso que vivi.
         
         
         
       NAVEGAO DE CABOTAGEM
        
        Temos um pequeno e aconchegante apartamento em Paris. Ainda uma vez o imperialismo americano contribuiu para essa aquisio, pagando um adiantamento alto pelo contrato de publicao de Tieta do Agreste. Foi a conta, o dinheiro deu certinho, nem um tosto a mais, nem um tosto a menos. J no precisamos ficar em hotis quando vamos a Paris.
         nesse apartamento, no Marais, ao lado do Sena, que costumamos nos refugiar buscando paz para o nosso trabalho. Do janelo de nossa mansarda avistamos a Notre-Dame e a Torre Eiffel, podemos acenar para Georges Moustaki que do terrao de seu apartamento, na Ile Saint Louis, nos acena. Foi nesse apartamento que Jorge teve o estalo, resolveu escrever, passar para o papel, os apontamentos que trazia na cabea, fervendo a ponto de transbordar. Me entusiasmei:
          Voc ento resolveu? Maravilha! Vai escrever um livro de memrias?
        Jorge revidou ao meu entusiasmo, bruscamente:
          De jeito nenhum! No vou escrever um livro de memrias, no senhora. No invente. Vou fazer um livro de apontamentos. J tenho at ttulo e subttulo.
        Sentou-se  mquina, papel branco na frente, escreveu: NAVEGAO DE CABOTAGEM  Apontamentos para um livro de memrias que jamais escreverei.
        Paloma, Pedro e as meninas moravam em Paris. Pedro trabalhava num escritrio de arquitetura, Mariana e Ceclia estudavam l.
        Ao chegar ao nosso apartamento para brindar com o pai a grande novidade, Paloma encontrou-o debruado sobre a mquina, os dois indicadores batendo com rapidez e fora no teclado, como quem est com pressa, vrias anotaes j escritas sobre a mesa.
        Eu havia apenas comeado a escrever Cho de meninos. Ia ter que largar meu trabalho para ajudar Jorge. Paloma se ofereceu: deixa comigo, me, eu passo tudo pelo computador, num instante, vou me regalar. E pela primeira vez deixei de me deliciar batendo os originais de Jorge, entregando  minha filha a agradvel tarefa.
        Jorge trabalhava dia e noite, as lembranas se atropelavam sem ligar para a ordem cronolgica dos fatos, numa corrida desabalada, de quem quer chegar primeiro. As recordaes apareciam inclusive durante o sono e mesmo dormindo ele tomava notas no primeiro pedao de papel que encontrava  mo.
        A coisa tomou tal vulto que Paloma e Pedro resolveram dar uma ordem nos captulos. Faziam fichas de cada assunto tratado e as iam pregando na parede da sala. Assuntos e datas colocados em cartes de cores diferentes davam ao quadro a idia de um quebra-cabea, de um puzzle. Isso facilitaria muito a ordem dos captulos, pois, ao terminar o livro, tudo passado a limpo, Paloma faria um ndice que remeteria as pessoas citadas  pgina de citao.
        Carmem Balcells, agente literria de Jorge, chegara de Barcelona para falar com ele e se assombrou ao deparar-se com o estranho e enorme quadro de fichas coloridas, presas com tachas de cores variadas, que cobria a parede: No posso acreditar, disse encantada. Nunca vi organizao semelhante. Uma beleza!  nico!
        Antes de sentar-se para trabalhar, todas as manhs, Jorge consultava o quadro e partia para novas aventuras.
        
        
        
      FLEGO PARA FALAR SOBRE A DESCOBERTA DA AMRICA
        
        O livro j andava pela metade, quando Jorge recebeu uma proposta da Itlia. Queriam uma histria sobre a descoberta da Amrica, para um pequeno livro. O assunto do dia na ocasio eram as comemoraes dos 500 anos da Descoberta da Amrica. A proposta que os italianos faziam era sedutora e Jorge resolveu tomar um flego de suas anotaes, seria at bom, e em poucos dias escreveu: A descoberta da Amrica pelos turcos.
         
         
        
      VIAGEM PELO MAR NEGRO
        
        O Navegao j passava das quinhentas pginas. O que tenho agora a contar  pouco, quase nada, disse Jorge. Preciso terminar e sair, tomar um pouco de ar, estou muito cansado. Fez um clculo de quanto tempo ainda precisava para encerrar o trabalho. Num ms, no mais, eu liquido o assunto e ento vamos sair por a afora de navio, disse ele. Convidamos Misette, tima companhia, velha companheira de viagens, e compramos passagens para zarparmos dentro do prazo previsto. Faramos uma bela excurso pelo mar Negro.
        O Cunard Princess sairia do porto de Atenas, viajaramos pelo mar Egeu, navegaramos pelo mar de Mrmara, atravessaramos o estreito de Bsforo, antes de entrarmos no mar Negro
        Jorge deu o livro por terminado, entregou-o a Paloma para o remate final, com o devido ndice dos personagens. Mesmo tendo dado o livro por terminado, eu senti que ele ainda no estava satisfeito. Jorge estava precisando de um descanso depois de escrever seiscentas pginas. Essa excurso era necessria, providencial.
        Os dedos feridos das batidas nos teclados da mquina iam cicatrizar e, ao voltar, se ainda quisesse trabalhar, j estaria em condies.
        
        
        
      ATENAS
        
        Viajamos para a Grcia de avio, Jorge deixou a mquina, eu o computador, amos bem leves sem compromissos. Ficaramos dois dias em Atenas, hspedes de nosso amigo, o embaixador do Brasil na Grcia, Alcides da Costa Guimares, filho. Na manso da embaixada encontramos ainda um querido amigo, cnsul do Brasil em Zurich, Ren Aguenauer, que viera para nos ver.
        Ns j conhecamos Atenas mas assim mesmo passeamos com nosso anfitrio e Ren, vendo coisas que s a gente da terra tem o privilgio de conhecer.
        Durante os passeios percebi em Jorge aquele olhar distante, olhos de quem no est nem a, olhar muito meu conhecido.
          Est pensando no livro? Claro que estava, pergunta bvia.
         Logo que embarcarmos vou fazer uma nota de um negcio que lembrei e mandar para Paloma por fax  respondeu-me ele.
        Jorge escreveu a nota e foi escrevendo outras e mais outras de fatos que lhe ocorriam e que ele no queria deixar de registrar. No tendo mquina de escrever ele escrevia a mo e em seguida eu passava a limpo, com letra bem legvel para facilitar o trabalho de minha filha. Na pressa de escrever, sua caligrafia, verdadeira garatuja, era de tal maneira complicada que, por vezes, nem ele mesmo a entendia.
        Cada remessa de captulos pelo fax do navio ia acompanhado de um bilhete de desculpas: Pal, minha filha, v me perdoando tanto trabalho que te dou... Em Paris, Paloma passava tudo a limpo e devolvia para o navio as pginas para uma ltima reviso do pai. Quando aconteciam novas correes feitas por ele, o que era comum, o trabalho de ida e volta era dobrado.
        O Cunard fez rpidas escalas em vrias ilhas gregas. Em nenhuma delas Jorge desceu, absorvido no trabalho. Eu saltava com Misette, nem via nada direito na preocupao de voltar, dar assistncia a ele.
        Agora passaramos um dia inteiro em Istambul. Com Misette havamos estado na Turquia e adorado.
        Insisti com Jorge para que saltasse conosco, ele havia gostado tanto de Istambul... mas no houve jeito: Vo vocs e depois me contem... No adiantava insistir, ele estava ocupado demais com as provas recm-chegadas, remetidas pela filha.
        Em Istambul, Misette e eu fizemos o recorrido da cidade, revendo coisas que tanto nos agradara. Resolvi entrar numa livraria. Da vez anterior havamos encontrado vrias tradues de livros de Jorge, edies piratas. Quem sabe, ainda h outras, disse a Misette. Eu lembrava bem do logotipo da editora que publicara os livros e fui procur-lo na estante de tradues estrangeiras. Encontrei um livro de Jorge, localizei-o pela fotografia na contracapa, alis, fotografia feita por mim. Perguntei ao livreiro se no havia outros livros do mesmo autor e ele mandou buscar mais um no depsito.
        Jorge fez uma pausa no trabalho para folhear as edies de Tereza Batista e Tieta do Agreste, em lngua turca.
        Num bilhete, Paloma nos contou ter recebido uma chamada da Francetelecom estranhando o envio dirio de fax de 15 a 20 pginas. Estranhavam sobretudo pelo preo excessivo de fax enviados para navios.
        A prxima escala foi no porto de Varna, na Bulgria. Nem em Varna Jorge saltou. Quando muito foi  amurada do navio dar uma espiada, no viu nada.
        Peo licena para no entrar em pormenores da viagem, das festas, dos portos de escala, das graas de Misette. Aqui o cruzeiro entra apenas como detalhe, no  difcil perceber, do que foi o trabalho de Navegao de cabotagem.
        Em Odessa Jorge resolveu descer, tinha mandado as provas para a filha, esperava-as de volta para correes.
         Vou desenferrujar as pernas  disse.
        Odessa, na Ucrnia, era nossa penltima escala, antes de Ialta, quando ento regressaramos.
        Em Odessa fomos ver as impressionantes escadarias que aparecem no filme: O encouraado Potenkim e voltamos andando at o navio.
        Nem bem pisou no navio, Jorge lembrou de outras histrias e foi lembrando de outras e mais outras at chegarmos a Veneza, fim de nossa excurso.
        Na vspera de nosso desembarque, acompanhando os novos captulos, Jorge mandou um bilhete que dizia: Palzinha, meu amor. Aqui vai o ltimo fax. O derradeiro. Juro pela alma de tua me que no haver outro...
        No mesmo dia, chegou um bilhete de Paloma: Paizinho, querido. Jure pela alma de tua me que a minha ainda est viva...
         
         
        
      VENEZA
        
        Perambulvamos beirando os canais de Veneza, sentando na Piazza San Marco, praa de nosso encanto. Fomos parar na Baslica dei Santi Giovanni e Paolo. Lembramos que nessa igreja havamos assistido s obsquias de Stravinski, espetculo inesquecvel!
        Os olhos de Jorge brilhavam.
          O enterro de Stravinski est no livro?  provoquei, sabia que no estava.
          Vai estar  disse ele.
        
        
        
      PEO LICENA AO MESTRE
        
        Com a devida licena do Mestre, aqui transcrevo o ltimo captulo que ele escreveu embora no se encontre na pgina 638, a ltima do livro.
        A nota escrita em Veneza faz parte de trs funerais que o impressionaram, se intitula KARACHI e est na pgina 341:
         Com Arete Soares acompanhamos em Veneza os funerais de Stravinski, as obsquias na Baslica dei Santi Giovanni e Paolo, oficiadas por meia dzia de padres catlicos e outros tantos popes ortodoxos, uns e outros na pompa do ritual, a msica do desvario, o incenso em labaredas, o pssaro de fogo nos turbulos, o coro em lngua russa, coisa de ver-se e de ouvir-se. A gndola com o esquife singra o rio dei Mendicanti no rumo do cemitrio, a marcha fnebre se evola da nave da Baslica, cobre os canais e os palcios da Serenssima.
        Ao receber esta ltima e derradeira nota, Paloma mandou seu ltimo e derradeiro bilhete: Paizinho querido: adorei a nota, est linda demais! S quero saber onde  que ficou a alma de minha me. Foi para o brejo?
         
         
        
      VOLTO A SO PAULO
        
        Meus irmos j morreram. Eu sou a ltima e nica filha de dona Angelina e de seu Ernesto que ainda teima em viver.
        Em So Paulo tenho sobrinhos, alguns primos e meu filho Luiz Carlos com sua famlia que, por viverem em So Paulo, muito longe, segundo Lalu, e por circunstncias da vida que nos impede, os vejo pouco. Luiz Carlos e a famlia, quando podem e quando coincide estarmos aqui na poca, vm passar uns dias conosco, na Pedra do Sal ou na casa da rua Alagoinhas. As meninas, hoje moas, lindas, j viajaram conosco pela Europa. Adriana e Camila j se formaram e Camila at j se casou, nos dando a honra de sermos seus padrinhos. Valria, a mais nova, tambm em breve estar formada.
        Continuo tendo motivos de sobra para me entusiasmar com as viagens a So Paulo. Alm de minha famlia, Joelson e Fanny, como j foi dito, moram l h muitos anos, assim como os filhos, nossos sobrinhos, Andr, Paulo e Roberto. Nem tm conta os amigos de So Paulo, so tantos que no me atrevo a enumer-los, a lista seria grande demais e no fim eu acabaria esquecendo algum, talvez dos mais importantes, como J Soares e Saulo Ramos, por exemplo.
        Chegamos a So Paulo naquele ano de 1993, como sempre, tendo pela frente um programa enorme, no posso esquecer.
        Devamos fazer uma tarde de autgrafos, Jorge assinando A descoberta da Amrica pelos turcos, e eu, Cho de meninos. O lanamento de nossos livros seria na mesma livraria, no mesmo dia, na mesma hora.
        Do aeroporto seguimos diretamente para a livraria onde uma fila enorme estava  nossa espera. Assinamos sem parar durante vrias horas. S chegamos ao hotel tarde da noite, mortos de cansao. Ainda teramos em So Paulo dois dias puxadssimos de entrevistas e programas de televiso. A duras penas, reservamos o horrio do almoo para estar com Luiz Carlos e as meninas, pois  noite iramos a um grande jantar em homenagem a Jorge, oferecido pelo Rotary Club.
        Depois de mais um dia esfalfante, exaustos, chegamos de volta  Bahia. Coisa boa chegar em casa, no h nada melhor. Costumamos dizer que o melhor de uma viagem  retornar  casa da gente. Nesse dia, no entanto, no me senti to aliviada, no estava satisfeita. Jorge viajara calado e, embora no se queixasse, percebi que ele no se sentia bem, mas preferi atribuir isso ao seu pavor a viagens areas.
        No havia ningum nos esperando em casa. Joo e Rzia, que moravam conosco, ainda no haviam chegado. Apenas Jorginho, nosso neto de nove anos, filho de Joo e Rzia, nos recebeu. Jorge queixou-se, sentia-se incmodo, no quis jantar, foi deitar-se. Ao v-lo estirado na cama, gemendo, imaginei que ele podia estar tendo um enfarto. No havia muito tempo, Calasans Neto tivera uma ameaa de enfarto e os sintomas haviam sido esses que Jorge sentia agora. Fora Dr. Jadelson Andrade quem o socorrera. Conhecramos o mdico nessa ocasio. Corri para o telefone, chamei-o.
        Ele acabava de chegar em casa, vindo do consultrio. Mal tirara o palet quando o telefone tocou. Eu o chamava, no maior desespero. Enquanto eu falava, na sala, Jorginho, no quarto, fazia companhia ao av, vendo-o se retorcer de dor. Ciente do que se passava, Jadelson deu-me o telefone do Hospital Aliana: Chame uma ambulncia com a maior urgncia! Estou indo para a.
        Jorge foi salvo, no tenho dvida, graas ao atendimento imediato que teve. Jadelson veio da Barra ao Rio Vermelho em menos de quinze minutos.
        Debruado sobre o paciente, examinando-o, o mdico transmitia ordens e eu as executava: telefonei para o hospital dando instrues, providenciando um lugar na UTI, pedindo pressa  ambulncia que j estava a caminho mas custava a chegar. Mandei Jorginho descer a ladeira, ir ao encontro dela, talvez perdida na encruzilhada, l embaixo, para indicar o caminho... E foi o que aconteceu. Jorginho voltou na ambulncia orientando o motorista que chegou em seguida.
        H algo que me protege em momentos difceis. Supero o desespero, no me entrego, conservo o sangue-frio, no perco a cabea, colaboro. Minha me diria ser a proteo da estrela que me ajuda, mas a quem chamei naquela noite, ao ver Jorge torcendo-se em dores, sofrendo, escapando de meus braos, vendo-me impotente diante da morte, foi dele que lembrei, de Deus. No parei de repetir seu nome, ai meu Deus! Ai meu Deus do cu!
        No Hospital Aliana, hospital cinco estrelas, com a assistncia permanente de Jadelson Andrade, honra seja feita, Jorge conseguiu sair-se dessa.
        Comentando com Paulo Srgio Tourinho, dono e responsvel por esse bem aparelhado hospital, inigualvel de beleza e bom gosto, com a obra de Francisco Brenand presente a comear do piso, teto e paredes, s esculturas espalhadas por toda a parte, at a capelinha, nica, disse-lhe do meu encanto por esse hospital: Chego at a me atrapalhar ao falar nele, chamando-o de hotel cinco estrelas, disse-lhe. Paulo Srgio riu: E preciso sempre acrescentar que so cinco estrelas para todo mundo, para todas as camadas sociais. Atendemos aqui pobres e ricos, voc pode constatar com seus prprios olhos,  s andar pelos corredores. Ao projet-lo, essa foi a inteno de meu tio, Pmphilo de Carvalho, e a minha e, graas a Deus,  o que est acontecendo. Pmphilo de Carvalho fora colega de colgio de Jorge e veio do Rio para visit-lo.
        Depois de uma boa temporada no Hospital Aliana, refeito sem precisar ser operado, Jorge voltou para casa.
        Chega a ser montono, mas eu gosto de repetir que dos males, por maiores e negativos que sejam, sempre tiro um lado positivo deles. Desta vez, do enfarto de Jorge que nos pegou de surpresa, quase me levando ao desespero, salvamos o lado positivo: descobrimos um novo amigo, um amigo para todas as horas, assim como devem ser os grandes amigos. Jadelson Andrade, o mdico, com sua dedicao, competncia e amor, passou a fazer parte de nossa vida. Como se ele apenas no bastasse, trouxe-nos Tnia, sua mulher, mdica ela tambm, doce e adorvel criatura. Com eles temos passado bons momentos, juntos estivemos em alegres temporadas em Paris.
        Peo uma licencinha para contar, pouca coisa, mas, creio, vale a pena:
        Caminhvamos, os quatro, flanando pelas ruas de Paris, e era exatamente o dia da msica. Por toda a parte encontravam-se grupos e mesmo solistas tocando instrumentos, os mais variados. Pessoas caracterizadas, outras no, a gente parando aqui e ali. A Place des Vosges, uma das mais charmosas praas de Paris, estava minada de msicos, quando, no mais que de repente, meu corao bateu forte, senti calor nos ps, seria a timbalada que se aproximava? A batida forte e o ritmo no me enganavam. Compenetrados, num compasso bem marcado, os msicos, que nem brasileiros eram, apenas jovens franceses, aficionados de nosso embalo, recm-chegados de um aprendizado na Bahia, batiam forte no timbau, no surdo e no repique, trazendo o Brasil at ns. Como resistir? De que jeito? Vambora danar, Jorge?, convidei por convidar, j certa de sua recusa. Antes que eu insistisse, Jorge tratou de sentar-se, Tnia o acompanhou, ficaram assistindo de camarote. No hesitei, j que ele no dana eu dano sozinha. Ca no samba de p, mas no fiquei s, tive parceiro: contagiado, ele tambm, pelo ritmo, Jadelson me acompanhou. Juntou gente em volta, alguns estrangeiros at tentaram nos seguir no requebro mas, qual! Cad o molejo de cintura e a picardia no passo? S mesmo um brasileiro  capaz. Traz a coisa no sangue.
         Pena que naquele tempo no havia ainda surgido a dana da bundinha..., pilheriei aqui em casa, relembrando aquele dia. Jorge que ouvia calado resolveu entrar na conversa: A dana da bundinha? Nada me surpreenderia, Zlia  capaz de tudo...
        Dizemos sempre que temos inmeros conhecidos, pessoas que estimamos, mas a lista dos amigos ntimos no  to grande assim. Esses podem ser contados nos dedos das mos. Pois Jadelson e Tnia entraram nessa lista, por todos os merecimentos.
        
        
        
      NERUDA VEM SE DESPEDIR
        
        J se passaram muitos anos e eu me recordo, como se fosse hoje, da chegada de Matilde e Pablo Neruda  Bahia. Ele vinha se despedir. No disse, mas tudo indicava.
        Ainda no aeroporto, enquanto aguardvamos a bagagem, ele assumiu um ar solene e nos disse: No me perguntem por ningum, morreram todos. Somos dos raros que ainda esto vivos. Vim para conversar, matar saudades, ouvir uns atentos da comadrita.
        A notcia da chegada de Neruda  Bahia correu rpida e a imprensa invadiu nossa casa. Vieram poetas e literatos, amigos nossos, como, por exemplo, Ildsio Tavares, Fernando Batinga e Carlos Eduardo da Rocha, o jovem jornalista Guido Guerra, por alcunha o Papagaio Devasso, certamente por no ter papas na lngua, e  frente ainda um amigo, o historiador Luiz Henrique Dias Tavares. Organizaram em seguida um recital de poesia na Escola de Teatro. Fazer um recital nesses dias de Bahia no estava nos planos de Pablo, ele viera nos ver, conversar, descansar. Aceitou, no entanto, ter um encontro com estudantes, artistas e poetas como tambm concordou em passar algumas horas na sede da Ordem dos Trovadores, no Largo 2 de Julho, onde Rodolfo Coelho Cavalcante e outros repentistas e trovadores o saudaram numa festa popular que, verdadeiramente, o encantou.
        Com sua voz pausada, Neruda declamou poemas, falou  multido de admiradores que lotaram as dependncias da Escola de Teatro. Empolgou com seus versos e com suas respostas s perguntas que lhe foram feitas aps o recital, perguntas quase todas polticas, s quais ele respondeu com a coragem que sempre lhe foi peculiar.
        Em nossa casa, em reunio familiar, pouca gente, Zitelman Oliva e Ligia, James e Luiza, Luiz Henrique com Laurita, conversamos muito, Matilde, com sua bela voz cantou uma cano de Pablo: "Prncipe de los caminos, hermoso como un clavel, enbriagador como el vino, era dom Jos Miguel..," Guardei na memria apenas esse verso, nunca mais ouvimos a cano que era belssima.
        Perguntei a Pablo se j tinha terminado o livro de memrias. Lembrava que por todas as partes onde andramos ele costumava, vez ou outra, recolher-se a um canto isolado e tomar notas num caderno. Pablo riu. Aprenda mais essa, comadre, um livro de memrias jamais tem fim. A vida continua. Novos fatos vo acontecendo. Um livro de memrias de pessoas como ns, Jorge e eu, no pode ter fim. Ns vivemos a vida ardentemente. Vidas cheias de acontecimentos, bons e maus, sofremos as piores injustias, desfrutamos as maiores alegrias e recompensas, viajamos e conhecemos esse mundo inteiro, temos amigos que nos esperam onde quer que cheguemos, aprendemos a compreender os homens, a perdo-los, a am-los, aprendemos a arrancar de nossos coraes os maus sentimentos, no precisamos ter inveja de ningum, ai, a inveja! S maltrata a quem a sente, somos amados por nossos leitores e at por pessoas que nunca leram uma s pgina nossa, mas nos amam... Um livro de memrias nosso, de Jorge e meu, repetiu, no pode ter fim. Nem nosso, nem de ningum, riu. No sei quando publicarei o meu, se  que o publicarei um dia.
        Ao dar-nos to importante lio de vida, Pablo estava longe de imaginar que um dia sua comadre tambm acabaria escrevendo livros, livros que, inclusive, contariam suas histrias.
        
        
        
       CONFESSO QUE VIVI
        
        Foi Matilde quem, depois da morte de Pablo, conseguindo driblar a sanha dos perseguidores de Pablo, dos assassinos de Salvador Allende, levou clandestinamente os originais do livro de memrias de Pablo para a Venezuela. Com a ajuda de Miguel Otero Silva, dono de um jornal venezuelano, velho amigo de Neruda, comps o livro Confesso que vivi...
        Quando o livro estava quase pronto, Matilde veio  Bahia aconselhar-se com Jorge sobre o problema de editores estrangeiros que desejavam publicar a traduo. Ficou apenas dois dias conosco. Em seguida  sua partida recebemos, aqui em casa, a visita de um policial do FBI. Tinham visto, em notcia de jornal, a foto da viva de Neruda em nossa casa. Queriam saber quando ela chegara. Ela esteve aqui conosco e j no est, veio legalmente, no tinha por que esconder-se, respondeu Jorge, secamente, ao policial. Meio sem jeito ele explicou que a polcia estava intrigada pelo fato de Matilde Neruda no estar registrada na lista de entrada do aeroporto. Nessa lista da polcia no constava nenhum Neruda, apenas Matilde Urrutia.
         Admira-me que a polcia no saiba, disse-lhe Jorge, que nos pases da Amrica Latina, ao casar-se, a esposa conserva o nome do pai e acrescenta, se quiser, o nome do marido. No caso de Matilde seria Urrutia de Neruda ou viva de Neruda. Certamente ela no quis acrescentar, ao seu nome de solteira, o do marido. Depois desse esclarecimento, no nos importunaram mais.
        Aqui estou pensando em Pablo, recordando seus sbios conselhos: Um livro de memrias no pode ter fim.
        Minha inteno era parar por aqui, j que um livro de memrias no pode ter fim e eu j contei histrias at demais.
        Abusando da pacincia dos leitores, ainda uma vez, peo licena para, em breves palavras, contar que a festa dos oitenta anos de Jorge, na Bahia, foi das mais belas e emocionantes que eu j vi. Aniversrio de nmero redondo que nos trouxe amigos do Brasil inteiro e do mundo todo.
        Do Rio de Janeiro veio a famlia Caymmi e cantou para o velho amigo, no palco armado no Largo do Pelourinho. E nesse palco, quantos mais cantaram? Maria Betnia, Gal Costa, Caetano Veloso, Waltinho Queiroz, Daniela Mercury, Margareth Menezes e tantos e tantos outros que, com o povo da Bahia lotando a grande praa, enfrentando at a chuva que caiu de repente, sem arredar p, entoaram numa s voz o "Parabns pra voc..."
        Aproveitando a licena pedida, vou na cola para contar que a Fundao Casa de Jorge Amado vai de vento em popa. J festejou seu dcimo aniversrio e, sempre sob a orientao de Myriam Fraga, Claudius Portugal e tambm de Germano Tabacof, ela cumpre o seu objetivo, segue o seu destino.
        Centro de cultura no corao da Bahia, num Pelourinho restaurado, lindo, alegre, onde o povo canta e dana nas praas e ladeiras, a Fundao Jorge Amado edita livros, publica revista, promove exposies, orienta estudiosos.
        Num galante caf-teatro recm-inaugurado, no recinto de exposies, no andar trreo, realizam-se conferncias, exibem-se filmes, apresentam-se peas de teatro e toma-se um cafezinho. Na parede, um pster com um texto de Jorge, texto esse escrito para o programa de uma exposio de xcaras pintadas por artistas:
        
        Numa xcara de caf,
        pode-se colocar a beleza do mundo.
        Numa xcara de caf,
        pode-se sentir o sabor amargo
        e doce da vida.
        
        Para meu encabulamento, a direo da Casa decidiu homenagear-me, dando ao caf-teatro o meu nome.
        
        
        
      VOLTO A NERUDA
        
        Assim como Neruda nos pediu: No me perguntem por ningum, j morreram todos, eu tambm pediria que no me perguntassem pelos amigos que estiveram ao meu lado enquanto escrevi estas memrias. Os amigos que me fizeram companhia, provocando riso e s vezes pranto, permitindo-me voltar a reviver o passado, morreram quase todos. Diria apenas que a primeira a partir foi Norma e o ltimo Caryb. A chaga ainda est aberta.
      
      NA CASA DO RIO VERMELHO
        
        Da janela de meu gabinete, onde escrevo, vejo Zuca se aproximar entre as rvores do jardim.
         Bom dia, dona Zlia. Como passou a senhora de ontem pra hoje? E o doutor? Ainda est dormindo? Tudo bem, no ? Graas a Deus! Choveu muito, a senhora sabe, e as danadinhas das formigas depois da estiada costumam aparecer... Acabei de descobrir um formigueiro grande, ali, bem nos ps do Exu.  Zuca apontou o Exu.  J dei cabo delas, no sobrou nenhuma...  concluiu, satisfeito. Encompridei conversa:
          verdade, tem chovido muito. Por isso as formigas aparecem, no , Zuca?
         Isso mesmo. Dona Zlia entende dessas coisas, entende mesmo. Com as chuvas as danadinhas voltam...
          E os coqueirinhos, Zuca?
          J comprei o coqueirinho que a senhora pediu, trouxe hoje, est a.
        Eu pedira a Zuca que me conseguisse dois coqueirinhos para plantar no lugar de dois velhos coqueiros, derrubados por um temporal.
          S trouxe um? Eu pedi dois...
          O outro eu trago amanh.
         Muito bem, Zuca, ento v preparando a terra, abrindo a cova para plantar enquanto eu fecho o computador. Vou em seguida, quero estar l...
          A senhora quer plantar hoje mesmo?admirou-se Zuca.
          Sim, senhor. Hoje mesmo. Qual  o problema? Zuca coou a cabea:
          No pode ser amanh, no, dona Zlia?
         Amanh a gente planta o que voc vai trazer. Este vai ser plantado hoje, sem falta. Agora!  enfatizei.
        Discretamente, Zuca olhou para o cu, meneou a cabea e, num meio sorriso, monologou: Dona Zlia  to interessante...
        
Na casa do Rio Vermelho, em Salvador da Bahia, outubro de 1998.

         
        
        
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Zlia Gattai                                                                             A Casa do Rio Vermelho

